RFP-BRazil-chp1-O PROJETO FLORESTA TROPICALUm RomancePRÓLOGOUm belo carvalho dominava grande parte da paisagem ao fundo, dificultando uma visão nítida das crianças que corriam freneticamente pelo pátio da escola. Seus galhos se estendiam de forma majestosa, parecendo prontos para agarrar quem passasse por perto. As folhas douradas flutuavam na brisa de outono, descendo lentamente para a morte.Mas a presença da vida se confirmava ao olhar para a linda menina sentada sobre as enormes raízes salientes, folheando um livro qualquer com um sorriso de paciência contida, em meio ao som de funcionários organizando a algazarra. O trânsito estava lento e, finalmente, pôde-se ouvi-la começar a gritar, demonstrando prontidão enquanto guardava suas coisas na mochila. Ela se levantou da árvore antiga com entusiasmo, parecendo radiante em seu uniforme xadrez. A porta de um carro de luxo, preto e imponente, se abriu.— Papai! — gritou a linda menina enquanto caminhava em direção à abertura.— Como está minha garotinha? — perguntou o motorista com voz suave.— Estou bem, papai!— Como foi a escola?— Foi legal! Brincamos no parquinho e tivemos uma festa de Halloween. Até comi uns cupcakes.— É mesmo? E o que você aprendeu hoje?— O que eu aprendi, papai? Não aprendi nada hoje.— Não aprendeu nada? Não é para isso que pago por essa escola particular, é? — Ele olhou para a filha como se ela fosse a culpada. — Acho que preciso ter uma conversa com alguém! — Buzinas soaram enquanto ele pisava no freio, ansioso.— Merda! Olha por onde anda! Essas pessoas precisam ter a habilitação auditada! É ridículo!— Papai, o que você disse?— Eu não disse nada.— Sei, papai. Você disse...— Ei! Não quero ouvir isso. O papai disse um palavrão, e é bom que eu não pegue você dizendo um também.Um sorriso aberto iluminou seu rostinho, e a curiosidade tomou conta. Pouco se falou durante o restante do caminho para casa; ambos pareciam absortos, observando a paisagem. A apenas alguns quarteirões de casa, a menina viu um garoto fantasiado de Conde Drácula que parecia muito alegre. "Papai, nós vamos pedir doces hoje à noite?""Com certeza, e vamos conseguir muitas guloseimas.""Oba!" O carro deu um solavanco ao subir a rampa da garagem, e eles finalmente chegaram em casa. Ele não conseguiu estacionar na garagem para quatro carros porque ela já estava lotada. Havia também um barco enorme estacionado na entrada. Eles desceram do carro e a menina correu em direção às lindas portas de carvalho. Ela estava ansiosa para cumprimentar a mãe, mas o pai vinha caminhando sem pressa, com a mente parecendo distante."Mamãe, mamãe!""Olá, minha querida. Como foi a escola?""Foi legal. O papai disse que vamos pedir doces.""Sim, e vamos ganhar muitos doces.""Isso mesmo.""Ok, querida, vá tirar o uniforme da escola e colocar uma roupa de brincar.""Vamos sair!" gritou a pequena."Não, você vai arrumar o seu quarto, ou nada de pedir doces... Ah, olá, bonitão!" disse ela quando o marido entrou em casa. "Como foi o seu dia?""Foi bom, eu diria. E o seu?""Resolvi algumas coisas na rua, comprei uma fantasia para a nossa anjinha — e um champanhe para mais tarde, depois que nossa linda menina estiver na cama.""Hummm", disse ele com um sorriso malicioso, porém sensual. Os dois se beijaram e se abraçaram, pois tudo entre eles ia muito bem. Eram ricos, relativamente jovens e tinham uma filha linda. Ele a tratava com amor e respeito, e ela retribuía da mesma forma."Mamãe! Papai! O que eu vou vestir?"Separando-se abruptamente do abraço apaixonado, a mãe respondeu: "Comprei uma fantasia da Bela Adormecida para você.""Ooohh! Mamãe, posso vestir? Por favor! Por favor!""Ainda não, querida; não está na hora de pedir doces e, além disso, vamos jantar primeiro." "Posso só dar uma olhada, então?""Tá bom. Está na bolsa, no chão do quarto, ao lado da minha escrivaninha." A pequena correu para o andar de cima enquanto os pais retomavam o clima de romance. Vários beijos