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RFP-BRazil-chp1-7

RFP-BRazil-chp1-7.html

RFP-BRazil-chp1-7RFP-BRazil-chp1-5RFP-BRazil-chp1-4RFP-BRazil-chp1-3RFP-BRazil-chp1-2RFP-BRazil-chp1-RFP-BRazil-chp1-O PROJETO FLORESTA TROPICALUm RomancePRÓLOGOUm belo carvalho dominava grande parte da paisagem ao fundo, dificultando uma visão nítida das crianças que corriam freneticamente pelo pátio da escola. Seus galhos se estendiam de forma majestosa, parecendo prontos para agarrar quem passasse por perto. As folhas douradas flutuavam na brisa de outono, descendo lentamente para a morte.Mas a presença da vida se confirmava ao olhar para a linda menina sentada sobre as enormes raízes salientes, folheando um livro qualquer com um sorriso de paciência contida, em meio ao som de funcionários organizando a algazarra. O trânsito estava lento e, finalmente, pôde-se ouvi-la começar a gritar, demonstrando prontidão enquanto guardava suas coisas na mochila. Ela se levantou da árvore antiga com entusiasmo, parecendo radiante em seu uniforme xadrez. A porta de um carro de luxo, preto e imponente, se abriu.— Papai! — gritou a linda menina enquanto caminhava em direção à abertura.— Como está minha garotinha? — perguntou o motorista com voz suave.— Estou bem, papai!— Como foi a escola?— Foi legal! Brincamos no parquinho e tivemos uma festa de Halloween. Até comi uns cupcakes.— É mesmo? E o que você aprendeu hoje?— O que eu aprendi, papai? Não aprendi nada hoje.— Não aprendeu nada? Não é para isso que pago por essa escola particular, é? — Ele olhou para a filha como se ela fosse a culpada. — Acho que preciso ter uma conversa com alguém! — Buzinas soaram enquanto ele pisava no freio, ansioso.— Merda! Olha por onde anda! Essas pessoas precisam ter a habilitação auditada! É ridículo!— Papai, o que você disse?— Eu não disse nada.— Sei, papai. Você disse...— Ei! Não quero ouvir isso. O papai disse um palavrão, e é bom que eu não pegue você dizendo um também.Um sorriso aberto iluminou seu rostinho, e a curiosidade tomou conta. Pouco se falou durante o restante do caminho para casa; ambos pareciam absortos, observando a paisagem. A apenas alguns quarteirões de casa, a menina viu um garoto fantasiado de Conde Drácula que parecia muito alegre. "Papai, nós vamos pedir doces hoje à noite?""Com certeza, e vamos conseguir muitas guloseimas.""Oba!" O carro deu um solavanco ao subir a rampa da garagem, e eles finalmente chegaram em casa. Ele não conseguiu estacionar na garagem para quatro carros porque ela já estava lotada. Havia também um barco enorme estacionado na entrada. Eles desceram do carro e a menina correu em direção às lindas portas de carvalho. Ela estava ansiosa para cumprimentar a mãe, mas o pai vinha caminhando sem pressa, com a mente parecendo distante."Mamãe, mamãe!""Olá, minha querida. Como foi a escola?""Foi legal. O papai disse que vamos pedir doces.""Sim, e vamos ganhar muitos doces.""Isso mesmo.""Ok, querida, vá tirar o uniforme da escola e colocar uma roupa de brincar.""Vamos sair!" gritou a pequena."Não, você vai arrumar o seu quarto, ou nada de pedir doces... Ah, olá, bonitão!" disse ela quando o marido entrou em casa. "Como foi o seu dia?""Foi bom, eu diria. E o seu?""Resolvi algumas coisas na rua, comprei uma fantasia para a nossa anjinha — e um champanhe para mais tarde, depois que nossa linda menina estiver na cama.""Hummm", disse ele com um sorriso malicioso, porém sensual. Os dois se beijaram e se abraçaram, pois tudo entre eles ia muito bem. Eram ricos, relativamente jovens e tinham uma filha linda. Ele a tratava com amor e respeito, e ela retribuía da mesma forma."Mamãe! Papai! O que eu vou vestir?"Separando-se abruptamente do abraço apaixonado, a mãe respondeu: "Comprei uma fantasia da Bela Adormecida para você.""Ooohh! Mamãe, posso vestir? Por favor! Por favor!""Ainda não, querida; não está na hora de pedir doces e, além disso, vamos jantar primeiro." "Posso só dar uma olhada, então?""Tá bom. Está na bolsa, no chão do quarto, ao lado da minha escrivaninha." A pequena correu para o andar de cima enquanto os pais retomavam o clima de romance. Vários beijos se sucederam até que ela declarou, ofegante: "É melhor eu preparar o jantar!" No entanto, os beijos continuaram enquanto ela se soltava dos braços do marido, que a segurava. "Você quer comer, não quer?" disse ela, com um sarcasmo bem-humorado. Ele finalmente cedeu e deixou que ela se afastasse aos poucos, mas fingiu que ela estava tentando escapar de fininho e tentou, em vão, impedi-la. Mandou-lhe um último beijo e foi para seu escritório tratar de alguns assuntos enquanto ela preparava o jantar.Ao terminar os últimos preparativos para o jantar, ela viu o pôr do sol começar a colorir o céu do poente e subiu as escadas. "Dainisa, você terminou de arrumar seu quarto? Querida, o jantar já está quase pronto." Não houve resposta; ela espiou pela porta e viu que o quarto estava apenas parcialmente arrumado. "O que esperar de uma criança de seis anos?", pensou. Ela caminhou pelo corredor até o quarto do casal e encontrou a filha praticamente engolida pela fantasia de Halloween. Estava claro que ela até já a havia experimentado. "Ei, Princesa! O que você está..."Ela superou com certa ousadia algumas das outras crianças na tentativa de encher sua sacola de guloseimas. Sem medo algum, a pequena empurrou algumas crianças mais velhas para abrir caminho até a frente do grupo, junto à porta, e aproveitar a oportunidade. Apesar de sua travessura, os pais não resistiram e deixaram que ela se divertisse.Depois de algumas horas, seus pés doíam da longa caminhada pelo bairro, e Dainisa estava com os dedos e os lábios pegajosos de tantos doces que devorara no caminho de volta. A noite estava arejada, mas não exatamente fria; um agradável frescor de outono pairava no ar. Logo restavam poucas luzes acesas nas ruas, e parecia que a brincadeira de pedir doces havia chegado ao fim. Parecia que eles eram os últimos da quadra a caminhar pela noite. Apesar disso, não havia pressa para chegar em casa. Na verdade, aquele era um cenário romântico, tendo a alegria como catalisador. A vida parecia promissora — e de fato o seria para a família americana ideal, aquela que buscava com felicidade o "Sonho Americano". Eles percorreram uma longa rua recém-pavimentada, ladeada por uma bela paisagem de cercas-vivas e árvores dispostas em níveis diante de casas de tijolos impecáveis. A família aproximou-se de uma grande casa de tijolos que se destacava de todas as outras. A bela iluminação da entrada de veículos era um dos motivos desse destaque, mas o portão de aço — preto como petróleo bruto e com pontas voltadas para o alto, como grandes lanças — era outra razão pela qual a propriedade sobressaía em relação às vizinhas. O portão era alto demais para que alguém tentasse escalá-lo. Sua imponência era, de fato, intimidadora, assim como a do segurança que permanecia em uma guarita bem no centro da entrada. Detalhes em aço, que se curvavam como fitas, conferiam à entrada um ar verdadeiramente majestoso."Boa noite, Sr. e Sra. Dickenson.""Olá, Hayword", disse Rich, com um tom de voz que parecia descontraído. Eles seguiram pela entrada de veículos até a porta da frente, abraçados firmemente. O Sr. Reynolds trancou os portões imponentes e retornou imediatamente às suas tarefas ociosas. Ele contemplava as estrelas, como sempre fazia, apenas para passar o tempo. Era preciso acostumar-se àquela falta do que fazer, mas o emprego pagava as contas. Não havia muito do que reclamar, dizia a si mesmo, pois ganhava mais do que a média dos americanos. Na verdade, com o que os Dickenson lhe pagavam, ele poderia ser oficialmente classificado como classe média. No entanto, não imaginava que aquela seria exatamente a carreira dos seus sonhos. Sempre tivera o desejo de conseguir um emprego em uma das empresas do Sr. Dickenson ou, talvez, trabalhar como agente de segurança em viagens, prevenindo ataques terroristas. Ele precisava pensar grande, mas, por enquanto, contentava-se em trabalhar para os Dickenson; ainda assim, trazia consigo uma determinação inata de aproveitar ao máximo as oportunidades que tinha.Dentro da casa acolhedora, ouvia-se a Sra. Dickenson declarar com firmeza: "Dê-me essa sacola". Com um ar de inocência, a pequena Dainisa caminhou lentamente até a mãe e entregou a sacola de guloseimas. "Você já comeu o suficiente disso. Agora suba correndo; seu pai irá lá em cima ler uma história de ninar para você." A menina correu alegremente para o quarto, pois havia escondido vários docinhos dentro de sua bolsinha da Bela Adormecida. Ela acelerou o passo ao chegar ao topo da escada para garantir que teria tempo de esconder o tesouro sob o travesseiro e tirar a fantasia antes de ser descoberta, despindo-se freneticamente, como se não desse a mínima para o fato de a fantasia ter sido comprada. Jogando-a com força dentro do armário, ela enfiou um doce na boca sem muito cuidado enquanto se aproximava do travesseiro para guardar o restante.Ela mal havia tocado na borda do travesseiro para colocar as guloseimas em segurança quando ouviu uma voz grave e rouca perguntar: "Ei. Como está a minha preciosidade?" Assustada, mas mantendo a compostura, tentou esconder na palma da mão a embalagem aberta que ainda não havia jogado fora. Também tentou não deixar transparecer que estava chupando aquele pedaço duro de açúcar e aromatizantes artificiais. Pulou na cama com a maior naturalidade possível."Que livro você quer que eu leia?", perguntou o pai."Auglr gytr!""O quê!?""Três Macaquinhos", disse ela, com as palavras soando um pouco como se estivesse fazendo gargarejo."Sua mãe não tirou esse doce de você?""Esse era o meu último pedaço, papai.""Certo. Deixe-me começar." Ele leu a história enquanto a filhinha se aconchegava sob o cobertor. Ao terminar, disse "Boa noite" e deu-lhe um beijo leve na testa. Olhou para os olhos fechados dela, sentindo imediatamente um calor reconfortante e uma onda de carinho. Levantando-se devagar, manteve o olhar fixo no rosto dela enquanto dormia. *Clique!* O som do interruptor ecoou, seguido por um *toc-toc* abafado enquanto ele fechava a porta lentamente. Imediatamente, ela começou a deslizar a mão para baixo do travesseiro em busca de seu esconderijo. Enquanto o pai caminhava pelo corredor, ouviu o som de chuva batendo em alguma superfície, mas não era chuva. Era sua amada tomando banho; sua mente logo imaginou que ela estava se arrumando para ele, para que ele pudesse ganhar seus "doces ou travessuras". Corando levemente com seus próprios pensamentos carnais, ele correu para o quarto e despiu-se de tudo, exceto pela cueca boxer de seda que ela lhe dera. Sentindo-se bem, deitou-se, apoiando a cabeça em um travesseiro macio com fronha de seda. Seus olhos foram se fechando lentamente, quase caindo no sono, até que ele foi despertado por beijos suaves e arrepiantes de uma língua úmida, sem falar no corpo levemente fresco que se pressionava contra o dele. Pouco foi dito, mas sons de paixão, amor e desejo preencheram o quarto.CAPÍTULO UMUma claridade intensa atravessou as persianas entreabertas e começou a invadir as frestas de seus olhos sonolentos. O som irritante e estridente do despertador pulsava enquanto ele permanecia deitado de costas, aparentemente imperturbável. Na verdade, ele nem havia notado o barulho até muito depois de abrir os olhos e ficar ali, com o olhar vago e sonolento. A claridade tornou-se insuportável. Ele tateou a cama em busca de sua bela esposa, percebendo que ela devia ter se levantado cedo. Sentiu o aroma de carne de porco fritando e de algo indefinível assando no forno. Atraído pelo cheiro, estendeu a mão para acabar com aquele ruído infernal que não parava de pulsar. Ao dirigir-se ao banheiro da suíte para um banho mais do que necessário, percebeu o gosto ruim na boca e o cheiro de alho que emanava da floresta densa de suas axilas. Um banho era, sem dúvida, indispensável. Além disso, ele precisava impressionar os investidores.Essa reunião ocupara seus pensamentos na maior parte das últimas semanas, inclusive durante o sexo com a esposa na noite anterior. A ideia de desperdiçar a chance de sua vida o atormentava constantemente. Jamais alguém conseguira reunir tantos investidores ou tanto capital. Richard tinha recursos próprios para financiar o empreendimento, mas, por razões óbvias, preferia não fazê-lo. Um plano simples para captar recursos era o que dominava sua mente dia após dia. Richard semicerrou os olhos ao entrar na água quente. As primeiras partes do corpo que lavou foram os braços, as pernas e o pescoço. Lavou a virilha minuciosamente — chegando a aplicar uma dose exagerada de xampu Pert Plus nos pelos pubianos — e penteou cada fio com o cuidado de um cabeleireiro. Pensou consigo mesmo que sua apresentação precisava ser um sucesso. Eles não resistiriam a um passeio pelo local, combinado com o atrativo de uma escapada tropical. Ele havia até comprado passagens e reservado quartos para cada um dos investidores. Seu plano infalível incluía uma visita ao canteiro de obras e um jantar de gala.Richard fechou os olhos e deixou a água quente escorrer pelo rosto. A maioria dos homens tomava banho para despertar. Richard tomava banho para pensar. Os investidores acreditavam que ele estava construindo um estaleiro. Isso era apenas parcialmente verdade. O estaleiro era apenas o começo. Sua mente voltou-se para os inúmeros mapas espalhados pelas paredes de seu escritório. A Amazônia. O Xingu. O Tocantins. Centenas de vias navegáveis ​​estendendo-se pela América do Sul como veias em um corpo vivo. Para a maioria das pessoas, eram rios. Para Richard, eram corredores de transporte. Rotas comerciais. Oportunidades. Ele imaginava barcaças transportando madeira, café, minérios, maquinário e produtos manufaturados para o interior de regiões aonde a infraestrutura tradicional jamais chegara. Macapá seria a porta de entrada. A primeira peça. A base. Uma vez estabelecida, instalações adicionais poderiam, com o tempo, expandir-se para o interior. Algumas regiões exigiriam dragagem. Outras, canais. Alguns locais poderiam necessitar apenas de instalações portuárias modernas e centros de logística. As possibilidades pareciam infinitas. Richard sorriu. A maioria das pessoas achava que eram as estradas que conectavam as civilizações. Ele acreditava que eram os rios. E nenhum lugar na Terra possuía um sistema fluvial como a Bacia Amazônica. Se os investidores pudessem ver o que ele via, a reunião de hoje seria apenas uma formalidade."Sr. Neuheisil, veja bem, tenho planos de dominar o setor de importação e exportação do Hemisfério Ocidental construindo um estaleiro de última geração; mas, é claro, precisamos instalá-lo em um local estratégico." Ele continuou falando sem parar enquanto a água esfriava. "Veja, o Amazonas é facilmente navegável e possui múltiplos afluentes que se conectam a diferentes partes da América do Sul. Utilizando o Amazonas em conjunto com alguns lagos artificiais ou canais para ligar dois braços principais desse rio incrível, poderíamos alcançar sessenta por cento do continente apenas por via fluvial. Isso permitirá que a região do extremo sudeste do Brasil seja adequadamente abastecida."Uma voz surgiu pela fresta da porta do banheiro: "Ei, você e seu amigo aí dentro, o café da manhã está pronto." Despertando de seu ensaio mental, ele desligou a água, totalmente indiferente ao fato de ela já estar gelada. Richard estava atrasado; por isso, secou-se rapidamente e vestiu um terno fino, acompanhado por uma das camisas brancas mais alvas que já se vira. Com o paletó pendurado no braço e a pasta na outra mão, desceu as escadas para devorar uma refeição rápida."Ah, mamãe! Gosto do jeito que você faz os ovos — eles ficam tão fofinhos. Mãe, eles parecem gordura de baleia. São uma delícia." Havia muita empolgação no rosto da garotinha, especialmente quando o pai se juntou a elas. "Mamãe! Ovo faz bem?""Tem seus pontos positivos e negativos.""Positivos e negativos, mamãe?" exclamou a pequena, com um tom intrigado."Apenas coma. Ora, veja só quem resolveu se juntar a nós! Já era hora; seus ovos estão quase esfriando.""