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RFP-BRazil-final

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O trânsito estava lento e, finalmente, pôde-se ouvi-la começar a gritar, demonstrando prontidão enquanto guardava suas coisas na mochila. Ela se levantou da árvore antiga com entusiasmo, parecendo radiante em seu uniforme xadrez. A porta de um carro de luxo, preto e imponente, se abriu.— Papai! — gritou a linda menina enquanto caminhava em direção à abertura.— Como está minha garotinha? — perguntou o motorista com voz suave.— Estou bem, papai!— Como foi a escola?— Foi legal! Brincamos no parquinho e tivemos uma festa de Halloween. Até comi uns cupcakes.— É mesmo? E o que você aprendeu hoje?— O que eu aprendi, papai? Não aprendi nada hoje.— Não aprendeu nada? Não é para isso que pago por essa escola particular, é? — Ele olhou para a filha como se ela fosse a culpada. — Acho que preciso ter uma conversa com alguém! — Buzinas soaram enquanto ele pisava no freio, ansioso.— Merda! Olha por onde anda! Essas pessoas precisam ter a habilitação auditada! É ridículo!— Papai, o que você disse?— Eu não disse nada.— Sei, papai. Você disse...— Ei! Não quero ouvir isso. O papai disse um palavrão, e é bom que eu não pegue você dizendo um também.Um sorriso aberto iluminou seu rostinho, e a curiosidade tomou conta. Pouco se falou durante o restante do caminho para casa; ambos pareciam absortos, observando a paisagem. A apenas alguns quarteirões de casa, a menina viu um garoto fantasiado de Conde Drácula que parecia muito alegre. "Papai, nós vamos pedir doces hoje à noite?""Com certeza, e vamos conseguir muitas guloseimas.""Oba!" O carro deu um solavanco ao subir a rampa da garagem, e eles finalmente chegaram em casa. Ele não conseguiu estacionar na garagem para quatro carros porque ela já estava lotada. Havia também um barco enorme estacionado na entrada. Eles desceram do carro e a menina correu em direção às lindas portas de carvalho. Ela estava ansiosa para cumprimentar a mãe, mas o pai vinha caminhando sem pressa, com a mente parecendo distante."Mamãe, mamãe!""Olá, minha querida. Como foi a escola?""Foi legal. O papai disse que vamos pedir doces.""Sim, e vamos ganhar muitos doces.""Isso mesmo.""Ok, querida, vá tirar o uniforme da escola e colocar uma roupa de brincar.""Vamos sair!" gritou a pequena."Não, você vai arrumar o seu quarto, ou nada de pedir doces... Ah, olá, bonitão!" disse ela quando o marido entrou em casa. "Como foi o seu dia?""Foi bom, eu diria. E o seu?""Resolvi algumas coisas na rua, comprei uma fantasia para a nossa anjinha — e um champanhe para mais tarde, depois que nossa linda menina estiver na cama.""Hummm", disse ele com um sorriso malicioso, porém sensual. Os dois se beijaram e se abraçaram, pois tudo entre eles ia muito bem. Eram ricos, relativamente jovens e tinham uma filha linda. Ele a tratava com amor e respeito, e ela retribuía da mesma forma."Mamãe! Papai! O que eu vou vestir?"Separando-se abruptamente do abraço apaixonado, a mãe respondeu: "Comprei uma fantasia da Bela Adormecida para você.""Ooohh! Mamãe, posso vestir? Por favor! Por favor!""Ainda não, querida; não está na hora de pedir doces e, além disso, vamos jantar primeiro." "Posso só dar uma olhada, então?""Tá bom. Está na bolsa, no chão do quarto, ao lado da minha escrivaninha." A pequena correu para o andar de cima enquanto os pais retomavam o clima de romance. Vários beijos se sucederam até que ela declarou, ofegante: "É melhor eu preparar o jantar!" No entanto, os beijos continuaram enquanto ela se soltava dos braços do marido, que a segurava. "Você quer comer, não quer?" disse ela, com um sarcasmo bem-humorado. Ele finalmente cedeu e deixou que ela se afastasse aos poucos, mas fingiu que ela estava tentando escapar de fininho e tentou, em vão, impedi-la. Mandou-lhe um último beijo e foi para seu escritório tratar de alguns assuntos enquanto ela preparava o jantar.Ao terminar os últimos preparativos para o jantar, ela viu o pôr do sol começar a colorir o céu do poente e subiu as escadas. "Dainisa, você terminou de arrumar seu quarto? Querida, o jantar já está quase pronto." Não houve resposta; ela espiou pela porta e viu que o quarto estava apenas parcialmente arrumado. "O que esperar de uma criança de seis anos?", pensou. Ela caminhou pelo corredor até o quarto do casal e encontrou a filha praticamente engolida pela fantasia de Halloween. Estava claro que ela até já a havia experimentado. "Ei, Princesa! O que você está..."Ela superou com certa ousadia algumas das outras crianças na tentativa de encher sua sacola de guloseimas. Sem medo algum, a pequena empurrou algumas crianças mais velhas para abrir caminho até a frente do grupo, junto à porta, e aproveitar a oportunidade. Apesar de sua travessura, os pais não resistiram e deixaram que ela se divertisse.Depois de algumas horas, seus pés doíam da longa caminhada pelo bairro, e Dainisa estava com os dedos e os lábios pegajosos de tantos doces que devorara no caminho de volta. A noite estava arejada, mas não exatamente fria; um agradável frescor de outono pairava no ar. Logo restavam poucas luzes acesas nas ruas, e parecia que a brincadeira de pedir doces havia chegado ao fim. Parecia que eles eram os últimos da quadra a caminhar pela noite. Apesar disso, não havia pressa para chegar em casa. Na verdade, aquele era um cenário romântico, tendo a alegria como catalisador. A vida parecia promissora — e de fato o seria para a família americana ideal, aquela que buscava com felicidade o "Sonho Americano". Eles percorreram uma longa rua recém-pavimentada, ladeada por uma bela paisagem de cercas-vivas e árvores dispostas em níveis diante de casas de tijolos impecáveis. A família aproximou-se de uma grande casa de tijolos que se destacava de todas as outras. A bela iluminação da entrada de veículos era um dos motivos desse destaque, mas o portão de aço — preto como petróleo bruto e com pontas voltadas para o alto, como grandes lanças — era outra razão pela qual a propriedade sobressaía em relação às vizinhas. O portão era alto demais para que alguém tentasse escalá-lo. Sua imponência era, de fato, intimidadora, assim como a do segurança que permanecia em uma guarita bem no centro da entrada. Detalhes em aço, que se curvavam como fitas, conferiam à entrada um ar verdadeiramente majestoso."Boa noite, Sr. e Sra. Dickenson.""Olá, Hayword", disse Rich, com um tom de voz que parecia descontraído. Eles seguiram pela entrada de veículos até a porta da frente, abraçados firmemente. O Sr. Reynolds trancou os portões imponentes e retornou imediatamente às suas tarefas ociosas. Ele contemplava as estrelas, como sempre fazia, apenas para passar o tempo. Era preciso acostumar-se àquela falta do que fazer, mas o emprego pagava as contas. Não havia muito do que reclamar, dizia a si mesmo, pois ganhava mais do que a média dos americanos. Na verdade, com o que os Dickenson lhe pagavam, ele poderia ser oficialmente classificado como classe média. No entanto, não imaginava que aquela seria exatamente a carreira dos seus sonhos. Sempre tivera o desejo de conseguir um emprego em uma das empresas do Sr. Dickenson ou, talvez, trabalhar como agente de segurança em viagens, prevenindo ataques terroristas. Ele precisava pensar grande, mas, por enquanto, contentava-se em trabalhar para os Dickenson; ainda assim, trazia consigo uma determinação inata de aproveitar ao máximo as oportunidades que tinha.Dentro da casa acolhedora, ouvia-se a Sra. Dickenson declarar com firmeza: "Dê-me essa sacola". Com um ar de inocência, a pequena Dainisa caminhou lentamente até a mãe e entregou a sacola de guloseimas. "Você já comeu o suficiente disso. Agora suba correndo; seu pai irá lá em cima ler uma história de ninar para você." A menina correu alegremente para o quarto, pois havia escondido vários docinhos dentro de sua bolsinha da Bela Adormecida. Ela acelerou o passo ao chegar ao topo da escada para garantir que teria tempo de esconder o tesouro sob o travesseiro e tirar a fantasia antes de ser descoberta, despindo-se freneticamente, como se não desse a mínima para o fato de a fantasia ter sido comprada. Jogando-a com força dentro do armário, ela enfiou um doce na boca sem muito cuidado enquanto se aproximava do travesseiro para guardar o restante.Ela mal havia tocado na borda do travesseiro para colocar as guloseimas em segurança quando ouviu uma voz grave e rouca perguntar: "Ei. Como está a minha preciosidade?" Assustada, mas mantendo a compostura, tentou esconder na palma da mão a embalagem aberta que ainda não havia jogado fora. Também tentou não deixar transparecer que estava chupando aquele pedaço duro de açúcar e aromatizantes artificiais. Pulou na cama com a maior naturalidade possível."Que livro você quer que eu leia?", perguntou o pai."Auglr gytr!""O quê!?""Três Macaquinhos", disse ela, com as palavras soando um pouco como se estivesse fazendo gargarejo."Sua mãe não tirou esse doce de você?""Esse era o meu último pedaço, papai.""Certo. Deixe-me começar." Ele leu a história enquanto a filhinha se aconchegava sob o cobertor. Ao terminar, disse "Boa noite" e deu-lhe um beijo leve na testa. Olhou para os olhos fechados dela, sentindo imediatamente um calor reconfortante e uma onda de carinho. Levantando-se devagar, manteve o olhar fixo no rosto dela enquanto dormia. *Clique!* O som do interruptor ecoou, seguido por um *toc-toc* abafado enquanto ele fechava a porta lentamente. Imediatamente, ela começou a deslizar a mão para baixo do travesseiro em busca de seu esconderijo. Enquanto o pai caminhava pelo corredor, ouviu o som de chuva batendo em alguma superfície, mas não era chuva. Era sua amada tomando banho; sua mente logo imaginou que ela estava se arrumando para ele, para que ele pudesse ganhar seus "doces ou travessuras". Corando levemente com seus próprios pensamentos carnais, ele correu para o quarto e despiu-se de tudo, exceto pela cueca boxer de seda que ela lhe dera. Sentindo-se bem, deitou-se, apoiando a cabeça em um travesseiro macio com fronha de seda. Seus olhos foram se fechando lentamente, quase caindo no sono, até que ele foi despertado por beijos suaves e arrepiantes de uma língua úmida, sem falar no corpo levemente fresco que se pressionava contra o dele. Pouco foi dito, mas sons de paixão, amor e desejo preencheram o quarto.CAPÍTULO UMUma claridade intensa atravessou as persianas entreabertas e começou a invadir as frestas de seus olhos sonolentos. O som irritante e estridente do despertador pulsava enquanto ele permanecia deitado de costas, aparentemente imperturbável. Na verdade, ele nem havia notado o barulho até muito depois de abrir os olhos e ficar ali, com o olhar vago e sonolento. A claridade tornou-se insuportável. Ele tateou a cama em busca de sua bela esposa, percebendo que ela devia ter se levantado cedo. Sentiu o aroma de carne de porco fritando e de algo indefinível assando no forno. Atraído pelo cheiro, estendeu a mão para acabar com aquele ruído infernal que não parava de pulsar. Ao dirigir-se ao banheiro da suíte para um banho mais do que necessário, percebeu o gosto ruim na boca e o cheiro de alho que emanava da floresta densa de suas axilas. Um banho era, sem dúvida, indispensável. Além disso, ele precisava impressionar os investidores.Essa reunião ocupara seus pensamentos na maior parte das últimas semanas, inclusive durante o sexo com a esposa na noite anterior. A ideia de desperdiçar a chance de sua vida o atormentava constantemente. Jamais alguém conseguira reunir tantos investidores ou tanto capital. Richard tinha recursos próprios para financiar o empreendimento, mas, por razões óbvias, preferia não fazê-lo. Um plano simples para captar recursos era o que dominava sua mente dia após dia. Richard semicerrou os olhos ao entrar na água quente. As primeiras partes do corpo que lavou foram os braços, as pernas e o pescoço. Lavou a virilha minuciosamente — chegando a aplicar uma dose exagerada de xampu Pert Plus nos pelos pubianos — e penteou cada fio com o cuidado de um cabeleireiro. Pensou consigo mesmo que sua apresentação precisava ser um sucesso. Eles não resistiriam a um passeio pelo local, combinado com o atrativo de uma escapada tropical. Ele havia até comprado passagens e reservado quartos para cada um dos investidores. Seu plano infalível incluía uma visita ao canteiro de obras e um jantar de gala.Richard fechou os olhos e deixou a água quente escorrer pelo rosto. A maioria dos homens tomava banho para despertar. Richard tomava banho para pensar. Os investidores acreditavam que ele estava construindo um estaleiro. Isso era apenas parcialmente verdade. O estaleiro era apenas o começo. Sua mente voltou-se para os inúmeros mapas espalhados pelas paredes de seu escritório. A Amazônia. O Xingu. O Tocantins. Centenas de vias navegáveis ​​estendendo-se pela América do Sul como veias em um corpo vivo. Para a maioria das pessoas, eram rios. Para Richard, eram corredores de transporte. Rotas comerciais. Oportunidades. Ele imaginava barcaças transportando madeira, café, minérios, maquinário e produtos manufaturados para o interior de regiões aonde a infraestrutura tradicional jamais chegara. Macapá seria a porta de entrada. A primeira peça. A base. Uma vez estabelecida, instalações adicionais poderiam, com o tempo, expandir-se para o interior. Algumas regiões exigiriam dragagem. Outras, canais. Alguns locais poderiam necessitar apenas de instalações portuárias modernas e centros de logística. As possibilidades pareciam infinitas. Richard sorriu. A maioria das pessoas achava que eram as estradas que conectavam as civilizações. Ele acreditava que eram os rios. E nenhum lugar na Terra possuía um sistema fluvial como a Bacia Amazônica. Se os investidores pudessem ver o que ele via, a reunião de hoje seria apenas uma formalidade."Sr. Neuheisil, veja bem, tenho planos de dominar o setor de importação e exportação do Hemisfério Ocidental construindo um estaleiro de última geração; mas, é claro, precisamos instalá-lo em um local estratégico." Ele continuou falando sem parar enquanto a água esfriava. "Veja, o Amazonas é facilmente navegável e possui múltiplos afluentes que se conectam a diferentes partes da América do Sul. Utilizando o Amazonas em conjunto com alguns lagos artificiais ou canais para ligar dois braços principais desse rio incrível, poderíamos alcançar sessenta por cento do continente apenas por via fluvial. Isso permitirá que a região do extremo sudeste do Brasil seja adequadamente abastecida."Uma voz surgiu pela fresta da porta do banheiro: "Ei, você e seu amigo aí dentro, o café da manhã está pronto." Despertando de seu ensaio mental, ele desligou a água, totalmente indiferente ao fato de ela já estar gelada. Richard estava atrasado; por isso, secou-se rapidamente e vestiu um terno fino, acompanhado por uma das camisas brancas mais alvas que já se vira. Com o paletó pendurado no braço e a pasta na outra mão, desceu as escadas para devorar uma refeição rápida."Ah, mamãe! Gosto do jeito que você faz os ovos — eles ficam tão fofinhos. Mãe, eles parecem gordura de baleia. São uma delícia." Havia muita empolgação no rosto da garotinha, especialmente quando o pai se juntou a elas. "Mamãe! Ovo faz bem?""Tem seus pontos positivos e negativos.""Positivos e negativos, mamãe?" exclamou a pequena, com um tom intrigado."Apenas coma. Ora, veja só quem resolveu se juntar a nós! Já era hora; seus ovos estão quase esfriando.""É, papai, coma seus ovos, eles estão uma delícia.""Tá bom, querida!" Ele deu algumas garfadas e pareceu sair apressado da mesa, mas fez questão de......receber um beijo das mulheres que amava. Saindo apressadamente, decidiu deixar as mulheres cuidando de seus assuntos. Ele tinha seus próprios compromissos importantes que exigiam atenção especial. Entrou no carro que lhe proporcionava a saída mais suave e, sem hesitar, engatou a marcha a ré, quase saindo antes mesmo de o portão eletrônico terminar de abrir. Os pneus cantaram com a pressão repentina no acelerador, e ele partiu.Após um trajeto tranquilo e rápido, Richard estacionou em um magnífico complexo de escritórios nos subúrbios, adornado com paredes de mármore branco e vitrais azuis de dimensões extraordinárias. Uma placa enorme dava as boas-vindas aos visitantes — Dickenson Consulting Inc. — exibindo também o endereço físico. Depois de estacionar em sua vaga reservada, perto da entrada, saiu rapidamente do carro. Ao entrar no prédio, foi imediatamente cumprimentado por sua recepcionista, de temperamento tranquilo, e por várias outras pessoas que passavam casualmente."Alguém precisa consertar esse elevador", pensou ele. "São só cinco andares, caramba..."*Ding!* Uma das portas do elevador se abriu, e ele entrou sentindo-se aliviado. Ele não gostava muito de elevadores. Sempre reclamava daquele ali, que considerava lento demais. A porta se fechou depois que ele apertou o botão do quinto andar; o que antes era rotina agora parecia demorado e extremamente irritante. Tudo parecia se mover lentamente, especialmente com a aproximação rápida do momento de decidir sobre o projeto. *Ding!* Ele saiu, virando bruscamente à esquerda e caminhando a passos largos e elegantes para chegar rapidamente à sua sala. "John, preciso falar com você um instante", disse ele, dirigindo-se à porta aberta da sala de John logo antes de entrar na sua própria."Claro, já vou aí!" Richard aproximou-se da cafeteira para preparar uma xícara, adicionando creme e adoçando até ficar com gosto de chocolate quente. Era assim que ele sempre preparava a bebida, e gostava de apreciá-la recostado em sua poltrona de couro bordô macio, que lembrava uma poltrona reclinável de luxo."Sim, Sr. Dickenson.""Os relatórios e mapas estão prontos para a minha apresentação?""Sim, senhor, está tudo aqui. Imaginei que seria a primeira coisa que o senhor pediria.""Boa observação, por isso você é meu braço direito. Certo, é só isso."Antes que John pudesse sair, Richard se levantou da cadeira e caminhou em direção ao enorme mapa de parede que dominava um dos lados do escritório. Os visitantes costumavam presumir que era apenas decoração. Não era. Alfinetes coloridos cobriam grande parte do norte do Brasil. Linhas azuis indicavam os principais cursos d'água. Etiquetas amarelas identificavam os locais de levantamento topográfico. Círculos vermelhos marcavam possíveis locais de construção. John já tinha visto o mapa inúmeras vezes. Richard ainda o estudava como se o visse pela primeira vez."O que exatamente o senhor vê quando olha para isso?", perguntou John finalmente.Richard cruzou os braços. "A maioria das pessoas vê rios."Seu dedo traçou uma linha azul sinuosa. "Eu vejo movimento."Outra linha. "Eu vejo comércio."Outra. "Eu vejo acesso." Seu dedo parou sobre o norte do Brasil. Macapá. A cidade ficava perto da foz de um dos sistemas fluviais mais poderosos da Terra. "Todo o futuro começa ali."John assentiu educadamente. Ele entendia as palavras. Não tinha certeza se entendia completamente a obsessão. Richard continuou encarando o mapa muito depois de John se virar para sair. Por um breve momento, a sala ficou em completo silêncio. O futuro parecia depender daqueles rios. Desculpando-se grosseiramente, John se virou, parecendo ignorar os comentários de Richard, e saiu em silêncio. Antes que John pudesse escapar dos confins do escritório de Richard, ele disse: "John, por favor, entre em contato comigo imediatamente quando esses investidores chegarem.""Com certeza!" A porta se fechou e John sentiu como se tivesse escapado da jaula de um leão."Olá, Suzie! Como você está hoje?""Bem, e você? Parece que acabou de levar uma bronca.""Não, estou bem. É só que o chefe não está bem. Preciso que você ligue para aquele cliente. Acho que ele está um pouco tenso por causa deste projeto.""Claro, vou fazer isso agora mesmo." Suzie pareceu curiosa, mas não questionou nada e continuou com suas tarefas normais. O som dos telefones tocava, o teclar das teclas ecoava e conversas moderadas preenchiam o ambiente — o típico ambiente de escritório. John decidiu que seria uma boa ideia ficar perto da recepção para dar uma primeira olhada nos investidores e ver se eles correspondiam às expectativas. De fato, seu plano funcionou, e ele cumprimentou cinco homens e avisou Richard pelo telefone da recepcionista. Depois de informar seu chefe sobre a chegada deles, ele esperou ali, observando os homens e admirando sua aparência. Em sua mente, pensou ele, entusiasmado: "Hum, que sapatos de jacaré lindos aquele esguio está usando. Nossa, olha só aquele relógio." Quase ficou cego quando o dono do relógio acenou com o braço casualmente. O gelo que circundava o mostrador, sem mencionar os que compunham os algarismos romanos, era a essência daquele brilho hipnótico. Era quase como se aquele relógio tivesse poderes místicos: devido à sua beleza e riqueza, era impossível não desejar um. Ele também notou que os outros dois homens eram bastante ricos, e agora entendia por que o chefe estava tão nervoso. Isso devia ser importante!"Ding", soou suavemente vindo da esquina, seguido pelo som de sapatos de sola dura sendo usados ​​com firmeza. "Olá, cavalheiros! Que bom que puderam vir", disse Rich, aproximando-se dos homens com a postura mais elegante e a prontidão de um âncora de telejornal. Ele cumprimentou cada um dos homens, um por um, dizendo: "Agradeço a oportunidade que nos concederam! Sr. Winterlin, Sr. Countenance, Sr. Neuhesil, Sr. Caviling e Sr. Palanas. Sejam bem-vindos à minha base de operações e espero que tenham uma estadia agradável. Meus assistentes os acompanharão até a sala de conferências, onde encontrarão refrescos e assentos para minha apresentação. Já estarei lá."John imediatamente os conduziu por um corredor. "Por aqui, senhores." O som de seus sapatos batendo no piso de mármore ecoou, mas desta vez não era tão agressivo. Era mais suave, quase rítmico. Vozes graves preenchiam vagamente os corredores enquanto os senhores conversavam sobre diversos assuntos. "Aqui estamos, senhores", disse John, apontando rigorosamente enquanto respirava com dificuldade. "Podem se sentar onde se sentirem mais confortáveis." John saiu rapidamente, sabendo que um olhar de reprovação de qualquer um daqueles homens poderia lhe custar o emprego. Os homens devoraram os donuts e bagels sem perder tempo, e cada um foi convidado a preparar um café personalizado ao seu gosto. Cada investidor sentou-se em uma cadeira, com uma expressão de indiferença a qualquer conversa fiada. Richard Dickenson entrou na sala."Boa tarde, senhores", disse ele com firmeza, fechando a porta atrás de si. "O motivo de tê-los reunido aqui hoje, como sabem, é oferecer a oportunidade de embarcar em um projeto que nos permitirá dominar estrategicamente todo um hemisfério."O Sr. Countenance ajeitou-se na cadeira com um ar de curiosidade. Os outros homens continuaram ouvindo. Richard segurava um mapa grande e detalhado da composição geológica da América do Sul, destacando especialmente os rios e as florestas do Brasil — uma escolha, de fato, estratégica. "Vejam, senhores! Esta é a foz do Amazonas. Ao passar por estas ilhas, o rio se divide em dois.""Hum... Sim, estou vendo", disse Dick, acompanhado por murmúrios de concordância dos outros. "Continue, Sr. Dickenson. Acho que sei aonde o senhor quer chegar." Todos aqueles homens atuavam no setor de transporte marítimo, distribuição ou importação e exportação. Eles falavam a mesma língua.Richard diminuiu levemente a iluminação e passou para o próximo slide. A imagem mostrava uma visão mais ampla da América do Sul. Várias vias navegáveis ​​iluminavam a tela. Os investidores inclinaram-se para a frente."Este projeto é maior do que um estaleiro", disse Richard calmamente. "É uma rede de transporte."A sala permaneceu em silêncio. Richard continuou: "Por