se sucederam até que ela declarou, ofegante: "É melhor eu preparar o jantar!" No entanto, os beijos continuaram enquanto ela se soltava dos braços do marido, que a segurava. "Você quer comer, não quer?" disse ela, com um sarcasmo bem-humorado. Ele finalmente cedeu e deixou que ela se afastasse aos poucos, mas fingiu que ela estava tentando escapar de fininho e tentou, em vão, impedi-la. Mandou-lhe um último beijo e foi para seu escritório tratar de alguns assuntos enquanto ela preparava o jantar.Ao terminar os últimos preparativos para o jantar, ela viu o pôr do sol começar a colorir o céu do poente e subiu as escadas. "Dainisa, você terminou de arrumar seu quarto? Querida, o jantar já está quase pronto." Não houve resposta; ela espiou pela porta e viu que o quarto estava apenas parcialmente arrumado. "O que esperar de uma criança de seis anos?", pensou. Ela caminhou pelo corredor até o quarto do casal e encontrou a filha praticamente engolida pela fantasia de Halloween. Estava claro que ela até já a havia experimentado. "Ei, Princesa! O que você está..."Ela superou com certa ousadia algumas das outras crianças na tentativa de encher sua sacola de guloseimas. Sem medo algum, a pequena empurrou algumas crianças mais velhas para abrir caminho até a frente do grupo, junto à porta, e aproveitar a oportunidade. Apesar de sua travessura, os pais não resistiram e deixaram que ela se divertisse.Depois de algumas horas, seus pés doíam da longa caminhada pelo bairro, e Dainisa estava com os dedos e os lábios pegajosos de tantos doces que devorara no caminho de volta. A noite estava arejada, mas não exatamente fria; um agradável frescor de outono pairava no ar. Logo restavam poucas luzes acesas nas ruas, e parecia que a brincadeira de pedir doces havia chegado ao fim. Parecia que eles eram os últimos da quadra a caminhar pela noite. Apesar disso, não havia pressa para chegar em casa. Na verdade, aquele era um cenário romântico, tendo a alegria como catalisador. A vida parecia promissora — e de fato o seria para a família americana ideal, aquela que buscava com felicidade o "Sonho Americano". Eles percorreram uma longa rua recém-pavimentada, ladeada por uma bela paisagem de cercas-vivas e árvores dispostas em níveis diante de casas de tijolos impecáveis. A família aproximou-se de uma grande casa de tijolos que se destacava de todas as outras. A bela iluminação da entrada de veículos era um dos motivos desse destaque, mas o portão de aço — preto como petróleo bruto e com pontas voltadas para o alto, como grandes lanças — era outra razão pela qual a propriedade sobressaía em relação às vizinhas. O portão era alto demais para que alguém tentasse escalá-lo. Sua imponência era, de fato, intimidadora, assim como a do segurança que permanecia em uma guarita bem no centro da entrada. Detalhes em aço, que se curvavam como fitas, conferiam à entrada um ar verdadeiramente majestoso."Boa noite, Sr. e Sra. Dickenson.""Olá, Hayword", disse Rich, com um tom de voz que parecia descontraído. Eles seguiram pela entrada de veículos até a porta da frente, abraçados firmemente. O Sr. Reynolds trancou os portões imponentes e retornou imediatamente às suas tarefas ociosas. Ele contemplava as estrelas, como sempre fazia, apenas para passar o tempo. Era preciso acostumar-se àquela falta do que fazer, mas o emprego pagava as contas. Não havia muito do que reclamar, dizia a si mesmo, pois ganhava mais do que a média dos americanos. Na verdade, com o que os Dickenson lhe pagavam, ele poderia ser oficialmente classificado como classe média. No entanto, não imaginava que aquela seria exatamente a carreira dos seus sonhos. Sempre tivera o desejo de conseguir um emprego em uma das empresas do Sr. Dickenson ou, talvez, trabalhar como agente de segurança em viagens, prevenindo ataques terroristas. Ele precisava pensar grande, mas, por enquanto, contentava-se em trabalhar para os Dickenson; ainda assim, trazia