É, papai, coma seus ovos, eles estão uma delícia.""Tá bom, querida!" Ele deu algumas garfadas e pareceu sair apressado da mesa, mas fez questão de......receber um beijo das mulheres que amava. Saindo apressadamente, decidiu deixar as mulheres cuidando de seus assuntos. Ele tinha seus próprios compromissos importantes que exigiam atenção especial. Entrou no carro que lhe proporcionava a saída mais suave e, sem hesitar, engatou a marcha a ré, quase saindo antes mesmo de o portão eletrônico terminar de abrir. Os pneus cantaram com a pressão repentina no acelerador, e ele partiu.Após um trajeto tranquilo e rápido, Richard estacionou em um magnífico complexo de escritórios nos subúrbios, adornado com paredes de mármore branco e vitrais azuis de dimensões extraordinárias. Uma placa enorme dava as boas-vindas aos visitantes — Dickenson Consulting Inc. — exibindo também o endereço físico. Depois de estacionar em sua vaga reservada, perto da entrada, saiu rapidamente do carro. Ao entrar no prédio, foi imediatamente cumprimentado por sua recepcionista, de temperamento tranquilo, e por várias outras pessoas que passavam casualmente."Alguém precisa consertar esse elevador", pensou ele. "São só cinco andares, caramba..."*Ding!* Uma das portas do elevador se abriu, e ele entrou sentindo-se aliviado. Ele não gostava muito de elevadores. Sempre reclamava daquele ali, que considerava lento demais. A porta se fechou depois que ele apertou o botão do quinto andar; o que antes era rotina agora parecia demorado e extremamente irritante. Tudo parecia se mover lentamente, especialmente com a aproximação rápida do momento de decidir sobre o projeto. *Ding!* Ele saiu, virando bruscamente à esquerda e caminhando a passos largos e elegantes para chegar rapidamente à sua sala. "John, preciso falar com você um instante", disse ele, dirigindo-se à porta aberta da sala de John logo antes de entrar na sua própria."Claro, já vou aí!" Richard aproximou-se da cafeteira para preparar uma xícara, adicionando creme e adoçando até ficar com gosto de chocolate quente. Era assim que ele sempre preparava a bebida, e gostava de apreciá-la recostado em sua poltrona de couro bordô macio, que lembrava uma poltrona reclinável de luxo."Sim, Sr. Dickenson.""Os relatórios e mapas estão prontos para a minha apresentação?""Sim, senhor, está tudo aqui. Imaginei que seria a primeira coisa que o senhor pediria.""Boa observação, por isso você é meu braço direito. Certo, é só isso."Antes que John pudesse sair, Richard se levantou da cadeira e caminhou em direção ao enorme mapa de parede que dominava um dos lados do escritório. Os visitantes costumavam presumir que era apenas decoração. Não era. Alfinetes coloridos cobriam grande parte do norte do Brasil. Linhas azuis indicavam os principais cursos d'água. Etiquetas amarelas identificavam os locais de levantamento topográfico. Círculos vermelhos marcavam possíveis locais de construção. John já tinha visto o mapa inúmeras vezes. Richard ainda o estudava como se o visse pela primeira vez."O que exatamente o senhor vê quando olha para isso?", perguntou John finalmente.Richard cruzou os braços. "A maioria das pessoas vê rios."Seu dedo traçou uma linha azul sinuosa. "Eu vejo movimento."Outra linha. "Eu vejo comércio."Outra. "Eu vejo acesso." Seu dedo parou sobre o norte do Brasil. Macapá. A cidade ficava perto da foz de um dos sistemas fluviais mais poderosos da Terra. "Todo o futuro começa ali."John assentiu educadamente. Ele entendia as palavras. Não tinha certeza se entendia completamente a obsessão. Richard continuou encarando o mapa muito depois de John se virar para sair. Por um breve momento, a sala ficou em completo silêncio. O futuro parecia depender daqueles rios. Desculpando-se grosseiramente, John se virou, parecendo ignorar os comentários de Richard, e saiu em silêncio. Antes que John pudesse escapar dos confins do escritório de Richard, ele disse: "John, por favor, entre em contato comigo imediatamente quando esses investidores chegarem.""Com certeza!" A porta se fechou e John sentiu como se tivesse escapado da jaula de um leão."Olá, Suzie! Como você está hoje?""Bem, e você? Parece que acabou de levar uma bronca.""Não, estou bem. É só que o chefe não está bem. Preciso que você ligue para aquele cliente. Acho que ele está um pouco tenso por causa deste projeto.""Claro, vou fazer isso agora mesmo." Suzie pareceu curiosa, mas não questionou nada e continuou com suas tarefas normais. O som dos telefones tocava, o teclar das teclas ecoava e conversas moderadas preenchiam o ambiente — o típico ambiente de escritório. John decidiu que seria uma boa ideia ficar perto da recepção para dar uma primeira olhada nos investidores e ver se eles correspondiam às expectativas. De fato, seu plano funcionou, e ele cumprimentou cinco homens e avisou Richard pelo telefone da recepcionista. Depois de informar seu chefe sobre a chegada deles, ele esperou ali, observando os homens e admirando sua aparência. Em sua mente, pensou ele, entusiasmado: "Hum, que sapatos de jacaré lindos aquele esguio está usando. Nossa, olha só aquele relógio." Quase ficou cego quando o dono do relógio acenou com o braço casualmente. O gelo que circundava o mostrador, sem mencionar os que compunham os algarismos romanos, era a essência daquele brilho hipnótico. Era quase como se aquele relógio tivesse poderes místicos: devido à sua beleza e riqueza, era impossível não desejar um. Ele também notou que os outros dois homens eram bastante ricos, e agora entendia por que o chefe estava tão nervoso. Isso devia ser importante!"Ding", soou suavemente vindo da esquina, seguido pelo som de sapatos de sola dura sendo usados ​​com firmeza. "Olá, cavalheiros! Que bom que puderam vir", disse Rich, aproximando-se dos homens com a postura mais elegante e a prontidão de um âncora de telejornal. Ele cumprimentou cada um dos homens, um por um, dizendo: "Agradeço a oportunidade que nos concederam! Sr. Winterlin, Sr. Countenance, Sr. Neuhesil, Sr. Caviling e Sr. Palanas. Sejam bem-vindos à minha base de operações e espero que tenham uma estadia agradável. Meus assistentes os acompanharão até a sala de conferências, onde encontrarão refrescos e assentos para minha apresentação. Já estarei lá."John imediatamente os conduziu por um corredor. "Por aqui, senhores." O som de seus sapatos batendo no piso de mármore ecoou, mas desta vez não era tão agressivo. Era mais suave, quase rítmico. Vozes graves preenchiam vagamente os corredores enquanto os senhores conversavam sobre diversos assuntos. "Aqui estamos, senhores", disse John, apontando rigorosamente enquanto respirava com dificuldade. "Podem se sentar onde se sentirem mais confortáveis." John saiu rapidamente, sabendo que um olhar de reprovação de qualquer um daqueles homens poderia lhe custar o emprego. Os homens devoraram os donuts e bagels sem perder tempo, e cada um foi convidado a preparar um café personalizado ao seu gosto. Cada investidor sentou-se em uma cadeira, com uma expressão de indiferença a qualquer conversa fiada. Richard Dickenson entrou na sala."Boa tarde, senhores", disse ele com firmeza, fechando a porta atrás de si. "O motivo de tê-los reunido aqui hoje, como sabem, é oferecer a oportunidade de embarcar em um projeto que nos permitirá dominar estrategicamente todo um hemisfério."O Sr. Countenance ajeitou-se na cadeira com um ar de curiosidade. Os outros homens continuaram ouvindo. Richard segurava um mapa grande e detalhado da composição geológica da América do Sul, destacando especialmente os rios e as florestas do Brasil — uma escolha, de fato, estratégica. "Vejam, senhores! Esta é a foz do Amazonas. Ao passar por estas ilhas, o rio se divide em dois.""Hum... Sim, estou vendo", disse Dick, acompanhado por murmúrios de concordância dos outros. "Continue, Sr. Dickenson. Acho que sei aonde o senhor quer chegar." Todos aqueles homens atuavam no setor de transporte marítimo, distribuição ou importação e exportação. Eles falavam a mesma língua.Richard diminuiu levemente a iluminação e passou para o próximo slide. A imagem mostrava uma visão mais ampla da América do Sul. Várias vias navegáveis ​​iluminavam a tela. Os investidores inclinaram-se para a frente."Este projeto é maior do que um estaleiro", disse Richard calmamente. "É uma rede de transporte."A sala permaneceu em silêncio. Richard continuou: "Por gerações, governos gastaram fortunas construindo estradas e ferrovias em terrenos de difícil acesso."Um mapa da Bacia Amazônica surgiu. "Já possuímos o maior sistema de transporte da América do Sul."O Sr. Caviling franziu a testa. "Não estou acompanhando."Richard sorriu. "A natureza já o construiu."Sua mão percorreu a tela. "O Amazonas e seus afluentes chegam mais longe do que a maioria dos planejadores de transporte imagina."Vários investidores trocaram olhares. Agora, eles estavam prestando atenção. "Se estabelecermos pontos de acesso estratégicos, instalações de apoio, centros de transporte e, futuramente, rotas de expansão para o interior, ganharemos acesso a mercados que muitos concorrentes ignoram."O Sr. Countenance assentiu lentamente. Richard percebeu que a ficha estava caindo. Os investidores haviam chegado esperando um porto; o que ouviam agora parecia algo muito maior. Só então Richard avançou para o slide seguinte e prosseguiu com sua apresentação original.Richard continuou: "Construiremos um enorme estaleiro! Bem aqui, onde o rio se divide em dois." "Refiro-me a uma instalação enorme e de última geração. Quero pátio de serviços, terminais de transporte rodoviário, etc. — quero o pacote completo."O Sr. Caviling começou a coçar o queixo enquanto respondia: "E como isso permitiria o tipo de domínio de que você fala?""Ah! Simples! Veja, o Rio Amazonas é muito navegável. Ele tem vários braços que se conectam a diferentes partes da América do Sul, como você pode ver aqui. É possível chegar à maior parte do continente apenas de barco. Utilizando alguns lagos ou canais artificiais — dependendo das recomendações dos empreiteiros —, poderíamos centralizar as Américas. Olhe!" Apontando com firmeza para o mapa — ele já havia montado a tela de projeção e exibido vários outros mapas —, seu ponteiro se movia rapidamente, assim como seus lábios durante os comentários seguintes. "Veja, bem aqui em Cuiabá: se construirmos um canal artificial aqui — ou até mesmo uma hidrelétrica — e outro a cerca de cem milhas a nordeste, podemos conectar dois pontos estratégicos fundamentais. Com terminais de transporte rodoviário, poderemos abastecer toda a extremidade sul do Brasil. Os territórios de Minas Gerais, São Paulo e também, aqui, o Mato Grosso, são alguns dos inúmeros lugares que ficarão sob nosso controle logístico. E não precisaremos nos preocupar com a parte norte do Brasil nem com o Peru, a Bolívia e a Colômbia, como você pode ver."Richard começou a apontar com ainda mais vigor, descontando toda a sua empolgação na tela de projeção. "Os muitos braços dos rios se estendem pelo território de que precisamos. Pense no café da Colômbia ou no açúcar do norte do Brasil. Em relação à América do Sul, podemos realizar o transporte tanto para fora quanto internamente." Ele apontava novamente. "Boa Vista, Manaus, Rio Branco e Porto Velho: todas têm seus próprios portos. Então! Podemos ser a fonte e o canal de escoamento delas para as regiões norte e leste do globo.""Com licença", disse o Sr. Caviling. "Parece-me que a extremidade sul não teria uma cobertura adequada. Como você vê! Como você gosta de dizer, os rios não chegam tão longe. Veja!" O homem apontava de forma ainda mais agressiva do que Richard, e isso era claramente perceptível. "Aquelas cidades no litoral, bem ali." Ele apontava continuamente para a área em questão e aguardava uma resposta."Sim, senhor, boa observação! Como o senhor sabe, qualquer empreendimento tem seus prós e contras, mas é por isso que concentramos nossos terminais de caminhões nestes dois locais de canais artificiais." Richard apontava agora como se aquilo tivesse virado uma competição. "Devido à alta densidade populacional no Sul do Brasil, há estradas suficientes para facilitar a criação de um sistema de transporte confiável de e para esses dois pontos. Cuiabá será o local do segundo estaleiro, mas, por enquanto, teremos apenas pontos de parada para caminhões no final de cada um desses quatro rios. Expandir nossa distribuição para outras áreas — seja com uma fábrica, um estaleiro ou até mesmo um terminal de caminhões — seria barato, graças à mão de obra de baixo custo. Se fosse realmente necessário, poderíamos usar essa rota." Ele agora apontava para o local do projeto e deslizava o indicador em direção à foz do Amazonas, com uma paixão elegante. Ele percorreu o litoral brasileiro até chegar à cidade de Pelotas. "Veja bem, o terreno já foi comprado. Só estamos esperando para começar o processo de construção."George recostou-se na cadeira com um olhar de entusiasmo, enquanto Neuheisil perguntava aos outros o que achavam até aquele momento. Tony Palanas permaneceu em silêncio o tempo todo, assimilando informações em ritmo acelerado. O Sr. Caviling soltou de repente: "Isso não fica no meio de uma floresta?"Dick interrompeu-o ansiosamente: "Sim, e não uma floresta qualquer. Na verdade, uma floresta tropical densa."Em tom combativo, Richard exclamou: "Senhores! Estamos perdendo de vista o panorama geral, que é um grande empreendimento. Claro que haverá o desafio do desmatamento necessário, mas, com nosso esforço conjunto, não será tão penoso quanto seria se apenas um ou alguns de nós assumissem esse projeto sozinhos. Se for preciso, no entanto, seguirei em frente por conta própria, como um soldado solitário. Mas aviso aos senhores: há empresas na fila esperando para derrubar aquela maldita selva e criar algo civilizado." Os investidores já estavam praticamente convencidos, mas, naquele momento, ele queria ir além. Queria ter a garantia de que ninguém desistiria. "Senhores, convido-os a vivenciar pessoalmente o que preparei para este projeto. Também desfrutaremos de algumas comemorações." Ele pegou sua pasta e tirou um envelope, entregando a todos passagens aéreas para seu jato particular, que estava estacionado em uma área reservada do aeroporto internacional. Além da hospedagem em hotel, os senhores aceitaram o convite, com a curiosidade estampada em seus rostos.Dick soltou de imediato: "Um pouco de descanso e lazer cairia bem." Richard despediu-se dos homens enquanto eles partiam e depois voltou ao seu escritório para aproveitar o momento. Ao recostar-se em sua poltrona confortável, um sorriso de entusiasmo iluminou seu rosto enquanto verificava as mensagens. Havia algumas sem importância, que podiam ser ignoradas. Sua postura relaxada teria de impressionar ainda mais os investidores durante as férias. Ele pegou o telefone e apertou um botão."Sim?""John", gritou Richard. "Venha ao meu escritório, por favor." Richard aguardou enquanto usava pedaços de papel amassados ​​para treinar seus arremessos de basquete. John espiou pela porta e, antes mesmo de entrar completamente, Richard anunciou: "Estou saindo em breve. Certifique-se de que aqueles relatórios estejam finalizados. A Judy já fechou negócio com a Data Inc.?""Não, senhor, ainda não.""Olha, só porque este projeto está prestes a mudar tudo, não significa que possamos nos acomodar. Continuamos sendo quem somos.""Considere feito, senhor!" Enquanto John fechava a porta, Richard Dickenson saía logo atrás, ansioso para chegar em casa e encontrar a esposa após um dia longo e agitado. Chegando em casa animado, ele entrou e percebeu que o sentimento da família era recíproco. Não era por terem tido um bom dia no trabalho, mas sim porque o chefe da família estava em casa."Papai!", gritou o caçula. Isso foi seguido por uma recepção calorosa de sua esposa. Ele aceitou as boas-vindas como um rei, pois havia uma aura de intocabilidade e certa arrogância em sua postura. Ele não perdeu tempo e contou a ela sobre as férias, de maneira tranquila e entusiasmada. "Arrume suas coisas, querida. Vamos para a América do Sul.""O quê? Assim, de última hora?""Eu avisei.""