gerações, governos gastaram fortunas construindo estradas e ferrovias em terrenos de difícil acesso."Um mapa da Bacia Amazônica surgiu. "Já possuímos o maior sistema de transporte da América do Sul."O Sr. Caviling franziu a testa. "Não estou acompanhando."Richard sorriu. "A natureza já o construiu."Sua mão percorreu a tela. "O Amazonas e seus afluentes chegam mais longe do que a maioria dos planejadores de transporte imagina."Vários investidores trocaram olhares. Agora, eles estavam prestando atenção. "Se estabelecermos pontos de acesso estratégicos, instalações de apoio, centros de transporte e, futuramente, rotas de expansão para o interior, ganharemos acesso a mercados que muitos concorrentes ignoram."O Sr. Countenance assentiu lentamente. Richard percebeu que a ficha estava caindo. Os investidores haviam chegado esperando um porto; o que ouviam agora parecia algo muito maior. Só então Richard avançou para o slide seguinte e prosseguiu com sua apresentação original.Richard continuou: "Construiremos um enorme estaleiro! Bem aqui, onde o rio se divide em dois." "Refiro-me a uma instalação enorme e de última geração. Quero pátio de serviços, terminais de transporte rodoviário, etc. — quero o pacote completo."O Sr. Caviling começou a coçar o queixo enquanto respondia: "E como isso permitiria o tipo de domínio de que você fala?""Ah! Simples! Veja, o Rio Amazonas é muito navegável. Ele tem vários braços que se conectam a diferentes partes da América do Sul, como você pode ver aqui. É possível chegar à maior parte do continente apenas de barco. Utilizando alguns lagos ou canais artificiais — dependendo das recomendações dos empreiteiros —, poderíamos centralizar as Américas. Olhe!" Apontando com firmeza para o mapa — ele já havia montado a tela de projeção e exibido vários outros mapas —, seu ponteiro se movia rapidamente, assim como seus lábios durante os comentários seguintes. "Veja, bem aqui em Cuiabá: se construirmos um canal artificial aqui — ou até mesmo uma hidrelétrica — e outro a cerca de cem milhas a nordeste, podemos conectar dois pontos estratégicos fundamentais. Com terminais de transporte rodoviário, poderemos abastecer toda a extremidade sul do Brasil. Os territórios de Minas Gerais, São Paulo e também, aqui, o Mato Grosso, são alguns dos inúmeros lugares que ficarão sob nosso controle logístico. E não precisaremos nos preocupar com a parte norte do Brasil nem com o Peru, a Bolívia e a Colômbia, como você pode ver."Richard começou a apontar com ainda mais vigor, descontando toda a sua empolgação na tela de projeção. "Os muitos braços dos rios se estendem pelo território de que precisamos. Pense no café da Colômbia ou no açúcar do norte do Brasil. Em relação à América do Sul, podemos realizar o transporte tanto para fora quanto internamente." Ele apontava novamente. "Boa Vista, Manaus, Rio Branco e Porto Velho: todas têm seus próprios portos. Então! Podemos ser a fonte e o canal de escoamento delas para as regiões norte e leste do globo.""Com licença", disse o Sr. Caviling. "Parece-me que a extremidade sul não teria uma cobertura adequada. Como você vê! Como você gosta de dizer, os rios não chegam tão longe. Veja!" O homem apontava de forma ainda mais agressiva do que Richard, e isso era claramente perceptível. "Aquelas cidades no litoral, bem ali." Ele apontava continuamente para a área em questão e aguardava uma resposta."Sim, senhor, boa observação! Como o senhor sabe, qualquer empreendimento tem seus prós e contras, mas é por isso que concentramos nossos terminais de caminhões nestes dois locais de canais artificiais." Richard apontava agora como se aquilo tivesse virado uma competição. "Devido à alta densidade populacional no Sul do Brasil, há estradas suficientes para facilitar a criação de um sistema de transporte confiável de e para esses dois pontos. Cuiabá será o local do segundo estaleiro, mas, por enquanto, teremos apenas pontos de parada para caminhões no final de cada um desses quatro rios. Expandir nossa distribuição para outras áreas — seja com uma fábrica, um estaleiro ou até mesmo um terminal de caminhões — seria barato, graças à mão de obra de baixo custo. Se fosse realmente necessário, poderíamos usar essa rota." Ele agora apontava para o local do projeto e deslizava o indicador em direção à foz do Amazonas, com uma paixão elegante. Ele percorreu o litoral brasileiro até chegar à cidade de Pelotas. "Veja bem, o terreno já foi comprado. Só estamos esperando para começar o processo de construção."George recostou-se na cadeira com um olhar de entusiasmo, enquanto Neuheisil perguntava aos outros o que achavam até aquele momento. Tony Palanas permaneceu em silêncio o tempo todo, assimilando informações em ritmo acelerado. O Sr. Caviling soltou de repente: "Isso não fica no meio de uma floresta?"Dick interrompeu-o ansiosamente: "Sim, e não uma floresta qualquer. Na verdade, uma floresta tropical densa."Em tom combativo, Richard exclamou: "Senhores! Estamos perdendo de vista o panorama geral, que é um grande empreendimento. Claro que haverá o desafio do desmatamento necessário, mas, com nosso esforço conjunto, não será tão penoso quanto seria se apenas um ou alguns de nós assumissem esse projeto sozinhos. Se for preciso, no entanto, seguirei em frente por conta própria, como um soldado solitário. Mas aviso aos senhores: há empresas na fila esperando para derrubar aquela maldita selva e criar algo civilizado." Os investidores já estavam praticamente convencidos, mas, naquele momento, ele queria ir além. Queria ter a garantia de que ninguém desistiria. "Senhores, convido-os a vivenciar pessoalmente o que preparei para este projeto. Também desfrutaremos de algumas comemorações." Ele pegou sua pasta e tirou um envelope, entregando a todos passagens aéreas para seu jato particular, que estava estacionado em uma área reservada do aeroporto internacional. Além da hospedagem em hotel, os senhores aceitaram o convite, com a curiosidade estampada em seus rostos.Dick soltou de imediato: "Um pouco de descanso e lazer cairia bem." Richard despediu-se dos homens enquanto eles partiam e depois voltou ao seu escritório para aproveitar o momento. Ao recostar-se em sua poltrona confortável, um sorriso de entusiasmo iluminou seu rosto enquanto verificava as mensagens. Havia algumas sem importância, que podiam ser ignoradas. Sua postura relaxada teria de impressionar ainda mais os investidores durante as férias. Ele pegou o telefone e apertou um botão."Sim?""John", gritou Richard. "Venha ao meu escritório, por favor." Richard aguardou enquanto usava pedaços de papel amassados ​​para treinar seus arremessos de basquete. John espiou pela porta e, antes mesmo de entrar completamente, Richard anunciou: "Estou saindo em breve. Certifique-se de que aqueles relatórios estejam finalizados. A Judy já fechou negócio com a Data Inc.?""Não, senhor, ainda não.""Olha, só porque este projeto está prestes a mudar tudo, não significa que possamos nos acomodar. Continuamos sendo quem somos.""Considere feito, senhor!" Enquanto John fechava a porta, Richard Dickenson saía logo atrás, ansioso para chegar em casa e encontrar a esposa após um dia longo e agitado. Chegando em casa animado, ele entrou e percebeu que o sentimento da família era recíproco. Não era por terem tido um bom dia no trabalho, mas sim porque o chefe da família estava em casa."Papai!", gritou o caçula. Isso foi seguido por uma recepção calorosa de sua esposa. Ele aceitou as boas-vindas como um rei, pois havia uma aura de intocabilidade e certa arrogância em sua postura. Ele não perdeu tempo e contou a ela sobre as férias, de maneira tranquila e entusiasmada. "Arrume suas coisas, querida. Vamos para a América do Sul.""O quê? Assim, de última hora?""Eu avisei.""É, hoje de manhã." "Eu não sabia que seria tão cedo.""Convidei os investidores para passar umas férias.""O quê? Assim, do nada — vamos tirar férias?""Já os convenci praticamente. Só quero que eles sintam o clima; assim, não haverá dúvidas nem hesitações mais tarde.""Tá bom!" Com uma leve hesitação e um sorriso no rosto, ela continuou: "E o Boo? Quando, onde e por quanto tempo?""Bem, querida, vamos para Macapá, para termos aquela experiência de que falei. Vai haver um jantar, mas passaremos a maior parte do tempo no hotel comigo."Ela se aproximou dele e disse: "Isso já soa um pouco melhor.""Pelo menos no primeiro dia. Veja bem, eu tinha planejado uma viagem de três dias, mas não há nada de espetacular em Macapá. A maior parte do tempo será passada no hotel.""Ótimo, querido. Quando vamos?""Amanhã de manhã.""Bom, vou preparar minhas coisas e cuidar dos preparativos..."...preparativos para o nosso bebê."CAPÍTULO DOISEnquanto isso, em uma universidade de prestígio, o professor Julian Akbar fazia o que mais amava: estudar culturas antigas e tribos indígenas. Ele estava prestes a anunciar um intervalo em uma de suas aulas de história avançada quando, de repente, uma aluna perguntou de supetão: "Qual o senhor acha que foi o motivo? Digo, o senhor sabe por que eles foram deixados para trás?""Bem, Amy! As civilizações geralmente surgem onde o ambiente é favorável, e suspeito que alguns desses povos tenham ficado isolados dessas áreas de desenvolvimento civilizatório.""Como eles sobreviveram, então?""Lembre-se: alguns desses povos antigos conheciam a natureza melhor do que nós hoje.""Dr. Akbar, como isso é possível? Sendo que eles acreditavam que seus deuses eram os elementos, e vice-versa.""Bem, deixe-me perguntar: quem é o seu deus?" A aluna ficou em silêncio, e Julian continuou: "Algumas dessas histórias foram transmitidas ao longo de séculos e tidas como verdadeiras.""O senhor não acredita nisso, acredita?""No que eu acredito é irrelevante." Ele começou a ler as instruções da tarefa de casa, encerrando assim a conversa. "Certo, turma, vejo vocês na semana que vem. E não se esqueçam das redações sobre os maias. Aula encerrada!" Os alunos dispararam pela porta como se os portões de largada do Kentucky Derby tivessem se aberto. Cada aluno parecia um puro-sangue premiado galopando freneticamente. Dizer isso, porém, era pouco, pois, obviamente, aquela corrida metafórica estava realmente acontecendo — exceto para o professor; de onde estava, ele antecipava o vazio iminente da sala de aula.O silêncio tomou conta do ambiente, e uma sensação de solidão pairou no ar. Era o cenário perfeito para o professor — afinal, era isso que ele era. Sua esposa o deixara pouco tempo antes, assim como a aluna com quem tivera um caso; ela apenas desempenhara aquele papel para conseguir notas melhores. Não era segredo para ninguém, mas o professor ignorara as segundas intenções dela. Ele não tinha ninguém, nada; nada além de seu conhecimento. Seu conhecimento sobre povos — povos que nem sequer existiam mais — era vasto. Mas de que serve uma língua que ninguém mais fala? Obcecado por essa empreitada enriquecedora, no entanto, ele afastara seu único amor verdadeiro e destruíra qualquer chance de despertar o interesse de outra pessoa. Então ele ficou ali, sozinho em sua sala de aula, lendo seu livro. Parecia que ele sempre lia sentado à mesa de onde ministrava suas palestras premiadas, vestindo uma camisa de manga curta justa e uma gravata de encaixe de cor sólida. Dava a impressão de que não se importava nem um pouco com a moda.De repente, juntando suas coisas num instante, ele se dirigiu à porta. Parecia que alguém o havia acionado ao apertar um botão e ordenado abruptamente que saísse da sala. Ao chegar em casa, jogou a pasta cheia de livros e trabalhos de pesquisa sobre a bagunça que já havia se acumulado. Deixou-se cair no sofá de couro e estendeu a mão para o controle remoto. Antes de apertar o botão de ligar, porém, recorreu novamente aos seus instintos de controle remoto e disparou em direção à geladeira. Pegou uma cerveja e virou metade dela antes de voltar para o sofá. Arrotou ao se sentar e apertou o botão de ligar."E a Nação..." "Johnny, você sabe que eu te amo"... "Ele avança contra o marcador e faz o arremesso"... "Dando"... Ele continuou a percorrer os muitos canais diferentes, aparentemente indeciso sobre o que assistir. Ao ouvir seu gatinho na porta, levantou-se num salto para deixá-lo entrar, deixando o canal sintonizado, sem querer, em um noticiário. Caminhou até a porta para receber o gato enquanto a televisão continuava a pulsar. "Cientistas descobriram a rápida deterioração da camada de ozônio e que isso pode estar ligado ao aquecimento global. Temos aqui o Dr. Shaynick, professor de estudos meteorológicos e geológicos da Universidade de Berkeley.""Obrigado! O problema que enfrentamos não é a liberação humana de toxinas na atmosfera, mas a destruição dos mecanismos naturais da Terra de combate a essas toxinas nocivas. Os muitos projetos que causam desmatamento. Quanto menos árvores tivermos, pior será a nossa situação. Nós também...""Trim, trim, trim!" Apertando o botão de mudo no controle remoto, o professor atendeu o telefone. "Ei, Julian! Como você tem passado? Meu velho amigo.""Rich, é você?""Claro que sou eu. Quem você achava que era? O Mitch? Enfim, liguei para falar sobre o meu projeto." "Que projeto, Mitch... quer dizer, Rich?""É, você é muito engraçado, mas estou fazendo com que alguns investidores construam um estaleiro às margens do Amazonas.""Que ironia", respondeu o Dr. Akbar. "Acabei de ouvir uma reportagem num canal novo dizendo..." Ele fez uma breve pausa. "Algum programa, uma matéria jornalística falava sobre as florestas tropicais e o desmatamento, ou algo assim. Você não precisa derrubar árvores para realizar isso?""Bom, sim, mas isso não deve ser um problema, porque provavelmente poderíamos aproveitar a madeira de qualquer forma.""Não, Rich! Quero dizer: quem é o dono da terra? E, se for você, como a adquiriu?" Richard respondeu com uma mistura de confiança e sarcasmo."As províncias foram convencidas com um pouco de dinheiro e influência política.""Bom, você sempre soube como con..."...do seu jeito, mesmo tendo largado a faculdade.""Olha, cara, eu não me interessava por gente do passado, nem por gente que ainda vive no passado. Caramba, estamos nos tempos modernos — 'capitalização para a civilização' é o meu lema.""Você realmente parece saber o que quer. Bom, boa sorte. Se precisar de mim, é só ligar." Depois de encerrar a ligação com o professor, sentiu uma súbita vontade de dormir. No entanto, ao perceber que queria ligar para Joe Geshy, seu amigo de longa data, ele se ajeitou e ficou mais alerta. As esposas deles eram amigas por causa da relação entre os dois; a amizade parecia um tanto forçada, mas elas aceitavam de bom grado a camaradagem dos maridos. O telefone tocou muito mais vezes do que ele costumava permitir, mas a sonolência gerou preguiça e ele não desligou. A ligação foi atendida depois de uns doze toques."Alô!" respondeu Joe com uma voz grave e exausta."Joe!" gritou Richard, despertado do seu quase sono por aquela voz grave e rouca."Sim, aqui é o Joe! Quem fala? É o Rich?""Como é? As pessoas não reconhecem mais a minha voz hoje em dia?""Droga, eu estava dormindo, e não é como se você ligasse aqui com frequência também. Meu melhor amigo liga uma vez na vida e outra na morte.""Você sabe que sou muito ocupado; além disso, estou trabalhando em um projeto novo. Foi por isso que liguei. Para passar um tempo com meu camarada.""Ah, é? E aí, precisa da minha ajuda?""Ah... não." As palavras saíram arrastadas. "Só liguei para te convidar para umas férias em Macapá.""Macapá", respondeu Joe com a voz mais confusa possível. "Que diabos... ou melhor, onde diabos fica isso?""Fica na América del Sur, onde estou começando esse grande projeto novo. O que a Sra. Geshy vai fazer nos próximos dias?""Ela vai viajar por uns dias. Vai visitar meus sogros.""Ótimo!" "Então não deve ser problema você me fazer companhia, especialmente enquanto aturo aqueles investidores chatos pra caramba.""Quem?" exclamou Joe."Os investidores!""Ah, parece que essa viagem é muito importante. Acho que vou, mas, na verdade, estou surpreso que você tenha me convidado para algo assim. Imagino que já tenha até comprado minha passagem.""Com certeza. Por isso mesmo você tem que ir. Vamos voar em um dos meus jatos particulares." Joe pediu os detalhes do convite. Richard passou todas as informações e disse que o buscaria no aeroporto logo antes da apresentação.Pouco antes de encerrarem a ligação, Joe gritou: "Ei, Richard! Acabei de lembrar que não posso sair às dez, como você planejou. Teria que sair à tarde.""Ah, sem problemas! Eu deixo um voo separado à sua disposição. Olha, seu destino é vir comigo. Em breve você pode acabar trabalhando para mim e ganhando muito mais do que o valor que pega emprestado.""Ótimo!" exclamaram ambos, um após o outro. Recostando-se como um sujeito sedentário que exagerou na cerveja, Richard logo caiu no sono. Pensamentos sobre tudo o que planejava conquistar passavam por sua mente enquanto dormia; ele teve um descanso glorioso, apesar de ter acordado com o pescoço travado. Ele girou o pescoço, lenta e vigorosamente, esperando ouvir um estalo, mas sem sucesso! "Querida!" gritou ele, enquanto os dedos removiam as secreções frias acumuladas em suas pálpebras. Uma visão verdadeiramente desagradável, mas com a qual sua esposa convivia há anos — e havia aprendido a amá-lo assim mesmo.Tudo estava resolvido, e eles chegaram ao portão de embarque para encontrar os senhores que seriam entretidos por ele. "Olá, Sr. Neuheisil", disse Rich, com um tom alegre na voz. "Esta é minha esposa."Cada um dos homens disse, por sua vez: "É um prazer conhecê-la, Sra. Dickenson". Richard cumprimentou a todos individualmente e com cortesia. "Espero que aproveitem o voo, senhores — e, claro, minha apresentação e o entretenimento." Ele começou a conduzir a esposa e os senhores em direção aos portões de embarque. Todos estavam absortos em suas próprias conversas e não prestaram atenção ao sistema de som, mas dirigiram-se automaticamente aos portões para embarcar assim que o voo foi anunciado. A temperatura na rampa de acesso estava fresca — cerca de 17°C (62°F) —, mas todos estavam preparados, vestindo blazers robustos. A esposa de Rich usava uma blusa de gola alta grossa, de algodão branco-pérola da Ralph Lauren, e um colar de diamantes deslumbrante que iluminava suas roupas, parecendo combinar perfeitamente com a pulseira e o relógio que ela também usava. Ela decidiu sentar-se no assento do corredor, pois tinha pavor de aviões — especialmente de olhar pela janela durante a subida a grandes altitudes, algo que lhe causava um medo mortal, muito além de um simples nervosismo. Inclinando-se a partir do assento da janela e beijando-a com bravura, Rich garantiu-lhe, em silêncio, que tudo ficaria bem. Ela sorriu, mas, antes mesmo de poder saborear o momento, o capitão anunciava o destino do voo e instruía a todos, com firmeza, que mantivessem os cintos de segurança afivelados até segunda ordem.Ela conseguia sentir o enorme avião girar para se alinhar à pista de decolagem. Em seguida, a aeronave disparou pela longa pista ao dobro da velocidade de um carro bem ajustado, percorrendo uma distância equivalente a vários campos de futebol antes de realizar uma subida brusca, inclinando-se quarenta e cinco graus para cima. Com sua envergadura imensa, a aeronave permitia que a lei de Bernoulli entrasse em ação. Richard observava o aeroporto diminuir até parecer minúsculo, com os carros assemelhando-se a caixas de fósforos. De repente, tornaram-se pequenos demais para serem distinguidos; via-se apenas o traçado desbotado das estradas e pontos que se sobressaíam ao longo delas. Richard continuou a olhar pela janela, notando que todas as construções humanas haviam desaparecido lá embaixo, restando apenas as copas das árvores. Eram árvores densas; parecia que a Terra era feita apenas daquilo, e que nada conseguiria penetrar aquela massa verde. O avião continuava sua ascensão e, por isso, as árvores também acabaram desaparecendo de vista. De alguma forma, as nuvens não pareciam atrair tanto a atenção de Richard, levando-o a soltar de repente: "Ei, tem serviço de bordo?"Sua esposa respondeu calmamente: "Se você olhasse para o seu assento, veria o botão de chamada bem aqui."Com uma expressão sem graça, ele apertou o botão, mas logo abriu um sorriso tímido. "Ah, não tinha visto isso.""Olá, o que posso servir ao senhor?""Bem, o que vocês têm? Não vejo nenhum cardápio por aqui.""Temos apenas bebidas e petiscos.""Que tipo de bebidas e petiscos?" O tom foi áspero, e era evidente que a comissária de bordo se esforçava para não demonstrar seu descontentamento.A Sra. Dickenson disse: "Por favor, desculpe-o. Ele está apenas..." Mas Richard a interrompeu: "Ah, não! Não precisa me desculpar. Traga-me uma Coca-Cola e... hã... amendoim torrado e... o que mais? Talvez biscoitos e queijo." "Traga-me apenas uma variedade daqueles seus petiscos."O jeito como a comissária de bordo se afastou denunciava o que ela pensava: que sujeito grosseiro, insuportável e egoísta. Ela voltou com uma cesta repleta de uma variedade de castanhas, biscoitos e queijos. Havia até carne bovina defumada, semelhante a carne-seca, acompanhada de um copo com gelo e uma Coca-Cola em lata bem gelada. A Sra. Dickenson não quis nada, mas o marido devorou ​​aqueles nutrientes insuficientes. O restante do voo transcorreu tranquilamente, inclusive o pouso. Depois, todos foram conduzidos aos seus quartos de hotel.O ar da noite estava diferente do que Richard esperava. Quente. Pesado. Vibrante. O grupo entrou no hotel enquanto funcionários levavam as bagagens para os elevadores. Vários investidores admiravam a paisagem tropical visível através das janelas do saguão. Richard permaneceu perto da entrada por um momento, respirando o ar úmido. Um funcionário local estava ali perto, descarregando suprimentos de um caminhão pequeno. O homem mais velho fez uma breve pausa e olhou na direção de Richard.  "Você veio por causa da floresta?", ele perguntou.Richard sorriu com orgulho. "De certa forma."O homem assentiu lentamente. "Meu avô costumava contar histórias sobre a floresta."Richard riu discretamente. "Imagino que todos por aqui tenham histórias."O velho não sorriu. "Algumas histórias servem de aviso."Richard olhou para ele com curiosidade. "Que tipo de aviso?"O homem lançou um olhar para o horizonte escuro, além das luzes da cidade. Depois, deu de ombros. "A floresta guarda o que lhe pertence."Por alguns instantes, nenhum dos dois disse nada. Por fim, Richard riu baixinho. "Bem, felizmente para mim, estamos apenas pegando um pedacinho dela emprestado."O velho não respondeu. Simplesmente voltou ao trabalho. Richard balançou a cabeça e caminhou em direção aos elevadores do hotel. Na manhã seguinte, já havia quase esquecido a conversa.CAPÍTULO TRÊSNão havia muito o que fazer naquela área isolada da América do Sul, exceto aproveitar o que estava disponível nos quartos e no salão de banquetes. O salão de banquetes servia drinques variados e contava com uma banda ao vivo, contratada para tocar uma inesperada melodia brasileira. O som da banda era vibrante, conferindo ao ambiente uma atmosfera verdadeiramente tropical. Os quartos eram espaçosos e, na verdade, pareciam suítes; no entanto — e surpreendentemente —, não havia telefones nem televisores. Eles eram equipados com saunas, e as varandas davam para vastas planícies. Os quartos estavam longe de oferecer recursos tecnológicos, transmitindo aos ocupantes o verdadeiro significado do termo "terceiro mundo".Ainda assim, os homens sentiam-se confortáveis ​​em seus quartos e aproveitaram a oportunidade para um descanso mais do que necessário. Eles precisariam dessa energia para a apresentação que se aproximava, especialmente após o longo voo."Droga, nada de telefones!" Rich sacou o celular enquanto lançava um olhar rápido para a esposa. "Acho que ele está a caminho", disse ele, após deixar o telefone tocar várias vezes sem resposta; ao desligar, acrescentou: "Querida, preciso ir ver se o barco de transporte está pronto."A Sra. Dickenson assentiu, demonstrando aceitação, e aconselhou o marido a ter cuidado. Ele concordou com a cabeça e saiu. Não havia motivo para preocupação, dizia a si mesmo. Os helicópteros haviam sido entregues anteriormente, e uma embarcação médica estava pronta no cais. A questão não era a preparação, mas sim a consciência do que o aguardava — algo que fazia seu estômago dar nós e relaxar de forma espasmódica. Naquele momento, ele ponderava sobre a decisão de usar o barco para transportar os investidores. Achava que seria a opção mais adequada, já que a embarcação era espaçosa o suficiente para acomodar a todos a bordo. Seriam necessários dois helicópteros para transportar as sete pessoas, e ele era o único piloto disponível. Estava ansioso para chegar ao cais e garantir que tudo estivesse em ordem antes de levar os investidores. Era uma distância muito curta até o cais do imponente rio Amazonas, na região sudoeste de Macapá, no Brasil! A paisagem tropical dominava o cenário enquanto ele seguia viagem em uma carroça puxada por cavalos. Diante de seus olhos, dois belos helicópteros e um barco — flutuando imponente ao fundo — testemunhavam os preparativos realizados para aquele projeto. Muitos brasileiros circulavam pelo local — havia mais gente do que o habitual, pois era impossível não notar a chegada dos americanos.Enquanto Richard inspecionava a embarcação, um estivador idoso observava tudo à distância. Por fim, o velho se aproximou. "Vai viajar muito floresta adentro?", perguntou.Richard assentiu. "A trabalho."O velho olhou para o rio. "O rio tem memória."Richard sorriu educadamente. "Imagino que sim."O velho balançou a cabeça. "Você brinca agora. Todo mundo brinca."Antes que Richard pudesse responder, o homem simplesmente se afastou. Richard deu de ombros e continuou sua inspeção. Ele caminhou pelo cais até seu barco; alguns estranhos chegaram a encará-lo. Não estava claro o que exatamente passava pela cabeça daqueles observadores, mas suas expressões revelavam curiosidade e admiração. Sem se deixar afetar pelos olhares, ele entrou no barco e imediatamente verificou todos os instrumentos. Navegar era um de seus hobbies, então a tarefa transcorreu com facilidade. Richard observou os instrumentos e, em seguida, olhou pela janela para a paisagem, semicerrando os olhos contra o sol.Suas emoções estavam à flor da pele, pois tudo corria maravilhosamente bem; aquele estado de espírito, somado à paisagem familiar, despertou lembranças: "Querida, vou pescar!""Tudo bem, querido." Richard pegou sua vara de pesca favorita e, com a outra mão, segurou firmemente uma caixa de equipamentos cara. Pouco depois, ele já estava saindo pelo portão em seu SUV. Os pneus cantaram, como de costume, quando ele assumiu a direção. Outros gritos — mas de tom bem diferente — soaram quando ele decidiu parar na loja de artigos de pesca do Owens. Ao abrir a porta da loja, ouviu-se o tilintar de sinetas e ele foi recebido por um ar frio e parado, que refrescou sua pele suada após a manhã quente e abafada. Aquele frescor foi bem-vindo, embora ele não demonstrasse isso abertamente, já que sua prioridade era comprar os apetrechos de pesca. Richard observou as diversas iscas e equipamentos, visivelmente indeciso sobre qual tipo escolher. Coçava o queixo e semicerrava os olhos, como se tivesse dificuldade para enxergar.Um homem de aparência bem rústica perguntou: "Que tipo de pescaria você vai fazer?""Não sei.""Vai pescar em água doce ou salgada?" "Ah, entendo. Bem, acho que água doce.""Certo, e que tipo de peixe você queria pescar?""Qualquer um que morda a isca.""Ah, entendo", disse o homem de aparência rústica, soltando uma risadinha. Ele continuou, com a voz arrastada: "Acho que você nunca saiu de barco a uma milha da costa, não é?""Já fiz muitos cruzeiros!" "Não cruzeiros! Pescaria! Você já pescou em alto-mar?""Não, não posso dizer que já tenha feito isso!""Você parece um homem de posses. Merece levar o prêmio: o maior e melhor peixe que você poderia sonhar em fisgar." Richard interessou-se pelos comentários do homem e permitiu......deixar-se atrair para uma armadilha verbal. "Qual é o seu nome?""Richard! Richard Dickenson." "Bom, Sr. Dickenson, não digo que a pesca seja um hobby sério para o senhor. Talvez o senhor cace e agora tenha decidido expandir seus horizontes. Pois deixe-me lhe dizer: pescar é a melhor experiência que alguém pode ter. Deixar-se levar pela correnteza do oceano, procurando um lugar para lançar nossas armadilhas nas profundezas, na esperança de que algo faminto e desesperado por comida morda nossos anzóis afiados e capture as maiores e mais ferozes criaturas do mar... é o melhor passatempo imaginável. Então, o senhor está no comando, Sr. Dickenson.""Pode me chamar de Richard.""Richard! Ora, o senhor nunca pilotou um barco antes?""Não! Sempre tive alguém para fazer isso por mim.""Mesmo tendo condições de contratar alguém, ainda é uma habilidade útil de se ter. O senhor pode precisar dela um dia.""Como assim? Então, o senhor dá aulas de navegação?""Ah, não! Não sou instrutor, mas cresci cercado por barcos desde que era bem pequeno. Tornei-me muito habilidoso nisso; provavelmente conseguiria até navegar pelo mundo todo com o senhor.""Provavelmente?" Richard declarou, demonstrando que não queria servir de cobaia."Ah, digo isso porque nunca tentei de fato." Richard ficou ali, olhando fixamente nos olhos do outro, antes de soltar: "O senhor não tem certeza, então receio ter que recusar.""Tenho certeza de que conseguiria se tentasse. Conheço muito bem os mapas dos oceanos e acompanho todas as condições meteorológicas atuais. A questão não é essa; trata-se de pescar. Convido o senhor a se juntar a mim na próxima vez que eu e alguns amigos formos pescar em alto-mar." Richard topou a ideia, e eles trocaram contatos rapidamente.No entanto, a força do sol brasileiro quebrou sua concentração, e esse foi seu último pensamento antes de soltar: "Droga! Esqueci! Eu precisava buscar o Joe no aeroporto." Era um aeroporto pequeno, privado e meio lúgubre, que atendia apenas aviões particulares. Ele correu para a área onde as aeronaves podiam pousar. Ao chegar àquele aeroporto minúsculo — com uma torre precária e umas quatro pistas insignificantes que, na verdade, não passavam de estradas —, ficou claro que Joe ainda não havia chegado. Richard olhou em volta e não viu ninguém por perto. "Olá? Tem alguém aí?" — gritou ele, fazendo sua voz ecoar pelo vasto espaço aberto do aeroporto."Olá, Joe! Tem alguém aqui?" — berrou, caminhando até a entrada da sala de controle da torre. Entrou na escadaria e olhou para cima; não pôde evitar soltar vários resmungos e suspiros ao perceber que teria uma subida íngreme pela frente. Imaginou que deveria haver alguém ali. Seguiu em frente com determinação. Ofegante e respirando com força — de maneira agressiva, porém controlada —, subiu os degraus. Em pouco tempo, chegou ao topo, sem sequer perceber quantos degraus havia subido. Abriu a porta à esquerda e entrou ansioso, apenas para se deparar com um console em formato de "U" e uma figura vestida com um casaco brilhante, sentada bem no centro. Olhando para cima através das janelas, observou atentamente as pistas quase vazias e, em seguida, o céu, notando um vazio inquietante. "Ei, acorde! Acorde!" — disse, pressionando a poltrona com as duas mãos e sacudindo-a com força; ouviu resmungos vindos da parte da frente do assento. Richard continuou: "Ei, acorde! Acorde" — repetindo as palavras rapidamente, uma após a outra. "Acorde, acorde!"O homem saltou da poltrona, respondendo com uma frase em um idioma estrangeiro."Ei, fale inglês" — disse Richard."Por que você fez isso?" — respondeu o homem, com um sotaque indefinível."Deveria haver um voo chegando.""Um voo" — repetiu o homem, encolhendo os ombros com curiosidade e uma expressão de aflição. "Não, senhor, não sei de nenhum voo! Não sei do que o senhor está falando." Suas palavras foram ditas com um sotaque irritante que agora parecia amplificado."Olhe, senhor" — disse Richard, então, com firmeza. "Há um voo previsto. Verifique e me ligue." Richard anotou rapidamente seu número e entregou a informação ao homem misterioso, que a aceitou com um olhar peculiar. "Isso vai ser um problema?""Não, não." Richard fez uma careta de desprezo e perguntou: "De onde diabos você é, afinal?" O homem não respondeu verbalmente; um simples aceno de mão e um movimento de cabeça pareceram bastar. Richard balançou a cabeça, decepcionado, e desceu a escada. Ansioso para voltar às suítes e reunir os investidores, ele desceu mais rápido do que havia subido. Perguntou-se onde Joe estaria no caminho de volta, mas presumiu que ele estivesse apenas atrasado. Ainda assim, a apresentação precisava começar. Joe era apenas um amigo para lhe fazer companhia, mas seus gostos contrastavam fortemente com os dos investidores, e Richard achava que isso era um elemento necessário na discussão. Ele até desejou ter esperado um pouco mais, mas os motivos de sua presença ali tinham pouco a ver com Joe. O caminho de volta às suítes parecia demorar mais agora, e sua impaciência crescia. Ao chegar ao destino — na hora certa, nem um minuto antes nem depois —, sua impaciência transformou-se em uma agressividade ansiosa, talvez até obsessão; mesmo assim, manteve a calma enquanto reunia todos os investidores. Todos haviam embarcado no barco enquanto Richard, silenciosa e rapidamente, verificava todos os instrumentos necessários. Seria uma tarefa mais difícil sem a presença de Joe. Eles haviam realizado muitas missões de navegação juntos. Seja pescando ou apenas curtindo um passeio com seus entes queridos, desta vez ele estaria sozinho, mas isso não o incomodava nem um pouco. Sua determinação em tornar aquilo um sucesso dominava todos os outros pensamentos. Soltando as últimas cordas que prendiam o barco, eles logo partiram. O barco era bem construído e tinha boa velocidade.O destino deles era uma margem de rio específica, a 160 quilômetros a sudeste de Macapá. Richard acelerou o iate de médio porte ao máximo, aplicando as habilidades náuticas que herdara — de forma indireta e bastante conveniente — durante uma visita a uma loja de artigos de pesca. Ele ouvia o vento passar velozmente pela popa do barco e também captava fragmentos de conversas intrigantes."Dick! O que você acha?", disse um dos investidores, de pé, com as duas mãos agarradas ao parapeito do barco e uma expressão visivelmente intrigada.Ele respondeu prontamente: "Acho? Sobre o quê, Peter?" "Quer dizer, aqui, no meio do nada! Você não acha um pouco exagerado estarmos aqui para uma apresentação?"O Sr. Neuheisil começou a exibir um brilho no olhar, como se tivesse todas as respostas, e respondeu com confiança. "Bem, sabe, acho que é uma boa ideia. Isso nos dá a chance de ver a realidade desse tal — entre aspas — projeto! E seu verdadeiro potencial! Até agora, tem se mostrado viável, mas só estou começando a acreditar nisso agora que ele decidiu nos trazer aqui. Devemos aproveitar ao máximo a situação e usar essa experiência para decidir se é sequer possível — ou mesmo lucrativo, aliás.""É, pois é, sabe..." Os homens continuaram a conversa informal entre si enquanto Richard conduzia o iate até o destino."Vejo que você domina a situação, Richard", exclamou Jim, que estava ao lado de Tony Palanas. "Onde exatamente você aprendeu a pilotar barcos?" Richard virou-se e viu os dois homens observando-o como detetives particulares.Ele respondeu de forma casual e gentil. "Navegar é um hobby meu há muitos e muitos anos. Um amigo me apresentou à pesca em alto-mar, e a coisa engrenou a partir daí."Dick olhou primeiro para Richard com um sorriso que demonstrava que estava impressionado. Em seguida, olhou para Jim e Tony simultaneamente, segurando o ombro de cada um e dirigindo-se aos dois. "Aqui estamos nós, deslizando pelas águas do *bayou* como exploradores da Amazônia, vivenciando de fato esta empreitada. Alguns podem ter achado, a princípio, que estar aqui era algo extremo, mas devo dizer, Richard: para mim, tem sido uma experiência verdadeiramente tropical. Quero parabenizá-lo por esta iniciativa; e espero que vocês, senhores, vejam isso como uma oportunidade de compreender realmente a realidade por trás dessa ideia." Os homens olhavam à frente, cada um com suas próprias características. Seus olhos brilharam ao se aproximarem de uma grande abertura no rio — algo que parecia um enorme lago, mas que, na verdade, era o ponto onde o rio se dividia em dois.Era ali o lugar. Richard pensou: "Agora, preciso decidir entre as margens de terra logo à frente". Ele direcionou a embarcação para o ponto onde a terra dividia o rio em dois fluxos: um para o oeste e outro para o sul. "Muito bem, senhores", disse ele, avisando a toda a tripulação, "preparem-se para atracar." Richard conduziu o barco o mais próximo possível da margem, mas percebeu que não havia onde atracar. Os homens se reuniram junto às grades laterais da embarcação enquanto Richard falava em voz alta: "Infelizmente, não previ a impossibilidade de atracar o barco — o que vai acabar sujando nossos pés —, mas vejo um bosque logo ali, uma clareira onde poderíamos ter pousado os helicópteros. Ainda assim, este é o local indicado no mapa", disse ele, erguendo o mapa para que todos pudessem vê-lo claramente. Apontando para o mapa, ele continuou: "Vejam só, senhores!"Jim interrompeu, dizendo: "Você poderia muito bem instalar uma instalação de carga e descarga ali, naquele braço do Orinoco também. O Orinoco está conectado a todo tipo de rio na Colômbia, sem falar que sua foz fica perto de Trinidad e Tobago. Se não me engano, isso pode encurtar a rota para a América."Richard olhou para ele com surpresa e respondeu: "Viu só! Você realmente entende o que estou imaginando aqui. Eles também têm ouro, petróleo e esmeraldas."Jim, com uma intenção oculta brilhando nos olhos, comentou: "Estou bem ciente do que a Colômbia tem a oferecer." Ele deu um tapinha nas costas do silencioso Tony Palanas e segurou seus ombros, agindo agora claramente como porta-voz de Tony. Tony continuava recuado na cadeira, sem dizer muito, mas estava de fato interessado. Sua família tinha laços reais na hierarquia do tráfico, e a Colômbia era uma produtora conhecida de muitos desses produtos. Esse enorme projeto de indústria de transporte e a futura operação seriam perfeitos para o tráfico e a lavagem de dinheiro. A aparente falta de interesse de Tony era apenas um estratagema. Na verdade, ele estava ansioso para tirar esse projeto do papel. Aquela facilidade de acesso era uma oportunidade imperdível. O plano consistia em contrabandear mercadorias para fora da Colômbia, transferir os produtos nesse centro de controle recém-proposto e permitir que seguissem viagem a partir da costa leste da América do Sul. Com a troca para um navio totalmente diferente, seria difícil para as autoridades rastrear o destino das drogas. Ele vibrava internamente com a oportunidade, mas acabou sendo arrancado de seus devaneios.Richard falou em voz alta: "Não é só isso, cavalheiros. Podemos transportar cana-de-açúcar e arroz da Venezuela, bem como trigo, cevada e milho do Peru. Precisam de cobre? O Peru é o lugar certo! Ah, e não se esqueçam do petróleo em Guaza, recém-descoberto. Já que a Bolívia se recusa a investir — ou talvez não tenha capital —, nós podemos ser a fonte do capital deles. Podemos nos tornar proprietários parciais da Bolívia. Lembrem-se, eu falei aos senhores sobre os depósitos em Cuiabá." Ele apontou mais uma vez, com uma agressividade que capturou a atenção de todos os homens. "Estão vendo este rio?" ...isso nos permite enviar cargas para o Paraguai e o Uruguai e, finalmente, sair pelo Rio da Prata."Esse comentário final de Richard arrancou grunhidos de aprovação, e Dick sugeriu: "Acho que isso também nos dá acesso à Argentina. O que eles têm a oferecer, Sr. Dickenson?""Bem, aquele país tem Buenos Aires, uma grande cidade portuária próxima a Córdoba. Eles produzem automóveis e ônibus.""Hmm!", disse Dick, mas Richard não lhe deu chance de dizer nada, pois continuou a falar sem parar."Vejam, senhores: embora não possamos caminhar em terra firme, acredito que todos já tenham uma ideia de para onde esse projeto vai caminhar. Primeiro, precisamos definir o local para o contrato."Peter comentou: "Não sabemos se um projeto dessa magnitude é sequer viável; além disso, qual é a viabilidade de construção neste terreno?"Richard disparou, entusiasmado: "Claro! É por isso que agendei a vinda de uma equipe de topografia e alguns engenheiros para construir — bem, antes de tudo — um local para atracar este barco. Eles farão medições e levantamentos, ou seja lá o que for que eles façam. Vejam! Eu não disse que esse plano seria isento de obstáculos, mas garanto que os engenheiros provavelmente aprovarão este local para a referida construção." ...e estaremos a caminho de construir um império de transporte marítimo."De repente, o olhar de Richard tornou-se aguçado ao voltar-se para a terra firme. Pouco antes de abrir a boca novamente, ele notou algo que parecia cruzar a floresta — ou mover-se por entre ela — em disparada. Sua expressão revelava perplexidade, mas ele logo tratou de disfarçá-la, engolindo em seco. Ele quase levou a mão à cabeça, prestes a perguntar em voz alta: "O que era aquilo?". No entanto, o pensamento que realmente lhe ocorreu foi: "Quem era aquele?". Parecia um homem completamente nu correndo e desviando-se da densa vegetação. Ele tinha quase certeza de que era uma pessoa, pois notara olhos espiando por trás de uma árvore, logo antes de o vulto se tornar apenas um borrão. Houve um contato visual direto — olho no olho —, e foi isso que deixou Richard tão perturbado. Aqueles olhos pareciam fixos nele antes de a figura — fosse homem, mulher ou outra coisa — fugir.O devaneio de Richard foi interrompido por Jim: "Algum problema? Parece que você viu um fantasma.""Ah, não! Achei apenas que tinha visto um cervo ou algo assim." *Trim! Trim!* O toque alto do telefone interrompeu o momento. "Com licença, senhores." Ele atendeu prontamente. "Sim", disse ele, aguardando então, com paciência, uma resposta."Senhor, sobre aquele voo de que o senhor falou mais cedo... Ele deve chegar em umas duas horas. Eles decolaram... Acabei de receber a mensagem do piloto.""Certo, ótimo!" Richard olhou para o relógio e percebeu que já era meio da tarde. Lembrou-se, então, de que Joe deveria ter vindo naquele voo mais tardio desde o início. Mesmo assim, ele manobrou o barco e eles rumaram de volta para Macapá. Todos aproveitaram o trajeto de retorno, pois o calor do sol começava a diminuir, tornando a viagem mais agradável. Eles beberam um pouco e estavam bastante animados com a perspectiva de ganhar tanto dinheiro com......o projeto, e eles não perceberam que estavam quase chegando ao destino. Finalmente, todos desembarcaram e seguiram para o salão de banquetes para continuar se empanturrando de bebidas alcoólicas.CAPÍTULO QUATROAo chegar ao pequeno aeroporto, Richard viu Joe sentado, à sua espera. Richard desceu da carroça e aproximou-se do prédio. "Ei, Joe! Joe!" exclamou Richard."Rich! Rich, ei, Richard... Velho amigo, como vão as coisas?""Vão bem, Joe. E com você?""Uma maravilha. Vejo que você nos trouxe para o meio dos trópicos e essa porra toda." Fazendo uma breve pausa enquanto se afastavam do prédio, Joe soltou, de forma engraçada: "Puta merda, temos um cavalo e uma carroça! Caramba! Que diabos está acontecendo? Quer dizer, você falou algo sobre um projeto, mas, caramba! Eu não fazia ideia." Os dois homens subiram na carruagem e seguiram para as suítes. "Então, o que exatamente estamos fazendo aqui?""Bom, Joe, eu realmente chamei você para me ajudar na navegação, mas sua chegada atrasada acabou com esse plano.""Ora, me desculpe, mas que navegação?" Ele falou com franqueza e ingenuidade."Acabei de levar os investidores para um passeio de barco até o canteiro de obras principal.""Espere um pouco, calma aí! Investidores? Passeio de barco? Navegação? Você está me confundindo.""Joe! Lembra quando liguei para convidá-lo para a apresentação? Preciso do capital deles.""Ah, entendi. Você está colocando suas técnicas de trambique em prática. Ainda não entendo a parte do passeio de barco.""Caramba, Joe, use a imaginação. O projeto fica a cerca de 160 quilômetros a sudoeste daqui, viajando de barco pelo Amazonas.""Rapaz, você é mesmo um aventureiro. Você me meteu nessa merda há muito tempo, falando de pesca em alto-mar e essas coisas. Imagino que precisasse da minha ajuda no barco.""Não! Jura?""Ei", disse Joe de forma incisiva, fazendo uma pausa longa o suficiente para garantir que havia captado a atenção do Sr. Dickenson. "Vai se foder, tá? Você provavelmente queria que eu fizesse todo o trabalho enquanto você ficava de papo furado com gente mais rica que você. Isso sim seria uma cena e tanto."Um sorriso surgiu no rosto de Rich enquanto os homens se aproximavam das suítes, mas durou pouco, pois ele começou a falar sem parar: "Ei, o sol ainda tem algumas horas de luz." "Vamos pegar o helicóptero até o local.""Que local, cara!?""Droga, Joe! Onde o estaleiro vai ser construído.""Estaleiro! Eu já sabia que você era louco, mas, caramba! Isso eu não imaginava.""Dizem que todo gênio é louco, e vejo que você não tem prestado atenção em nada do que eu disse.""Calma aí, Rich. Eu tenho prestado atenção, sim. A viagem foi longa e eu não recusaria um daqueles drinques tropicais.""Qual é, Joe, eu não tive chance de vistoriar o terreno.""Bom, por que não?", exclamou Joe, num tom inaceitável."Não tivemos chance de construir um píer, e isso nos impediu de desembarcar do barco. Eu não queria pegar os barcos menores com aqueles paspalhos inexperientes." Joe recuou, com um ar divertido, enquanto ouvia Rich. "Meu plano é pegar os helicópteros, construir um píer e avaliar o terreno. Conseguir a aprovação de um engenheiro para a construção e deixar o dinheiro dos meus investidores fazer o resto. Quero pelo menos saber o que vou enfrentar." Richard proferiu esses últimos comentários de forma incomumente distraída; a imagem do homem completamente nu talvez lhe tenha passado pela cabeça. No entanto, ele continuou: "Além disso, você não precisa dessa porcaria de álcool. Isso pode te matar.""Tá bom, tá bom, mas eu sou um homem feito e vou tomar vários desses drinques assim que voltarmos dessa sua obsessão estranha — ou jornada, ou até mesmo missão, seja lá o que for. Alguma coisa! Alguma coisa deu em você."Richard parecia preocupado, mas conseguiu exclamar com rispidez: "O quê?!""Você me ouviu! Esse seu jeito louco vai acabar te matando um dia.""Ah, é? Bom, pelo menos não vou morrer velho sem ter feito nada além de devorar cevada e lúpulo e fumar charutos até meus pulmões parecerem um caldeirão de piche fervente, estressado por trabalho braçal pesado e revoltado com todas as coisas que eu poderia ter feito." Uma risadinha silenciosa e contida, que soava como a letra "K", escapou da boca de Joe. "Vamos nessa!" Richard saltou primeiro, seguido por Joe. Os dois homens aproximaram-se da área onde os helicópteros estavam parados. Na torre grande, o velho lançou um olhar rápido aos homens antes de voltar ao seu livro e enfiar uma fruta desconhecida na boca. "Não deve levar muito mais do que trinta minutos para chegarmos ao local." Ambos embarcaram e acomodaram-se devidamente.Richard verificou os instrumentos e logo partiram. "Como está a Claira?"  "Ah, ela está bem. Ela teve aquela reunião e está realmente crescendo na carreira. Tenho orgulho das conquistas dela, e especialmente do papel dela como esposa. Está tudo bem com você e a Susan?""Ah, claro! Com certeza! Ela está no quarto me esperando.""Puxa, que sorte a nossa." Antes que Richard pudesse aproveitar o elogio, Joe continuou tagarelando. "Ou melhor, que azar. Tantas mulheres brasileiras lindas.""Você é casado!""Eu sei, eu sei! Homem é homem. Você entende o que eu quero dizer.""É, pois é! Vai acabar fazendo besteira e trazendo um belo caso de malária para a Claira.""Ah, engraçadinho!""Ei, Joe, você sabe que é um grande amigo meu e fico muito feliz que tenha conseguido vir." O tom dele de repente fica mais suave, menos obsessivo."É, cara, sem problemas." Um silêncio se instalou e, de repente, o zumbido das pás do helicóptero tornou-se mais perceptível. O voo foi bem tranquilo e, logo, eles estavam se aproximando do local. Richard olhou para baixo para focar exatamente onde queria pousar."Ei, Rich, você sabe onde vai soltar essa belezinha?""Sim!" Richard exclamou com um toque de irritação. "Identifiquei este local quando trouxe os investidores aqui.""É, se você diz." O helicóptero desceu exatamente onde Richard queria pousar, e os homens saltaram rapidamente depois que Rich reduziu a velocidade dos rotores. "Caramba, cara!""O que foi agora, Joe?""Este chão está meio lamacento.""É, bom, vamos subir um pouco a margem. Provavelmente o chão está seco lá em cima." Eles caminharam uma certa distância do rio, notando todos os sons de pássaros selvagens, insetos e outras criaturas não identificadas à espreita na floresta. Os dois homens não perceberam os olhos ocultos atrás das árvores que escondiam os observadores.Richard lembrou-se de algo que o professor Akbar havia dito durante o voo: "O erro que as pessoas modernas cometem é presumir que as histórias antigas existiam apenas para entretenimento". Na época, Richard havia descartado o comentário. Ali, sob a copa da floresta tropical, aquilo parecia menos divertido. Eram os olhos atentos de muitos homens em meio a uma cerimônia. Richard caminhava com dignidade, indiferente aos sons inquietantes da selva. Eles percorriam uma trilha que abria naturalmente uma pequena clareira na floresta. Joe olhava ao redor repetidamente, tentando localizar a fonte daqueles sons.A trilha terminou, mas aquela nova área oferecia caminhos em várias direções. A densa copa das árvores bloqueava a luz do sol, limitando a visibilidade a uma distância de apenas quinze a vinte metros. Além disso, a visão era obstruída por um emaranhado de árvores cobertas por cipós tropicais. Richard permaneceu a cerca de seis metros de distância, num canto, ouvindo Joe comentar sobre o ambiente ao redor."Aquilo é um papagaio? Nunca vi um pássaro com tantas cores diferentes e tão vivas. Daqui a pouco você vai me ver conversando com pássaros selvagens.""Bom, Joe, isso combina com você. Tenho certeza de que vocês teriam muito em comum", respondeu Richard com extremo sarcasmo, como era de costume entre os dois amigos.Joe reagiu, primeiro com um olhar que demonstrava impaciência. "Olha só!" — disse ele com firmeza — "você já me trouxe para uma versão ocidental da nossa terra natal, fazendo a gente achar que faz parte da nação Harubu. Sua vadia...!" Ele falou arrastando a palavra, mas com firmeza e um tom que parecia carregado de ódio. No entanto, não era o caso. Os dois amigos estavam acostumados com aquele humor ácido; fazia parte da maneira brincalhona como costumavam interagir."Podíamos até pintar o rosto e segurar lanças enquanto entoamos sílabas que nunca ouvimos antes; quem sabe entrar em coma com alguma dessas plantas psicodélicas desconhecidas."Richard não conseguiu evitar risadinhas e um sorriso de canto. "Você é um tremendo idiota." Ele continuou rindo."Você está rindo, mas estou falando sério", respondeu Joe, também com um sorriso de canto. Os homens atravessaram a outra extremidade da clareira. Começaram a seguir por outro caminho e, à frente deles, havia olhos que os observavam, mas os dois amigos não perceberam. Richard ia à frente e Joe o seguia, ainda alheios ao fato de estarem sendo vigiados. Onde estava o observador? Em uma árvore? Era impossível saber, já que eles não notaram a presença daqueles olhos. Os dois amigos não conseguiam ouvi-los, mas havia cânticos de grande louvor e o som de madeira batendo, como se tambores primitivos estivessem sendo tocados. O sol descia em direção ao horizonte ocidental. Sons de instrumentos de corda primitivos também ecoavam, fundindo-se harmoniosamente com o rumor da floresta ao cair da noite. Uma névoa sombria se dissipava, assim como uma aura de misticismo. Imagens de dançarinos primitivos e espíritos indígenas surgiam em lampejos, acompanhadas por sons de dança e cânticos; a intensidade crescia vertiginosamente, mas Rich e seu companheiro nada ouviam. De fato, para eles, aquilo sequer existia. Os olhos pertenciam a homens reais, mas também aos espíritos que estavam sendo invocados. Os sons se tornavam mais altos e as imagens piscavam com maior intensidade à medida que o crepúsculo os envolvia."Richard, está escurecendo." Richard caminhava como se não ouvisse o amigo falando com ele. "Não sei o que você está tentando fazer aqui fora. Digo, aqui longe, numa terra de ninguém. Quer dizer, provavelmente existem espécies que ainda não vimos. E você me trouxe para cá depois do pôr do sol. É uma merda aqui fora; e se aparecer um maldito felino selvagem, ou uma porra de um... hã... hã... qualquer merda que seja? Tem todo tipo de merda aqui. Nem sei dar nome às coisas. E você quer vir aqui cavar e fuçar em tudo. Algo deu em você — e dizer isso é pouco. Você é simplesmente louco. Sinto como se estivesse na antiga civilização asteca."Com seu devaneio bruscamente interrompido, Richard respondeu: "Perdoe minha insolência, mas isso já era de se esperar. Com sua capacidade mental — por mais obtusa que seja —, você não conseguiria nem começar a compreender os benefícios.""Ah, vai se foder, você e o que quer que tenha dito. Só porque você é o Rich, o Rich! Você sabe que eu falo o que penso.""Acho melhor voltarmos", disse Richard rapidamente. "Apenas me siga por esta trilha que percorremos antes.""Espero que você saiba como sair desta selva.""Joe, não seja tolo." Enquanto caminhavam em busca do local onde haviam aterrissado, os sons da noite agora se sobrepunham aos ruídos que ouviam antes. Seus ouvidos enviavam aos cérebros mensagens ainda mais inquietantes. Joe olhava em volta, em pânico, tentando localizar um som que seus ouvidos continuavam a captar, mas que sua mente não conseguia identificar. Richard caminhava rápido, e Joe parecia ficar cada vez mais para trás. Os sons misteriosos da floresta e o terreno selvagem desconhecido o atrasavam. Então, de repente, ele começou a correr morro acima, perpendicularmente à trilha. "Preciso fazer xixi. Espera aí, cara, espera!" Richard estava muito à frente e mal o ouviu."O quê, Joe?" Ele continuou caminhando, indiferente aos observadores e aos sons."Merda!" respondeu Joe. Pensou consigo mesmo: "Droga, devo ter escorregado para o outro lado". A necessidade de urinar, porém, continuava a mesma. Ele gritou: "Richard, Richard!" Richard parou onde estava, bem à frente, virou-se e respondeu em voz baixa: "Joe, o quê? Onde você está?" Ele falou calmamente, parado no lugar e demonstrando um pouco de impaciência. Começou a caminhar lentamente na direção dos gritos de Joe. Joe decidiu que precisava esvaziar a bexiga naquele momento. Escolheu uma árvore enorme para subir e fazer suas necessidades. Presumivelmente, não havia ninguém olhando, mas ele decidiu escolher uma árvore para se esconder mesmo assim. Ele provavelmente estava acostumado com bordos ou carvalhos gigantes, cujas raízes salientes serviam normalmente como degraus. Joe fez o que estava acostumado e desfrutou de um dos melhores alívios de todos os tempos. De pé sobre duas raízes enormes, ele se deixou levar. Jogou a cabeça para trás e relaxou enquanto aproveitava aquele esvaziamento tão necessário. Quando as últimas gotas caíam, ele inclinou a cabeça ainda mais para trás e sentiu um arrepio percorrer seu corpo. "Droga!", gritou Joe. Seu corpo foi projetado para a frente quando o chão cedeu repentinamente sob seus pés. Parecia que a superfície abaixo havia desabado. O que aconteceu com as raízes em que ele estava apoiado? Isso era a última coisa em que ele pensava. "Droga, caramba!", gritou Joe, e então repetiu o nome do amigo em voz alta, várias vezes. "Richard! Richard! Estou preso em algum tipo de armadilha. Droga, cara, venha me tirar dessa merda."Com um sorriso surgindo no rosto, Rich respondeu: "Já vou, já vou." Depois de gritar, Richard murmurou para si mesmo: "Em que enrascada ele se meteu agora?" Richard caminhou para a frente, mas logo começou a gritar novamente."Joe! Sabe, quando você fala mal da terra, ela não é nada gentil com você." Joe não conseguia ouvi-lo de fato; ele ainda estava a uma boa distância. "Ei! Ei! Droga, droga!", gritava Joe a plenos pulmões. Ele continuou, com um desespero crescente: "Está me apertando. Estou sendo... Droga, cara, tem algo me apertando. Aaa! Aaa!", gritava Joe. Richard começou a perceber, ainda que vagamente, que seu amigo estava em apuros. "Estou chegando, Joe", respondeu Richard, acelerando o passo em direção aos gritos. Joe continuava a lutar enquanto algo, vindo de baixo, prendia suas pernas. Ele não compreendia o misticismo por trás do ataque; sabia apenas que algo apertava suas pernas com força extrema. O que quer que fosse as mantinha presas, e a sensação era a de sucuris enroladas nelas, esmagando-as. Ele mal conseguia gritar, exausto pelos esforços para se libertar. Logo acima, dois galhos enormes despencaram sobre a cabeça de Joe. Ele não os notou, pois estava prestes a desmaiar. Os galhos racharam seu crânio, e uma substância espessa e viscosa escorreu por seu rosto grotesco.Richard desceu a mesma encosta que Joe e correu pela trilha. Ele gritava: "Joe, Joe". Achava estranho não ouvir mais a voz alta do amigo. "Joe, Joe", exclamava Richard repetidamente, correndo em círculos freneticamente. Por fim, deparou-se com o que restara de Joe. Tropeçou em meio à corrida, e seu rosto refletiu imediatamente a descrença e o choque. Parou de vez, curvou-se apoiando as mãos nos joelhos e começou a vomitar profusamente. Percebeu que Joe estava definitivamente morto, soterrado da cintura para baixo junto a uma árvore. Não ficou ali por muito tempo; virou-se e correu o mais rápido que pôde pelo mesmo caminho, sem parar. A imagem do crânio fraturado de Joe não saía de sua mente. Era uma visão horripilante, capaz de levar qualquer um ao desespero.Tropeçando algumas vezes, Richard finalmente chegou ao terreno lamacento onde pousara o helicóptero. Seus pés ficavam presos a todo instante enquanto percorria os últimos quinze metros antes de saltar para dentro de seu módulo de fuga. Lama pingava de seus pés e o suor escorria de seu rosto, resultado da hiperventilação e do pânico absoluto. Richard ligou o motor, comandando a decolagem. A aeronave conseguiu subir, apesar de estar parcialmente enterrada no solo macio; Richard não notava nada além das imagens que passavam por sua mente. O pânico total dominava seus pensamentos enquanto ele manipulava os instrumentos complexos. Durante todo o voo, seus olhos mantiveram um olhar fixo e sereno, capaz de hipnotizar qualquer um que ousasse encará-los. Respirando de forma frenética, imagens passavam por sua mente mais rapidamente do que antes. Então, ele notou a torre à sua direita e o local onde o outro helicóptero estava parado, intocado. Rapidamente, ele comandou a aeronave para descer, inclinando-se quarenta e cinco graus para a direita. Richard não fazia ideia do que havia acontecido; na verdade, a confusão era apenas uma pequena parte do que fervilhava dentro dele. O helicóptero pousou em segurança, embora de forma brusca, enquanto Rich continuava a lutar com sua própria mente. Manter o controle mostrava-se uma tarefa árdua e, de fato, terrível. Ele saltou da aeronave e correu pelo campo, parecendo extremamente ansioso. O voo errático despertou a atenção do homenzinho na torre, que agora observava Richard correr em direção ao veículo mais próximo. Completamente intrigado, o homenzinho coçou a cabeça, sentou-se e apenas deu de ombros.Richard chegou ao seu quarto, com a paranoia dominando seu estado de espírito. Fez um esforço visível para girar a maçaneta da porta e entrou, fechando-a rapidamente atrás de si, tomado pela ansiedade."Ei, Boo... O que houve?" perguntou a Sra. Dickenson, aguardando com curiosidade a resposta do marido."O quê?" Ele falou de forma brusca ao voltar a si. "Ah, não há nada de errado!""Então por que você fechou a porta como se algo estivesse te perseguindo?" Richard virou-se e olhou para a porta, fazendo uma pausa antes de dizer: "Não percebi que a tinha fechado de um jeito específico."Os olhos da Sra. Dickenson revelavam sua preocupação. "Bom, por que você demorou tanto? Os investidores estão no salão de banquetes esperando por você. E você buscou o Joe?"Richard ouviu com ar preocupado e respondeu de forma desconfiada. "Esse foi o problema. Recebi uma ligação avisando que o voo dele atrasaria. Fui buscá-lo, mas ele não apareceu." Ele sentou-se na cama, fazendo gestos nervosos, e rejeitou os toques gentis e as palavras de conforto da esposa."Olha, Boo, você está deixando esse projeto te afetar; talvez precise...""Talvez eu não precise de porra nenhuma!" Richard exclamou com rispidez. "Não preciso de nada. Veja, este projeto é muito importante e certamente causa certa ansiedade." "Tudo bem, querida, mas caramba! Se isso vai deixar você agindo como uma louca paranoica, então esse projeto precisa ser reavaliado."Olha aqui, sua vadia! Não preciso que você fique pegando no meu pé. Não preciso de ninguém me pressionando por causa desse projeto. Fui eu quem idealizou isso, e mais ninguém."Richard levantou-se da cama, soltando-se bruscamente da esposa e indo em direção à porta. Ao bater a porta atrás de si, por algum motivo, aquilo desencadeou novamente aqueles flashes horríveis. Dessa vez, não eram imagens de Joe, mas imagens de azul. As imagens se intensificaram à medida que ele se aproximava do salão de banquetes, tornando difícil manter uma expressão serena. Agora, elas também vinham acompanhadas de algo estranho e...Lampejos vermelhos passaram rapidamente. A imagem de Joe também lhe veio à mente, mas, desta vez, havia homens cercando o falecido Joe. Logo ficou claro que aqueles homens ao redor de Joe eram as autoridades, e as luzes vermelhas e azuis vinham acompanhadas de uma sirene estridente. Richard começou a considerar a possibilidade de que a polícia atrasasse o projeto — ou até mesmo anulasse qualquer chance de os investidores o apoiarem. Com essa ideia bem clara em mente, ele recompôs a expressão e juntou-se à comemoração dos investidores.— Sr. Dickenson, ei! Onde o senhor estava? — disse Dick, alegre, logo antes de virar mais um martini goela abaixo."Pode me chamar de Rich!""Ei, cara. O que houve com você, afinal?" Dick exclamou, falando como um verdadeiro marinheiro bêbado."Senhores, senhores! Ei, Richard! Bela apresentação! Tudo correu muito bem!" Dando um tapinha na mão de Richard, Peter continuou: "Dick! Ei, você não concorda?""Claro, claro", respondeu Dick, com a fala arrastada."Você está bêbado! Ainda bem que não deixamos essa discussão inteiramente nas suas mãos." Os três homens beberam taça após taça até que a esposa de Richard atravessou a sala com uma expressão de grande insatisfação. Como de costume, Dick foi o primeiro a falar demais: "Ei, Sra. Dickenson! O que houve?"Ela respondeu calmamente: "Estou bem!", enquanto Susan passava pelos homens, revirando os olhos para Rich ao se aproximar do bar para pegar uma bebida."O que houve com sua esposa?" Richard deu de ombros e afastou-se do grupo. "Jim, venha se juntar a nós!" gritou Dick. Jim aproximou-se de Dick e Peter, segurando firmemente sua própria bebida. Dick disparou: "Ei, Jim, e aí? Projeto excelente!"Jim respondeu com cautela, usando gestos, enquanto Peter exclamava: "Acho que o Sr. Dickenson está agindo de forma um tanto estranha.""Bom, você viu que a esposa dele parecia irritada!""É, isso é motivo suficiente para qualquer homem agir de forma estranha." Peter aceitou a observação do colega, mas sua expressão ainda refletia o ceticismo anterior. "Não sei... Provavelmente são apenas problemas de casamento.""O Richard deve ter feito um 'rapidinha' com ela e escapado para vir beber com a gente.""É! Eu faço isso com a minha esposa o tempo todo.""É, Dick, mas você nunca está tentando escapar para lugar nenhum."Dick ficou parado, visivelmente confuso e tentando entender os comentários de Jim. Os homens continuaram conversando entre si, enquanto os outros investidores aproveitavam suas próprias conversas. Richard sentou-se sozinho em um sofá do saguão, com as mãos sobre o rosto e a cabeça inclinada para baixo. Jim Winterlin vinha pelo corredor; estava bêbado, mas seu olhar atento notou Richard sentado ali. "Ei... Ei, Richard! Ei, o que você está fazendo aqui? Por que não está lá entretendo seus convidados?" Richard tentou responder, mas, antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jim falou novamente. "Ei, Richard" — disse com firmeza, como se tentasse disfarçar a embriaguez. "Há algo errado? Você não parece aquele Richard superempolgado de antes. A apresentação foi um sucesso, nós mesmos estamos lhe dizendo isso; então, por que essa cara triste? Tem algo que precise nos contar?"Richard percebeu imediatamente que a entonação na voz do outro homem poderia indicar perigo — ou talvez fosse apenas sua própria paranoia — e respondeu rapidamente: "Ah, não, não há nada de errado. E não há com o que se preocupar. De jeito nenhum. Eu só quero colocar as coisas nos eixos novamente."Uma expressão de confusão surgiu no rosto de Jim. "Colocar o quê nos eixos?""O que quero dizer é que eu queria garantir que tudo estivesse em ordem para que possamos recuperar a glória."Jim respondeu: "Glória, é?""Sim, senhor; isso nos permitirá conquistar o setor de transporte marítimo da América do Sul.""Fico feliz que você pense grande, Richard. É por isso que depositamos nossa confiança em você e nesta iniciativa que você apresentou. Mas não se preocupe com isso — não deixe que a pressão o afete. Você tem nosso apoio financeiro. Basta executar o plano." Ele deu um tapinha nas costas de Richard enquanto se levantava, retomando seu andar cambaleante de bêbado. Seu destino eram mais bebidas.Richard permaneceu sentado calmamente, com as mãos sobre os joelhos; recuperando a compostura, começou a perceber que não havia como voltar atrás agora. Sentiu o toque suave da mão de sua esposa puxando a sua para que se juntassem a ela. Ele se levantou e beijou a esposa como se nada estivesse errado."Desculpe, querida, por ter agido como um idiota. Eu só deixei toda aquela história da apresentação me afetar demais."Susan colocou delicadamente o dedo sobre os lábios dele e respondeu: "Vamos dançar." Com um sorriso de satisfação iluminando o rosto, os dois terminaram a noite bebendo e dançando.CAPÍTULO CINCOA viagem de volta para casa foi agitada para Rich. Ele repassava mentalmente o que havia acontecido e sabia que precisava ter sucesso para que algo de bom surgisse daquela perda terrível. Enquanto refletia profundamente, observava as árvores desaparecerem à medida que o avião ganhava altitude. Quando não havia nada além de nuvens para ver, ele voltava a pensar em como aquele projeto seria bem-sucedido e em como a morte de seu amigo não teria sido em vão. Por fim, o sono veio, e seus devaneios continuaram enquanto ele adormecia. Sem sequer perceber que havia pegado no sono, a imagem de um homem no meio da floresta surgiu em sua mente. O homem estava de costas para Richard; portanto, tudo o que ele via era a silhueta de alguém parado de forma misteriosa, quase no limite de seu campo de visão. Ele decidiu caminhar em direção ao homem, pois sua curiosidade crescia de forma avassaladora e não podia ser ignorada. À medida que se aproximava, notou que o homem começava a se afastar, como se soubesse que estava sendo seguido. O homem jamais olhou para trás — talvez fosse por isso que a curiosidade de Richard começava a dominar seus pensamentos e ações.Ele tentou alcançá-lo, mas em vão; antes mesmo de conseguir empregar um esforço real, percebeu que o homem havia desaparecido. Richard parou bruscamente ao perder o homem de vista e olhou ao redor, supondo que ele devesse ter se escondido atrás de uma árvore. Olhava de um lado para o outro e em todas as direções de forma mecânica, certificando-se de que nenhuma área visível passasse despercebida. Apesar de todo o esforço, não havia sinal do homem, e o local onde ele estivera parecia agora inalterado. Ainda assim, sentiu-se compelido a procurar e olhou atrás daquela árvore coberta de trepadeiras, à sua direita. "Merda", deixou escapar Richard, assustado ao sentir uma mão agarrar seus ombros, o que o fez virar-se rapidamente. Aquele homem obviamente havia se aproximado furtivamente, e Richard percebeu que talvez ele tivesse algo de místico. Olhando com mais atenção, Rich notou que o homem era Joe. Aquilo o aterrorizou profundamente, provocando um pânico absoluto que rompeu a fina camada de coragem que ele mantinha. O homem misterioso então colocou a outra mão no pescoço de Richard e começou a sacudi-lo furiosamente. Richard gritou com toda a força de seus pulmões adormecidos e abriu os olhos, apenas para perceber que sua linda esposa era, na verdade, aquele homem. Ela o sacudia levemente apenas para avisar que eles eram os únicos que restavam no avião."Vamos lá, Richard. Somos os únicos que sobraram. Levante-se!" Um resmungo sonolento e arrastado escapou da boca de Rich, e seu rosto logo revelou um estado de alerta total. "Já acordei! Já acordei! Devo ter cochilado", disse Richard de forma confusa, percebendo que devia ter estado sonhando."Ora, não me diga", soltou Susan com uma mordacidade brilhante. "Vamos, temos que ir!" Ela o puxou para cima e eles saíram do avião. Depois de pegar a pequena, chegaram ao portão de casa — e para Richard, foi na hora certa. "Olá, Sr. e Sra. Dickenson", ouviram o guarda exclamar alegremente após acionar os belos portões."Olá, Hayword", disse Susan gentilmente. Richard e Dainisa apenas observavam."Está tudo bem e seguro por aqui, senhor! Não há nada que o velho Hayword Jeffries não consiga garantir — ou até proteger, aliás." Ele falava com Richard fazendo gestos encorajadores, numa tentativa de agradá-lo. Ele continuou falando, mas suas palavras pareciam não chegar aos ouvidos de Richard, que seguiu andando até passar completamente pelo portão. Richard, na verdade, dirigiu-se direto para a cama para cair num sono profundo."Mamãe! O que houve com o papai?" "Ah, querida! O papai só está cansado. Fizemos uma longa viagem. Você está com fome, meu bem?""Não, mamãe. Eu comi pizza. Posso jogar aquele jogo?""Claro, vou ao seu quarto ligar tudo em um minuto." A menina correu alegremente para o quarto para pegar os equipamentos. Susan encontrou seu livro favorito, preparou uma xícara de chá e colocou as coisas onde costumava se sentar para ler. Ao passar pelo quarto da filha, deu uma espiada no marido e viu que ele estava praticamente hibernando. Ela balançou a cabeça e retomou o que estava fazendo antes."Mamãe, mamãe, eu quero jogar este jogo primeiro!" Susan concentrou-se em montar os equipamentos e conectar os fios às tomadas correspondentes. "Tudo bem, querida! Ligue a energia." A menina apertou o botão. "Certo, deixa eu pegar isso. Preciso configurar." Ela colocou o jogo no modo fácil e ajustou as outras configurações para garantir uma partida longa. Seu plano era manter a pequena ocupada para poder relaxar lendo seu livro e tomando seu chá. Ao se sentar, ela suspirou, sentindo um relaxamento profundo graças ao assento macio. Com