consigo uma determinação inata de aproveitar ao máximo as oportunidades que tinha.Dentro da casa acolhedora, ouvia-se a Sra. Dickenson declarar com firmeza: "Dê-me essa sacola". Com um ar de inocência, a pequena Dainisa caminhou lentamente até a mãe e entregou a sacola de guloseimas. "Você já comeu o suficiente disso. Agora suba correndo; seu pai irá lá em cima ler uma história de ninar para você." A menina correu alegremente para o quarto, pois havia escondido vários docinhos dentro de sua bolsinha da Bela Adormecida. Ela acelerou o passo ao chegar ao topo da escada para garantir que teria tempo de esconder o tesouro sob o travesseiro e tirar a fantasia antes de ser descoberta, despindo-se freneticamente, como se não desse a mínima para o fato de a fantasia ter sido comprada. Jogando-a com força dentro do armário, ela enfiou um doce na boca sem muito cuidado enquanto se aproximava do travesseiro para guardar o restante.Ela mal havia tocado na borda do travesseiro para colocar as guloseimas em segurança quando ouviu uma voz grave e rouca perguntar: "Ei. Como está a minha preciosidade?" Assustada, mas mantendo a compostura, tentou esconder na palma da mão a embalagem aberta que ainda não havia jogado fora. Também tentou não deixar transparecer que estava chupando aquele pedaço duro de açúcar e aromatizantes artificiais. Pulou na cama com a maior naturalidade possível."Que livro você quer que eu leia?", perguntou o pai."Auglr gytr!""O quê!?""Três Macaquinhos", disse ela, com as palavras soando um pouco como se estivesse fazendo gargarejo."Sua mãe não tirou esse doce de você?""Esse era o meu último pedaço, papai.""Certo. Deixe-me começar." Ele leu a história enquanto a filhinha se aconchegava sob o cobertor. Ao terminar, disse "Boa noite" e deu-lhe um beijo leve na testa. Olhou para os olhos fechados dela, sentindo imediatamente um calor reconfortante e uma onda de carinho. Levantando-se devagar, manteve o olhar fixo no rosto dela enquanto dormia. *Clique!* O som do interruptor ecoou, seguido por um *toc-toc* abafado enquanto ele fechava a porta lentamente. Imediatamente, ela começou a deslizar a mão para baixo do travesseiro em busca de seu esconderijo. Enquanto o pai caminhava pelo corredor, ouviu o som de chuva batendo em alguma superfície, mas não era chuva. Era sua amada tomando banho; sua mente logo imaginou que ela estava se arrumando para ele, para que ele pudesse ganhar seus "doces ou travessuras". Corando levemente com seus próprios pensamentos carnais, ele correu para o quarto e despiu-se de tudo, exceto pela cueca boxer de seda que ela lhe dera. Sentindo-se bem, deitou-se, apoiando a cabeça em um travesseiro macio com fronha de seda. Seus olhos foram se fechando lentamente, quase caindo no sono, até que ele foi despertado por beijos suaves e arrepiantes de uma língua úmida, sem falar no corpo levemente fresco que se pressionava contra o dele. Pouco foi dito, mas sons de paixão, amor e desejo preencheram o quarto.
CAPÍTULO UM
Uma claridade intensa atravessou as persianas entreabertas e começou a invadir as frestas de seus olhos sonolentos. O som irritante e estridente do despertador pulsava enquanto ele permanecia deitado de costas, aparentemente imperturbável. Na verdade, ele nem havia notado o barulho até muito depois de abrir os olhos e ficar ali, com o olhar vago e sonolento. A claridade tornou-se insuportável. Ele tateou a cama em busca de sua bela esposa, percebendo que ela devia ter se levantado cedo. Sentiu o aroma de carne de porco fritando e de algo indefinível assando no forno. Atraído pelo cheiro, estendeu a mão para acabar com aquele ruído infernal que não parava de pulsar. Ao dirigir-se ao banheiro da suíte para um banho mais do que necessário, percebeu o gosto ruim na boca e o cheiro de alho que emanava da floresta densa de suas axilas. Um banho era, sem dúvida, indispensável. Além disso, ele precisava impressionar os investidores.