É, hoje de manhã." "Eu não sabia que seria tão cedo.""Convidei os investidores para passar umas férias.""O quê? Assim, do nada — vamos tirar férias?""Já os convenci praticamente. Só quero que eles sintam o clima; assim, não haverá dúvidas nem hesitações mais tarde.""Tá bom!" Com uma leve hesitação e um sorriso no rosto, ela continuou: "E o Boo? Quando, onde e por quanto tempo?""Bem, querida, vamos para Macapá, para termos aquela experiência de que falei. Vai haver um jantar, mas passaremos a maior parte do tempo no hotel comigo."Ela se aproximou dele e disse: "Isso já soa um pouco melhor.""Pelo menos no primeiro dia. Veja bem, eu tinha planejado uma viagem de três dias, mas não há nada de espetacular em Macapá. A maior parte do tempo será passada no hotel.""Ótimo, querido. Quando vamos?""Amanhã de manhã.""Bom, vou preparar minhas coisas e cuidar dos preparativos..."...preparativos para o nosso bebê."CAPÍTULO DOISEnquanto isso, em uma universidade de prestígio, o professor Julian Akbar fazia o que mais amava: estudar culturas antigas e tribos indígenas. Ele estava prestes a anunciar um intervalo em uma de suas aulas de história avançada quando, de repente, uma aluna perguntou de supetão: "Qual o senhor acha que foi o motivo? Digo, o senhor sabe por que eles foram deixados para trás?""Bem, Amy! As civilizações geralmente surgem onde o ambiente é favorável, e suspeito que alguns desses povos tenham ficado isolados dessas áreas de desenvolvimento civilizatório.""Como eles sobreviveram, então?""Lembre-se: alguns desses povos antigos conheciam a natureza melhor do que nós hoje.""Dr. Akbar, como isso é possível? Sendo que eles acreditavam que seus deuses eram os elementos, e vice-versa.""Bem, deixe-me perguntar: quem é o seu deus?" A aluna ficou em silêncio, e Julian continuou: "Algumas dessas histórias foram transmitidas ao longo de séculos e tidas como verdadeiras.""O senhor não acredita nisso, acredita?""No que eu acredito é irrelevante." Ele começou a ler as instruções da tarefa de casa, encerrando assim a conversa. "Certo, turma, vejo vocês na semana que vem. E não se esqueçam das redações sobre os maias. Aula encerrada!" Os alunos dispararam pela porta como se os portões de largada do Kentucky Derby tivessem se aberto. Cada aluno parecia um puro-sangue premiado galopando freneticamente. Dizer isso, porém, era pouco, pois, obviamente, aquela corrida metafórica estava realmente acontecendo — exceto para o professor; de onde estava, ele antecipava o vazio iminente da sala de aula.O silêncio tomou conta do ambiente, e uma sensação de solidão pairou no ar. Era o cenário perfeito para o professor — afinal, era isso que ele era. Sua esposa o deixara pouco tempo antes, assim como a aluna com quem tivera um caso; ela apenas desempenhara aquele papel para conseguir notas melhores. Não era segredo para ninguém, mas o professor ignorara as segundas intenções dela. Ele não tinha ninguém, nada; nada além de seu conhecimento. Seu conhecimento sobre povos — povos que nem sequer existiam mais — era vasto. Mas de que serve uma língua que ninguém mais fala? Obcecado por essa empreitada enriquecedora, no entanto, ele afastara seu único amor verdadeiro e destruíra qualquer chance de despertar o interesse de outra pessoa. Então ele ficou ali, sozinho em sua sala de aula, lendo seu livro. Parecia que ele sempre lia sentado à mesa de onde ministrava suas palestras premiadas, vestindo uma camisa de manga curta justa e uma gravata de encaixe de cor sólida. Dava a impressão de que não se importava nem um pouco com a moda.De repente, juntando suas coisas num instante, ele se dirigiu à porta. Parecia que alguém o havia acionado ao apertar um botão e ordenado abruptamente que saísse da sala. Ao chegar em casa, jogou a pasta cheia de livros e trabalhos de pesquisa sobre a bagunça que já havia se acumulado. Deixou-se cair no sofá de couro e estendeu a mão para o controle remoto. Antes de apertar o botão de ligar, porém, recorreu novamente aos seus instintos de controle remoto e disparou em direção à geladeira. Pegou uma cerveja e virou metade dela antes de voltar para o sofá. Arrotou ao se sentar e apertou o botão de ligar."E a Nação..." "Johnny, você sabe que eu te amo"... "Ele avança contra o marcador e faz o arremesso"... "Dando"... Ele continuou a percorrer os muitos canais diferentes, aparentemente indeciso sobre o que assistir. Ao ouvir seu gatinho na porta, levantou-se num salto para deixá-lo entrar, deixando o canal sintonizado, sem querer, em um noticiário. Caminhou até a porta para receber o gato enquanto a televisão continuava a pulsar. "Cientistas descobriram a rápida deterioração da camada de ozônio e que isso pode estar ligado ao aquecimento global. Temos aqui o Dr. Shaynick, professor de estudos meteorológicos e geológicos da Universidade de Berkeley.""Obrigado! O problema que enfrentamos não é a liberação humana de toxinas na atmosfera, mas a destruição dos mecanismos naturais da Terra de combate a essas toxinas nocivas. Os muitos projetos que causam desmatamento. Quanto menos árvores tivermos, pior será a nossa situação. Nós também...""Trim, trim, trim!" Apertando o botão de mudo no controle remoto, o professor atendeu o telefone. "Ei, Julian! Como você tem passado? Meu velho amigo.""Rich, é você?""Claro que sou eu. Quem você achava que era? O Mitch? Enfim, liguei para falar sobre o meu projeto." "Que projeto, Mitch... quer dizer, Rich?""É, você é muito engraçado, mas estou fazendo com que alguns investidores construam um estaleiro às margens do Amazonas.""Que ironia", respondeu o Dr. Akbar. "Acabei de ouvir uma reportagem num canal novo dizendo..." Ele fez uma breve pausa. "Algum programa, uma matéria jornalística falava sobre as florestas tropicais e o desmatamento, ou algo assim. Você não precisa derrubar árvores para realizar isso?""Bom, sim, mas isso não deve ser um problema, porque provavelmente poderíamos aproveitar a madeira de qualquer forma.""Não, Rich! Quero dizer: quem é o dono da terra? E, se for você, como a adquiriu?" Richard respondeu com uma mistura de confiança e sarcasmo."As províncias foram convencidas com um pouco de dinheiro e influência política.""Bom, você sempre soube como con..."...do seu jeito, mesmo tendo largado a faculdade.""Olha, cara, eu não me interessava por gente do passado, nem por gente que ainda vive no passado. Caramba, estamos nos tempos modernos — 'capitalização para a civilização' é o meu lema.""Você realmente parece saber o que quer. Bom, boa sorte. Se precisar de mim, é só ligar." Depois de encerrar a ligação com o professor, sentiu uma súbita vontade de dormir. No entanto, ao perceber que queria ligar para Joe Geshy, seu amigo de longa data, ele se ajeitou e ficou mais alerta. As esposas deles eram amigas por causa da relação entre os dois; a amizade parecia um tanto forçada, mas elas aceitavam de bom grado a camaradagem dos maridos. O telefone tocou muito mais vezes do que ele costumava permitir, mas a sonolência gerou preguiça e ele não desligou. A ligação foi atendida depois de uns doze toques."Alô!" respondeu Joe com uma voz grave e exausta."Joe!" gritou Richard, despertado do seu quase sono por aquela voz grave e rouca."Sim, aqui é o Joe! Quem fala? É o Rich?""Como é? As pessoas não reconhecem mais a minha voz hoje em dia?""Droga, eu estava dormindo, e não é como se você ligasse aqui com frequência também. Meu melhor amigo liga uma vez na vida e outra na morte.""Você sabe que sou muito ocupado; além disso, estou trabalhando em um projeto novo. Foi por isso que liguei. Para passar um tempo com meu camarada.""Ah, é? E aí, precisa da minha ajuda?""Ah... não." As palavras saíram arrastadas. "Só liguei para te convidar para umas férias em Macapá.""Macapá", respondeu Joe com a voz mais confusa possível. "Que diabos... ou melhor, onde diabos fica isso?""Fica na América del Sur, onde estou começando esse grande projeto novo. O que a Sra. Geshy vai fazer nos próximos dias?""Ela vai viajar por uns dias. Vai visitar meus sogros.""Ótimo!" "Então não deve ser problema você me fazer companhia, especialmente enquanto aturo aqueles investidores chatos pra caramba.""Quem?" exclamou Joe."Os investidores!""Ah, parece que essa viagem é muito importante. Acho que vou, mas, na verdade, estou surpreso que você tenha me convidado para algo assim. Imagino que já tenha até comprado minha passagem.""Com certeza. Por isso mesmo você tem que ir. Vamos voar em um dos meus jatos particulares." Joe pediu os detalhes do convite. Richard passou todas as informações e disse que o buscaria no aeroporto logo antes da apresentação.Pouco antes de encerrarem a ligação, Joe gritou: "Ei, Richard! Acabei de lembrar que não posso sair às dez, como você planejou. Teria que sair à tarde.""Ah, sem problemas! Eu deixo um voo separado à sua disposição. Olha, seu destino é vir comigo. Em breve você pode acabar trabalhando para mim e ganhando muito mais do que o valor que pega emprestado.""Ótimo!" exclamaram ambos, um após o outro. Recostando-se como um sujeito sedentário que exagerou na cerveja, Richard logo caiu no sono. Pensamentos sobre tudo o que planejava conquistar passavam por sua mente enquanto dormia; ele teve um descanso glorioso, apesar de ter acordado com o pescoço travado. Ele girou o pescoço, lenta e vigorosamente, esperando ouvir um estalo, mas sem sucesso! "Querida!" gritou ele, enquanto os dedos removiam as secreções frias acumuladas em suas pálpebras. Uma visão verdadeiramente desagradável, mas com a qual sua esposa convivia há anos — e havia aprendido a amá-lo assim mesmo.Tudo estava resolvido, e eles chegaram ao portão de embarque para encontrar os senhores que seriam entretidos por ele. "Olá, Sr. Neuheisil", disse Rich, com um tom alegre na voz. "Esta é minha esposa."Cada um dos homens disse, por sua vez: "É um prazer conhecê-la, Sra. Dickenson". Richard cumprimentou a todos individualmente e com cortesia. "Espero que aproveitem o voo, senhores — e, claro, minha apresentação e o entretenimento." Ele começou a conduzir a esposa e os senhores em direção aos portões de embarque. Todos estavam absortos em suas próprias conversas e não prestaram atenção ao sistema de som, mas dirigiram-se automaticamente aos portões para embarcar assim que o voo foi anunciado. A temperatura na rampa de acesso estava fresca — cerca de 17°C (62°F) —, mas todos estavam preparados, vestindo blazers robustos. A esposa de Rich usava uma blusa de gola alta grossa, de algodão branco-pérola da Ralph Lauren, e um colar de diamantes deslumbrante que iluminava suas roupas, parecendo combinar perfeitamente com a pulseira e o relógio que ela também usava. Ela decidiu sentar-se no assento do corredor, pois tinha pavor de aviões — especialmente de olhar pela janela durante a subida a grandes altitudes, algo que lhe causava um medo mortal, muito além de um simples nervosismo. Inclinando-se a partir do assento da janela e beijando-a com bravura, Rich garantiu-lhe, em silêncio, que tudo ficaria bem. Ela sorriu, mas, antes mesmo de poder saborear o momento, o capitão anunciava o destino do voo e instruía a todos, com firmeza, que mantivessem os cintos de segurança afivelados até segunda ordem.Ela conseguia sentir o enorme avião girar para se alinhar à pista de decolagem. Em seguida, a aeronave disparou pela longa pista ao dobro da velocidade de um carro bem ajustado, percorrendo uma distância equivalente a vários campos de futebol antes de realizar uma subida brusca, inclinando-se quarenta e cinco graus para cima. Com sua envergadura imensa, a aeronave permitia que a lei de Bernoulli entrasse em ação. Richard observava o aeroporto diminuir até parecer minúsculo, com os carros assemelhando-se a caixas de fósforos. De repente, tornaram-se pequenos demais para serem distinguidos; via-se apenas o traçado desbotado das estradas e pontos que se sobressaíam ao longo delas. Richard continuou a olhar pela janela, notando que todas as construções humanas haviam desaparecido lá embaixo, restando apenas as copas das árvores. Eram árvores densas; parecia que a Terra era feita apenas daquilo, e que nada conseguiria penetrar aquela massa verde. O avião continuava sua ascensão e, por isso, as árvores também acabaram desaparecendo de vista. De alguma forma, as nuvens não pareciam atrair tanto a atenção de Richard, levando-o a soltar de repente: "Ei, tem serviço de bordo?"Sua esposa respondeu calmamente: "Se você olhasse para o seu assento, veria o botão de chamada bem aqui."Com uma expressão sem graça, ele apertou o botão, mas logo abriu um sorriso tímido. "Ah, não tinha visto isso.""Olá, o que posso servir ao senhor?""Bem, o que vocês têm? Não vejo nenhum cardápio por aqui.""Temos apenas bebidas e petiscos.""Que tipo de bebidas e petiscos?" O tom foi áspero, e era evidente que a comissária de bordo se esforçava para não demonstrar seu descontentamento.A Sra. Dickenson disse: "Por favor, desculpe-o. Ele está apenas..." Mas Richard a interrompeu: "Ah, não! Não precisa me desculpar. Traga-me uma Coca-Cola e... hã... amendoim torrado e... o que mais? Talvez biscoitos e queijo." "Traga-me apenas uma variedade daqueles seus petiscos."O jeito como a comissária de bordo se afastou denunciava o que ela pensava: que sujeito grosseiro, insuportável e egoísta. Ela voltou com uma cesta repleta de uma variedade de castanhas, biscoitos e queijos. Havia até carne bovina defumada, semelhante a carne-seca, acompanhada de um copo com gelo e uma Coca-Cola em lata bem gelada. A Sra. Dickenson não quis nada, mas o marido devorou ​​aqueles nutrientes insuficientes. O restante do voo transcorreu tranquilamente, inclusive o pouso. Depois, todos foram conduzidos aos seus quartos de hotel.O ar da noite estava diferente do que Richard esperava. Quente. Pesado. Vibrante. O grupo entrou no hotel enquanto funcionários levavam as bagagens para os elevadores. Vários investidores admiravam a paisagem tropical visível através das janelas do saguão. Richard permaneceu perto da entrada por um momento, respirando o ar úmido. Um funcionário local estava ali perto, descarregando suprimentos de um caminhão pequeno. O homem mais velho fez uma breve pausa e olhou na direção de Richard.  "Você veio por causa da floresta?", ele perguntou.Richard sorriu com orgulho. "De certa forma."O homem assentiu lentamente. "Meu avô costumava contar histórias sobre a floresta."Richard riu discretamente. "Imagino que todos por aqui tenham histórias."O velho não sorriu. "Algumas histórias servem de aviso."Richard olhou para ele com curiosidade. "Que tipo de aviso?"O homem lançou um olhar para o horizonte escuro, além das luzes da cidade. Depois, deu de ombros. "A floresta guarda o que lhe pertence."Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada. Por fim, Richard riu baixinho. "Bem, felizmente para mim, estamos apenas pegando um pedacinho dela emprestado."O velho não respondeu. Simplesmente voltou ao trabalho. Richard balançou a cabeça e caminhou em direção aos elevadores do hotel. Na manhã seguinte, já havia quase esquecido a conversa.CAPÍTULO TRÊSNão havia muito o que fazer naquela área isolada da América do Sul, exceto aproveitar o que estava disponível nos quartos e no salão de banquetes. O salão de banquetes servia drinques variados e contava com uma banda ao vivo, contratada para tocar uma inesperada melodia brasileira. O som da banda era vibrante, conferindo ao ambiente uma atmosfera verdadeiramente tropical. Os quartos eram espaçosos e, na verdade, pareciam suítes; no entanto — e surpreendentemente —, não havia telefones nem televisores. Eles eram equipados com saunas, e as varandas davam para vastas planícies. Os quartos estavam longe de oferecer recursos tecnológicos, transmitindo aos ocupantes o verdadeiro significado do termo "terceiro mundo".Ainda assim, os homens sentiam-se confortáveis ​​em seus quartos e aproveitaram a oportunidade para um descanso mais do que necessário. Eles precisariam dessa energia para a apresentação que se aproximava, especialmente após o longo voo."Droga, nada de telefones!" Rich sacou o celular enquanto lançava um olhar rápido para a esposa. "Acho que ele está a caminho", disse ele, após deixar o telefone tocar várias vezes sem resposta; ao desligar, acrescentou: "Querida, preciso ir ver se o barco de transporte está pronto."A Sra. Dickenson assentiu, demonstrando aceitação, e aconselhou o marido a ter cuidado. Ele concordou com a cabeça e saiu. Não havia motivo para preocupação, dizia a si mesmo. Os helicópteros haviam sido entregues anteriormente, e uma embarcação médica estava pronta no cais. A questão não era a preparação, mas sim a consciência do que o aguardava — algo que fazia seu estômago dar nós e relaxar de forma espasmódica. Naquele momento, ele ponderava sobre a decisão de usar o barco para transportar os investidores. Achava que seria a opção mais adequada, já que a embarcação era espaçosa o suficiente para acomodar a todos a bordo. Seriam necessários dois helicópteros para transportar as sete pessoas, e ele era o único piloto disponível. Estava ansioso para chegar ao cais e garantir que tudo estivesse em ordem antes de levar os investidores. Era uma distância muito curta até o cais do imponente rio Amazonas, na região sudoeste de Macapá, no Brasil! A paisagem tropical dominava o cenário enquanto ele seguia viagem em uma carroça puxada por cavalos. Diante de seus olhos, dois belos helicópteros e um barco — flutuando imponente ao fundo — testemunhavam os preparativos realizados para aquele projeto. Muitos brasileiros circulavam pelo local — havia mais gente do que o habitual, pois era impossível não notar a chegada dos americanos.Enquanto Richard inspecionava a embarcação, um estivador idoso observava tudo à distância. Por fim, o velho se aproximou. "Vai viajar muito floresta adentro?", perguntou.Richard assentiu. "A trabalho."O velho olhou para o rio. "O rio tem memória."Richard sorriu educadamente. "Imagino que sim."O velho balançou a cabeça. "Você brinca agora. Todo mundo brinca."Antes que Richard pudesse responder, o homem simplesmente se afastou. Richard deu de ombros e continuou sua inspeção. Ele caminhou pelo cais até seu barco; alguns estranhos chegaram a encará-lo. Não estava claro o que exatamente passava pela cabeça daqueles observadores, mas suas expressões revelavam curiosidade e admiração. Sem se deixar afetar pelos olhares, ele entrou no barco e imediatamente verificou todos os instrumentos. Navegar era um de seus hobbies, então a tarefa transcorreu com facilidade. Richard observou os instrumentos e, em seguida, olhou pela janela para a paisagem, semicerrando os olhos contra o sol.Suas emoções estavam à flor da pele, pois tudo corria maravilhosamente bem; aquele estado de espírito, somado à paisagem familiar, despertou lembranças: "Querida, vou pescar!""Tudo bem, querido." Richard pegou sua vara de pesca favorita e, com a outra mão, segurou firmemente uma caixa de equipamentos cara. Pouco depois, ele já estava saindo pelo portão em seu SUV. Os pneus cantaram, como de costume, quando ele assumiu a direção. Outros gritos — mas de tom bem diferente — soaram quando ele decidiu parar na loja de artigos de pesca do Owens. Ao abrir a porta da loja, ouviu-se o tilintar de sinetas e ele foi recebido por um ar frio e parado, que refrescou sua pele suada após a manhã quente e abafada. Aquele frescor foi bem-vindo, embora ele não demonstrasse isso abertamente, já que sua prioridade era comprar os apetrechos de pesca. Richard observou as diversas iscas e equipamentos, visivelmente indeciso sobre qual tipo escolher. Coçava o queixo e semicerrava os olhos, como se tivesse dificuldade para enxergar.Um homem de aparência bem rústica perguntou: "Que tipo de pescaria você vai fazer?""Não sei.""Vai pescar em água doce ou salgada?" "Ah, entendo. Bem, acho que água doce.""Certo, e que tipo de peixe você queria pescar?""Qualquer um que morda a isca.""Ah, entendo", disse o homem de aparência rústica, soltando uma risadinha. Ele continuou, com a voz arrastada: "Acho que você nunca saiu de barco a uma milha da costa, não é?""Já fiz muitos cruzeiros!" "Não cruzeiros! Pescaria! Você já pescou em alto-mar?""Não, não posso dizer que já tenha feito isso!""Você parece um homem de posses. Merece levar o prêmio: o maior e melhor peixe que você poderia sonhar em fisgar." Richard interessou-se pelos comentários do homem e permitiu......deixar-se atrair para uma armadilha verbal. "Qual é o seu nome?""Richard! Richard Dickenson." "Bom, Sr. Dickenson, não digo que a pesca seja um hobby sério para o senhor. Talvez o senhor cace e agora tenha decidido expandir seus horizontes. Pois deixe-me lhe dizer: pescar é a melhor experiência que alguém pode ter. Deixar-se levar pela correnteza do oceano, procurando um lugar para lançar nossas armadilhas nas profundezas, na esperança de que algo faminto e desesperado por comida morda nossos anzóis afiados e capture as maiores e mais ferozes criaturas do mar... é o melhor passatempo imaginável. Então, o senhor está no comando, Sr. Dickenson.""Pode me chamar de Richard.""Richard! Ora, o senhor nunca pilotou um barco antes?""Não! Sempre tive alguém para fazer isso por mim.""Mesmo tendo condições de contratar alguém, ainda é uma habilidade útil de se ter. O senhor pode precisar dela um dia.""Como assim? Então, o senhor dá aulas de navegação?""Ah, não! Não sou instrutor, mas cresci cercado por barcos desde que era bem pequeno. Tornei-me muito habilidoso nisso; provavelmente conseguiria até navegar pelo mundo todo com o senhor.""Provavelmente?" Richard declarou, demonstrando que não queria servir de cobaia."Ah, digo isso porque nunca tentei de fato." Richard ficou ali, olhando fixamente nos olhos do outro, antes de soltar: "O senhor não tem certeza, então receio ter que recusar.""Tenho certeza de que conseguiria se tentasse. Conheço muito bem os mapas dos oceanos e acompanho todas as condições meteorológicas atuais. A questão não é essa; trata-se de pescar. Convido o senhor a se juntar a mim na próxima vez que eu e alguns amigos formos pescar em alto-mar." Richard topou a ideia, e eles trocaram contatos rapidamente.No entanto, a força do sol brasileiro quebrou sua concentração, e esse foi seu último pensamento antes de soltar: "Droga! Esqueci! Eu precisava buscar o Joe no aeroporto." Era um aeroporto pequeno, privado e meio lúgubre, que atendia apenas aviões particulares. Ele correu para a área onde as aeronaves podiam pousar. Ao chegar àquele aeroporto minúsculo — com uma torre precária e umas quatro pistas insignificantes que, na verdade, não passavam de estradas —, ficou claro que Joe ainda não havia chegado. Richard olhou em volta e não viu ninguém por perto. "Olá? Tem alguém aí?" — gritou ele, fazendo sua voz ecoar pelo vasto espaço aberto do aeroporto."Olá, Joe! Tem alguém aqui?" — berrou, caminhando até a entrada da sala de controle da torre. Entrou na escadaria e olhou para cima; não pôde evitar soltar vários resmungos e suspiros ao perceber que teria uma subida íngreme pela frente. Imaginou que deveria haver alguém ali. Seguiu em frente com determinação. Ofegante e respirando com força — de maneira agressiva, porém controlada —, subiu os degraus. Em pouco tempo, chegou ao topo, sem sequer perceber quantos degraus havia subido. Abriu a porta à esquerda e entrou ansioso, apenas para se deparar com um console em formato de "U" e uma figura vestida com um casaco brilhante, sentada bem no centro. Olhando para cima através das janelas, observou atentamente as pistas quase vazias e, em seguida, o céu, notando um vazio inquietante. "Ei, acorde! Acorde!" — disse, pressionando a poltrona com as duas mãos e sacudindo-a com força; ouviu resmungos vindos da parte da frente do assento. Richard continuou: "Ei, acorde! Acorde" — repetindo as palavras rapidamente, uma após a outra. "Acorde, acorde!"O homem saltou da poltrona, respondendo com uma frase em um idioma estrangeiro."Ei, fale inglês" — disse Richard."Por que você fez isso?" — respondeu o homem, com um sotaque indefinível."Deveria haver um voo chegando.""Um voo" — repetiu o homem, encolhendo os ombros com curiosidade e uma expressão de aflição. "Não, senhor, não sei de nenhum voo! Não sei do que o senhor está falando." Suas palavras foram ditas com um sotaque irritante que agora parecia amplificado."Olhe, senhor" — disse Richard, então, com firmeza. "Há um voo previsto. Verifique e me ligue." Richard anotou rapidamente seu número e entregou a informação ao homem misterioso, que a aceitou com um olhar peculiar. "Isso vai ser um problema?""Não, não." Richard fez uma careta de desprezo e perguntou: "De onde diabos você é, afinal?" O homem não respondeu verbalmente; um simples aceno de mão e um movimento de cabeça pareceram bastar. Richard balançou a cabeça, decepcionado, e desceu a escada. Ansioso para voltar às suítes e reunir os investidores, ele desceu mais rápido do que havia subido. Perguntou-se onde Joe estaria no caminho de volta, mas presumiu que ele estivesse apenas atrasado. Ainda assim, a apresentação precisava começar. Joe era apenas um amigo para lhe fazer companhia, mas seus gostos contrastavam fortemente com os dos investidores, e Richard achava que isso era um elemento necessário na discussão. Ele até desejou ter esperado um pouco mais, mas os motivos de sua presença ali tinham pouco a ver com Joe. O caminho de volta às suítes parecia demorar mais agora, e sua impaciência crescia. Ao chegar ao destino — na hora certa, nem um minuto antes nem depois —, sua impaciência transformou-se em uma agressividade ansiosa, talvez até obsessão; mesmo assim, manteve a calma enquanto reunia todos os investidores. Todos haviam embarcado no barco enquanto Richard, silenciosa e rapidamente, verificava todos os instrumentos necessários. Seria uma tarefa mais difícil sem a presença de Joe. Eles haviam realizado muitas missões de navegação juntos. Seja pescando ou apenas curtindo um passeio com seus entes queridos, desta vez ele estaria sozinho, mas isso não o incomodava nem um pouco. Sua determinação em tornar aquilo um sucesso dominava todos os outros pensamentos. Soltando as últimas cordas que prendiam o barco, eles logo partiram. O barco era bem construído e tinha boa velocidade.O destino deles era uma margem de rio específica, a 160 quilômetros a sudeste de Macapá. Richard acelerou o iate de médio porte ao máximo, aplicando as habilidades náuticas que herdara — de forma indireta e bastante conveniente — durante uma visita a uma loja de artigos de pesca. Ele ouvia o vento passar velozmente pela popa do barco e também captava fragmentos de conversas intrigantes."Dick! O que você acha?", disse um dos investidores, de pé, com as duas mãos agarradas ao parapeito do barco e uma expressão visivelmente intrigada.Ele respondeu prontamente: "Acho? Sobre o quê, Peter?" "Quer dizer, aqui, no meio do nada! Você não acha um pouco exagerado estarmos aqui para uma apresentação?"O Sr. Neuheisil começou a exibir um brilho no olhar, como se tivesse todas as respostas, e respondeu com confiança. "Bem, sabe, acho que é uma boa ideia. Isso nos dá a chance de ver a realidade desse tal — entre aspas — projeto! E seu verdadeiro potencial! Até agora, tem se mostrado viável, mas só estou começando a acreditar nisso agora que ele decidiu nos trazer aqui. Devemos aproveitar ao máximo a situação e usar essa experiência para decidir se é sequer possível — ou mesmo lucrativo, aliás.""É, pois é, sabe..." Os homens continuaram a conversa informal entre si enquanto Richard conduzia o iate até o destino."Vejo que você domina a situação, Richard", exclamou Jim, que estava ao lado de Tony Palanas. "Onde exatamente você aprendeu a pilotar barcos?" Richard virou-se e viu os dois homens observando-o como detetives particulares.Ele respondeu de forma casual e gentil. "Navegar é um hobby meu há muitos e muitos anos. Um amigo me apresentou à pesca em alto-mar, e a coisa engrenou a partir daí."Dick olhou primeiro para Richard com um sorriso que demonstrava que estava impressionado. Em seguida, olhou para Jim e Tony simultaneamente, segurando o ombro de cada um e dirigindo-se aos dois. "Aqui estamos nós, deslizando pelas águas do *bayou* como exploradores da Amazônia, vivenciando de fato esta empreitada. Alguns podem ter achado, a princípio, que estar aqui era algo extremo, mas devo dizer, Richard: para mim, tem sido uma experiência verdadeiramente tropical. Quero parabenizá-lo por esta iniciativa; e espero que vocês, senhores, vejam isso como uma oportunidade de compreender realmente a realidade por trás dessa ideia." Os homens olhavam à frente, cada um com suas próprias características. Seus olhos brilharam ao se aproximarem de uma grande abertura no rio — algo que parecia um enorme lago, mas que, na verdade, era o ponto onde o rio se dividia em dois.Era ali o lugar. Richard pensou: "Agora, preciso decidir entre as margens de terra logo à frente". Ele direcionou a embarcação para o ponto onde a terra dividia o rio em dois fluxos: um para o oeste e outro para o sul. "Muito bem, senhores", disse ele, avisando a toda a tripulação, "preparem-se para atracar." Richard conduziu o barco o mais próximo possível da margem, mas percebeu que não havia onde atracar. Os homens se reuniram junto às grades laterais da embarcação enquanto Richard falava em voz alta: "Infelizmente, não previ a impossibilidade de atracar o barco — o que vai acabar sujando nossos pés —, mas vejo um bosque logo ali, uma clareira onde poderíamos ter pousado os helicópteros. Ainda assim, este é o local indicado no mapa", disse ele, erguendo o mapa para que todos pudessem vê-lo claramente. Apontando para o mapa, ele continuou: "Vejam só, senhores!"Jim interrompeu, dizendo: "Você poderia muito bem instalar uma instalação de carga e descarga ali, naquele braço do Orinoco também. O Orinoco está conectado a todo tipo de rio na Colômbia, sem falar que sua foz fica perto de Trinidad e Tobago. Se não me engano, isso pode encurtar a rota para a América."Richard olhou para ele com surpresa e respondeu: "Viu só! Você realmente entende o que estou imaginando aqui. Eles também têm ouro, petróleo e esmeraldas."Jim, com uma intenção oculta brilhando nos olhos, comentou: "Estou bem ciente do que a Colômbia tem a oferecer." Ele deu um tapinha nas costas do silencioso Tony Palanas e segurou seus ombros, agindo agora claramente como porta-voz de Tony. Tony continuava recuado na cadeira, sem dizer muito, mas estava de fato interessado. Sua família tinha laços reais na hierarquia do tráfico, e a Colômbia era uma produtora conhecida de muitos desses produtos. Esse enorme projeto de indústria de transporte e a futura operação seriam perfeitos para o tráfico e a lavagem de dinheiro. A aparente falta de interesse de Tony era apenas um estratagema. Na verdade, ele estava ansioso para tirar esse projeto do papel. Aquela facilidade de acesso era uma oportunidade imperdível. O plano consistia em contrabandear mercadorias para fora da