uma expressão de alívio após provar o chá escaldante, Susan soltou murmúrios e gemidos de satisfação. Tomando outro gole — e engolindo-o rapidamente —, ela pegou o livro e pousou a xícara, fazendo uma careta por causa do calor da bebida. Um pensamento rápido sobre o marido lhe veio à mente. Afastando-o, ela abriu o livro lentamente na altura da fita que havia deixado entre as páginas e começou a ler.A pequena havia brincado até cair num sono profundo......dormir, mas o jogo continuava rodando, mesmo sem ninguém operá-lo. Três horas haviam se passado e já era muito tarde. Susan continuava lendo, sem perceber que já estava na metade do livro. Ela não tinha a menor intenção de parar. Além disso, chegara a uma parte em que os acontecimentos tomavam rumos inesperados, e a ansiedade para saber o que viria a seguir a consumia. Intrigada, ela prosseguiu a leitura com afinco, enquanto a curiosidade incendiava seus pensamentos. A leitura se intensificava a cada parágrafo, até que... "Trim, trim! Trim, trim!" O toque persistia, mas ela tentava ignorá-lo. No entanto, o som tornou-se insuportavelmente estridente. "Trim, trim!" Irritada, ela deixou o livro aberto sobre a mesa e correu para atender o telefone. "Trim, trim!" Ela apressou-se, sem saber que seu esforço era inútil, pois quem ligava do outro lado não tinha a menor intenção de desligar."Alô", disse ela, exasperada."Oi, é a Susan?""Sim, sou eu mesma!""Desculpe ligar tão tarde, mas o Richard está?""Ah! Não! Ele está dormindo. Quem gostaria que eu dissesse que está ligando?""Desculpe! Aqui é a Claira Geshy. Eu estava ligando para saber se o Richard tinha tido notícias do meu marido, Joe.""Ah, oi, Sra. Geshy. Não reconheci sua voz. Não! Acho que ele disse que o Joe ligou avisando que o avião atrasaria, mas ele não apareceu.""Que estranho! Susan, por acaso você sabe em qual voo ele deveria vir?""Em um dos jatos particulares do Richard.""Meu Deus! Bem, obrigada. Você foi de grande ajuda", disse Claira, triste. As duas encerraram a ligação, e Susan perdeu todo o interesse no livro, decidindo apagar as luzes para ir dormir. No escuro, Claira permaneceu sentada por vários minutos. Algo parecia errado. Joe era muitas coisas. Atrasado não era uma delas. Pela primeira vez, um pensamento lhe ocorreu — um que ela tentou rejeitar imediatamente. E se Joe nunca tivesse chegado em casa? A primeira tarefa foi colocar sua Boo na cama e desligar as luzes e o videogame. Ao chegar ao seu próprio quarto, ela apagou totalmente a luz e pulou na cama, observando o marido como uma detetive particular. Perguntou-se por que ele estava agindo de forma tão estranha — e a ligação de Claira parecera ainda mais estranha —, mas afastou esses pensamentos e foi dormir. Na manhã seguinte, acordou de lado, ainda de olhos fechados, e virou-se até ficar de barriga para cima. Virou-se novamente, mas desta vez de bruços, com as pernas esticadas como se estivesse fazendo um "anjo na neve" sobre os lençóis brancos e sedosos. "Querido", disse ela, com a voz abafada pela posição de bruços. "Querido...", repetiu, virando-se rapidamente e erguendo o tronco, apoiando-se na posição sentada com as mãos espalmadas atrás de si, como dois suportes laterais de bicicleta. Abriu os olhos apenas para confirmar o que já sabia: ele havia ido embora. Agora ela sabia que aquele projeto era mais importante do que ela mesma. Richard havia entrado em seu escritório no exato momento em que sua sócia limpava do rosto o sono da manhã. A primeira coisa que passou pela cabeça de Richard foi pegar o telefone e contatar a parte responsável por montar uma equipe de topografia. Uma intensidade febril tomou conta dele enquanto se aproximava do aparelho. Ele sabia que aquela equipe precisava ser especial; afinal, a situação exigia excelência. Era necessário encontrar um bom local para o acampamento, bem como um ponto de atracação para os barcos. Ele decidiu pegar um atalho, pois só precisava de um engenheiro para aprovar o local. Isso permitiria reunir navios e equipes de construção no local que ele idealizara, sem precisar investir seu próprio capital. Ele precisava de dois engenheiros civis para acompanhar a equipe de topografia, mas eles não estariam disponíveis já no dia seguinte. Isso exigiria duas viagens separadas, pois não podia haver atrasos."Preciso de três prestadores de serviços de topografia treinados em navegação, além de alguns pilotos de helicóptero e topógrafos de campo." As exigências continuavam a sair rapidamente da boca de Richard. "E não importa quais sejam as credenciais. Preciso de gente qualificada."Uma resposta apressada e nervosa veio do outro lado da linha: "Sem problemas, Sr. Dickenson. Temos a equipe qualificada de que o senhor precisa. Vou enviar as especificações do contrato por fax."Eles encerraram a ligação, e um sorriso de satisfação se abriu no rosto de Richard. Ele apertou uma tecla de discagem rápida no telefone e, instantes depois, disparou: "John! Quero vê-lo no meu escritório." Richard recostou-se na cadeira para relaxar e tomou um gole de um café colombiano da melhor qualidade.John entrou na sala, perguntando com hesitação: "Sim, senhor?""Preciso que você garanta que a equipe de topografia embarque no avião e chegue à América del Sul em segurança. Quero também que mantenha contato com eles e me informe imediatamente sobre qualquer coisa!""Sim, senhor! Sim, senhor!""Vou para casa. Tenho deixado minha esposa de lado, mas não deixe de me ligar se acontecer alguma coisa.""Sim, senhor!""Você pode dispensar os outros pelo resto do dia, mas precisa estar aqui para garantir que a primeira fase seja concluída." Richard afastou-se do semblante insatisfeito de John e saiu do escritório com um ar imponente. Pouco depois, seu carro disparou, aparentemente sem qualquer respeito pelas leis de trânsito. Ele ainda estava inquieto, pois o projeto dependia da aprovação do engenheiro, mas tratava-se apenas de confirmar a integridade estrutural. Foi por isso que ele havia adiado a chegada de outros engenheiros ao local: precisava de seu engenheiro de confiança para a tarefa. Seu plano era enviar a equipe de topografia apenas para levantar as dimensões do terreno e demarcá-lo como um local específico. Mais tarde, ele apresentaria esse local aos engenheiros como um ponto no mapa, sem mencionar as medidas exatas, na esperança de que uma inspeção da área geral bastasse. Sua mente estava voltada apenas para atalhos e para a ideia de que nada poderia atrasar aquele processo.CAPÍTULO SEISEnquanto isso, Milo Evans explicava a Ron, Nick e Gary os detalhes do trabalho. "Sr. Rivera, Sr. Fusil e Sr. Russy, posso pedir a atenção dos senhores por um momento? Estão prontos para trabalhar?" Os homens da equipe ficaram intrigados, pois o chefe nunca havia falado daquela maneira sobre um serviço.Nick Fusil respondeu: "O quê! Do que você está falando? Estou sempre pronto para trabalhar! O que é isso? Algum cliente reclamou? Gary! Você está pronto para trabalhar? E você, Ron, está pronto?" Ron permaneceu sentado, com uma expressão impassível, sem dizer nada. Gary continuava ali de pé, vestindo seu macacão; sua barba e bigode grossos pareciam fundir-se em uma coisa só.O homem corpulento respondeu: "Milo, qual é a boa?""Ninguém reclamou, mas tenho um trabalho que não admite falhas. É um serviço de campo e vai pagar muito bem."A arrogância de Nick disparou. "Bom, já fizemos muitos trabalhos de campo." Antes que ele pudesse continuar tagarelando, o Sr. Evans explicou: "Não, este não é um trabalho de campo comum. A única razão pela qual aceitei esse serviço é que eu tenho licença de piloto."Entusiasmado, Ron deixou escapar: "Porra! Vamos ter que voar nessa viagem!" Gary interveio enquanto tragava seu charuto enorme. "Para onde exatamente vamos, Milo?""Bem, senhores, é um trabalho internacional." Gary não conseguiu responder, pois estava com a garganta cheia de fumaça.Ron Rivera ouviu aquilo maravilhado, mas aos poucos conseguiu reagir. "Quer dizer que vamos sair do país?""Sim, vamos para a América do Sul!""América do Sul! O quê? Por que temos que ir até a América do Sul?", perguntou Ron, com um tom de voz que demonstrava clara resistência."Porque é lá que o trabalho precisa ser feito, seu idiota. Olha, vamos levar o avião dele até uma cidade no Brasil." "Há helicópteros nos esperando; vamos usá-los para ir até o local designado e fazer o levantamento da área."Ainda envolto no aroma de tabaco, Gary respondeu: "Onde exatamente no Brasil?""No Brasil Central!""Não é uma região de mata fechada?""É, mas vamos fazer as medições ao longo das costas norte e leste. Gary! Preciso que você construa um pequeno píer, ou pelo menos algo que sirva para amarrar barcos, e também um acampamento; isso pode levar alguns dias. Acho que o Sr. Dickenson quer que tudo fique pronto para que ele possa trazer outros inspetores."Gary respondeu com um tom peculiar: "Sr. Dickenson?""É o cliente que quer o serviço feito. Ele é, na verdade, um homem muito rico.""Ah!" Com a curiosidade um pouco saciada, Gary disse: "Entendo! Você chamou todos nós por causa de nossas habilidades individuais. Ah, agora saquei."Nick soltou de imediato: "É, o Milo sempre foi esperto. A gente pode não querer ir até o Brasil para trabalhar numa selva fechada. Além disso, já temos trabalho que chega. Você disse que paga bem, mas duvido que pague tanto assim. É, ouvi falar da América do Sul, e o que ouvi não foi nada animador."Ron também estava ansioso para dar sua opinião. "É, Milo! Quanto esse tal de Sr. Dickenson está disposto a pagar?""Droga! Achei que podia contar com vocês, mas acho que vou ter que procurar outras pessoas.""Que nada, Milo! Tô nessa com você", respondeu Gary com um forte sotaque caipira."Você ainda não disse quanto paga.""Calma, já vou chegar nessa parte.""Achei que você não soubesse." Ron olhou para Milo com uma expressão sarcástica, e Nick murmurou: "Cara, a gente só tava brincando com você.""É, cara, relaxa." O líder do grupo respirou fundo antes de se explicar. "Bom, os valores exatos ainda não foram definidos, mas...""O quê?" A palavra foi dita bruscamente por Ron e Gary ao mesmo tempo."Calma! Calma! Quanto é que paga?" Milo sorriu. "O suficiente para comprar paciência."Nick riu. "Isso não é um número.""O triplo do que você ganhou no ano passado."O silêncio tomou conta da sala. Milo Evans continuou a expor os detalhes do trabalho enquanto mantinha a atenção total de sua equipe. "Ele parecia muito ansioso para que isso fosse feito o mais rápido possível. Eu disse a ele: 'Olha, tenho quatro homens que vão ficar longe de suas famílias por um tempo, e com tão pouco aviso prévio'. Se liga só: eu disse que uma viagem de longa distância como essa provavelmente ficaria na faixa de quinhentos mil a quase um milhão de dólares. Isso para todos os meus homens.""Tá bom, tá bom, Milo!""Ei, espere! Eu disse a ele: nem sei qual é a extensão da área a ser mapeada nem quão difícil pode ser o terreno.""Ah, Milo! Entendi! Temos flexibilidade para cobrar taxas extras. É, gostei disso." Ron virou-se e olhou para Gary e Nick, enquanto Milo observava a todos. Os homens permaneceram em silêncio, com os rostos parecendo brilhar de ganância."Certo, vamos nos encontrar aqui bem cedo, antes do amanhecer, e partir ao raiar do dia. Gary! Não se esqueça de encomendar todo o equipamento e os materiais de que precisar. Eles precisam ser despachados antes de sairmos.""Às ordens, senhor!" As palavras saíram como se a voz estivesse embargada, devido à densa fumaça que envolvia o rosto de Gary. Hayward abriu o belo portão para deixar Richard entrar. Ele parecia preocupado, mas com um humor bastante cauteloso. Tudo corria conforme o planejado, exceto pelo fato de que ele havia esquecido de confirmar com John se um helicóptero de carga seria entregue no local. Ele se recusou a ligar para John, declarando que já tinha tido problemas suficientes por um dia. Além disso, imaginou que o helicóptero certamente estaria lá; caso contrário, John teria de se entender com ele."Olá, Sr. Dickenson", disse Hayward com certa expectativa. Richard assentiu com a cabeça, mas continuou caminhando em direção à entrada. Hayward sonhava em poder confrontar o Sr. Dickenson, na esperança de ganhar prestígio. As pessoas até achavam que ele não batia bem da cabeça, pois já o tinham visto falando sozinho. Na verdade, o que testemunhavam era uma conversa completa. O que os observadores não sabiam era que ele estava apenas ensaiando para uma conversa com Richard e estava determinado a mostrar o seu valor. "Sr. Dickenson!", deixou escapar o gentil funcionário, mas seu chefe pareceu indiferente. "Sabe, Sr. Dickenson... eu sei como extrair o máximo do meu potencial." O funcionário conseguiu chamar a atenção do chefe, como indicava a expressão peculiar que surgiu no rosto de Richard.Ele respondeu com sarcasmo: "Rapaz, se não estou obtendo o máximo do seu potencial, então não faz sentido mantê-lo aqui.""Bem, não, senhor! O que quero dizer é que tenho muito mais potencial a ser desenvolvido." "Basicamente, você está me usando de forma ineficaz e ineficiente. Isso não condiz muito com o panorama geral das coisas, não é?""Não, não condiz, Sr. Reynolds. Então, qual é o seu ponto?" disse o Sr. Dickenson com rispidez, enquanto segurava a maçaneta e pressionava o polegar para abrir a porta.Hayword exclamou: "Não sou apenas um guarda de segurança comum, bom para nada além de abrir e fechar portões o dia todo. Tenho visão aguçada e muita coragem para proteger qualquer coisa." Richard já estava praticamente dentro de casa antes mesmo de terminar a frase. No entanto, Hayword parecia aliviado, apesar de a porta ter sido batida na sua cara."Querida", gritou Richard com um tom agradável, apesar de ter sido contrariado momentos antes. Passou-se um breve instante sem resposta enquanto ele vasculhava a correspondência do dia. Sua atenção foi capturada por um envelope de cor peculiar que, por algum motivo, o lembrou da esposa — talvez porque a cor lembrasse os convites de casamento deles. Mesmo assim, ele não abriu nenhuma carta; em vez disso, gritou em voz alta: "Amor!" Sem saber se o silêncio dela era intencional, ele chamou novamente, de forma incisiva e com um toque de fingimento. Richard até olhou ao redor da enorme casa daquela maneira, imaginando onde ela poderia estar. "Ei! Desculpe, querida! Sei que não tenho lhe dado muita atenção e que tenho colocado o trabalho à frente da minha amada." Diante da falta de resposta, a expressão de Richard tornou-se sombria, povoada por suposições preocupantes."Querida, onde você está?" ele soltou um grito lastimoso, mas ainda não houve resposta, e a casa pareceu ficar extremamente silenciosa. A situação claramente o afetava profundamente, pois ele começou a revistar os cômodos freneticamente. Subindo as escadas correndo como um atleta em treinamento, tomado pela angústia, ele deixou para verificar o quarto deles por último. Foi lá que a encontrou, sentada em sua poltrona de leitura, elegante e confortável. Seus olhos revelavam um certo divertimento com a busca dele, mas sua expressão também era séria. Após todas as suas súplicas, Richard olhou fixamente nos olhos dela e aproximou-se suavemente. Ela se encolheu na poltrona, como se fosse sua última trincheira, tentando endurecer o olhar enquanto pressionava o corpo contra o estofado de couro macio. Richard revirou a casa. "Susan?" Nenhuma resposta. Por um momento, o pânico tomou conta dele. Então, ele a encontrou no andar de cima. Esperando. Observando. Não estava brava. Estava decepcionada. Isso doía muito mais. Ele atravessou o cômodo lentamente. "Sinto muito." Ela permaneceu em silêncio. "Eu sei que coloquei este projeto acima de tudo." O silêncio continuou. "Acima de você." Finalmente, ela levantou o olhar. A dureza de sua expressão se abrandou. "Você sempre diz isso." "Desta vez, estou falando sério." Ela o analisou. Então, finalmente, assentiu. Richard beijou a testa dela. Pela primeira vez em semanas, sentiu-se em paz.CAPÍTULO SETENa manhã seguinte, aquela claridade intensa imperava novamente, fazendo Susan se revirar na cama. "Querido", escapou de seus lábios — lábios que estavam amassados, já que seu rosto e sua boca haviam sido pressionados tão profundamente contra os travesseiros que ela quase sufocara. Ao tatear a cama, ela sentiu apenas suas mãos deslizando sobre lençóis de seda e percebeu que o sol continuava implacável. Ela se levantou, sentindo-se um pouco frustrada pelo vazio da cama. Ficar chateada por não poder abraçar seu amado já era ruim o suficiente, mas aquela claridade era, de fato, o fator principal de seu despertar abrupto. Isso ficou comprovado pelo fato de que Richard havia enfrentado a mesma claridade cerca de trinta minutos antes. Susan sentou-se e virou as costas para a luz, levando quase uma hora para finalmente sair da cama. Enquanto isso, Richard já comandava o escritório pessoalmente, providenciando tudo o que era necessário para o projeto. A equipe de levantamento de campo estava a caminho. O voo foi tranquilo, e os quatro homens finalmente pousaram na bela, porém selvagem, terra amazônica. A pequena pista de pouso continuava a mesma desde a última e revigorante experiência de Richard por ali. O ar ainda estava impregnado pelo brilho intenso do sol, e a umidade era sufocante. Os quatro homens desembarcaram do jato fabricado pela Bombardier que Richard havia reservado para eles.Nick Fusil foi o primeiro a sair do avião, com seu jeito habitual de confiança e arrogância. "Porra! Caralho! Tá quente pra cacete. Agora entendo por que estamos ganhando, entre aspas, uma grana preta."Os outros desceram e, sem hesitar, Ron respondeu: "Nick, cara, você aguenta um calorzinho pela grana."Nick olhou para Ron com desdém e respondeu: "É, imagino! Vocês, filhos da puta mexicanos, espanhóis ou porto-riquenhos, estão acostumados com esse calor.""Nick, não vem com essa pra cima de mim, porque a tua bunda preta também já torrou bastante. Pelo que eu saiba, faz um calor danado na África.""Cara, não vou à África há mais de quatrocentos anos. Porra, agora somos a raça morena, vivendo na América. Pelo menos não somos tão emotivos pra caralho."Gary olhou para os outros e disse: "Chega disso. Estamos aqui para ganhar dinheiro, e é só isso." O velho franzino da torre aproximou-se dos homens. "Olá, senhores", disse ele com um ar astuto e ainda mantendo um sotaque indefinível. "Imagino que vocês sejam os homens do Richard. Aquele helicóptero de carga grande ali parado acabou de chegar. O piloto ainda deve estar lá dentro. Ele pode ajudar vocês a carregar o helicóptero e levá-los até o destino.""Com licença, mas quem é você?" perguntou Nick, colocando-se à frente de todos com um tom exigente. O velho deu de ombros e permaneceu em silêncio.Ele começou a caminhar em direção ao helicóptero, seguido por Milo Evans. "Vamos lá, pessoal, sigam-me", disse Milo. O velho seguiu à frente do grupo com um andar confiante, sem dizer nada por enquanto."Que calor dos diabos! E eu achava que a Flórida é que era quente!" exclamou Nick, continuando a reclamar do calor intenso que parecia oprimi-lo e castigá-lo. Gary parecia não se incomodar, enquanto tragava seu cigarro. Milo e Ron conversavam entre si, entre risadas.Ao chegarem finalmente ao helicóptero, o velho disse: "Senhores! O piloto!" Sem ter certeza do nome dele, continuou, gaguejando um pouco: "Ele pode levar vocês e ajudar a carregar ou descarregar, ou o que quer que precisem fazer. Não sei qual é o plano, mas o homem parecia obcecado." Os homens carregaram o helicóptero e o velho voltou para sua torre. O piloto permaneceu em silêncio, sentado na cabine e mexendo nos instrumentos à sua frente.Os homens se acomodaram, mas Nick não resistiu e soltou: "Bom, Sr. Grosso, imagino que o senhor não fale..."Milo interrompeu: "Com licença, senhor. Qual é o seu nome e a sua função? Ou, pelo menos, o que fará depois de nos deixar lá?" O piloto ficou em silêncio por um momento, olhou para Milo, depois para Nick e finalmente declarou: "Recebi instruções para levá-los ao local do projeto e ajudar no descarregamento.""Você vai acampar com a gente?" O piloto riu antes de responder: "Ah, não...! Sou apenas o piloto que vai deixá-los no destino."Nick falou com ousadia, como se a interrupção de Milo o tivesse irritado: "Quer dizer que vai nos deixar aqui?" "Ah, nem pensar! Vai simplesmente nos deixar no meio do nada?""Ei, olhem só!" gritou o piloto, desanimado. "Não recebo para acampar numa floresta tropical densa." Ele riu de leve antes de completar: "Ah, não! Desculpem.""Ei, Nick, estamos sendo pagos por isso, certo? Relaxa", respondeu Ron.O piloto gritou: "Ei, dá para pedir àquele sujeito ali para apagar o charuto, droga? Nem todo mundo acha agradável respirar cheiro de tabaco bruto e óleo de motor usado. Meu helicóptero não é oficina mecânica."Gary não disse nada, mas continuou tragando."Apenas pilote essa droga de helicóptero", respondeu Nick.O helicóptero levantou voo. O ruído foi diminuindo. Depois, desapareceu por completo. Silêncio. Um silêncio estranho. Não vazio. Um silêncio que observava. Que aguardava. Os homens permaneceram imóveis. Pela primeira vez, compreenderam o quanto estavam realmente sozinhos. Milo olhou pela janela, viu o rio Amazonas correndo lá embaixo e perguntou: "O...""E em caso de emergência? Como podemos entrar em contato com você?""Há um equipamento de rádio que vocês vão instalar no acampamento. O Sr. Dickenson chegará em alguns dias." Os homens demonstraram desconforto, mas não tinham mais do que reclamar. O restante do voo foi tranquilo, embora o piloto estivesse irritado com a fumaça que Gary insistia em soltar. "Certo, senhores, finalmente chegamos. Agora vocês podem sumir da minha frente.""Bom, obrigado também", respondeu Nick. O piloto ajustou os controles do helicóptero e iniciou a descida. O pouso foi suave, e os quatro homens estavam ansiosos para sair daquela aeronave apertada. Nick saltou do helicóptero e olhou ao redor, empolgado. Com uma expressão de espanto, gritou: "Caramba. Onde diabos estamos?"Milo respondeu: "Eu mostrei no mapa."  "É, eu sei, mas não imaginava que estaríamos no meio de uma selva." Ron parecia ter visto um fantasma. "Caramba, como diabos vamos começar esse levantamento com toda essa mata fechada, cara?!"Enquanto isso, Gary descarregava seus suprimentos enquanto Ron e Nick continuavam reclamando. Gary então caminhou até a margem e examinou a paisagem.Ao descarregar o equipamento, Gary notou pegadas. Pegadas humanas descalças. Grandes demais. Profundas demais. Nem recentes, nem antigas. Simplesmente... estranhas. Gary perguntou: "Mais alguém está vendo isso?" Ninguém viu. Quando olhou novamente, elas haviam sumido."Milo!", gritou Gary."Sim, Gary, o que você precisa?" Gary caminhou até ele com uma expressão visível de decepção. "Não tem como eu construir um píer para barcos com esse equipamento limitado.""Bom, o que está faltando?" "Bem, antes de tudo, olhe para a margem. Vou precisar fazer escavações, sem falar no equipamento especial. O barco é grande demais."Milo pareceu confuso, mas aconselhou Gary a improvisar. "Construa um pequeno. Talvez tenhamos que ancorar o barco e trazer barcos menores até a margem.""OK! Isso vai funcionar.""Ah, Gary, você tem cimento suficiente em sacos para construir uma plataforma de pouso para os helicópteros? O terreno aqui parece meio mole e lamacento para pousar.""É, eu notei isso. Aquele tal de Briscoe deve estar acostumado com essa região." O piloto finalmente havia dito seu nome durante o voo."Ei, Briscoe, o terreno aqui é bem difícil para pousar, hein!""Bom, este helicóptero de carga tem um motor potente para decolar; areia movediça provavelmente não vai impedi-lo de subir.""