Essa reunião ocupara seus pensamentos na maior parte das últimas semanas, inclusive durante o sexo com a esposa na noite anterior. A ideia de desperdiçar a chance de sua vida o atormentava constantemente. Jamais alguém conseguira reunir tantos investidores ou tanto capital. Richard tinha recursos próprios para financiar o empreendimento, mas, por razões óbvias, preferia não fazê-lo. Um plano simples para captar recursos era o que dominava sua mente dia após dia. Richard semicerrou os olhos ao entrar na água quente. As primeiras partes do corpo que lavou foram os braços, as pernas e o pescoço. Lavou a virilha minuciosamente — chegando a aplicar uma dose exagerada de xampu Pert Plus nos pelos pubianos — e penteou cada fio com o cuidado de um cabeleireiro. Pensou consigo mesmo que sua apresentação precisava ser um sucesso. Eles não resistiriam a um passeio pelo local, combinado com o atrativo de uma escapada tropical. Ele havia até comprado passagens e reservado quartos para cada um dos investidores. Seu plano infalível incluía uma visita ao canteiro de obras e um jantar de gala.
Richard fechou os olhos e deixou a água quente escorrer pelo rosto. A maioria dos homens tomava banho para despertar. Richard tomava banho para pensar. Os investidores acreditavam que ele estava construindo um estaleiro. Isso era apenas parcialmente verdade. O estaleiro era apenas o começo. Sua mente voltou-se para os inúmeros mapas espalhados pelas paredes de seu escritório. A Amazônia. O Xingu. O Tocantins. Centenas de vias navegáveis estendendo-se pela América do Sul como veias em um corpo vivo. Para a maioria das pessoas, eram rios. Para Richard, eram corredores de transporte. Rotas comerciais. Oportunidades. Ele imaginava barcaças transportando madeira, café, minérios, maquinário e produtos manufaturados para o interior de regiões aonde a infraestrutura tradicional jamais chegara. Macapá seria a porta de entrada. A primeira peça. A base. Uma vez estabelecida, instalações adicionais poderiam, com o tempo, expandir-se para o interior. Algumas regiões exigiriam dragagem. Outras, canais. Alguns locais poderiam necessitar apenas de instalações portuárias modernas e centros de logística. As possibilidades pareciam infinitas. Richard sorriu. A maioria das pessoas achava que eram as estradas que conectavam as civilizações. Ele acreditava que eram os rios. E nenhum lugar na Terra possuía um sistema fluvial como a Bacia Amazônica. Se os investidores pudessem ver o que ele via, a reunião de hoje seria apenas uma formalidade.
"Sr. Neuheisil, veja bem, tenho planos de dominar o setor de importação e exportação do Hemisfério Ocidental construindo um estaleiro de última geração; mas, é claro, precisamos instalá-lo em um local estratégico." Ele continuou falando sem parar enquanto a água esfriava. "Veja, o Amazonas é facilmente navegável e possui múltiplos afluentes que se conectam a diferentes partes da América do Sul. Utilizando o Amazonas em conjunto com alguns lagos artificiais ou canais para ligar dois braços principais desse rio incrível, poderíamos alcançar sessenta por cento do continente apenas por via fluvial. Isso permitirá que a região do extremo sudeste do Brasil seja adequadamente abastecida."
Uma voz surgiu pela fresta da porta do banheiro: "Ei, você e seu amigo aí dentro, o café da manhã está pronto." Despertando de seu ensaio mental, ele desligou a água, totalmente indiferente ao fato de ela já estar gelada. Richard estava atrasado; por isso, secou-se rapidamente e vestiu um terno fino, acompanhado por uma das camisas brancas mais alvas que já se vira. Com o paletó pendurado no braço e a pasta na outra mão, desceu as escadas para devorar uma refeição rápida.
"Ah, mamãe! Gosto do jeito que você faz os ovos — eles ficam tão fofinhos. Mãe, eles parecem gordura de baleia. São uma delícia." Havia muita empolgação no rosto da garotinha, especialmente quando o pai se juntou a elas. "Mamãe! Ovo faz bem?"
"Tem seus pontos positivos e negativos."
"Positivos e negativos, mamãe?" exclamou a pequena, com um tom intrigado.
"Apenas coma. Ora, veja só quem resolveu se juntar a nós! Já era hora; seus ovos estão quase esfriando."
"É, papai, coma seus ovos, eles estão uma delícia."
"Tá bom, querida!" Ele deu algumas garfadas e pareceu sair apressado da mesa, mas fez questão de......receber um beijo das mulheres que amava. Saindo apressadamente, decidiu deixar as mulheres cuidando de seus assuntos. Ele tinha seus próprios compromissos importantes que exigiam atenção especial. Entrou no carro que lhe proporcionava a saída mais suave e, sem hesitar, engatou a marcha a ré, quase saindo antes mesmo de o portão eletrônico terminar de abrir. Os pneus cantaram com a pressão repentina no acelerador, e ele partiu.