Colômbia, transferir os produtos nesse centro de controle recém-proposto e permitir que seguissem viagem a partir da costa leste da América do Sul. Com a troca para um navio totalmente diferente, seria difícil para as autoridades rastrear o destino das drogas. Ele vibrava internamente com a oportunidade, mas acabou sendo arrancado de seus devaneios.Richard falou em voz alta: "Não é só isso, cavalheiros. Podemos transportar cana-de-açúcar e arroz da Venezuela, bem como trigo, cevada e milho do Peru. Precisam de cobre? O Peru é o lugar certo! Ah, e não se esqueçam do petróleo em Guaza, recém-descoberto. Já que a Bolívia se recusa a investir — ou talvez não tenha capital —, nós podemos ser a fonte do capital deles. Podemos nos tornar proprietários parciais da Bolívia. Lembrem-se, eu falei aos senhores sobre os depósitos em Cuiabá." Ele apontou mais uma vez, com uma agressividade que capturou a atenção de todos os homens. "Estão vendo este rio?" ...isso nos permite enviar cargas para o Paraguai e o Uruguai e, finalmente, sair pelo Rio da Prata."Esse comentário final de Richard arrancou grunhidos de aprovação, e Dick sugeriu: "Acho que isso também nos dá acesso à Argentina. O que eles têm a oferecer, Sr. Dickenson?""Bem, aquele país tem Buenos Aires, uma grande cidade portuária próxima a Córdoba. Eles produzem automóveis e ônibus.""Hmm!", disse Dick, mas Richard não lhe deu chance de dizer nada, pois continuou a falar sem parar."Vejam, senhores: embora não possamos caminhar em terra firme, acredito que todos já tenham uma ideia de para onde esse projeto vai caminhar. Primeiro, precisamos definir o local para o contrato."Peter comentou: "Não sabemos se um projeto dessa magnitude é sequer viável; além disso, qual é a viabilidade de construção neste terreno?"Richard disparou, entusiasmado: "Claro! É por isso que agendei a vinda de uma equipe de topografia e alguns engenheiros para construir — bem, antes de tudo — um local para atracar este barco. Eles farão medições e levantamentos, ou seja lá o que for que eles façam. Vejam! Eu não disse que esse plano seria isento de obstáculos, mas garanto que os engenheiros provavelmente aprovarão este local para a referida construção." ...e estaremos a caminho de construir um império de transporte marítimo."De repente, o olhar de Richard tornou-se aguçado ao voltar-se para a terra firme. Pouco antes de abrir a boca novamente, ele notou algo que parecia cruzar a floresta — ou mover-se por entre ela — em disparada. Sua expressão revelava perplexidade, mas ele logo tratou de disfarçá-la, engolindo em seco. Ele quase levou a mão à cabeça, prestes a perguntar em voz alta: "O que era aquilo?". No entanto, o pensamento que realmente lhe ocorreu foi: "Quem era aquele?". Parecia um homem completamente nu correndo e desviando-se da densa vegetação. Ele tinha quase certeza de que era uma pessoa, pois notara olhos espiando por trás de uma árvore, logo antes de o vulto se tornar apenas um borrão. Houve um contato visual direto — olho no olho —, e foi isso que deixou Richard tão perturbado. Aqueles olhos pareciam fixos nele antes de a figura — fosse homem, mulher ou outra coisa — fugir.O devaneio de Richard foi interrompido por Jim: "Algum problema? Parece que você viu um fantasma.""Ah, não! Achei apenas que tinha visto um cervo ou algo assim." *Trim! Trim!* O toque alto do telefone interrompeu o momento. "Com licença, senhores." Ele atendeu prontamente. "Sim", disse ele, aguardando então, com paciência, uma resposta."Senhor, sobre aquele voo de que o senhor falou mais cedo... Ele deve chegar em umas duas horas. Eles decolaram... Acabei de receber a mensagem do piloto.""Certo, ótimo!" Richard olhou para o relógio e percebeu que já era meio da tarde. Lembrou-se, então, de que Joe deveria ter vindo naquele voo mais tardio desde o início. Mesmo assim, ele manobrou o barco e eles rumaram de volta para Macapá. Todos aproveitaram o trajeto de retorno, pois o calor do sol começava a diminuir, tornando a viagem mais agradável. Eles beberam um pouco e estavam bastante animados com a perspectiva de ganhar tanto dinheiro com......o projeto, e eles não perceberam que estavam quase chegando ao destino. Finalmente, todos desembarcaram e seguiram para o salão de banquetes para continuar se empanturrando de bebidas alcoólicas.CAPÍTULO QUATROAo chegar ao pequeno aeroporto, Richard viu Joe sentado, à sua espera. Richard desceu da carroça e aproximou-se do prédio. "Ei, Joe! Joe!" exclamou Richard."Rich! Rich, ei, Richard... Velho amigo, como vão as coisas?""Vão bem, Joe. E com você?""Uma maravilha. Vejo que você nos trouxe para o meio dos trópicos e essa porra toda." Fazendo uma breve pausa enquanto se afastavam do prédio, Joe soltou, de forma engraçada: "Puta merda, temos um cavalo e uma carroça! Caramba! Que diabos está acontecendo? Quer dizer, você falou algo sobre um projeto, mas, caramba! Eu não fazia ideia." Os dois homens subiram na carruagem e seguiram para as suítes. "Então, o que exatamente estamos fazendo aqui?""Bom, Joe, eu realmente chamei você para me ajudar na navegação, mas sua chegada atrasada acabou com esse plano.""Ora, me desculpe, mas que navegação?" Ele falou com franqueza e ingenuidade."Acabei de levar os investidores para um passeio de barco até o canteiro de obras principal.""Espere um pouco, calma aí! Investidores? Passeio de barco? Navegação? Você está me confundindo.""Joe! Lembra quando liguei para convidá-lo para a apresentação? Preciso do capital deles.""Ah, entendi. Você está colocando suas técnicas de trambique em prática. Ainda não entendo a parte do passeio de barco.""Caramba, Joe, use a imaginação. O projeto fica a cerca de 160 quilômetros a sudoeste daqui, viajando de barco pelo Amazonas.""Rapaz, você é mesmo um aventureiro. Você me meteu nessa merda há muito tempo, falando de pesca em alto-mar e essas coisas. Imagino que precisasse da minha ajuda no barco.""Não! Jura?""Ei", disse Joe de forma incisiva, fazendo uma pausa longa o suficiente para garantir que havia captado a atenção do Sr. Dickenson. "Vai se foder, tá? Você provavelmente queria que eu fizesse todo o trabalho enquanto você ficava de papo furado com gente mais rica que você. Isso sim seria uma cena e tanto."Um sorriso surgiu no rosto de Rich enquanto os homens se aproximavam das suítes, mas durou pouco, pois ele começou a falar sem parar: "Ei, o sol ainda tem algumas horas de luz." "Vamos pegar o helicóptero até o local.""Que local, cara!?""Droga, Joe! Onde o estaleiro vai ser construído.""Estaleiro! Eu já sabia que você era louco, mas, caramba! Isso eu não imaginava.""Dizem que todo gênio é louco, e vejo que você não tem prestado atenção em nada do que eu disse.""Calma aí, Rich. Eu tenho prestado atenção, sim. A viagem foi longa e eu não recusaria um daqueles drinques tropicais.""Qual é, Joe, eu não tive chance de vistoriar o terreno.""Bom, por que não?", exclamou Joe, num tom inaceitável."Não tivemos chance de construir um píer, e isso nos impediu de desembarcar do barco. Eu não queria pegar os barcos menores com aqueles paspalhos inexperientes." Joe recuou, com um ar divertido, enquanto ouvia Rich. "Meu plano é pegar os helicópteros, construir um píer e avaliar o terreno. Conseguir a aprovação de um engenheiro para a construção e deixar o dinheiro dos meus investidores fazer o resto. Quero pelo menos saber o que vou enfrentar." Richard proferiu esses últimos comentários de forma incomumente distraída; a imagem do homem completamente nu talvez lhe tenha passado pela cabeça. No entanto, ele continuou: "Além disso, você não precisa dessa porcaria de álcool. Isso pode te matar.""Tá bom, tá bom, mas eu sou um homem feito e vou tomar vários desses drinques assim que voltarmos dessa sua obsessão estranha — ou jornada, ou até mesmo missão, seja lá o que for. Alguma coisa! Alguma coisa deu em você."Richard parecia preocupado, mas conseguiu exclamar com rispidez: "O quê?!""Você me ouviu! Esse seu jeito louco vai acabar te matando um dia.""Ah, é? Bom, pelo menos não vou morrer velho sem ter feito nada além de devorar cevada e lúpulo e fumar charutos até meus pulmões parecerem um caldeirão de piche fervente, estressado por trabalho braçal pesado e revoltado com todas as coisas que eu poderia ter feito." Uma risadinha silenciosa e contida, que soava como a letra "K", escapou da boca de Joe. "Vamos nessa!" Richard saltou primeiro, seguido por Joe. Os dois homens aproximaram-se da área onde os helicópteros estavam parados. Na torre grande, o velho lançou um olhar rápido aos homens antes de voltar ao seu livro e enfiar uma fruta desconhecida na boca. "Não deve levar muito mais do que trinta minutos para chegarmos ao local." Ambos embarcaram e acomodaram-se devidamente.Richard verificou os instrumentos e logo partiram. "Como está a Claira?"  "Ah, ela está bem. Ela teve aquela reunião e está realmente crescendo na carreira. Tenho orgulho das conquistas dela, e especialmente do papel dela como esposa. Está tudo bem com você e a Susan?""Ah, claro! Com certeza! Ela está no quarto me esperando.""Puxa, que sorte a nossa." Antes que Richard pudesse aproveitar o elogio, Joe continuou tagarelando. "Ou melhor, que azar. Tantas mulheres brasileiras lindas.""Você é casado!""Eu sei, eu sei! Homem é homem. Você entende o que eu quero dizer.""É, pois é! Vai acabar fazendo besteira e trazendo um belo caso de malária para a Claira.""Ah, engraçadinho!""Ei, Joe, você sabe que é um grande amigo meu e fico muito feliz que tenha conseguido vir." O tom dele de repente fica mais suave, menos obsessivo."É, cara, sem problemas." Um silêncio se instalou e, de repente, o zumbido das pás do helicóptero tornou-se mais perceptível. O voo foi bem tranquilo e, logo, eles estavam se aproximando do local. Richard olhou para baixo para focar exatamente onde queria pousar."Ei, Rich, você sabe onde vai soltar essa belezinha?""Sim!" Richard exclamou com um toque de irritação. "Identifiquei este local quando trouxe os investidores aqui.""É, se você diz." O helicóptero desceu exatamente onde Richard queria pousar, e os homens saltaram rapidamente depois que Rich reduziu a velocidade dos rotores. "Caramba, cara!""O que foi agora, Joe?""Este chão está meio lamacento.""É, bom, vamos subir um pouco a margem. Provavelmente o chão está seco lá em cima." Eles caminharam uma certa distância do rio, notando todos os sons de pássaros selvagens, insetos e outras criaturas não identificadas à espreita na floresta. Os dois homens não perceberam os olhos ocultos atrás das árvores que escondiam os observadores.Richard lembrou-se de algo que o professor Akbar havia dito durante o voo: "O erro que as pessoas modernas cometem é presumir que as histórias antigas existiam apenas para entretenimento". Na época, Richard havia descartado o comentário. Ali, sob a copa da floresta tropical, aquilo parecia menos divertido. Eram os olhos atentos de muitos homens em meio a uma cerimônia. Richard caminhava com dignidade, indiferente aos sons inquietantes da selva. Eles percorriam uma trilha que abria naturalmente uma pequena clareira na floresta. Joe olhava ao redor repetidamente, tentando localizar a fonte daqueles sons.A trilha terminou, mas aquela nova área oferecia caminhos em várias direções. A densa copa das árvores bloqueava a luz do sol, limitando a visibilidade a uma distância de apenas quinze a vinte metros. Além disso, a visão era obstruída por um emaranhado de árvores cobertas por cipós tropicais. Richard permaneceu a cerca de seis metros de distância, num canto, ouvindo Joe comentar sobre o ambiente ao redor."Aquilo é um papagaio? Nunca vi um pássaro com tantas cores diferentes e tão vivas. Daqui a pouco você vai me ver conversando com pássaros selvagens.""Bom, Joe, isso combina com você. Tenho certeza de que vocês teriam muito em comum", respondeu Richard com extremo sarcasmo, como era de costume entre os dois amigos.Joe reagiu, primeiro com um olhar que demonstrava impaciência. "Olha só!" — disse ele com firmeza — "você já me trouxe para uma versão ocidental da nossa terra natal, fazendo a gente achar que faz parte da nação Harubu. Sua vadia...!" Ele falou arrastando a palavra, mas com firmeza e um tom que parecia carregado de ódio. No entanto, não era o caso. Os dois amigos estavam acostumados com aquele humor ácido; fazia parte da maneira brincalhona como costumavam interagir."Podíamos até pintar o rosto e segurar lanças enquanto entoamos sílabas que nunca ouvimos antes; quem sabe entrar em coma com alguma dessas plantas psicodélicas desconhecidas."Richard não conseguiu evitar risadinhas e um sorriso de canto. "Você é um tremendo idiota." Ele continuou rindo."Você está rindo, mas estou falando sério", respondeu Joe, também com um sorriso de canto. Os homens atravessaram a outra extremidade da clareira. Começaram a seguir por outro caminho e, à frente deles, havia olhos que os observavam, mas os dois amigos não perceberam. Richard ia à frente e Joe o seguia, ainda alheios ao fato de estarem sendo vigiados. Onde estava o observador? Em uma árvore? Era impossível saber, já que eles não notaram a presença daqueles olhos. Os dois amigos não conseguiam ouvi-los, mas havia cânticos de grande louvor e o som de madeira batendo, como se tambores primitivos estivessem sendo tocados. O sol descia em direção ao horizonte ocidental. Sons de instrumentos de corda primitivos também ecoavam, fundindo-se harmoniosamente com o rumor da floresta ao cair da noite. Uma névoa sombria se dissipava, assim como uma aura de misticismo. Imagens de dançarinos primitivos e espíritos indígenas surgiam em lampejos, acompanhadas por sons de dança e cânticos; a intensidade crescia vertiginosamente, mas Rich e seu companheiro nada ouviam. De fato, para eles, aquilo sequer existia. Os olhos pertenciam a homens reais, mas também aos espíritos que estavam sendo invocados. Os sons se tornavam mais altos e as imagens piscavam com maior intensidade à medida que o crepúsculo os envolvia."Richard, está escurecendo." Richard caminhava como se não ouvisse o amigo falando com ele. "Não sei o que você está tentando fazer aqui fora. Digo, aqui longe, numa terra de ninguém. Quer dizer, provavelmente existem espécies que ainda não vimos. E você me trouxe para cá depois do pôr do sol. É uma merda aqui fora; e se aparecer um maldito felino selvagem, ou uma porra de um... hã... hã... qualquer merda que seja? Tem todo tipo de merda aqui. Nem sei dar nome às coisas. E você quer vir aqui cavar e fuçar em tudo. Algo deu em você — e dizer isso é pouco. Você é simplesmente louco. Sinto como se estivesse na antiga civilização asteca."Com seu devaneio bruscamente interrompido, Richard respondeu: "Perdoe minha insolência, mas isso já era de se esperar. Com sua capacidade mental — por mais obtusa que seja —, você não conseguiria nem começar a compreender os benefícios.""Ah, vai se foder, você e o que quer que tenha dito. Só porque você é o Rich, o Rich! Você sabe que eu falo o que penso.""Acho melhor voltarmos", disse Richard rapidamente. "Apenas me siga por esta trilha que percorremos antes.""Espero que você saiba como sair desta selva.""Joe, não seja tolo." Enquanto caminhavam em busca do local onde haviam aterrissado, os sons da noite agora se sobrepunham aos ruídos que ouviam antes. Seus ouvidos enviavam aos cérebros mensagens ainda mais inquietantes. Joe olhava em volta, em pânico, tentando localizar um som que seus ouvidos continuavam a captar, mas que sua mente não conseguia identificar. Richard caminhava rápido, e Joe parecia ficar cada vez mais para trás. Os sons misteriosos da floresta e o terreno selvagem desconhecido o atrasavam. Então, de repente, ele começou a correr morro acima, perpendicularmente à trilha. "Preciso fazer xixi. Espera aí, cara, espera!" Richard estava muito à frente e mal o ouviu."O quê, Joe?" Ele continuou