Ótimo! Ótimo!", declarou Milo, mantendo o tom de comando. "Todo o equipamento já foi descarregado?""Sim", exclamou o Capitão Briscoe. O piloto avisou que estava partindo e disse para entrarem em contato pelo rádio caso encontrassem algum problema. Nick observava a cena, ansioso para dar uma bronca. "Ei, seu merda! É bom você não deixar a gente aqui, porra. Eu não sou de selva e, de onde eu venho, a gente quebra a cara de qualquer filho da puta que queira deixar outro filho da puta na mão!""Calma, Nick! Senhores, escutem! Precisamos bolar um plano para realizar essa missão.""Não sei não, Milo! Parece... sei lá! Me soa meio precipitado.""Não entendo o Nick; veja por este lado: vamos conseguir falar com ele pelo rádio.""Tem certeza disso?", respondeu Nick, com um olhar hostil e a raiva fervendo por dentro."Sim, tenho certeza de que o rádio é adequado. Não é, Sr. — ou melhor, Capitão — Briscoe?" Briscoe demonstrou pouca paciência e respondeu de forma agitada: "O rádio já está sintonizado na frequência necessária. Vocês só precisam garantir que ele seja ligado a uma fonte de energia adequada. Um bom gerador, como aquele que ajudei a descarregar, deve servir.""Gary, anotado... OK, ótimo! Senhores, primeiro precisamos montar o acampamento e, Gary, faça o melhor que puder com a questão do píer. Certifique-se de que o acampamento esteja protegido contra a chuva. Ouvi dizer que chove muito nesta parte do mundo.""É, só o que faltava agora era ficar encharcado e ter que chamar pelo rádio." Nick limpou a garganta e cuspiu uma grande quantidade de catarro frio, depois de deixar claro para todos como se sentia."OK, homens, vamos montar o acampamento primeiro. Vamos passar a noite aqui. Então, o acampamento vem antes, e o píer depois.""Ei, Milo! Você acha que seria melhor fazer as primeiras medições ao longo das margens e marcá-las como pontos finais?""Pode falar, Ron. Estou ouvindo.""Assim, tudo o que teremos que fazer é seguir a costa leste desta terra maldita, pela distância que for necessária." O Capitão Briscoe ouvira a conversa pouco antes de partir e disse: "Ei, isso é um atalho. Não sei se meu chefe gostaria disso.""A matemática fará o resto", continuou Ron, apesar da interrupção grosseira de Briscoe."É só isso que queremos, certo? As dimensões! Ouvi falar algo sobre medir dimensões e é só isso.""É!""Mas ele vai precisar de nós de novo quando trouxer os engenheiros, então pode haver mais dinheiro envolvido", respondeu Milo, depois de reunir a equipe para evitar que Briscoe os ouvisse novamente. Todos gostaram da perspectiva de ganhar mais dinheiro, mas Nick duvidava que ele voltasse. Assim que esse pensamento lhe ocorreu — induzido quimicamente —, ele bateu nas próprias pernas e soltou: "É, eu não preciso de dinheiro, ou sei lá, *mais* dinheiro. Isso aqui já basta! Esses malditos mosquitos... ou merda, nem sei se são mosquitos. Bom, alguns são, mas caramba, parecem dragões minúsculos. Que porra é essa?" Nick esfregou o rosto e deu um tapa na outra perna. "Vocês estão entendendo. Meu sangue deve ser doce. Sei que vocês também estão sendo picados, mas agem como se não estivessem. Olha, me enganaram para aceitar esse trabalho, então é claro que vou pegar meu dinheiro. Depois, vou cair fora daqui e nunca mais volto." O tom de Nick tinha um quê de comicidade, mas ele falava sempre a sério.Gary prosseguiu com os preparativos para montar o acampamento, mas antes misturou o concreto com água do rio. Ele preparou uma mistura para fazer uma fundação simples para o acampamento, a uma distância de trinta a cinquenta metros da margem. Nick começou a montar as barracas, enquanto Milo e Ron preparavam o equipamento de topografia."Ron! O plano é o seguinte: vou seguir pela margem norte, em direção ao leste. Vou até chegar à beira da água. Vamos fazer as medições em intervalos de 100 metros. Depois de terminar esse lado, vamos caminhar para o sul, ao longo da margem leste, e repetir o processo.""Certo, mas até onde vamos?""Devemos estar bem perto do ponto médio deste projeto; então, de acordo com este mapa, não é muito longe." Enquanto isso, Gary golpeava com seu martelo, com o charuto pendurado no canto dos lábios semicerrados. "Ei, Nick, segura isso aí pra mim, por favor?""Beleza! Espera só eu terminar de amarrar isso aqui e já vou aí." Ron e Milo deram continuidade ao plano, e Gary, com uma ajuda casual de Nick, construiu um laboratório à prova d'água equipado com um tanque de gás para combustível e um gerador de energia. O passo seguinte eram as acomodações, adequadas às condições de vida na floresta tropical. Ele não precisava de muito concreto, então construiu uma mureta ao redor das barracas que Nick havia montado."Nick, me dá uma mão aqui com essa escavação.""Ei, você não me falou disso. Eu não sou de cavar.""Tem uma pá no laboratório", disse Gary, com aquela atitude de quem gosta de mandar. Nick acabou se juntando a ele, e eles começaram a cavar. Passou-se cerca de uma hora, e o calor castigava os homens de forma brutal."Porra, tá quente pra caralho", disse Nick, parecendo estar no último suspiro; o barulho da pá batendo no chão ao ser jogada por ele serviu de ponto final à frase."Beleza, chega, podemos parar.""Não!", exclamou Gary. "Só mais um pouco.""Ah, não, pra mim já deu." A decepção transpareceu no rosto de Gary ao ouvir a resposta do amigo."Qual é o seu problema, cara? Ainda tem um monte de coisa pra fazer. Você tá querendo tornar tudo isso extremamente trabalhoso, bem no meio desse lugar infestado de insetos." "Tá bom, tá bom, vamos logo com esse concreto. Pelo menos você pode pegar a ferramenta de acabamento enquanto eu preparo tudo para o despejo?" Nick foi buscar água enquanto Gary continuava trabalhando com afinco, como sempre fazia. Ele era um homem trabalhador, e sua aparência confirmava isso. Por outro lado, Nick era um sujeito convencido e cheio de si — embora não soubesse tudo o que sua atitude sugeria. Ele era, de fato, perspicaz e falava o que pensava de forma agressiva, o oposto de Gary, especialmente no que dizia respeito ao trabalho pesado. Se não fosse por sua genialidade, ele não estaria ali; e o fato de serem opostos completos é provavelmente o motivo pelo qual funcionavam tão bem juntos."Então, Gary, o que você acha?""Como assim, Nick?""Bom, de estar aqui! Isso não é meio extremo demais?" "É, imagino que o lado extremo da coisa seja o preço a pagar para ganhar muito dinheiro." Gary falava de forma entrecortada, pois tragava seu charuto em intervalos de três segundos, enquanto Nick observava com um ar de pena."Ei, é trabalho; e se é isso que é preciso para ganhar dinheiro de verdade, então eu topo.""Hmm..." Nick deu um sorriso de canto, e os dois terminaram a tarefa.CAPÍTULO OITOO sol começava a descer para a parte final do horizonte oeste, e aqueles que podiam vê-lo maravilhavam-se com o Rei de brilho alaranjado-avermelhado enquanto ele completava mais um ciclo."Espere aí, Milo. Você está indo rápido demais." Uma resposta ecoou à distância. "Estou tentando acelerar e terminar antes que... ah, merda!""O que houve?", gritou Ron, frenético, enquanto apressava o passo."Droga", foi tudo o que Ron ouviu, e ele respondeu: "O quê! O que está acontecendo? Milo!" Houve um momento de silêncio tenso antes que Milo pudesse explicar o problema. "Eu não vi isso no mapa", lamentou Milo."O quê, Milo? O quê?", gritou Ron ao se aproximar, notando que Milo apontava agressivamente."Puta merda, um maldito riacho." Ron exibiu uma expressão de perplexidade ao contemplar as águas turbulentas que rugiam selva adentro.Milo continuou: "Precisamos atravessá-lo para medir a distância restante até a margem leste."Ron verificou suas leituras e sugeriu: "Bom, quão longe pode ser? Quer dizer, já medimos até aqui.""Mas olha só, Ron! Esse riacho não está no mapa, então não sei se tem 100 ou 250 metros.""Bom, e que diabos vamos fazer?""Quer saber? Deixa eu ver", disse Milo, com um tom de confiança crescente. "Vou correr ao longo deste riacho e ver se há alguma maneira de atravessá-lo.""Aham." Uma risadinha escapou de Ron, que comentou: "Não sei se conseguimos atravessar esse riacho a pé — a correnteza está muito forte.""Segure isto", gritou Milo enquanto disparava corajosamente pela margem do riacho. Ron pegou os instrumentos do companheiro e observou Milo desaparecer lentamente na mata densa. Ron apertou com mais força o que segurava à medida que Milo se tornava cada vez mais difícil de enxergar. Ele observou até que Milo sumisse de sua vista. De fato, ambos sabiam que precisavam se apressar com o trecho restante, pois a luz estava diminuindo visivelmente. Ron descobriu isso quando tentou correr atrás de seu chefe. O sol estava, de fato, se pondo — embora fosse difícil perceber isso devido à densidade das árvores —, mas eles também haviam subestimado a luminosidade do fim de tarde naquela floresta. Não era fácil enxergar muito à frente, e Milo foi o primeiro a constatar isso enquanto abria caminho por entre galhos grossos, cipós densos e terreno acidentado. A tarefa mostrou-se ainda mais difícil do que seria normalmente em uma floresta tropical, pois ele avançava pela margem daquele imponente curso d'água. A correnteza seguia floresta adentro, sem dar sinais de que terminaria tão cedo.Milo parou. O riacho deveria ter acabado. Mas não acabou. Cada curva revelava uma nova volta. Um novo trecho. Um novo motivo para continuar caminhando. Ele sabia que deveria voltar. No entanto, algo dentro dele insistia: só mais um pouco.Milo começou a ficar frustrado, sem perceber a que distância havia chegado rio abaixo. "Droga!" Seus resmungos e gemidos tornavam-se mais frequentes à medida que sua agitação crescia. "Merda... hmmm..." Contudo, a frustração começava a se transformar em determinação, e ele continuou a avançar com esforço. Naquele momento, já havia esquecido qual era o verdadeiro objetivo de atravessar o riacho; não tinha consciência — muito menos se importava — com a perda de foco. Por fim, ficou claro que não havia como atravessar, o que o fez voltar a se concentrar em seu próprio ritmo. Seus passos aceleraram, assim como sua respiração, acompanhando cada esforço dedicado.*Tum, tum!*"Argh! Merda, droga, droga, droga! Droga, estou sangrando? Não vi aquele maldito arbusto espinhoso", gritou Milo, expressando toda a sua dor enquanto encarava o arbusto com raiva. Ele se levantou e sentou-se em um tronco para tentar recuperar o fôlego. O sangue escorria com força por sua perna; ele não se deu ao trabalho de limpá-lo, limitando-se a lamentar a situação, incrédulo. Já estava escurecendo bastante, e ele havia se afastado muito. Olhou para o riacho com um sentimento de vingança, pois aquele curso d'água era a causa de sua situação. Lançou um olhar para o sangue que escorria pela perna — um olhar quase vazio e inexpressivo — antes de voltar rapidamente os olhos para o riacho, mantendo a mesma atitude por um breve instante. O caminho que ele imaginava que o levaria de volta ao acampamento era agora o que ele queria encontrar. No entanto, ele não se moveu. Apenas olhou ao redor várias vezes, antes de ficar preso, contemplando fixamente o riacho caudaloso. Ele começou a apreciar a beleza do lugar quando, pelo canto do olho, viu algo: "Que porra é essa?" Erguendo a cabeça num movimento rápido e desajeitado, achou ter visto um homem completamente nu correndo pela floresta. Descartou a ideia como uma ilusão — uma alucinação causada pela situação em que se encontrava — e continuou ali, curvado sobre aquele enorme tronco de árvore. Pensou em como era incrível aquele riacho que encontrara correndo pela floresta — embora as árvores, é claro, permanecessem imóveis. Parecia um rio atravessando a mata; a beleza do riacho o impressionou novamente, mas a visão daquele homem perturbou a elegância selvagem que a correnteza transmitia. Agora, ele não conseguia negar o que achava ter visto. Tentando descobrir o que — ou quem — parecia observá-lo, Milo tropeçou no tronco e imediatamente gritou por socorro, torcendo para que Ron o ouvisse, apesar da distância que já haviam percorrido.Pouco antes, quando Milo gritara aterrorizado, Ron achou ter ouvido algo do tipo. Não conseguiu distinguir bem os sons, nem mesmo perceber que o amigo estava pedindo ajuda. O medo que o dominara, somado à incapacidade de identificar os diversos ruídos da floresta, provavelmente distorceu sua audição. Ainda assim, Ron seguiu em frente, já que Milo não havia voltado. Ele relutava em seguir pela trilha traiçoeira que Milo percorrera momentos antes. "Milo!", gritou Ron, repetidas vezes. "Milo!", exclamou novamente, com a voz ainda mais alta, mas sem sucesso. Começou a se afastar de onde estava, pois a visibilidade era ruim. Também começou a ficar preocupado depois de várias tentativas sem resposta. Aterrorizado, Ron correu de volta para o acampamento para buscar o restante da equipe. Sua fuga desesperada era evidente; ele quase tropeçava em cada tronco que surgia em seu caminho.Ao chegar finalmente a uma distância que permitia ser ouvido no acampamento, gritou: "Nick, Gary... ei, caras, preciso de ajuda. O Milo entrou na floresta e não respondeu quando chamei. Achei que o tivesse ouvido pedir socorro." Os homens interromperam o banquete — comiam um esquilo que Gary havia esfolado e assado — e levantaram a cabeça para ver por que Ron estava ofegante."O que houve?" gritou Nick."Caramba! Gente, vocês precisam me ajudar.""O quê! Cadê o Milo?""Esse é o problema. Ele entrou na mata e não voltou." Nick soltou uma risadinha e disse: "Ele provavelmente está tirando uma com a tua cara de cagão.""Nem ferrando, cara! A gente encontrou um riacho e ele foi ver se dava para atravessar, mas nunca mais voltou. Acho que ele pode ter tentado atravessar e caído — vai saber o que tem naquela água turva. A gente precisa achar o Milo.""Tá bom, tá bom, calma! Calma", disse Gary num tom conciliador. Antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa, Nick disparou: "Calma, porra! Seu cagão do caralho, a gente vai achar ele. Vamos lá, Gary, vamos achar o Milo para esse bundão medroso.""Cara, vai se foder." "Eu sei quando algo não está certo.""Ah, é? Claro, garoto Ronnie!" Ron ficou frustrado com os comentários de Nick, mas o ignorou, acelerando o passo à frente do grupo em direção ao último lugar onde vira Milo. Milo continuava sentado junto ao riacho que serpenteava pelas profundezas da floresta, sem revelar um começo ou fim definidos. O sangue escorria incessantemente do ferimento causado por sua imprudência anterior. Havia também um machucado na cabeça, resultado de ter tropeçado no tronco em que agora se apoiava para relaxar e observar o riacho — e, talvez, o homem que vira entre as árvores, caso ele reaparecesse —, além de cuidar do próprio ferimento. O ferimento na cabeça causava sua desorientação e foi o motivo de ele ter levado um susto enorme ao cair de cabeça na água. Ao mergulhar com violência, a sensação de frescor logo deu lugar a uma ardência quando a água invadiu seu nariz; por outro lado, a água também acalmava seus ferimentos com sua temperatura amena. Finalmente, após submergir profundamente, ele conseguiu emergir, recuperar o fôlego e tossir para expelir a água que havia entrado em suas vias respiratórias. Apesar desse breve alívio, o ferimento não parava de sangrar. O sangue se espalhava pelo riacho, sendo levado pela correnteza — algo que ele sabia ser perigoso, pois desconhecia o que poderia estar à espreita naquelas águas sinuosas.Os ferimentos só agravavam seu pânico; a dor pulsava intensamente agora que o efeito anestesiante da água fria havia passado. O sangue continuava a pingar, deixando um rastro longo e de cheiro forte. Ele tinha certeza de que havia todo tipo de criatura naquela água: jacarés e crocodilos, mocassins-d'água e sucuris. Certamente havia criaturas de todos os tipos espreitando na floresta, especialmente em um riacho isolado cuja fonte era o imponente Amazonas. Havia peixes de toda espécie: enguias, arraias e até sanguessugas. Milo flutuava, esforçando-se ao máximo para manter-se na superfície — não apenas para recuperar o fôlego, mas também para evitar perceber o que havia abaixo dele. De fato, sob aquelas águas turvas, escondiam-se todo tipo de criaturas desconhecidas. Havia também seres de grande beleza nadando nas profundezas — peixes exóticos e coloridos, ainda não catalogados......nadavam em formações sincronizadas, conferindo um verdadeiro significado à natureza. Havia também, por toda parte, *spotted bass* exibindo as manchas pretas características em suas caudas. No fundo, belos peixes de ventre avermelhado nadavam em cardumes imensos, com padrões de movimento que lembravam formações militares. Pareciam mais organizados do que qualquer outro peixe e, mesmo de longe, refletiam essa mesma beleza. Mas, de repente, seu nado harmonioso e sincronizado tornou-se errático e instável. Pareciam ter sido excitados e passaram a nadar em grandes aglomerados frenéticos. O cheiro de sangue era evidente para aquelas criaturas amazônicas.Como se soubesse, Milo começou a nadar freneticamente, sentindo que algo naquela água poderia querer devorá-lo. Ele sabia que precisava sair dali desde o momento em que mergulhou gritando: "Socorro! Alguém me ajude!" A água o fazia engasgar levemente, e isso se ouvia em cada um de seus gritos. "Socorro, merda, merda! Ahhh...!" Milo gritou o mais alto que pôde. Um enorme cardume de piranhas havia atacado ferozmente seu ferimento, e elas continuavam a investir aos milhares. Em instantes, elas haviam despedaçado a ferida e continuavam a serrar a carne com seus dentes. Dez segundos depois, Milo exibia um olhar vazio. O sangue que o mantinha vivo havia escorrido, e os peixes ameaçadores continuavam a devorá-lo, deixando buracos enormes em suas pernas. Centenas de peixes musculosos, dotados de dentes que os indígenas locais usavam para cortar roupas, agora cortavam o corpo de Milo. Trinta segundos haviam se passado e eles já estavam dentro de sua cavidade corporal, banqueteando-se com o fígado, o coração e o estômago. Avançando em cardumes maciços, eles devoraram o que restava dos órgãos e consumiram a carne restante.Não restava muito de Milo, exceto suas roupas parcialmente rasgadas — especificamente o casaco — ainda penduradas em sua estrutura esquelética. O cérebro era valioso por seus nutrientes, e os peixes devoraram cada pedaço assim que romperam a cavidade do pescoço. Apenas escassos fragmentos de carne restavam, pendurados em seus ossos. A morte horrível de Milo trouxe muita alegria a outras formas de vida. Tudo o que alguém teria visto era seu casaco flutuando na superfície e o movimento agitado da água causado pelos peixes carnívoros. As correntes o levaram rio abaixo, por um curso que serpenteava a escura imensidão daquela floresta sombria. Finalmente, um galho prendeu o casaco, deixando o que restava do corpo sem vida de Milo suspenso em um único ponto, enquanto os peixes continuavam a aproveitar cada oportunidade para obter calorias.Enquanto isso, os outros não sabiam que suas tentativas de resgate estavam um pouco atrasadas. Após correr muito à frente dos demais, Ron parou, ofegante, tentando recuperar o fôlego. Ele esperou pelos amigos enquanto ainda sentia os efeitos da intensa descarga de adrenalina. Ron permaneceu parado, com as mãos nos joelhos, olhando fixamente na direção onde acreditava que Milo havia desaparecido. Olhares, tanto ferozes quanto tímidos, despertavam nele uma sensação de incerteza ao surgirem da escuridão; ele sentia um tremor interno ao ouvir a conversa agitada de Gary e Nick se aproximando.— Está tentando nos deixar para trás, Ron?— É! Porra, você saiu correndo feito um louco e agora pede nossa ajuda. Já que correu tanto, por que caralhos não correu para achar o Milo?Os homens agora estavam reunidos, mas Gary falou logo após Nick: — Não tem como ele ter atravessado isso. Como? — questionou Gary. — Tenho certeza de que ele sabia disso.— Bom, vamos lá; ele seguiu por aqui, acompanhando o riacho. — Os três homens seguiram a trilha em busca do companheiro desaparecido. Nick ia à frente, seguido por Ron e Gary. Ironicamente, Nick liderava o grupo. Parecia que o entusiasmo de Ron havia diminuído, mas todos chamavam por Milo e enfrentavam o mesmo terreno acidentado. Estavam todos agitados agora. A respiração ofegante devia-se à urgência de ouvir a voz do companheiro. Ron, no entanto, estava agitado por mais de um motivo; o outro era a língua solta de Nick. Ele não estava com medo; a coragem o envolvia naquele exato momento. Gary mantinha a calma, mas havia algo diferente nele. Normalmente, ele não esquecia de acender um charuto, independentemente da emergência, mas aquela situação parecia ser uma exceção à regra.— Milo! — gritou Ron, tentando evitar uma resposta de Nick.— Então, para onde ele foi?— Não sei, cara.— Como assim, não sabe? Onde você o viu pela última vez?— Hã... a última vez que o vi... — Uma certa hesitação quanto à localização deles surgiu, e era evidente que ele tentava situar-se. — Onde esperei por vocês, lá atrás. — Ron apontou na direção do local onde os havia aguardado, quando saiu correndo na frente de Gary e Nick.