Após um trajeto tranquilo e rápido, Richard estacionou em um magnífico complexo de escritórios nos subúrbios, adornado com paredes de mármore branco e vitrais azuis de dimensões extraordinárias. Uma placa enorme dava as boas-vindas aos visitantes — Dickenson Consulting Inc. — exibindo também o endereço físico. Depois de estacionar em sua vaga reservada, perto da entrada, saiu rapidamente do carro. Ao entrar no prédio, foi imediatamente cumprimentado por sua recepcionista, de temperamento tranquilo, e por várias outras pessoas que passavam casualmente.
"Alguém precisa consertar esse elevador", pensou ele. "São só cinco andares, caramba..."
*Ding!* Uma das portas do elevador se abriu, e ele entrou sentindo-se aliviado. Ele não gostava muito de elevadores. Sempre reclamava daquele ali, que considerava lento demais. A porta se fechou depois que ele apertou o botão do quinto andar; o que antes era rotina agora parecia demorado e extremamente irritante. Tudo parecia se mover lentamente, especialmente com a aproximação rápida do momento de decidir sobre o projeto. *Ding!* Ele saiu, virando bruscamente à esquerda e caminhando a passos largos e elegantes para chegar rapidamente à sua sala. "John, preciso falar com você um instante", disse ele, dirigindo-se à porta aberta da sala de John logo antes de entrar na sua própria.
"Claro, já vou aí!" Richard aproximou-se da cafeteira para preparar uma xícara, adicionando creme e adoçando até ficar com gosto de chocolate quente. Era assim que ele sempre preparava a bebida, e gostava de apreciá-la recostado em sua poltrona de couro bordô macio, que lembrava uma poltrona reclinável de luxo.
"Sim, Sr. Dickenson."
"Os relatórios e mapas estão prontos para a minha apresentação?"
"Sim, senhor, está tudo aqui. Imaginei que seria a primeira coisa que o senhor pediria."
"Boa observação, por isso você é meu braço direito. Certo, é só isso."
Antes que John pudesse sair, Richard se levantou da cadeira e caminhou em direção ao enorme mapa de parede que dominava um dos lados do escritório. Os visitantes costumavam presumir que era apenas decoração. Não era. Alfinetes coloridos cobriam grande parte do norte do Brasil. Linhas azuis indicavam os principais cursos d'água. Etiquetas amarelas identificavam os locais de levantamento topográfico. Círculos vermelhos marcavam possíveis locais de construção. John já tinha visto o mapa inúmeras vezes. Richard ainda o estudava como se o visse pela primeira vez.
"O que exatamente o senhor vê quando olha para isso?", perguntou John finalmente.
Richard cruzou os braços. "A maioria das pessoas vê rios."
Seu dedo traçou uma linha azul sinuosa. "Eu vejo movimento."
Outra linha. "Eu vejo comércio."
Outra. "Eu vejo acesso." Seu dedo parou sobre o norte do Brasil. Macapá. A cidade ficava perto da foz de um dos sistemas fluviais mais poderosos da Terra. "Todo o futuro começa ali."
John assentiu educadamente. Ele entendia as palavras. Não tinha certeza se entendia completamente a obsessão. Richard continuou encarando o mapa muito depois de John se virar para sair. Por um breve momento, a sala ficou em completo silêncio. O futuro parecia depender daqueles rios. Desculpando-se grosseiramente, John se virou, parecendo ignorar os comentários de Richard, e saiu em silêncio. Antes que John pudesse escapar dos confins do escritório de Richard, ele disse: "John, por favor, entre em contato comigo imediatamente quando esses investidores chegarem."
"Com certeza!" A porta se fechou e John sentiu como se tivesse escapado da jaula de um leão.
"Olá, Suzie! Como você está hoje?"
"Bem, e você? Parece que acabou de levar uma bronca."
"Não, estou bem. É só que o chefe não está bem. Preciso que você ligue para aquele cliente. Acho que ele está um pouco tenso por causa deste projeto."