caminhando, indiferente aos observadores e aos sons."Merda!" respondeu Joe. Pensou consigo mesmo: "Droga, devo ter escorregado para o outro lado". A necessidade de urinar, porém, continuava a mesma. Ele gritou: "Richard, Richard!" Richard parou onde estava, bem à frente, virou-se e respondeu em voz baixa: "Joe, o quê? Onde você está?" Ele falou calmamente, parado no lugar e demonstrando um pouco de impaciência. Começou a caminhar lentamente na direção dos gritos de Joe. Joe decidiu que precisava esvaziar a bexiga naquele momento. Escolheu uma árvore enorme para subir e fazer suas necessidades. Presumivelmente, não havia ninguém olhando, mas ele decidiu escolher uma árvore para se esconder mesmo assim. Ele provavelmente estava acostumado com bordos ou carvalhos gigantes, cujas raízes salientes serviam normalmente como degraus. Joe fez o que estava acostumado e desfrutou de um dos melhores alívios de todos os tempos. De pé sobre duas raízes enormes, ele se deixou levar. Jogou a cabeça para trás e relaxou enquanto aproveitava aquele esvaziamento tão necessário. Quando as últimas gotas caíam, ele inclinou a cabeça ainda mais para trás e sentiu um arrepio percorrer seu corpo. "Droga!", gritou Joe. Seu corpo foi projetado para a frente quando o chão cedeu repentinamente sob seus pés. Parecia que a superfície abaixo havia desabado. O que aconteceu com as raízes em que ele estava apoiado? Isso era a última coisa em que ele pensava. "Droga, caramba!", gritou Joe, e então repetiu o nome do amigo em voz alta, várias vezes. "Richard! Richard! Estou preso em algum tipo de armadilha. Droga, cara, venha me tirar dessa merda."Com um sorriso surgindo no rosto, Rich respondeu: "Já vou, já vou." Depois de gritar, Richard murmurou para si mesmo: "Em que enrascada ele se meteu agora?" Richard caminhou para a frente, mas logo começou a gritar novamente."Joe! Sabe, quando você fala mal da terra, ela não é nada gentil com você." Joe não conseguia ouvi-lo de fato; ele ainda estava a uma boa distância. "Ei! Ei! Droga, droga!", gritava Joe a plenos pulmões. Ele continuou, com um desespero crescente: "Está me apertando. Estou sendo... Droga, cara, tem algo me apertando. Aaa! Aaa!", gritava Joe. Richard começou a perceber, ainda que vagamente, que seu amigo estava em apuros. "Estou chegando, Joe", respondeu Richard, acelerando o passo em direção aos gritos. Joe continuava a lutar enquanto algo, vindo de baixo, prendia suas pernas. Ele não compreendia o misticismo por trás do ataque; sabia apenas que algo apertava suas pernas com força extrema. O que quer que fosse as mantinha presas, e a sensação era a de sucuris enroladas nelas, esmagando-as. Ele mal conseguia gritar, exausto pelos esforços para se libertar. Logo acima, dois galhos enormes despencaram sobre a cabeça de Joe. Ele não os notou, pois estava prestes a desmaiar. Os galhos racharam seu crânio, e uma substância espessa e viscosa escorreu por seu rosto grotesco.Richard desceu a mesma encosta que Joe e correu pela trilha. Ele gritava: "Joe, Joe". Achava estranho não ouvir mais a voz alta do amigo. "Joe, Joe", exclamava Richard repetidamente, correndo em círculos freneticamente. Por fim, deparou-se com o que restara de Joe. Tropeçou em meio à corrida, e seu rosto refletiu imediatamente a descrença e o choque. Parou de vez, curvou-se apoiando as mãos nos joelhos e começou a vomitar profusamente. Percebeu que Joe estava definitivamente morto, soterrado da cintura para baixo junto a uma árvore. Não ficou ali por muito tempo; virou-se e correu o mais rápido que pôde pelo mesmo caminho, sem parar. A imagem do crânio fraturado de Joe não saía de sua mente. Era uma visão horripilante, capaz de levar qualquer um ao desespero.Tropeçando algumas vezes, Richard finalmente chegou ao terreno lamacento onde pousara o helicóptero. Seus pés ficavam presos a todo instante enquanto percorria os últimos quinze metros antes de saltar para dentro de seu módulo de fuga. Lama pingava de seus pés e o suor escorria de seu rosto, resultado da hiperventilação e do pânico absoluto. Richard ligou o motor, comandando a decolagem. A aeronave conseguiu subir, apesar de estar parcialmente enterrada no solo macio; Richard não notava nada além das imagens que passavam por sua mente. O pânico total dominava seus pensamentos enquanto ele manipulava os instrumentos complexos. Durante todo o voo, seus olhos mantiveram um olhar fixo e sereno, capaz de hipnotizar qualquer um que ousasse encará-los. Respirando de forma frenética, imagens passavam por sua mente mais rapidamente do que antes. Então, ele notou a torre à sua direita e o local onde o outro helicóptero estava parado, intocado. Rapidamente, ele comandou a aeronave para descer, inclinando-se quarenta e cinco graus para a direita. Richard não fazia ideia do que havia acontecido; na verdade, a confusão era apenas uma pequena parte do que fervilhava dentro dele. O helicóptero pousou em segurança, embora de forma brusca, enquanto Rich continuava a lutar com sua própria mente. Manter o controle mostrava-se uma tarefa árdua e, de fato, terrível. Ele saltou da aeronave e correu pelo campo, parecendo extremamente ansioso. O voo errático despertou a atenção do homenzinho na torre, que agora observava Richard correr em direção ao veículo mais próximo. Completamente intrigado, o homenzinho coçou a cabeça, sentou-se e apenas deu de ombros.Richard chegou ao seu quarto, com a paranoia dominando seu estado de espírito. Fez um esforço visível para girar a maçaneta da porta e entrou, fechando-a rapidamente atrás de si, tomado pela ansiedade."Ei, Boo... O que houve?" perguntou a Sra. Dickenson, aguardando com curiosidade a resposta do marido."O quê?" Ele falou de forma brusca ao voltar a si. "Ah, não há nada de errado!""Então por que você fechou a porta como se algo estivesse te perseguindo?" Richard virou-se e olhou para a porta, fazendo uma pausa antes de dizer: "Não percebi que a tinha fechado de um jeito específico."Os olhos da Sra. Dickenson revelavam sua preocupação. "Bom, por que você demorou tanto? Os investidores estão no salão de banquetes esperando por você. E você buscou o Joe?"Richard ouviu com ar preocupado e respondeu de forma desconfiada. "Esse foi o problema. Recebi uma ligação avisando que o voo dele atrasaria. Fui buscá-lo, mas ele não apareceu." Ele sentou-se na cama, fazendo gestos nervosos, e rejeitou os toques gentis e as palavras de conforto da esposa."Olha, Boo, você está deixando esse projeto te afetar; talvez precise...""Talvez eu não precise de porra nenhuma!" Richard exclamou com rispidez. "Não preciso de nada. Veja, este projeto é muito importante e certamente causa certa ansiedade." "Tudo bem, querida, mas caramba! Se isso vai deixar você agindo como uma louca paranoica, então esse projeto precisa ser reavaliado."Olha aqui, sua vadia! Não preciso que você fique pegando no meu pé. Não preciso de ninguém me pressionando por causa desse projeto. Fui eu quem idealizou isso, e mais ninguém."Richard levantou-se da cama, soltando-se bruscamente da esposa e indo em direção à porta. Ao bater a porta atrás de si, por algum motivo, aquilo desencadeou novamente aqueles flashes horríveis. Dessa vez, não eram imagens de Joe, mas imagens de azul. As imagens se intensificaram à medida que ele se aproximava do salão de banquetes, tornando difícil manter uma expressão serena. Agora, elas também vinham acompanhadas de algo estranho e...Lampejos vermelhos passaram rapidamente. A imagem de Joe também lhe veio à mente, mas, desta vez, havia homens cercando o falecido Joe. Logo ficou claro que aqueles homens ao redor de Joe eram as autoridades, e as luzes vermelhas e azuis vinham acompanhadas de uma sirene estridente. Richard começou a considerar a possibilidade de que a polícia atrasasse o projeto — ou até mesmo anulasse qualquer chance de os investidores o apoiarem. Com essa ideia bem clara em mente, ele recompôs a expressão e juntou-se à comemoração dos investidores.— Sr. Dickenson, ei! Onde o senhor estava? — disse Dick, alegre, logo antes de virar mais um martini goela abaixo."Pode me chamar de Rich!""Ei, cara. O que houve com você, afinal?" Dick exclamou, falando como um verdadeiro marinheiro bêbado."Senhores, senhores! Ei, Richard! Bela apresentação! Tudo correu muito bem!" Dando um tapinha na mão de Richard, Peter continuou: "Dick! Ei, você não concorda?""Claro, claro", respondeu Dick, com a fala arrastada."Você está bêbado! Ainda bem que não deixamos essa discussão inteiramente nas suas mãos." Os três homens beberam taça após taça até que a esposa de Richard atravessou a sala com uma expressão de grande insatisfação. Como de costume, Dick foi o primeiro a falar demais: "Ei, Sra. Dickenson! O que houve?"Ela respondeu calmamente: "Estou bem!", enquanto Susan passava pelos homens, revirando os olhos para Rich ao se aproximar do bar para pegar uma bebida."O que houve com sua esposa?" Richard deu de ombros e afastou-se do grupo. "Jim, venha se juntar a nós!" gritou Dick. Jim aproximou-se de Dick e Peter, segurando firmemente sua própria bebida. Dick disparou: "Ei, Jim, e aí? Projeto excelente!"Jim respondeu com cautela, usando gestos, enquanto Peter exclamava: "Acho que o Sr. Dickenson está agindo de forma um tanto estranha.""Bom, você viu que a esposa dele parecia irritada!""É, isso é motivo suficiente para qualquer homem agir de forma estranha." Peter aceitou a observação do colega, mas sua expressão ainda refletia o ceticismo anterior. "Não sei... Provavelmente são apenas problemas de casamento.""O Richard deve ter feito um 'rapidinha' com ela e escapado para vir beber com a gente.""É! Eu faço isso com a minha esposa o tempo todo.""É, Dick, mas você nunca está tentando escapar para lugar nenhum."Dick ficou parado, visivelmente confuso e tentando entender os comentários de Jim. Os homens continuaram conversando entre si, enquanto os outros investidores aproveitavam suas próprias conversas. Richard sentou-se sozinho em um sofá do saguão, com as mãos sobre o rosto e a cabeça inclinada para baixo. Jim Winterlin vinha pelo corredor; estava bêbado, mas seu olhar atento notou Richard sentado ali. "Ei... Ei, Richard! Ei, o que você está fazendo aqui? Por que não está lá entretendo seus convidados?" Richard tentou responder, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jim falou novamente. "Ei, Richard" — disse com firmeza, como se tentasse disfarçar a embriaguez. "Há algo errado? Você não parece aquele Richard superempolgado de antes. A apresentação foi um sucesso, nós mesmos estamos lhe dizendo isso; então, por que essa cara triste? Tem algo que precise nos contar?"Richard percebeu imediatamente que a entonação na voz do outro homem poderia indicar perigo — ou talvez fosse apenas sua própria paranoia — e respondeu rapidamente: "Ah, não, não há nada de errado. E não há com o que se preocupar. De jeito nenhum. Eu só quero colocar as coisas nos eixos novamente."Uma expressão de confusão surgiu no rosto de Jim. "Colocar o quê nos eixos?""O que quero dizer é que eu queria garantir que tudo estivesse em ordem para que possamos recuperar a glória."Jim respondeu: "Glória, é?""Sim, senhor; isso nos permitirá conquistar o setor de transporte marítimo da América do Sul.""Fico feliz que você pense grande, Richard. É por isso que depositamos nossa confiança em você e nesta iniciativa que você apresentou. Mas não se preocupe com isso — não deixe que a pressão o afete. Você tem nosso apoio financeiro. Basta executar o plano." Ele deu um tapinha nas costas de Richard enquanto se levantava, retomando seu andar cambaleante de bêbado. Seu destino eram mais bebidas.Richard permaneceu sentado calmamente, com as mãos sobre os joelhos; recuperando a compostura, começou a perceber que não havia como voltar atrás agora. Sentiu o toque suave da mão de sua esposa puxando a sua para que se juntassem a ela. Ele se levantou e beijou a esposa como se nada estivesse errado."Desculpe, querida, por ter agido como um idiota. Eu só deixei toda aquela história da apresentação me afetar demais."Susan colocou delicadamente o dedo sobre os lábios dele e respondeu: "Vamos dançar." Com um sorriso de satisfação iluminando o rosto, os dois terminaram a noite bebendo e dançando.CAPÍTULO CINCOA viagem de volta para casa foi agitada para Rich. Ele repassava mentalmente o que havia acontecido e sabia que precisava ter sucesso para que algo de bom surgisse daquela perda terrível. Enquanto refletia profundamente, observava as árvores desaparecerem à medida que o avião ganhava altitude. Quando não havia nada além de nuvens para ver, ele voltava a pensar em como aquele projeto seria bem-sucedido e em como a morte de seu amigo não teria sido em vão. Por fim, o sono veio, e seus devaneios continuaram enquanto ele adormecia. Sem sequer perceber que havia pegado no sono, a imagem de um homem no meio da floresta surgiu em sua mente. O homem estava de costas para Richard; portanto, tudo o que ele via era a silhueta de alguém parado de forma misteriosa, quase no limite de seu campo de visão. Ele decidiu caminhar em direção ao homem, pois sua curiosidade crescia de forma avassaladora e não podia ser ignorada. À medida que se aproximava, notou que o homem começava a se afastar, como se soubesse que estava sendo seguido. O homem jamais olhou para trás — talvez fosse por isso que a curiosidade de Richard começava a dominar seus pensamentos e ações.Ele tentou alcançá-lo, mas em vão; antes mesmo de conseguir empregar um esforço real, percebeu que o homem havia desaparecido. Richard parou bruscamente ao perder o homem de vista e olhou ao redor, supondo que ele devesse ter se escondido atrás de uma árvore. Olhava de um lado para o outro e em todas as direções de forma mecânica, certificando-se de que nenhuma área visível passasse despercebida. Apesar de todo o esforço, não havia sinal do homem, e o local onde ele estivera parecia agora inalterado. Ainda assim, sentiu-se compelido a procurar e olhou atrás daquela árvore coberta de trepadeiras, à sua direita. "Merda", deixou escapar Richard, assustado ao sentir uma mão agarrar seus ombros, o que o fez virar-se rapidamente. Aquele homem obviamente havia se aproximado furtivamente, e Richard percebeu que talvez ele tivesse algo de místico. Olhando com mais atenção, Rich notou que o homem era Joe. Aquilo o aterrorizou profundamente, provocando um pânico absoluto que rompeu a fina camada de coragem que ele mantinha. O homem misterioso então colocou a outra mão no pescoço de Richard e começou a sacudi-lo furiosamente. Richard gritou com toda a força de seus pulmões adormecidos e abriu os olhos, apenas para perceber que sua linda esposa era, na verdade, aquele homem. Ela o sacudia levemente apenas para avisar que eles eram os únicos que restavam no avião."Vamos lá, Richard. Somos os únicos que sobraram. Levante-se!" Um resmungo sonolento e arrastado escapou da boca de Rich, e seu rosto logo revelou um estado de alerta total. "Já acordei! Já acordei! Devo ter cochilado", disse Richard de forma confusa, percebendo que devia ter estado sonhando."Ora, não me diga", soltou Susan com uma mordacidade brilhante. "Vamos, temos que ir!" Ela o puxou para cima e eles saíram do avião. Depois de pegar a pequena, chegaram ao portão de casa — e para Richard, foi na hora certa. "Olá, Sr. e Sra. Dickenson", ouviram o guarda exclamar alegremente após acionar os belos portões."Olá, Hayword", disse Susan gentilmente. Richard e Dainisa apenas observavam."Está tudo bem e seguro por aqui, senhor! Não há nada que o velho Hayword Jeffries não consiga garantir — ou até proteger, aliás." Ele falava com Richard fazendo gestos encorajadores, numa tentativa de agradá-lo. Ele continuou falando, mas suas palavras pareciam não chegar aos ouvidos de Richard, que seguiu andando até passar completamente pelo