— Quer dizer que você nem sequer procurou pelo cara antes de vir correndo até nós? Podia pelo menos ter tentado se orientar. Tá vendo o que eu digo, Gary? Nick olhou para Gary e balançou a cabeça em sinal de desaprovação. Ele apontou a lanterna para a direção da correnteza e começou a observar enquanto falava: "Não dá para ver porra nenhuma. Você acha mesmo uma boa ideia a gente se separar?"Gary ponderou essa possibilidade por um breve momento, e Ron ajudou acrescentando: "Não sei se é uma boa ideia. Eu conheço o Milo. Ele queria conquistar este riacho. Acredite em mim, ele chegava bem perto da beira." Nick olhou para Ron e, pela primeira vez, acabou convencido por ele. O grupo — agora com um integrante a menos — manteve-se unido e seguiu rio abaixo. No entanto, a essa altura, Ron já estava um pouco à frente de Nick e Gary. Sua confiança havia aumentado depois de expor sua opinião. Ele estava determinado, pois, sem o Milo por perto, Nick acabava fazendo o que queria com o pobre Ron. Ele vasculhou o local com a lanterna e viu, à distância, leves perturbações na água que...Aquilo criou uma situação de urgência. Ele apontou a lanterna naquela direção. "Milo!", gritou ele bruscamente. Então, Ron notou o que parecia ser a capa de chuva de Milo — que ele usava para se proteger dos mosquitos. O traje incluía botas de chuva amarelas, e Ron viu uma delas perto do tronco de árvore; a visão fez com que ele aguçasse o olhar. "Ei, achei uma das botas dele. Eu avisei! Eu avisei! Ele deve ter caído aí dentro", gritou Ron.Nick apontou a lanterna para onde Ron gritava enquanto se aproximavam dele. A pouca distância, Ron clamava: "Parece que ele está se segurando em um galho ou algo assim. Temos que pegá-lo e tirá-lo de lá." Ron gritava mais alto, esperando por Gary e Nick: "Milo! Milo! Estamos chegando! Aguenta firme!"Gary e Nick chegaram exatamente ao tronco onde Milo havia descansado e notaram imediatamente manchas de sangue. Aquilo os alarmou e fez com que levassem os gritos de Ron um pouco mais a sério. Ron estava logo à frente e continuava chamando. Seus companheiros ouviram, mas ficaram pasmos com o que viam diante de si. Gary parecia confuso. "O que diabos ele estava fazendo? Sei que ele não estava tentando atravessar aqui."Nick observou a cena intrigante e aconselhou com firmeza: "Vamos lá, vamos descobrir por que o Ron está gritando.""Ei, pessoal, aqui! Acho que o encontrei. Olhem... ali." Todos se reuniram para focar na suposta presença de Milo, mas, antes que se passassem muitos instantes, Ron disparou: "Aquilo não parece barulho de alguém se debatendo na água!""O que é aquilo?" exclamou Gary, apertando os olhos para vencer a escuridão."Puta merda, cara, acho que ele não está se segurando. Acho que ele não está se segurando. Puta merda, cara, o que é aquilo?" Ron tentou alcançar Milo."Tira a mão daí!" gritou Nick, puxando Ron para trás rapidamente. "Você quer ser devorado ou, pelo menos, mordido?""O quê!?""Não vem com 'o quê' para cima de mim; olha só.""Que porra é essa?", respondeu Ron, entre o espanto e a exasperação. Gary disse: "Cara, aquelas piranhas fizeram a festa". Ron olhou para Gary e Nick, e depois para o que restou de Milo, antes de começar a vomitar. "Ah, não, cara, não, merda! Como isso pôde acontecer?", gritou Ron."Porque você largou o cara lá, seu idiota.""Calma, Nick. Deixa ele em paz agora. Vamos cair fora daqui.""Precisamos ligar para aquele filho da puta do Richard para tirar a gente daqui, ou para o piloto. Ou para qualquer um.""Como a gente volta?""Viu só? Viu? Eu disse que não devíamos ter deixado aquele piloto ir embora.""Calma, Nick, é só seguir este mesmo riacho." Os homens correram de volta pelo caminho por onde vieram, da melhor maneira possível, enquanto a histeria tomava conta do ar. Durante todo o trajeto de volta, eles discutiam sem parar, embora Gary quase não falasse — exceto nas poucas vezes em que teve de livrar a pele de Ron dos constantes ataques verbais de Nick. Na verdade, foi Gary quem manteve o grupo no rumo certo para o acampamento; caso contrário, Ron e Nick provavelmente teriam se perdido na mata."Cara, não dá para acreditar nessa merda... Você deixou o Milo cair na água e ser devorado pelos peixes...", disse Nick, decepcionado. "Quer dizer, como diabos uma coisa dessas acontece?"Gary interveio com comentários ponderados. "Senhores, precisamos manter o foco. Acho que é logo à frente que temos de pegar aquele caminho à esquerda." Eles se aproximaram do acampamento quando Gary foi o primeiro a dizer: "Ron, você não estava com um celular? Sei que é difícil, mas veja se consegue sinal. Ligue para aquele tal de Richard."Ron pegou o celular e Nick perguntou: "Você sequer tem o número? Um atrapalhado como você?" "Tenho, sim, seu imbecil. Está no telefone. Agora me deixa em paz, porra.""Ligue para ele", exclamou Gary. Ron procurou o número enquanto resmungava: "Não sei se vamos conseguir sinal." Ele apertou o botão de falar e andou de um lado para o outro, tentando obter a recepção mais nítida possível. "Aqui, acho que consigo ouvir bem." Ele parou numa clareira da floresta de onde conseguia ver o céu noturno; a conexão estava razoável. O telefone tocou e Ron, por algum motivo, desviou o olhar do rio que corria para o oeste e voltou-o para a mesma selva que havia engolido Milo anteriormente. "Alô, aqui é a Susan. Como posso encaminhar sua ligação?""Preciso falar com o Richard!" "Ah, sinto muito. O escritório está fechado. O senhor terá que ligar novamente durante o horário comercial." Ron encarou os olhos de algo que se escondia atrás de uma árvore, à distância. Estava escuro, então sua visão estava limitada, mas o que ele via era impressionante e aterrorizante.Ele perdeu o contato visual quando Nick arrancou o telefone de suas mãos. "Dá aqui", disse ele bruscamente! "Que porra eles disseram, Ron? Alô, tem alguém aí? Terra chamando Ron. Que porra eles disseram?" "Não sei, cara. Não sei", respondeu Ron, com o pânico evidente na voz."Como assim, não sabe? Que porra há com você, cara? Você parece ter visto um fantasma. Gary, cara, dá uma força pro rapaz." "Qual é a porra do número, seu idiota?" Nick ligou para a empresa depois de praticamente arrancar os números dele à força. O telefone tocou novamente e Gary tentou acalmar Ron, esforçando-se para descobrir por que ele estava em estado de choque."Alô, aqui é a Susan. Como posso encaminhar sua ligação?""Sim, preciso falar com o Richard.""Sinto muito, mas...""É uma emergência; como assim 'sinto muito'?", exclamou Nick, com a agitação fervilhando na voz. "Qual é o número residencial dele?""Sinto muito, mas essa informação não está disponível.""Você só sabe dizer 'sinto muito'? Como assim não está disponível? Preciso de alguém imediatamente, e não estou nem aí para o seu 'sinto muito'.""Senhor, escute! O escritório está fechado. O senhor gostaria de deixar recado na caixa postal?" "Olha aqui, moça, houve um acidente." "Quem é o responsável por este projeto na América do Sul?""Ah, o projeto. Um momento, por favor." A telefonista transferiu a ligação assim que percebeu quem estava do outro lado da linha."Aqui é o John! Como posso ajudar?""Olha, John — é esse o seu nome?" Um "sim" educado veio como resposta, e Nick continuou aos berros: "Você precisa passar o Richard na linha, agora!""Espere, quem está falando?""Nick, da Milo and Sons Contractors Inc. Sabe, fomos contratados para essa merda de serviço na selva.""Ah, sim, senhor. Como vão as coisas?""Nada bem, isso é certeza absoluta. Olha, sugiro que você tire a gente dessa porra daqui. Um dos nossos homens foi devorado vivo. Espero que vocês não queiram que a gente fique aqui e tenha o mesmo fim. Acho que não. Acho que vocês, filhos da puta, são loucos se esperam isso." Um silêncio se instalou depois que Nick desabafou sua frustração. Os sons da floresta noturna vibravam ao redor deles. Enquanto Nick esperava ser conectado a Richard, Gary e Ron conversavam em voz baixa. No entanto, aqueles olhos observavam os homens mais uma vez. Agora havia outros olhos junto a outras árvores, e os sons da selva pareciam amplificados.CAPÍTULO NOVEOuviam-se cânticos e o som de madeira sendo percutida, ecoando como se instrumentos primitivos estivessem sendo tocados. Um ar de misticismo pairava no ambiente. Imagens de dançarinos indígenas primitivos surgiam, realizando uma dança ao redor de uma fogueira intensa. Essas visões começaram enquanto aguardavam a conexão com Richard e continuaram a surgir intermitentemente ao longo da noite. No entanto, os homens desconheciam a realização desses rituais nas profundezas do desconhecido.Isso vinha acontecendo desde que os estrangeiros chegaram com suas intenções egoístas. O ritual era realizado todas as noites — todas as noites, desde que Richard vira um dos nativos pela primeira vez. O ritual exigia o consumo de plantas e cogumelos raros para induzir efeitos psicodélicos e alucinações construtivas. Embora os intrusos não pudessem ouvir, os espíritos estavam sendo invocados. Independentemente da realidade, os sons se tornavam mais altos e as imagens piscavam com maior intensidade."Aqui é o Richard!""Rich", disse Nick, com insolência e exasperação na voz."Como você ousa?", exclamou Richard.No entanto, Nick pouco se importou com o fato de que a maneira como se dirigira ao outro homem o havia irritado."Bom, Rich, que tal você trazer a sua bunda para cá, para a América do Sul, e tirar a gente dessa merda de lugar? Espero que você também esteja com o talão de cheques."Nick permaneceu aguardando uma resposta, enquanto os demais membros da equipe prestavam total atenção."Bem, com quem estou falando, afinal?""Dane-se isso tudo. Você sabe quem trouxe para cá. Não temos tempo para joguinhos de nomes e toda essa merda. Cara, meu chefe acabou de ser devorado e você está aí enrolando! Que porra é essa?""Ok. Ok, espere um pouco! Você disse Sr. Evans?""Ah, agora você sabe quem nós somos.""O que aconteceu?""Por favor, apenas tire a gente dessa merda de lugar antes que chamemos a Guarda Nacional para o resgate; vou dizer a eles que você nos deixou aqui abandonados. Você vai se ver atolado em processos.""Espere um pouco, senhor. Não há como eu chegar aí hoje à noite. O contrato previa um mínimo de dois dias. Além disso, como posso saber se isso não é um trote?" Nick não conseguiu responder, pois a raiva fervilhava intensamente, impedindo-o de canalizar suas emoções, que oscilavam descontroladamente. Ele pensou: "Eu não queria estar aqui, mas, de alguma forma, não tive escolha".Gary prestava total atenção à conversa, mas Ron desviava o olhar de tempos em tempos, notando novamente aqueles olhos. Ele tentava não olhar, mas algo o impelia a fazê-lo. Queria evitar encarar diretamente aqueles olhos, mas a vontade de olhar era forte demais. Lutou contra isso olhando para outros pontos, apenas para perceber que não havia escapatória, pois eles estavam por toda parte. Sua atenção havia se desviado do ataque verbal de Nick contra Richard.Pouco antes de alertar os outros, ele olhou em uma direção e notou olhos que não se pareciam com os demais. Eram ainda mais assustadores e permaneciam fixos em um ponto específico por mais tempo que os outros. A escuridão, combinada com a densa vegetação, tornava quase impossível enxergar com clareza. Aqueles olhos, que agora prendiam toda a atenção de Ron, estavam ainda mais imóveis e brilhavam com mais intensidade.— Ei, pessoal, acho que estamos sendo observados.Gary desviou a atenção da conversa com Nick para Ron. — O que houve, Ron?— Acho que tem alguém nos observando! Olhem! Aqueles olhos!Ron apontou para os olhos misteriosos que os observavam, e Gary prestou atenção assim que também notou o olhar penetrante.Nick percebeu que seus companheiros estavam encarando algo e perguntou: — O que vocês estão olhando?Ele se aproximou da posição deles para tentar ver o que os colegas viam, mas sua visão não era tão aguçada. — O que vocês estão vendo?Os homens não responderam, permanecendo concentrados nos olhos hipnotizantes. Nick pegou a lanterna e, num movimento fluido, acionou o interruptor e apontou o feixe de luz diretamente para os olhos. Isso assustou a criatura; ouviu-se um rugido crepitante seguido por um silvo prolongado, vindo bem à frente deles. Os olhos dispararam na direção dos homens.Como um predador astuto à espreita na noite, a onça perseguia os homens como se tivesse filhotes para alimentar.Ron deixou escapar: — Puta merda, um leão. "Acho que não existem leões nesta parte do mundo", exclamou Gary, permanecendo imóvel onde estava.Nick disparou antes mesmo de qualquer conversa, e Ron foi logo atrás, antes que Gary conseguisse terminar a frase. Nick arrancou mais rápido do que um atleta olímpico saindo dos blocos de partida, abrindo alguns metros de vantagem sobre Ron. O felino selvagem e ágil os perseguia de perto, enquanto Gary observava, parado no mesmo lugar, o desenrolar daquele jogo de gato e rato. Os dois correram instintivamente em direção à mata, e não estava claro em qual deles o felino estava de olho.Galhos estalavam sob o ímpeto da fuga desesperada de Nick e Ron. Os movimentos do felino eram silenciosos e furtivos; a criatura era veloz e graciosa. Provavelmente pretendiam permanecer juntos quando começaram a correr, mas o instinto revelou que Ron e Nick teriam destinos diferentes. Ron parecia um pouco mais rápido, pois o medo o impulsionava consideravelmente. Eles começaram a se distanciar, abrindo uma trajetória em forma de "V" — e certamente não uma linha reta.  A vegetação densa da selva dificultava o avanço, e o animal faminto se aproximou rapidamente.Gary ficou surpreso com o breve momento em que testemunhou a fuga de seus colegas. Ele até ficou parado ali por instantes depois que eles desapareceram de vista, com os olhos fixos na noite. Paralisado por um momento, correu para o acampamento com extrema desajeitamento. Ele não fumava charuto, e essa era a maior distância que havia percorrido em muito tempo.Ao chegar desesperadamente ao acampamento, começou imediatamente a mexer no rádio. A estática turvava devido às suas constantes tentativas de sintonizar uma frequência."Por favor, respondam! Aqui é o Gary, precisando de socorro. Estou transmitindo de 61 graus de latitude e 15 graus de longitude, por favor, respondam. Se alguém puder me ouvir, imploro que responda."A respiração de Gary estava ofegante e ele falava descontroladamente no fone de ouvido. Em seguida, tentou outras frequências, sem perceber que o rádio já estava sintonizado."Vocês me ouvem? Por favor, respondam. É um pedido de socorro!" Isso se repetiu constantemente antes de ouvirem o Capitão Briscoe.Enquanto isso, o destino de Ron e Nick estava prestes a ser decidido. Suas vozes ecoavam em terror. Sem saber para onde correr, Nick escolheu subir em uma árvore. Inicialmente, isso pareceu bobagem, já que gatos não têm problemas com isso. No entanto, o gato não o perseguiu — decidiu perseguir Ron.Nick olhou para baixo, ofegante, agarrando-se firmemente aos galhos mais baixos de uma árvore sinuosa."Droga, cara, corre! Corre! Corre!" Nick gritou cada vez mais alto até que sua respiração controlou o volume de sua voz.Ron não precisava nem um pouco do conselho dele, e nem o felino selvagem e misterioso, que se aproximava rapidamente. Os dois travaram um breve jogo de zigue-zague. Ron tentou escapar da agilidade do felino feroz abaixando-se, desviando e correndo com todas as suas forças. Apesar de seus esforços, o animal continuava a encurtar a distância rapidamente. Ele usou a vegetação para serpentear entre as árvores, na esperança de compensar a velocidade superior do predador. Isso não adiantou, pois o felino cortava caminho pela selva, provando estar em seu habitat natural, ao contrário de Ron.Nick permanecia em sua árvore, paralisado pela incredulidade, sem dar sinais de que desceria."Aqui é o Capitão Briscoe respondendo ao sinal de emergência transmitido na frequência delta/gama, câmbio!""Alô! Alô! Capitão, por favor, precisamos de resgate!""Qual parece ser o problema... câmbio.""Um membro da nossa equipe morreu e estamos sendo perseguidos por animais selvagens.""É a equipe que eu levei até o local?""Sim, seu idiota.""Bom, se você tivesse dito quem era...""Só venha para cá o mais rápido possível!"Gary proferiu suas últimas palavras como se soubesse exatamente que eram as últimas.O Capitão Briscoe imediatamente fez contato para demonstrar sua lealdade a Richard. "Aqui é o Capitão Briscoe, designado para o projeto Floresta Tropical.""Aqui é o John.""Recebi um pedido de socorro da sua equipe.""Você ainda está se comunicando com eles?""Estou falando com eles na frequência delta/gama.""Mantenha-os calmos. Preciso falar com o Richard.""Aqui é o Briscoe. Equipe, vocês ainda estão transmitindo?"Gary não respondeu porque acabara de sair armado com uma espécie de arma improvisada, feita de sobras de material da construção do acampamento. Ele partia em uma missão para ajudar seus companheiros."Estão me ouvindo? Equipe, por favor, respondam."Gary havia esquecido algo importante e ouviu a transmissão recebida por acaso ao retornar ao acampamento. "Sim, aqui é o Gary. Vocês, filhos da puta, já estão a caminho?"Nesse momento, Richard já havia sido conectado à chamada em conferência. "Qual é o problema?" "Olha, vocês deixaram a gente no meio do nada, praticamente despreparados. Droga, se eu soubesse, teria trazido meus malditos fuzis. Droga, eu sabia, mas foi tudo tão corrido que não tive tempo de trazê-los... mas que droga!""Certo, certo, me conte o que aconteceu.""Eu realmente não tenho tempo para contar histórias. É melhor vocês chegarem aqui o mais rápido possível. Preciso ir atrás dos outros membros da equipe que sobreviveram."Gary afastou-se do rádio, mas logo se virou e encarou o aparelho como se ele fosse o culpado pelo atraso no resgate. Pegou um charuto com uma mão enquanto segurava uma arma com a outra e saiu disparado para tentar localizar seus amigos e colegas.A postura de Gary lembrava a de Milo quando este tentava vencer a correnteza. A semelhança também estava no fato de que a adrenalina em excesso atrapalhava. Sem contar que ele não sabia por onde começar as buscas. Tudo o que sabia era a área geral onde a perseguição havia começado. Eles se dispersaram tão rapidamente, e tudo aconteceu tão depressa, que era difícil saber que direção tomar.Ele pensava em algo intermediário enquanto seguia o rio, até chegar ao local onde o felino havia atacado pela primeira vez.Falou consigo mesmo em voz alta: "É só seguir por esse caminho. Devo encontrar alguma coisa. Se eu der as costas para o rio e procurar bem à minha frente, devo acabar encontrando o Nick ou o Ron."Ele avançou com vigor.Ron agora estava em silêncio; os únicos sons que vinham de sua direção eram os de seus pés abrindo caminho pela vegetação rasteira. Uma onda intensa de adrenalina impulsionava seus movimentos, dando-lhe também a força necessária para sobreviver a mais um perigo. Ele fez uma mudança brusca de direção e despencou por uma encosta íngreme. Os hematomas e a sujeira acumulada passaram despercebidos — ele parecia imune à dor, pois sua vida era o que importava.Após se levantar, ele rapidamente voltou a correr; o medo de Ron pulsava em uma aura invisível ao seu redor. Ele conseguia sentir a avidez reverberando nos olhos do felino e, então, ouviu os rugidos. O passo seguinte de Ron foi crucial, pois não apenas selou seu destino, mas o transformou completamente.Os arbustos estalaram, assim como as folhas e a vegetação que era afastada. Um grito carregado de um sotaque sulista, profundo e desesperado, ecoou:"Nick!"Seguiu-se uma pausa, mas a noite estava longe de ser silenciosa, pois a floresta estava repleta de sons arrepiantes. Já estava uma escuridão total, e Gary portava apenas um dispositivo de iluminação simples.Outro grito escapou dos lábios de Gary: "Ron."O pânico rondava a mente de Gary, mas ele lutava para mantê-lo sob controle. Acendendo um charuto, ele ficou ali parado, ponderando se deveria continuar seguindo em frente. Dando tragadas vigorosas para garantir que estivesse aceso, sentiu uma calma repentina com a primeira inalação. Ele avançou como um soldado em meio a uma guerra de guerrilha.Mal sabia Gary que os espíritos da floresta eram, literalmente, seus oponentes em uma batalha ritualística. Os cânticos não cessavam; na verdade, tornavam-se mais altos, e olhares penetrantes surgiam por toda a floresta. Gary adentrou ainda mais a mata, observando atentamente enquanto chamava por seus colegas.Sons graves e profundos, provenientes de instrumentos primitivos na floresta, começaram a chegar aos ouvidos de Gary. As batidas rítmicas despertaram a curiosidade dele e começaram a distorcer severamente sua mente. Ele então desviou um pouco da tarefa de encontrar Ron e Nick, optando, em vez disso, por investigar os sons que o intrigavam.Foi preciso um esforço enorme para abrir caminho pela mata fechada, e a escuridão não ajudava em nada. O suor escorria, e ele provavelmente perdeu alguns quilos com aquele esforço. Sua respiração estava tão ofegante que ele descartou o charuto com alívio. Subir uma pequena ladeira contribuía para a falta de fôlego, sem falar na sua obesidade.Cansado da caminhada repentina, ele gritou: "Merda!" Ao decidir sentar-se perto de uma árvore no topo daquela ladeira, deparou-se com uma visão inesperada em uma parte inexplorada da selva. Ele tentava recuperar o fôlego, respirando pesadamente.Gary virou-se sobre a barriga dura, que parecia uma camada sólida de gordura. A neblina estava densa, e seus olhos tinham dificuldade em enxergar através dela. A vegetação cerrada da selva também atrapalhava ainda mais a sua visão. Quem dera o problema fosse apenas a audição, pois os sons de corujas, insetos não identificados e outras criaturas diversas eram suficientes para deixá-lo louco. As batidas também ficavam mais altas, e cânticos começavam a se tornar reconhecíveis.A respiração de Gary finalmente se estabilizou, e a neblina se dissipou um pouco. Uma brisa oportuna ajudou a dispersar a neblina, tornando a visibilidade um pouco melhor. No entanto, a visão ainda era limitada e exigia que ele apertasse os olhos, confirmando que a brisa não havia feito um trabalho muito bom. Ainda assim, ele começou a focar um pouco melhor e percebeu a escuridão ao seu redor.Suas pupilas se dilataram intensamente enquanto ele se ajustava à luz que incidia em ângulo. A mancha escura começou a ficar mais nítida, revelando uma árvore enorme, maior do que qualquer outra nas imediações da floresta. Ele chegou a olhar para a árvore ao seu lado e pensou: "Uau!" Havia árvores gigantescas praticamente por toda parte, mas ele voltou sua atenção para aquela em particular, pois ela possuía uma aura fascinante que prendia o olhar de quem a observasse por muito tempo.Ele ficou encarando a árvore, e a área escura tornou-se mais clara. Ele avistou pessoas e pensou em Ron e Nick, mas sabia que não eram seus amigos que estava vendo. O magnetismo da árvore — e talvez até alguma essência telepática — deixou Gary atônito e sem palavras. Tudo o que ele podia fazer era observar, e era estranho que aquelas pessoas fossem todas negras... ou não! Ele percebeu que elas pareciam indígenas. Essa conclusão vinha de sua formação na infância, quando cowboys e índios eram o tema central em sua cultura.Aquelas pessoas com pinturas no rosto, tangas rústicas e tatuagens correspondiam exatamente a essa descrição. Elas faziam exatamente o que o imaginário da infância retratava: dançavam ao redor daquela mesma árvore gigantesca, usando instrumentos primitivos e entoando algo harmonioso, porém indecifrável. Havia também uma essência espiritual que se intensificava, assim como a visão de Gary. Os cânticos e louvores...parecia pulsar vibrantemente e o ajudava a superar suas limitações visuais. Ele tentou pensar em Ron, mas seus pensamentos estavam vagos.Na verdade, naquele exato momento, Ron dava um passo para a esquerda para evitar ser retalhado por garras, mas o local onde pisou era um ponto instável que logo cedeu. Um grito estridente escapou da boca de Ron quando o chão sob seus pés desabou. A queda não foi longa, mas não era fácil encontrar apoio para subir de volta. Ao perceber que havia caído em algum tipo de buraco, o pânico tomou conta de suas tentativas de sair dali. Grunhidos e gemidos marcaram suas tentativas, até que ele achou melhor se acalmar. Afinal, concluiu que não deveria agir com pressa e acabar subindo direto para as patas de um felino faminto.Ron encostou-se nas paredes de terra do buraco que o aprisionara. Coberto de sujeira, ele estava convencido, pelo medo, de que estava condenado."Socorro! Socorro!" gritou Ron com toda a força de seus pulmões.Aquilo não era apenas um buraco; era também um lar, mas Ron só estava descobrindo isso agora. Ele notou enormes manchas vermelhas disparando sobre seus sapatos e tornozelos em alta velocidade. As manchas vermelhas que Ron observava também apresentavam pontos de um vermelho mais escuro. Eram tantas agora."Ah, merda!"O pânico e o pavor tomaram conta da alma de Ron enquanto centenas e centenas delas rastejavam por todo o seu corpo, mordendo com força. Ron sofreu centenas de milhares de picadas da cabeça aos pés, e a experiência não foi nada agradável. Ele deve ter pulado, saltado e dançado por todo aquele espaço minúsculo, tentando correr, escalar e se içar, mas tudo em vão. Ele gritava e se debatia em agonia."Ah, merd... Merda! Socorro! Meu Deus, por favor, por favor. Tirem elas de mim, ahhh!!!"Aqueles gritos deveriam ter sido ouvidos por toda a floresta, pois as pequenas picadas vinham às centenas. Ele deve ter se esbofeteado, socado e arranhado até a exaustão por causa das pequenas criaturas. Chegou a tentar raspá-las freneticamente, mas não adiantou, pois estava preso dentro de um formigueiro. Centenas, talvez milhares delas, cobriam todo o seu corpo. Elas mordiam incessantemente até que, por fim, o fizeram desmaiar.Agora inconsciente, ele estava sendo devorado vivo, lenta mas seguramente; as picadas e ferroadas infiltravam-se aos poucos em sua corrente sanguínea. No fim das contas, as toxinas foram a causa do desmaio, mas o restante do trabalho ficou por conta do apetite voraz delas. Um corpo tão grande levaria tempo para ser consumido, mas isso não importava. Elas estavam acostumadas a trabalhar duro para estocar comida suficiente para as estações rigorosas. Além disso, havia uma rainha para sustentar, e aquilo bastaria para alimentar o formigueiro por muitas estações.Ron teve então uma experiência fora do corpo, vagando pela floresta; ele jamais retornaria ao seu túmulo para morrer oficialmente, ficando, em vez disso, pairando para sempre, preso aos espíritos da floresta. As formigas, certamente, não se importaram nem um pouco.A força dos cânticos aumentava, e a essência da floresta parecia precisar ser alimentada. Gary era outra refeição em potencial, parado ali, hipnotizado por aquela árvore deslumbrante. Ele continuava a encará-la intensamente, mesmo com homens nus dançando ao redor daquele mesmo objeto. O foco que ele mantinha tornou-se inquietante, e imagens pulsavam na mente de Gary. Os sons da floresta começaram a se atenuar, e os cânticos e louvores passaram a ser ouvidos apenas como um ruído de fundo. Havia uma conexão entre a árvore imensa e aquela sob a qual ele estava.De repente, todos os sons cessaram por completo. O foco na árvore à sua frente intensificou-se, e o único som que ele percebeu foi um estalo — um som muito alto, pois parecia ser o único a penetrar na esfera de concentração de Gary. Era o galho acima dele que se partia e despencava com força total. A descida veloz, somada à massa do galho, esmagou as costas de Gary. O impacto esmagou a vida dele.CAPÍTULO DEZA aurora se aproximava e a agitação havia diminuído. Havia uma regra que até mesmo os maus espíritos respeitavam: nada de hostilidades na presença do Rei — o sol amazônico. A chegada de Sua Majestade era iminente, e a névoa transformava-se em orvalho matinal. A brisa soprava agradavelmente, como se ali fosse o paraíso. Os pássaros gorjeavam melodias e assobios harmoniosos, e até o coaxar dos sapos transmitia uma sensação de bem-estar.Perto do acampamento, ouvia-se o som das pás de um helicóptero cortando o ar em meio à sinfonia da natureza. A aeronave pousou como foi possível e, sem demora, Richard e Briscoe saltaram."