"Claro, vou fazer isso agora mesmo." Suzie pareceu curiosa, mas não questionou nada e continuou com suas tarefas normais. O som dos telefones tocava, o teclar das teclas ecoava e conversas moderadas preenchiam o ambiente — o típico ambiente de escritório. John decidiu que seria uma boa ideia ficar perto da recepção para dar uma primeira olhada nos investidores e ver se eles correspondiam às expectativas. De fato, seu plano funcionou, e ele cumprimentou cinco homens e avisou Richard pelo telefone da recepcionista. Depois de informar seu chefe sobre a chegada deles, ele esperou ali, observando os homens e admirando sua aparência. Em sua mente, pensou ele, entusiasmado: "Hum, que sapatos de jacaré lindos aquele esguio está usando. Nossa, olha só aquele relógio." Quase ficou cego quando o dono do relógio acenou com o braço casualmente. O gelo que circundava o mostrador, sem mencionar os que compunham os algarismos romanos, era a essência daquele brilho hipnótico. Era quase como se aquele relógio tivesse poderes místicos: devido à sua beleza e riqueza, era impossível não desejar um. Ele também notou que os outros dois homens eram bastante ricos, e agora entendia por que o chefe estava tão nervoso. Isso devia ser importante!
"Ding", soou suavemente vindo da esquina, seguido pelo som de sapatos de sola dura sendo usados com firmeza. "Olá, cavalheiros! Que bom que puderam vir", disse Rich, aproximando-se dos homens com a postura mais elegante e a prontidão de um âncora de telejornal. Ele cumprimentou cada um dos homens, um por um, dizendo: "Agradeço a oportunidade que nos concederam! Sr. Winterlin, Sr. Countenance, Sr. Neuhesil, Sr. Caviling e Sr. Palanas. Sejam bem-vindos à minha base de operações e espero que tenham uma estadia agradável. Meus assistentes os acompanharão até a sala de conferências, onde encontrarão refrescos e assentos para minha apresentação. Já estarei lá."
John imediatamente os conduziu por um corredor. "Por aqui, senhores." O som de seus sapatos batendo no piso de mármore ecoou, mas desta vez não era tão agressivo. Era mais suave, quase rítmico. Vozes graves preenchiam vagamente os corredores enquanto os senhores conversavam sobre diversos assuntos. "Aqui estamos, senhores", disse John, apontando rigorosamente enquanto respirava com dificuldade. "Podem se sentar onde se sentirem mais confortáveis." John saiu rapidamente, sabendo que um olhar de reprovação de qualquer um daqueles homens poderia lhe custar o emprego. Os homens devoraram os donuts e bagels sem perder tempo, e cada um foi convidado a preparar um café personalizado ao seu gosto. Cada investidor sentou-se em uma cadeira, com uma expressão de indiferença a qualquer conversa fiada. Richard Dickenson entrou na sala.
"Boa tarde, senhores", disse ele com firmeza, fechando a porta atrás de si. "O motivo de tê-los reunido aqui hoje, como sabem, é oferecer a oportunidade de embarcar em um projeto que nos permitirá dominar estrategicamente todo um hemisfério."
O Sr. Countenance ajeitou-se na cadeira com um ar de curiosidade. Os outros homens continuaram ouvindo. Richard segurava um mapa grande e detalhado da composição geológica da América do Sul, destacando especialmente os rios e as florestas do Brasil — uma escolha, de fato, estratégica. "Vejam, senhores! Esta é a foz do Amazonas. Ao passar por estas ilhas, o rio se divide em dois."
"Hum... Sim, estou vendo", disse Dick, acompanhado por murmúrios de concordância dos outros. "Continue, Sr. Dickenson. Acho que sei aonde o senhor quer chegar." Todos aqueles homens atuavam no setor de transporte marítimo, distribuição ou importação e exportação. Eles falavam a mesma língua.
Richard diminuiu levemente a iluminação e passou para o próximo slide. A imagem mostrava uma visão mais ampla da América do Sul. Várias vias navegáveis iluminavam a tela. Os investidores inclinaram-se para a frente.
"Este projeto é maior do que um estaleiro", disse Richard calmamente. "É uma rede de transporte."
A sala permaneceu em silêncio. Richard continuou: "Por gerações, governos gastaram fortunas construindo estradas e ferrovias em terrenos de difícil acesso."
Um mapa da Bacia Amazônica surgiu. "Já possuímos o maior sistema de transporte da América do Sul."
O Sr. Caviling franziu a testa. "Não estou acompanhando."
Richard sorriu. "A natureza já o construiu."