portão. Richard, na verdade, dirigiu-se direto para a cama para cair num sono profundo."Mamãe! O que houve com o papai?" "Ah, querida! O papai só está cansado. Fizemos uma longa viagem. Você está com fome, meu bem?""Não, mamãe. Eu comi pizza. Posso jogar aquele jogo?""Claro, vou ao seu quarto ligar tudo em um minuto." A menina correu alegremente para o quarto para pegar os equipamentos. Susan encontrou seu livro favorito, preparou uma xícara de chá e colocou as coisas onde costumava se sentar para ler. Ao passar pelo quarto da filha, deu uma espiada no marido e viu que ele estava praticamente hibernando. Ela balançou a cabeça e retomou o que estava fazendo antes."Mamãe, mamãe, eu quero jogar este jogo primeiro!" Susan concentrou-se em montar os equipamentos e conectar os fios às tomadas correspondentes. "Tudo bem, querida! Ligue a energia." A menina apertou o botão. "Certo, deixa eu pegar isso. Preciso configurar." Ela colocou o jogo no modo fácil e ajustou as outras configurações para garantir uma partida longa. Seu plano era manter a pequena ocupada para poder relaxar lendo seu livro e tomando seu chá. Ao se sentar, ela suspirou, sentindo um relaxamento profundo graças ao assento macio. Com uma expressão de alívio após provar o chá escaldante, Susan soltou murmúrios e gemidos de satisfação. Tomando outro gole — e engolindo-o rapidamente —, ela pegou o livro e pousou a xícara, fazendo uma careta por causa do calor da bebida. Um pensamento rápido sobre o marido lhe veio à mente. Afastando-o, ela abriu o livro lentamente na altura da fita que havia deixado entre as páginas e começou a ler.A pequena havia brincado até cair num sono profundo......dormir, mas o jogo continuava rodando, mesmo sem ninguém operá-lo. Três horas haviam se passado e já era muito tarde. Susan continuava lendo, sem perceber que já estava na metade do livro. Ela não tinha a menor intenção de parar. Além disso, chegara a uma parte em que os acontecimentos tomavam rumos inesperados, e a ansiedade para saber o que viria a seguir a consumia. Intrigada, ela prosseguiu a leitura com afinco, enquanto a curiosidade incendiava seus pensamentos. A leitura se intensificava a cada parágrafo, até que... "Trim, trim! Trim, trim!" O toque persistia, mas ela tentava ignorá-lo. No entanto, o som tornou-se insuportavelmente estridente. "Trim, trim!" Irritada, ela deixou o livro aberto sobre a mesa e correu para atender o telefone. "Trim, trim!" Ela apressou-se, sem saber que seu esforço era inútil, pois quem ligava do outro lado não tinha a menor intenção de desligar."Alô", disse ela, exasperada."Oi, é a Susan?""Sim, sou eu mesma!""Desculpe ligar tão tarde, mas o Richard está?""Ah! Não! Ele está dormindo. Quem gostaria que eu dissesse que está ligando?""Desculpe! Aqui é a Claira Geshy. Eu estava ligando para saber se o Richard tinha tido notícias do meu marido, Joe.""Ah, oi, Sra. Geshy. Não reconheci sua voz. Não! Acho que ele disse que o Joe ligou avisando que o avião atrasaria, mas ele não apareceu.""Que estranho! Susan, por acaso você sabe em qual voo ele deveria vir?""Em um dos jatos particulares do Richard.""Meu Deus! Bem, obrigada. Você foi de grande ajuda", disse Claira, triste. As duas encerraram a ligação, e Susan perdeu todo o interesse no livro, decidindo apagar as luzes para ir dormir. No escuro, Claira permaneceu sentada por vários minutos. Algo parecia errado. Joe era muitas coisas. Atrasado não era uma delas. Pela primeira vez, um pensamento lhe ocorreu — um que ela tentou rejeitar imediatamente. E se Joe nunca tivesse chegado em casa? A primeira tarefa foi colocar sua Boo na cama e desligar as luzes e o videogame. Ao chegar ao seu próprio quarto, ela apagou totalmente a luz e pulou na cama, observando o marido como uma detetive particular. Perguntou-se por que ele estava agindo de forma tão estranha — e a ligação de Claira parecera ainda mais estranha —, mas afastou esses pensamentos e foi dormir. Na manhã seguinte, acordou de lado, ainda de olhos fechados, e virou-se até ficar de barriga para cima. Virou-se novamente, mas desta vez de bruços, com as pernas esticadas como se estivesse fazendo um "anjo na neve" sobre os lençóis brancos e sedosos. "Querido", disse ela, com a voz abafada pela posição de bruços. "Querido...", repetiu, virando-se rapidamente e erguendo o tronco, apoiando-se na posição sentada com as mãos espalmadas atrás de si, como dois suportes laterais de bicicleta. Abriu os olhos apenas para confirmar o que já sabia: ele havia ido embora. Agora ela sabia que aquele projeto era mais importante do que ela mesma. Richard havia entrado em seu escritório no exato momento em que sua sócia limpava do rosto o sono da manhã. A primeira coisa que passou pela cabeça de Richard foi pegar o telefone e contatar a parte responsável por montar uma equipe de topografia. Uma intensidade febril tomou conta dele enquanto se aproximava do aparelho. Ele sabia que aquela equipe precisava ser especial; afinal, a situação exigia excelência. Era necessário encontrar um bom local para o acampamento, bem como um ponto de atracação para os barcos. Ele decidiu pegar um atalho, pois só precisava de um engenheiro para aprovar o local. Isso permitiria reunir navios e equipes de construção no local que ele idealizara, sem precisar investir seu próprio capital. Ele precisava de dois engenheiros civis para acompanhar a equipe de topografia, mas eles não estariam disponíveis já no dia seguinte. Isso exigiria duas viagens separadas, pois não podia haver atrasos."Preciso de três prestadores de serviços de topografia treinados em navegação, além de alguns pilotos de helicóptero e topógrafos de campo." As exigências continuavam a sair rapidamente da boca de Richard. "E não importa quais sejam as credenciais. Preciso de gente qualificada."Uma resposta apressada e nervosa veio do outro lado da linha: "Sem problemas, Sr. Dickenson. Temos a equipe qualificada de que o senhor precisa. Vou enviar as especificações do contrato por fax."Eles encerraram a ligação, e um sorriso de satisfação se abriu no rosto de Richard. Ele apertou uma tecla de discagem rápida no telefone e, instantes depois, disparou: "John! Quero vê-lo no meu escritório." Richard recostou-se na cadeira para relaxar e tomou um gole de um café colombiano da melhor qualidade.John entrou na sala, perguntando com hesitação: "Sim, senhor?""Preciso que você garanta que a equipe de topografia embarque no avião e chegue à América del Sul em segurança. Quero também que mantenha contato com eles e me informe imediatamente sobre qualquer coisa!""Sim, senhor! Sim, senhor!""Vou para casa. Tenho deixado minha esposa de lado, mas não deixe de me ligar se acontecer alguma coisa.""Sim, senhor!""Você pode dispensar os outros pelo resto do dia, mas precisa estar aqui para garantir que a primeira fase seja concluída." Richard afastou-se do semblante insatisfeito de John e saiu do escritório com um ar imponente. Pouco depois, seu carro disparou, aparentemente sem qualquer respeito pelas leis de trânsito. Ele ainda estava inquieto, pois o projeto dependia da aprovação do engenheiro, mas tratava-se apenas de confirmar a integridade estrutural. Foi por isso que ele havia adiado a chegada de outros engenheiros ao local: precisava de seu engenheiro de confiança para a tarefa. Seu plano era enviar a equipe de topografia apenas para levantar as dimensões do terreno e demarcá-lo como um local específico. Mais tarde, ele apresentaria esse local aos engenheiros como um ponto no mapa, sem mencionar as medidas exatas, na esperança de que uma inspeção da área geral bastasse. Sua mente estava voltada apenas para atalhos e para a ideia de que nada poderia atrasar aquele processo.CAPÍTULO SEISEnquanto isso, Milo Evans explicava a Ron, Nick e Gary os detalhes do trabalho. "Sr. Rivera, Sr. Fusil e Sr. Russy, posso pedir a atenção dos senhores por um momento? Estão prontos para trabalhar?" Os homens da equipe ficaram intrigados, pois o chefe nunca havia falado daquela maneira sobre um serviço.Nick Fusil respondeu: "O quê! Do que você está falando? Estou sempre pronto para trabalhar! O que é isso? Algum cliente reclamou? Gary! Você está pronto para trabalhar? E você, Ron, está pronto?" Ron permaneceu sentado, com uma expressão impassível, sem dizer nada. Gary continuava ali de pé, vestindo seu macacão; sua barba e bigode grossos pareciam fundir-se em uma coisa só.O homem corpulento respondeu: "Milo, qual é a boa?""Ninguém reclamou, mas tenho um trabalho que não admite falhas. É um serviço de campo e vai pagar muito bem."A arrogância de Nick disparou. "Bom, já fizemos muitos trabalhos de campo." Antes que ele pudesse continuar tagarelando, o Sr. Evans explicou: "Não, este não é um trabalho de campo comum. A única razão pela qual aceitei esse serviço é que eu tenho licença de piloto."Entusiasmado, Ron deixou escapar: "Porra! Vamos ter que voar nessa viagem!" Gary interveio enquanto tragava seu charuto enorme. "Para onde exatamente vamos, Milo?""Bem, senhores, é um trabalho internacional." Gary não conseguiu responder, pois estava com a garganta cheia de fumaça.Ron Rivera ouviu aquilo maravilhado, mas aos poucos conseguiu reagir. "Quer dizer que vamos sair do país?""Sim, vamos para a América do Sul!""América do Sul! O quê? Por que temos que ir até a América do Sul?", perguntou Ron, com um tom de voz que demonstrava clara resistência."Porque é lá que o trabalho precisa ser feito, seu idiota. Olha, vamos levar o avião dele até uma cidade no Brasil." "Há helicópteros nos esperando; vamos usá-los para ir até o local designado e fazer o levantamento da área."Ainda envolto no aroma de tabaco, Gary respondeu: "Onde exatamente no Brasil?""No Brasil Central!""Não é uma região de mata fechada?""É, mas vamos fazer as medições ao longo das costas norte e leste. Gary! Preciso que você construa um pequeno píer, ou pelo menos algo que sirva para amarrar barcos, e também um acampamento; isso pode levar alguns dias. Acho que o Sr. Dickenson quer que tudo fique pronto para que ele possa trazer outros inspetores."Gary respondeu com um tom peculiar: "Sr. Dickenson?""É o cliente que quer o serviço feito. Ele é, na verdade, um homem muito rico.""Ah!" Com a curiosidade um pouco saciada, Gary disse: "Entendo! Você chamou todos nós por causa de nossas habilidades individuais. Ah, agora saquei."Nick soltou de imediato: "É, o Milo sempre foi esperto. A gente pode não querer ir até o Brasil para trabalhar numa selva fechada. Além disso, já temos trabalho que chega. Você disse que paga bem, mas duvido que pague tanto assim. É, ouvi falar da América do Sul, e o que ouvi não foi nada animador."Ron também estava ansioso para dar sua opinião. "É, Milo! Quanto esse tal de Sr. Dickenson está disposto a pagar?""Droga! Achei que podia contar com vocês, mas acho que vou ter que procurar outras pessoas.""Que nada, Milo! Tô nessa com você", respondeu Gary com um forte sotaque caipira."Você ainda não disse quanto paga.""Calma, já vou chegar nessa parte.""Achei que você não soubesse." Ron olhou para Milo com uma expressão sarcástica, e Nick murmurou: "Cara, a gente só tava brincando com você.""É, cara, relaxa." O líder do grupo respirou fundo antes de se explicar. "Bom, os valores exatos ainda não foram definidos, mas...""O quê?" A palavra foi dita bruscamente por Ron e Gary ao mesmo tempo."Calma! Calma! Quanto é que paga?" Milo sorriu. "O suficiente para comprar paciência."Nick riu. "Isso não é um número.""O triplo do que você ganhou no ano passado."O silêncio tomou conta da sala. Milo Evans continuou a expor os detalhes do trabalho enquanto mantinha a atenção total de sua equipe. "Ele parecia muito ansioso para que isso fosse feito o mais rápido possível. Eu disse a ele: 'Olha, tenho quatro homens que vão ficar longe de suas famílias por um tempo, e com tão pouco aviso prévio'. Se liga só: eu disse que uma viagem de longa distância como essa provavelmente ficaria na faixa de quinhentos mil a quase um milhão de dólares. Isso para todos os meus homens.""Tá bom, tá bom, Milo!""Ei, espere! Eu disse a ele: nem sei qual é a extensão da área a ser mapeada nem quão difícil pode ser o terreno.""Ah, Milo! Entendi! Temos flexibilidade para cobrar taxas extras. É, gostei disso." Ron virou-se e olhou para Gary e Nick, enquanto Milo observava a todos. Os homens permaneceram em silêncio, com os rostos parecendo brilhar de ganância."Certo, vamos nos encontrar aqui bem cedo, antes do amanhecer, e partir ao raiar do dia. Gary! Não se esqueça de encomendar todo o equipamento e os materiais de que precisar. Eles precisam ser despachados antes de sairmos.""Às ordens, senhor!" As palavras saíram como se a voz estivesse embargada, devido à densa fumaça que envolvia o rosto de Gary. Hayward abriu o belo portão para deixar Richard entrar. Ele parecia preocupado, mas com um humor bastante cauteloso. Tudo corria conforme o planejado, exceto pelo fato de que ele havia esquecido de confirmar com John se um helicóptero de carga seria entregue no local. Ele se recusou a ligar para John, declarando que já tinha tido problemas suficientes por um dia. Além disso, imaginou que o helicóptero certamente estaria lá; caso contrário, John teria de se entender com ele."Olá, Sr. Dickenson", disse Hayward com certa expectativa. Richard assentiu com a cabeça, mas continuou caminhando em direção à entrada. Hayward sonhava em poder confrontar o Sr. Dickenson, na esperança de ganhar prestígio. As pessoas até achavam que ele não batia bem da cabeça, pois já o tinham visto falando sozinho. Na verdade, o que testemunhavam era uma conversa completa. O que os observadores não sabiam era que ele estava apenas ensaiando para uma conversa com Richard e estava determinado a mostrar o seu valor. "Sr. Dickenson!", deixou escapar o gentil funcionário, mas seu chefe pareceu indiferente. "Sabe, Sr. Dickenson... eu sei como extrair o máximo do meu potencial." O funcionário conseguiu chamar a atenção do chefe, como indicava a expressão peculiar que surgiu no rosto de Richard.Ele respondeu com sarcasmo: "Rapaz, se não estou obtendo o máximo do seu potencial, então não faz sentido mantê-lo aqui.""Bem, não, senhor! O que quero dizer é que tenho muito mais potencial a ser desenvolvido." "Basicamente, você está me usando de forma ineficaz e ineficiente. Isso não condiz muito com o panorama geral das coisas, não é?""Não, não condiz, Sr. Reynolds. Então, qual é o seu ponto?" disse o Sr. Dickenson com rispidez, enquanto segurava a maçaneta e pressionava o polegar para abrir a porta.Hayword exclamou: "Não sou apenas um guarda de segurança comum, bom para nada além de abrir e fechar portões o dia todo. Tenho visão aguçada e muita coragem para proteger qualquer coisa." Richard já estava praticamente dentro de casa antes mesmo de terminar a frase. No entanto, Hayword parecia aliviado, apesar de a porta ter sido batida na sua cara."Querida", gritou Richard com um tom agradável, apesar de ter sido contrariado momentos antes. Passou-se um breve instante sem resposta enquanto ele vasculhava a correspondência do dia. Sua atenção foi capturada por um envelope de cor peculiar que, por algum motivo, o lembrou da esposa — talvez porque a cor lembrasse os convites de casamento deles. Mesmo assim, ele não abriu nenhuma carta; em vez disso, gritou em voz alta: "Amor!" Sem saber se o silêncio dela era intencional, ele chamou novamente, de forma incisiva e com um toque de fingimento. Richard até olhou ao redor da enorme casa daquela maneira, imaginando onde ela poderia estar. "Ei! Desculpe, querida! Sei que não tenho lhe dado muita atenção e que tenho colocado o trabalho à frente da minha amada." Diante da falta de resposta, a expressão de Richard tornou-se sombria, povoada por suposições preocupantes."Querida, onde você está?" ele soltou um grito lastimoso, mas ainda