Sua mão percorreu a tela. "O Amazonas e seus afluentes chegam mais longe do que a maioria dos planejadores de transporte imagina."
Vários investidores trocaram olhares. Agora, eles estavam prestando atenção. "Se estabelecermos pontos de acesso estratégicos, instalações de apoio, centros de transporte e, futuramente, rotas de expansão para o interior, ganharemos acesso a mercados que muitos concorrentes ignoram."
O Sr. Countenance assentiu lentamente. Richard percebeu que a ficha estava caindo. Os investidores haviam chegado esperando um porto; o que ouviam agora parecia algo muito maior. Só então Richard avançou para o slide seguinte e prosseguiu com sua apresentação original.
Richard continuou: "Construiremos um enorme estaleiro! Bem aqui, onde o rio se divide em dois." "Refiro-me a uma instalação enorme e de última geração. Quero pátio de serviços, terminais de transporte rodoviário, etc. — quero o pacote completo."
O Sr. Caviling começou a coçar o queixo enquanto respondia: "E como isso permitiria o tipo de domínio de que você fala?"
"Ah! Simples! Veja, o Rio Amazonas é muito navegável. Ele tem vários braços que se conectam a diferentes partes da América do Sul, como você pode ver aqui. É possível chegar à maior parte do continente apenas de barco. Utilizando alguns lagos ou canais artificiais — dependendo das recomendações dos empreiteiros —, poderíamos centralizar as Américas. Olhe!" Apontando com firmeza para o mapa — ele já havia montado a tela de projeção e exibido vários outros mapas —, seu ponteiro se movia rapidamente, assim como seus lábios durante os comentários seguintes. "Veja, bem aqui em Cuiabá: se construirmos um canal artificial aqui — ou até mesmo uma hidrelétrica — e outro a cerca de cem milhas a nordeste, podemos conectar dois pontos estratégicos fundamentais. Com terminais de transporte rodoviário, poderemos abastecer toda a extremidade sul do Brasil. Os territórios de Minas Gerais, São Paulo e também, aqui, o Mato Grosso, são alguns dos inúmeros lugares que ficarão sob nosso controle logístico. E não precisaremos nos preocupar com a parte norte do Brasil nem com o Peru, a Bolívia e a Colômbia, como você pode ver."
Richard começou a apontar com ainda mais vigor, descontando toda a sua empolgação na tela de projeção. "Os muitos braços dos rios se estendem pelo território de que precisamos. Pense no café da Colômbia ou no açúcar do norte do Brasil. Em relação à América do Sul, podemos realizar o transporte tanto para fora quanto internamente." Ele apontava novamente. "Boa Vista, Manaus, Rio Branco e Porto Velho: todas têm seus próprios portos. Então! Podemos ser a fonte e o canal de escoamento delas para as regiões norte e leste do globo."
"Com licença", disse o Sr. Caviling. "Parece-me que a extremidade sul não teria uma cobertura adequada. Como você vê! Como você gosta de dizer, os rios não chegam tão longe. Veja!" O homem apontava de forma ainda mais agressiva do que Richard, e isso era claramente perceptível. "Aquelas cidades no litoral, bem ali." Ele apontava continuamente para a área em questão e aguardava uma resposta.
"Sim, senhor, boa observação! Como o senhor sabe, qualquer empreendimento tem seus prós e contras, mas é por isso que concentramos nossos terminais de caminhões nestes dois locais de canais artificiais." Richard apontava agora como se aquilo tivesse virado uma competição. "Devido à alta densidade populacional no Sul do Brasil, há estradas suficientes para facilitar a criação de um sistema de transporte confiável de e para esses dois pontos. Cuiabá será o local do segundo estaleiro, mas, por enquanto, teremos apenas pontos de parada para caminhões no final de cada um desses quatro rios. Expandir nossa distribuição para outras áreas — seja com uma fábrica, um estaleiro ou até mesmo um terminal de caminhões — seria barato, graças à mão de obra de baixo custo. Se fosse realmente necessário, poderíamos usar essa rota." Ele agora apontava para o local do projeto e deslizava o indicador em direção à foz do Amazonas, com uma paixão elegante. Ele percorreu o litoral brasileiro até chegar à cidade de Pelotas. "Veja bem, o terreno já foi comprado. Só estamos esperando para começar o processo de construção."
George recostou-se na cadeira com um olhar de entusiasmo, enquanto Neuheisil perguntava aos outros o que achavam até aquele momento. Tony Palanas permaneceu em silêncio o tempo todo, assimilando informações em ritmo acelerado. O Sr. Caviling soltou de repente: "Isso não fica no meio de uma floresta?"
Dick interrompeu-o ansiosamente: "Sim, e não uma floresta qualquer. Na verdade, uma floresta tropical densa."
Em tom combativo, Richard exclamou: "Senhores! Estamos perdendo de vista o panorama geral, que é um grande empreendimento. Claro que haverá o desafio do desmatamento necessário, mas, com nosso esforço conjunto, não será tão penoso quanto seria se apenas um ou alguns de nós assumissem esse projeto sozinhos. Se for preciso, no entanto, seguirei em frente por conta própria, como um soldado solitário. Mas aviso aos senhores: há empresas na fila esperando para derrubar aquela maldita selva e criar algo civilizado." Os investidores já estavam praticamente convencidos, mas, naquele momento, ele queria ir além. Queria ter a garantia de que ninguém desistiria. "Senhores, convido-os a vivenciar pessoalmente o que preparei para este projeto. Também desfrutaremos de algumas comemorações." Ele pegou sua pasta e tirou um envelope, entregando a todos passagens aéreas para seu jato particular, que estava estacionado em uma área reservada do aeroporto internacional. Além da hospedagem em hotel, os senhores aceitaram o convite, com a curiosidade estampada em seus rostos.
Dick soltou de imediato: "Um pouco de descanso e lazer cairia bem." Richard despediu-se dos homens enquanto eles partiam e depois voltou ao seu escritório para aproveitar o momento. Ao recostar-se em sua poltrona confortável, um sorriso de entusiasmo iluminou seu rosto enquanto verificava as mensagens. Havia algumas sem importância, que podiam ser ignoradas. Sua postura relaxada teria de impressionar ainda mais os investidores durante as férias. Ele pegou o telefone e apertou um botão.
"Sim?"
"John", gritou Richard. "Venha ao meu escritório, por favor." Richard aguardou enquanto usava pedaços de papel amassados para treinar seus arremessos de basquete. John espiou pela porta e, antes mesmo de entrar completamente, Richard anunciou: "Estou saindo em breve. Certifique-se de que aqueles relatórios estejam finalizados. A Judy já fechou negócio com a Data Inc.?"
"Não, senhor, ainda não."
"Olha, só porque este projeto está prestes a mudar tudo, não significa que possamos nos acomodar. Continuamos sendo quem somos."
"Considere feito, senhor!" Enquanto John fechava a porta, Richard Dickenson saía logo atrás, ansioso para chegar em casa e encontrar a esposa após um dia longo e agitado. Chegando em casa animado, ele entrou e percebeu que o sentimento da família era recíproco. Não era por terem tido um bom dia no trabalho, mas sim porque o chefe da família estava em casa.
"Papai!", gritou o caçula. Isso foi seguido por uma recepção calorosa de sua esposa. Ele aceitou as boas-vindas como um rei, pois havia uma aura de intocabilidade e certa arrogância em sua postura. Ele não perdeu tempo e contou a ela sobre as férias, de maneira tranquila e entusiasmada. "Arrume suas coisas, querida. Vamos para a América do Sul."
"O quê? Assim, de última hora?"
"Eu avisei."
"É, hoje de manhã." "Eu não sabia que seria tão cedo."
"Convidei os investidores para passar umas férias."
"O quê? Assim, do nada — vamos tirar férias?"
"Já os convenci praticamente. Só quero que eles sintam o clima; assim, não haverá dúvidas nem hesitações mais tarde."
"Tá bom!" Com uma leve hesitação e um sorriso no rosto, ela continuou: "E o Boo? Quando, onde e por quanto tempo?"
"Bem, querida, vamos para Macapá, para termos aquela experiência de que falei. Vai haver um jantar, mas passaremos a maior parte do tempo no hotel comigo."
Ela se aproximou dele e disse: "Isso já soa um pouco melhor."
"Pelo menos no primeiro dia. Veja bem, eu tinha planejado uma viagem de três dias, mas não há nada de espetacular em Macapá. A maior parte do tempo será passada no hotel."
"Ótimo, querido. Quando vamos?"
"Amanhã de manhã."
"Bom, vou preparar minhas coisas e cuidar dos preparativos..."...preparativos para o nosso bebê."