não houve resposta, e a casa pareceu ficar extremamente silenciosa. A situação claramente o afetava profundamente, pois ele começou a revistar os cômodos freneticamente. Subindo as escadas correndo como um atleta em treinamento, tomado pela angústia, ele deixou para verificar o quarto deles por último. Foi lá que a encontrou, sentada em sua poltrona de leitura, elegante e confortável. Seus olhos revelavam um certo divertimento com a busca dele, mas sua expressão também era séria. Após todas as suas súplicas, Richard olhou fixamente nos olhos dela e aproximou-se suavemente. Ela se encolheu na poltrona, como se fosse sua última trincheira, tentando endurecer o olhar enquanto pressionava o corpo contra o estofado de couro macio. Richard revirou a casa. "Susan?" Nenhuma resposta. Por um momento, o pânico tomou conta dele. Então, ele a encontrou no andar de cima. Esperando. Observando. Não estava brava. Estava decepcionada. Isso doía muito mais. Ele atravessou o cômodo lentamente. "Sinto muito." Ela permaneceu em silêncio. "Eu sei que coloquei este projeto acima de tudo." O silêncio continuou. "Acima de você." Finalmente, ela levantou o olhar. A dureza de sua expressão se abrandou. "Você sempre diz isso." "Desta vez, estou falando sério." Ela o analisou. Então, finalmente, assentiu. Richard beijou a testa dela. Pela primeira vez em semanas, sentiu-se em paz.CAPÍTULO SETENa manhã seguinte, aquela claridade intensa imperava novamente, fazendo Susan se revirar na cama. "Querido", escapou de seus lábios — lábios que estavam amassados, já que seu rosto e sua boca haviam sido pressionados tão profundamente contra os travesseiros que ela quase sufocara. Ao tatear a cama, ela sentiu apenas suas mãos deslizando sobre lençóis de seda e percebeu que o sol continuava implacável. Ela se levantou, sentindo-se um pouco frustrada pelo vazio da cama. Ficar chateada por não poder abraçar seu amado já era ruim o suficiente, mas aquela claridade era, de fato, o fator principal de seu despertar abrupto. Isso ficou comprovado pelo fato de que Richard havia enfrentado a mesma claridade cerca de trinta minutos antes. Susan sentou-se e virou as costas para a luz, levando quase uma hora para finalmente sair da cama. Enquanto isso, Richard já comandava o escritório pessoalmente, providenciando tudo o que era necessário para o projeto. A equipe de levantamento de campo estava a caminho. O voo foi tranquilo, e os quatro homens finalmente pousaram na bela, porém selvagem, terra amazônica. A pequena pista de pouso continuava a mesma desde a última e revigorante experiência de Richard por ali. O ar ainda estava impregnado pelo brilho intenso do sol, e a umidade era sufocante. Os quatro homens desembarcaram do jato fabricado pela Bombardier que Richard havia reservado para eles.Nick Fusil foi o primeiro a sair do avião, com seu jeito habitual de confiança e arrogância. "Porra! Caralho! Tá quente pra cacete. Agora entendo por que estamos ganhando, entre aspas, uma grana preta."Os outros desceram e, sem hesitar, Ron respondeu: "Nick, cara, você aguenta um calorzinho pela grana."Nick olhou para Ron com desdém e respondeu: "É, imagino! Vocês, filhos da puta mexicanos, espanhóis ou porto-riquenhos, estão acostumados com esse calor.""Nick, não vem com essa pra cima de mim, porque a tua bunda preta também já torrou bastante. Pelo que eu saiba, faz um calor danado na África.""Cara, não vou à África há mais de quatrocentos anos. Porra, agora somos a raça morena, vivendo na América. Pelo menos não somos tão emotivos pra caralho."Gary olhou para os outros e disse: "Chega disso. Estamos aqui para ganhar dinheiro, e é só isso." O velho franzino da torre aproximou-se dos homens. "Olá, senhores", disse ele com um ar astuto e ainda mantendo um sotaque indefinível. "Imagino que vocês sejam os homens do Richard. Aquele helicóptero de carga grande ali parado acabou de chegar. O piloto ainda deve estar lá dentro. Ele pode ajudar vocês a carregar o helicóptero e levá-los até o destino.""Com licença, mas quem é você?" perguntou Nick, colocando-se à frente de todos com um tom exigente. O velho deu de ombros e permaneceu em silêncio.Ele começou a caminhar em direção ao helicóptero, seguido por Milo Evans. "Vamos lá, pessoal, sigam-me", disse Milo. O velho seguiu à frente do grupo com um andar confiante, sem dizer nada por enquanto."Que calor dos diabos! E eu achava que a Flórida é que era quente!" exclamou Nick, continuando a reclamar do calor intenso que parecia oprimi-lo e castigá-lo. Gary parecia não se incomodar, enquanto tragava seu cigarro. Milo e Ron conversavam entre si, entre risadas.Ao chegarem finalmente ao helicóptero, o velho disse: "Senhores! O piloto!" Sem ter certeza do nome dele, continuou, gaguejando um pouco: "Ele pode levar vocês e ajudar a carregar ou descarregar, ou o que quer que precisem fazer. Não sei qual é o plano, mas o homem parecia obcecado." Os homens carregaram o helicóptero e o velho voltou para sua torre. O piloto permaneceu em silêncio, sentado na cabine e mexendo nos instrumentos à sua frente.Os homens se acomodaram, mas Nick não resistiu e soltou: "Bom, Sr. Grosso, imagino que o senhor não fale..."Milo interrompeu: "Com licença, senhor. Qual é o seu nome e a sua função? Ou, pelo menos, o que fará depois de nos deixar lá?" O piloto ficou em silêncio por um momento, olhou para Milo, depois para Nick e finalmente declarou: "Recebi instruções para levá-los ao local do projeto e ajudar no descarregamento.""Você vai acampar com a gente?" O piloto riu antes de responder: "Ah, não...! Sou apenas o piloto que vai deixá-los no destino."Nick falou com ousadia, como se a interrupção de Milo o tivesse irritado: "Quer dizer que vai nos deixar aqui?" "Ah, nem pensar! Vai simplesmente nos deixar no meio do nada?""Ei, olhem só!" gritou o piloto, desanimado. "Não recebo para acampar numa floresta tropical densa." Ele riu de leve antes de completar: "Ah, não! Desculpem.""Ei, Nick, estamos sendo pagos por isso, certo? Relaxa", respondeu Ron.O piloto gritou: "Ei, dá para pedir àquele sujeito ali para apagar o charuto, droga? Nem todo mundo acha agradável respirar cheiro de tabaco bruto e óleo de motor usado. Meu helicóptero não é oficina mecânica."Gary não disse nada, mas continuou tragando."Apenas pilote essa droga de helicóptero", respondeu Nick.O helicóptero levantou voo. O ruído foi diminuindo. Depois, desapareceu por completo. Silêncio. Um silêncio estranho. Não vazio. Um silêncio que observava. Que aguardava. Os homens permaneceram imóveis. Pela primeira vez, compreenderam o quanto estavam realmente sozinhos. Milo olhou pela janela, viu o rio Amazonas correndo lá embaixo e perguntou: "O...""E em caso de emergência? Como podemos entrar em contato com você?""Há um equipamento de rádio que vocês vão instalar no acampamento. O Sr. Dickenson chegará em alguns dias." Os homens demonstraram desconforto, mas não tinham mais do que reclamar. O restante do voo foi tranquilo, embora o piloto estivesse irritado com a fumaça que Gary insistia em soltar. "Certo, senhores, finalmente chegamos. Agora vocês podem sumir da minha frente.""Bom, obrigado também", respondeu Nick. O piloto ajustou os controles do helicóptero e iniciou a descida. O pouso foi suave, e os quatro homens estavam ansiosos para sair daquela aeronave apertada. Nick saltou do helicóptero e olhou ao redor, empolgado. Com uma expressão de espanto, gritou: "Caramba. Onde diabos estamos?"Milo respondeu: "Eu mostrei no mapa."  "É, eu sei, mas não imaginava que estaríamos no meio de uma selva." Ron parecia ter visto um fantasma. "Caramba, como diabos vamos começar esse levantamento com toda essa mata fechada, cara?!"Enquanto isso, Gary descarregava seus suprimentos enquanto Ron e Nick continuavam reclamando. Gary então caminhou até a margem e examinou a paisagem.Ao descarregar o equipamento, Gary notou pegadas. Pegadas humanas descalças. Grandes demais. Profundas demais. Nem recentes, nem antigas. Simplesmente... estranhas. Gary perguntou: "Mais alguém está vendo isso?" Ninguém viu. Quando olhou novamente, elas haviam sumido."Milo!", gritou Gary."Sim, Gary, o que você precisa?" Gary caminhou até ele com uma expressão visível de decepção. "Não tem como eu construir um píer para barcos com esse equipamento limitado.""Bom, o que está faltando?" "Bem, antes de tudo, olhe para a margem. Vou precisar fazer escavações, sem falar no equipamento especial. O barco é grande demais."Milo pareceu confuso, mas aconselhou Gary a improvisar. "Construa um pequeno. Talvez tenhamos que ancorar o barco e trazer barcos menores até a margem.""OK! Isso vai funcionar.""Ah, Gary, você tem cimento suficiente em sacos para construir uma plataforma de pouso para os helicópteros? O terreno aqui parece meio mole e lamacento para pousar.""É, eu notei isso. Aquele tal de Briscoe deve estar acostumado com essa região." O piloto finalmente havia dito seu nome durante o voo."Ei, Briscoe, o terreno aqui é bem difícil para pousar, hein!""Bom, este helicóptero de carga tem um motor potente para decolar; areia movediça provavelmente não vai impedi-lo de subir.""Ótimo! Ótimo!", declarou Milo, mantendo o tom de comando. "Todo o equipamento já foi descarregado?""Sim", exclamou o Capitão Briscoe. O piloto avisou que estava partindo e disse para entrarem em contato pelo rádio caso encontrassem algum problema. Nick observava a cena, ansioso para dar uma bronca. "Ei, seu merda! É bom você não deixar a gente aqui, porra. Eu não sou de selva e, de onde eu venho, a gente quebra a cara de qualquer filho da puta que queira deixar outro filho da puta na mão!""Calma, Nick! Senhores, escutem! Precisamos bolar um plano para realizar essa missão.""Não sei não, Milo! Parece... sei lá! Me soa meio precipitado.""Não entendo o Nick; veja por este lado: vamos conseguir falar com ele pelo rádio.""Tem certeza disso?", respondeu Nick, com um olhar hostil e a raiva fervendo por dentro."Sim, tenho certeza de que o rádio é adequado. Não é, Sr. — ou melhor, Capitão — Briscoe?" Briscoe demonstrou pouca paciência e respondeu de forma agitada: "O rádio já está sintonizado na frequência necessária. Vocês só precisam garantir que ele seja ligado a uma fonte de energia adequada. Um bom gerador, como aquele que ajudei a descarregar, deve servir.""Gary, anotado... OK, ótimo! Senhores, primeiro precisamos montar o acampamento e, Gary, faça o melhor que puder com a questão do píer. Certifique-se de que o acampamento esteja protegido contra a chuva. Ouvi dizer que chove muito nesta parte do mundo.""É, só o que faltava agora era ficar encharcado e ter que chamar pelo rádio." Nick limpou a garganta e cuspiu uma grande quantidade de catarro frio, depois de deixar claro para todos como se sentia."OK, homens, vamos montar o acampamento primeiro. Vamos passar a noite aqui. Então, o acampamento vem antes, e o píer depois.""Ei, Milo! Você acha que seria melhor fazer as primeiras medições ao longo das margens e marcá-las como pontos finais?""Pode falar, Ron. Estou ouvindo.""Assim, tudo o que teremos que fazer é seguir a costa leste desta terra maldita, pela distância que for necessária." O Capitão Briscoe ouvira a conversa pouco antes de partir e disse: "Ei, isso é um atalho. Não sei se meu chefe gostaria disso.""A matemática fará o resto", continuou Ron, apesar da interrupção grosseira de Briscoe."É só isso que queremos, certo? As dimensões! Ouvi falar algo sobre medir dimensões e é só isso.""É!""Mas ele vai precisar de nós de novo quando trouxer os engenheiros, então pode haver mais dinheiro envolvido", respondeu Milo, depois de reunir a equipe para evitar que Briscoe os ouvisse novamente. Todos gostaram da perspectiva de ganhar mais dinheiro, mas Nick duvidava que ele voltasse. Assim que esse pensamento lhe ocorreu — induzido quimicamente —, ele bateu nas próprias pernas e soltou: "É, eu não preciso de dinheiro, ou sei lá, *mais* dinheiro. Isso aqui já basta! Esses malditos mosquitos... ou merda, nem sei se são mosquitos. Bom, alguns são, mas caramba, parecem dragões minúsculos. Que porra é essa?" Nick esfregou o rosto e deu um tapa na outra perna. "Vocês estão entendendo. Meu sangue deve ser doce. Sei que vocês também estão sendo picados, mas agem como se não estivessem. Olha, me enganaram para aceitar esse trabalho, então é claro que vou pegar meu dinheiro. Depois, vou cair fora daqui e nunca mais volto." O tom de Nick tinha um quê de comicidade, mas ele falava sempre a sério.Gary prosseguiu com os preparativos para montar o acampamento, mas antes misturou o concreto com água do rio. Ele preparou uma mistura para fazer uma fundação simples para o acampamento, a uma distância de trinta a cinquenta metros da margem. Nick começou a montar as barracas, enquanto Milo e Ron preparavam o equipamento de topografia."Ron! O plano é o seguinte: vou seguir pela margem norte, em direção ao leste. Vou até chegar à beira da água. Vamos fazer as medições em intervalos de 100 metros. Depois de terminar esse lado, vamos caminhar para o sul, ao longo da margem leste, e repetir o processo.""Certo, mas até onde vamos?""Devemos estar bem perto do ponto médio deste projeto; então, de acordo com este mapa, não é muito longe." Enquanto isso, Gary golpeava com seu martelo, com o charuto pendurado no canto dos lábios semicerrados. "Ei, Nick, segura isso aí pra mim, por favor?""Beleza! Espera só eu terminar de amarrar isso aqui e já vou aí." Ron e Milo deram continuidade ao plano, e Gary, com uma ajuda casual de Nick, construiu um laboratório à prova d'água equipado com um tanque de gás para combustível e um gerador de energia. O passo seguinte eram as acomodações, adequadas às condições de vida na floresta tropical. Ele não precisava de muito concreto, então construiu uma mureta ao redor das barracas que Nick havia montado."Nick, me dá uma mão aqui com essa escavação.""Ei, você não me falou disso. Eu não sou de cavar.""Tem uma pá no laboratório", disse Gary, com aquela atitude de quem gosta de mandar. Nick acabou se juntando a ele, e eles começaram a cavar. Passou-se cerca de uma hora, e o calor castigava os homens de forma brutal."Porra, tá quente pra caralho", disse Nick, parecendo estar no último suspiro; o barulho da pá batendo no chão ao ser jogada por ele serviu de ponto final à frase."Beleza, chega, podemos parar.""Não!", exclamou Gary. "Só mais um pouco.""Ah, não, pra mim já deu." A decepção transpareceu no rosto de Gary ao ouvir a resposta do amigo."Qual é o seu problema, cara? Ainda tem um monte de coisa pra fazer. Você tá querendo tornar tudo isso extremamente trabalhoso, bem no meio desse lugar infestado de insetos." "Tá bom, tá bom, vamos logo com esse concreto. Pelo menos você pode pegar a ferramenta de acabamento enquanto eu preparo tudo para o despejo?" Nick foi buscar água enquanto Gary continuava trabalhando com afinco, como sempre fazia. Ele era um homem trabalhador, e sua aparência confirmava isso. Por outro lado, Nick era um sujeito convencido e cheio de si — embora não soubesse tudo o que sua atitude sugeria. Ele era, de fato, perspicaz e falava o que pensava de forma agressiva, o oposto de Gary, especialmente no que dizia respeito ao trabalho pesado. Se não fosse por sua genialidade, ele não estaria ali; e o fato de serem opostos completos é provavelmente o motivo pelo qual funcionavam tão bem juntos."Então, Gary, o que você acha?""Como assim, Nick?""Bom, de estar aqui! Isso não é meio extremo demais?" "É, imagino que o lado extremo da coisa seja o preço a pagar para ganhar muito dinheiro." Gary falava de forma entrecortada, pois tragava seu charuto em intervalos de três segundos, enquanto Nick observava com um ar de pena."Ei, é trabalho; e se é isso que é preciso para ganhar dinheiro de verdade, então eu topo.""Hmm..." Nick deu um sorriso de canto, e os dois terminaram a tarefa.