É aqui que a equipe deveria estar."Richard examinou a área ao redor sem sair do lugar antes de responder: "É, eu sei! Foi aqui que instruí que montassem a estação de trabalho. Vamos dar uma olhada ali."Apontando na direção do acampamento, Richard tomou a frente."Aqui o calor aperta cedo mesmo.""Pois é, estou vendo. O sol não perde tempo nesta parte do mundo."Richard chegou ao acampamento um instante antes do Capitão Briscoe, mas permaneceu ali enquanto o capitão espiava o interior da estrutura improvisada por Gary e Nick."Olá", disse Briscoe timidamente, inclinando a cabeça para espiar pela entrada. O eco era vagamente nítido, mas também estava claro que o local estava vazio. "Olá, estou atendendo ao chamado de emergência de vocês."Suas botas batiam contra o piso frágil enquanto ele revistava cada centímetro quadrado. "Não há ninguém aqui. Quem estamos esperando? Os mesmos senhores que eu transportei, certo?"Richard parecia não querer falar sobre o assunto e o ignorou ostensivamente. Ele continuou caminhando, sem dar atenção ao homem que o questionava."Ei, com licença", soltou Briscoe, num esforço real para quebrar o silêncio de Richard. Ele ficou parado ali, com a mão no queixo e o cotovelo apoiado no outro braço cruzado, recusando-se a dar mais um passo.Richard não se deixou deter e seguiu em frente, olhando ao redor, mas sem parecer estar procurando pelo grupo desaparecido — apenas observando casualmente. Só se podia imaginar o que se passava na cabeça dele naquele momento, especialmente observando a maneira como ele olhava ao redor. Afastando-se de Briscoe, ele mantinha um padrão de varredura — para cima, para baixo, para a esquerda e para a direita — que parecia sistemático. Richard estava, de fato, muito atento a certos perigos, pois caminhava seguindo um padrão específico que lhe permitia refazer o caminho de volta com facilidade. Era quase como se ele estivesse tateando o terreno, e aquilo era apenas o começo.Richard não tinha treinamento em situações de sobrevivência na selva e era um amador quando se tratava de ambientes naturais. O fato de ele caminhar pela floresta sem medo parecia estranho, mas talvez a luz do sol e a boa visibilidade lhe dessem essa coragem."Ei! Ei! Que diabos você está fazendo aí em cima? O que está fazendo aqui?"Ele se esticou para ver melhor o homem na árvore, apenas para perceber que ele estava meio adormecido. Não havia outra opção a não ser subir."Certo! Deixa eu ver! Acho que consigo... não... eu deveria... hmm... Se eu ao menos conseguisse..."Ele continuou resmungando, mas logo começou a subir a árvore com agilidade. Acomodou-se no mesmo galho e foi se arrastando até chegar perto de Nick, que estava ali largado e curvado. Richard colocou as mãos no ombro de Nick e falou baixinho: "Ei, com licença!", enquanto o sacudia levemente, sem parar de falar. "Senhor, acorde! Acorde!"Seus pedidos tornaram-se mais altos e incisivos, e o contato físico com o ombro de Nick ficou mais brusco. "Ei! Acorde", disse ele, em voz baixa, mas com um tom de irritação."Droga!" gritou Nick, num esforço enorme para se segurar no galho. Os solavancos enquanto dormia quase o fizeram cair de um jeito perigoso. Ambos perderam a estabilidade e agarraram os ombros um do outro na tentativa de recuperar o equilíbrio subitamente perdido. A tentativa, porém, fracassou, e Richard e Nick despencaram no chão.Após a queda, Richard acabou caindo parcialmente sobre Nick, causando um ferimento temporário na perna dele. Nick gritou com toda a força dos pulmões: "Merda! Que porra está acontecendo? Eu... Espera aí... já era hora. Droga, onde estão os outros? Precisamos encontrá-los. Ah... Ah... merda!"A dor na perna de Nick pulsava, causando uma agonia extrema e turvando seu raciocínio, que já estava afetado pelo trauma da noite anterior."Ei, calma. Nick, esse é o seu nome, certo? Preciso levar você de volta para o helicóptero — você está ferido."O ânimo de Nick não melhorou muito depois daqueles comentários aparentemente sinceros. "Você encontrou meus amigos? Ah, merda... Milo! Ele morreu, porra... ah, não!"Richard observou Nick mergulhar na tristeza e ficou curioso sobre o motivo, mas evitou pedir detalhes. "Ainda não encontramos seu amigo, porque você foi o primeiro que cruzou o nosso caminho. Vou enviar uma equipe de busca.""Ótimo! Eu vou guiá-los.""Não, vou tirar você daqui. Você não tem condições de sair procurando ninguém.""Não, que se dane isso! Olha, eu perdi meu chefe, cara. Não vou ficar ouvindo essa merda que você está falando. Aliás, é bom você deixar o talão de cheques à mão, porque você deve uma grana preta para quatro cavalheiros. Se eu não sair daqui com alguma coisa — depois de toda essa merda pela qual passei —, porra, eu chamo a Guarda Nacional. Essa é a história perfeita para um livro, com o nome do vilão sendo jogado na lama, então não brinca comigo, porra.""Calma, Nick! Escuta, eu só preciso levar você de volta para casa em segurança. Garanto que toda a questão financeira será resolvida."Nick continuou resmungando, mas estava um pouco mais calmo após a garantia de compensação dada por Richard. Os homens seguiram o caminho que Richard havia traçado anteriormente e retornaram bem rápido. Briscoe continuava no mesmo lugar, mas agora estava agachado, observando formigas e outras criaturas diversas circulando por ali. Ele se levantou num salto assim que percebeu alguém apoiado em Richard em busca de ajuda."Me ajude a colocá-lo no helicóptero."Briscoe abriu a porta e ofereceu a mão como apoio. Eles acomodaram Nick lá dentro de qualquer jeito e se prenderam aos cintos. Briscoe deu ordem para o helicóptero decolar.Os olhos de Richard refletiam a paciência se esgotando enquanto ele olhava para as nuvens brancas e fofas acima deles. "O que aconteceu?" exclamou Richard, voltando toda a sua atenção para quem fosse responder.Nick olhou para ele, com o olhar vazio, e permaneceu em silêncio.Briscoe olhou para Richard depois de lançar um olhar estranho para Nick. "Se eu soubesse que era esse falastrão aqui, talvez não tivesse atendido aquele rádio."Aquilo chamou a atenção dos dois homens."Vai se foder! Que porra é essa? Quem é esse cara?"Richard recostou-se e olhou para Briscoe, perguntando-se por que diabos ele havia feito aquele comentário. "Antes de mais nada, vocês, filhos da puta, são loucos. Eu sei que não teriam me deixado aqui, e é bom que não deixem meus amigos aqui também. O Milo já morreu; se tiver mais alguém..." Nick fez uma pausa, como se precisasse conter qualquer emoção que o deixasse choroso, já que era homem. "Vocês ainda vão ouvir falar muito do velho Nick."Um silêncio pairou por um breve momento."Espere um pouco. Tem mais gente lá atrás, e alguém morreu?" declarou Briscoe, incrédulo. "Eu presumi que os outros já tivessem ido embora. Só falei com uma pessoa pelo rádio, mas... acho que ele mencionou alguém, ou tinha que encontrar alguém.""É, você deve ter falado com o Ron ou com o Gary... aliás, foi o Gary. Tinha que ser, porque eu e o Ron tivemos que fugir às pressas.""Fugir às pressas?""É, um leão ou algo assim nos atacou.""Não, não era um leão. Devia ser uma onça, ou algo do tipo.""Bom, seja lá que porra de bicho fosse, ele estava tentando nos comer. Não sei se pegou o Ron... ah, não."Richard soltou, com tom solidário: "Calma, Nick. Calma. Nós vamos encontrar seus amigos."Briscoe ainda não tinha terminado suas perguntas. "Bom, o que aconteceu com seu amigo Milo?""Não sei, cara. É estranho.""Como assim, não sabe?""Olha! Tudo o que sei é que o Ron e o Milo estavam medindo as dimensões do local, e ele caiu misteriosamente num riacho.""Então ele se afogou?""Não, não exatamente. Ele foi devorado por piranhas. Não me pergunte como aconteceu, porque não faço a menor ideia."Nick ficou ali com um ar de quem não entendia nada, como alguém tentando argumentar com a própria lógica. Atônito com seus próprios gestos, ele ouvia da mesma maneira."Você não acha que seu amigo Ron pode tê-lo empurrado?"Nick saiu daquele estado e assumiu sua postura defensiva habitual. "Que diabos... isso é uma idiotice. Isso não tem como acontecer. O Ron não conseguiria empurrar ninguém, de jeito nenhum. Não importa se ele chegasse de fininho por trás; ele ainda assim não conseguiria."Nick começou a achar graça, por um breve momento, das suposições de Briscoe, mas manteve a postura defensiva. "Então, Rich. Você vai chamar a polícia?"Richard retrucou bruscamente: "Que polícia? Esquece a polícia. Estamos lá na América do Sul.""Quer saber? Então vou chamar a Guarda Nacional.""Olha, tenho um amigo num cargo alto do FBI e vou pagar para ele conseguir um grupo de escoteiros", disse Richard."É, e é bom você me pagar também, ou, como eu disse, vou trazer a Guarda Nacional para cá. Tenho certeza de que a mídia adoraria uma história dessas. Um empresário ganancioso deixando seus funcionários para trás, para morrerem na imensidão da selva. Aliás, se você não encontrar meus amigos, vou enfiar um processo tão fundo no seu rabo que você vai começar a cagar dinheiro para mim. Merdas em forma de notas de mil dólares, seu filho da puta."O rosto de Rich ficou vermelho, mas ele manteve a calma ao notar que os gestos de Briscoe pareciam dar razão aos argumentos de Nick. "Muito bem, temos uma longa viagem de avião pela frente, então não há necessidade dessa discussão."Aquele olhar intenso se tornava ainda mais profundo a cada instante. O pensamento sobre seus planos devia ser igualmente intenso. Nick ainda não havia decidido a quem contaria, mas sabia que provavelmente revelaria a alguém assim que recebesse o pagamento.Richard estava sentado à frente de Nick, perdido em seus próprios pensamentos e alheio à trama que o outro homem arquitetava. Flashbacks avassaladores o dominavam. Ele olhava fixamente para o vazio, tentando aguardar pacientemente o restante do voo. Faltavam apenas quarenta e cinco minutos para chegar em casa, mas aquilo parecia uma eternidade. Ele se remexia constantemente na poltrona, atormentado por pensamentos que invadiam sua mente com violência: imagens de Joe e do que havia acontecido com seus funcionários. Também lhe vinham imagens da esposa; isso o levava a considerar a morte do amigo como um acidente puro e simples, e a convencer a si mesmo de que tudo acabaria bem.Pensar nela ajudava a aliviar a tensão crescente. Devia haver algum tipo de conexão mental, pois, enquanto ele pensava nela, ela também pensava nele. Enquanto cuidava das panelas no fogão, a presença dele preenchia seus pensamentos, despertando nela um entusiasmo especial ao cozinhar.Susan estava, na verdade, chateada com o marido, mas sentia muita falta dele e aguardava ansiosamente sua chegada. Faltavam menos de trinta minutos para ele chegar, e tudo estava praticamente pronto. Ela se sentou e começou a ler um livro, lançando olhares periódicos para a entrada da casa, na esperança de vê-lo surgir de repente pela porta. Sua ansiedade extrema transparecia em cada resmungo e gesto. Não é que houvesse algo de muito errado; ela apenas sentia muita falta do seu amado.Não que ele ficasse fora por muito tempo, mas suas ausências eram frequentes. O ciúme impregnava sua consciência como um líquido numa esponja, e ela sabia que aquele projeto tolo lhe dava um bom motivo para sentir inveja. Ela tentou encontrar conforto cochilando no sofá de veludo creme da sala de estar casual — aquele em que quase ninguém se sentava. Pouco depois de pousar a bebida sobre o tampo de vidro da mesa lateral de ferro fundido, metade do conteúdo já havia sumido e a outra metade estava diluída. Ela não dormia profundamente, pois tomava pequenos goles de tempos em tempos. O breve sono que conseguia era leve, e qualquer ruído a despertava.Uma exclamação escapou de repente dos lábios de Susan: "Droga!"Assustada, ela despertou sem saber ao certo o motivo. Olhou ao redor, com os olhos transbordando surpresa. Seus olhos também estavam avermelhados devido ao breve descanso que conseguira tirar. A campainha da porta tocou alto mais uma vez, e ela finalmente percebeu o que a havia despertado. Uma expressão de curiosidade surgiu em seu rosto enquanto ela ponderava quem poderia estar à porta.Ao aproximar-se lentamente da porta, a curiosidade tomou conta de seus pensamentos. Ela não estava convencida de que o marido havia retornado, mas não sabia se o voo dele tinha chegado mais cedo ou não. Uma coisa ela sabia: ele não tocaria a campainha. Recompondo-se, ela caminhou até a porta. Hayword já havia feito a triagem da visita, então não houve necessidade de perguntar quem era. O fato de terem tocado a campainha provava que não era seu marido.Uma expressão de choque estampou-se em seu rosto ao encarar um estranho do outro lado das enormes portas de carvalho. O homem permaneceu ali por um breve momento, sem dizer nada."Posso ajudar?", exclamou Susan."Sim, senhora. Sou o detetive Rick Powers!", disse ele, exibindo rapidamente seu distintivo. "Estou atendendo a uma ocorrência de pessoa desaparecida. Precisarei fazer algumas perguntas à senhora e ao seu marido. Posso entrar?"Susan ainda estava meio grogue do sono curto, mas conseguiu dizer: "Claro!" Aquela visita era realmente inesperada, e ela tentava entender o motivo dela. "Aqui, sente-se... Você disse Detetive Powers? Então, de que pessoa desaparecida você está falando, e o que isso tem a ver conosco?""Bem, Sra. Dickenson! Pode ser que não tenha nada a ver com a senhora, mas queremos apenas garantir que reuniremos todas as informações possíveis.""Sim, sim. Claro! Gostaria de um chá ou café?""Claro, café, por favor."Ele se sentou e passou os olhos por suas anotações, enquanto ela preparava uma xícara de café quente para ele. Ela voltou com duas xícaras fumegantes, colocando a dele ao seu lado e mantendo a sua na mão; ela preferia bebericar seu chá enquanto ele ainda estava pelando."Então, quem está desaparecido?", perguntou Susan."Bem, recebemos uma ligação da Sra. Geshy, e ela informou que o marido dela acompanharia o seu marido em uma viagem à América do Sul."Os olhos de Susan se arregalaram, incrédulos. "Como eu disse a ela quando ela me ligou, o Joey deveria encontrar meu marido, mas nunca apareceu.""Certo, então quando foi a última vez que você o viu?""Para ser sincera, não consigo me lembrar. Meu marido se ofereceu para levá-lo nesta viagem, mas ele nunca apareceu para o voo.""Há quanto tempo você conhece os Geshys?""Ah, faz anos.""Eles estavam passando por algum problema?""A Claira chegou a falar uma vez em deixá-lo, mas isso foi anos atrás. Achei que eles tivessem se acertado.""Certo, Sra. Dickenson, a senhora foi de grande ajuda."Rick levantou-se, deixando sua xícara de café pela metade sobre a mesa, e apertou a mão de Susan em agradecimento. "Ah, a propósito, onde está o seu marido?""Ele está viajando.""Na América do Sul, imagino. O que está acontecendo na América do Sul?""Ele está trabalhando em um projeto de terras...""Projeto de desenvolvimento.""Certo! É tudo o que preciso. Você me ajudou muito."Ele apertou a mão dela novamente e foi rapidamente em direção à porta. Ao fechar a porta atrás dele, ela achou que algo parecia estranho, mas descartou a ideia casualmente, atribuindo-a à sua imaginação. De repente, em pânico, lembrou-se do bolo que estava assando quando adormeceu.CAPÍTULO ONZEO avião pousou, e Richard tinha uma equipe de apoio à espera deles. Ele ajudou Nick a descer do avião mancando, e ambos saíram apressados. Nenhum dos dois tinha bagagem para retirar, então desembarcaram rapidamente e entraram no veículo de apoio. Nick gemia e resmungava devido às dores no corpo, o que deixou Rich ainda mais preocupado com a situação da boca dele."Olha, Nick, vou levar você ao meu médico. O melhor da área. Vou cuidar de você, cara, e seus amigos também ficarão bem. Assim que você receber atendimento, vou enviar uma equipe para resgatar seus amigos. Estejam eles vivos ou mortos.""Como assim, mortos? É bom que não estejam, eu...""Não, não, eu disse isso por causa do Milo. Olha, eu não queria que isso acontecesse. O Milo fez muitos trabalhos para mim. Ele era um bom homem. Vai ficar tudo bem. Veja, estamos em casa — você está em casa!"Nick olhou para Richard demonstrando dor e desconforto, mas não apenas por causa dos ferimentos. "Tudo muito bonito, mas você me fez passar pelo inferno. Espero ser compensado à altura. Se meus amigos acabarem como o Milo, eu sei de uma coisa...""Vai ficar tudo bem. Tenho certeza de que eles se perderam por um breve momento e agora já encontraram o caminho de volta.""Perder-se naquela selva é sentença de morte, por causa de toda aquela bicharada selvagem que vive rondando por lá."Os dois homens chegaram ao pronto-socorro do hospital e entraram imediatamente. Richard foi até o balcão de atendimento e pediu para falar com seu médico. Ele era muito conhecido — até a atendente da saúde o reconheceu — e ela prontamente atendeu ao seu pedido.Enquanto aguardavam o médico, Richard levou Nick para um canto mais reservado do hospital e disse: "Nick, aqui!" Richard já havia tirado o talão de cheques e começou a escrever rapidamente. "Esta é a compensação pelo trabalho, para você e seus companheiros."Ele entregou o cheque a Nick e observou os olhos dele brilharem intensamente. "Nick! Sei que estamos vivendo tempos perigosos, mas só peço que você fique quieto e me deixe lidar com essa tragédia. Tenho toda a compreensão do mundo, mas, do jeito que as coisas são, provavelmente tem gente esperando para usar esse episódio para alavancar a carreira e..."Nick interrompeu com astúcia: "Quer dizer que tem gente morta e desaparecida e você está preocupado com a sua reputação? Isso é inacreditável. Isso é suborno ou o quê?""Espere um pouco. Isso não é suborno! Aquele cheque é por serviços prestados e, talvez, por uma viagem de trabalho pesado.""Trabalho pesado, é..."Nick estava atônito, mas não conseguia deixar de ficar impressionado com a quantia de dinheiro que tinha nas mãos."Tudo o que estou dizendo é que posso fazer o serviço. Como você pode ver, tenho dinheiro suficiente para pagar quem for para encontrar seus amigos. Só preciso manter isso em sigilo."Nick recuou e encarou Richard fixamente. "Não sei, cara. Essa merda é loucura. Tem algo sinistro naquela selva. Se eu aceitar isso, vou ficar paranoico, porque vou carregar essa merda na consciência. Não sei, cara..."Nick continuou balançando a cabeça negativamente.Richard estendeu a mão para pegar o cheque de volta e disse: "Bom, então me devolva isso e faça o que quiser."Nick puxou a mão rapidamente e se recusou a devolver o cheque. Ele olhou para o papel e, ao perceber que se tratava de quase meio milhão de dólares, soltou: "É bom você encontrar meus amigos, ou ainda vai ouvir falar muito de mim."Os homens se encararam como cowboys em um duelo até a morte.Richard respondeu: "Imaginei que você veria as coisas do meu jeito." Ele caminhou em direção ao médico que se aproximava. "Olá, Sr. Dickenson, o que posso fazer pelo senhor?""Meu funcionário se feriu.""O que ele tem?""Doutor, acredito que sejam delírios e desidratação, e possivelmente hiperventilação.""Como isso aconteceu?""Na floresta.""Floresta?!""Bom, na verdade, na selva. Estou construindo um estaleiro." Richard segurou o médico e falou num sussurro, certificando-se de que Nick não ouvisse: "Doutor, você sabe! Resolva o problema dele de vez.""Claro, vou cuidar de você."Richard deu ao médico o sinal combinado e aguardou a confirmação."Sr. Dickenson, considere seu problema eliminado."Um sorriso surgiu no rosto do médico; ele sabia que aquela era uma tarefa importante e que havia oportunidades lucrativas em jogo.Richard passou por Nick novamente antes de sair, dizendo em voz baixa: "Se você falar qualquer coisa, especialmente para as autoridades, vou denunciar isso como falsificação."Ele continuou caminhando com elegância até a porta. O médico apresentou-se a Nick, que não reagiu muito; tudo em que ele conseguia pensar era em transformar o cheque em dinheiro vivo."Por aqui, senhor! Entre naquela sala e espere a enfermeira. Ela precisará fazer algumas medições. Já volto para atendê-lo."O médico fechou a porta, deixando o ambiente num silêncio gélido e extremamente iluminado. Nick pensou em seu banco — uma agência com atendimento 24 horas — e em como deveria fazer um depósito noturno. Se aquele homem era tão rico quanto dizia, os fundos deveriam ficar disponíveis em breve, talvez até às 14h do dia seguinte. Ele literalmente lambeu os beiços; os pensamentos sobre sua equipe perderam força, mas as perspectivas para o seu futuro brilharam intensamente.O médico havia......preparava uma mistura especial, conforme ordenado por Richard — serviço pelo qual sabia que receberia uma bela quantia. Um semblante pálido, frio e astuto acompanhava seus movimentos enquanto ele se preparava para convencer Nick de que aquele era o medicamento de que precisava. O médico saiu da sala de preparo já conectando a agulha e testando o dispositivo de injeção enquanto caminhava a passos largos; estava ansioso para concluir aquilo.Nick não fazia ideia do destino que o aguardava, nem de que o médico planejava desempenhar um papel fundamental nele. O fato de estar preocupado com o dinheiro provavelmente contribuía para sua falta de percepção. Ele não tinha como contestar o médico; afinal, médicos eram figuras em quem se devia confiar a própria saúde.Ao entrar no quarto de Nick, o médico percebeu que ele havia ido embora. Pouco antes, Nick se levantara, saíra pela porta e percorrera o corredor. Ele deixou o hospital sem receber tratamento, e seu destino permanecia incerto. Ligou a cobrar para a noiva e disse que era uma emergência.— Oi, querida, preciso que você me encontre no banco do centro. Não posso responder a perguntas agora; apenas venha.Ele desligou o telefone e saiu correndo pelas ruas movimentadas do centro. Nada impediria Nick de levar aquilo adiante; bastava esperar até o dia seguinte para pegar o dinheiro. Ele tratara a situação como um assalto a banco, e o próximo passo era lavar o dinheiro.A noiva chegou de carro, veículo que, instantaneamente, tornou-se o carro de fuga.— Vamos nessa! — declarou Nick, com o suor escorrendo pelo rosto e exalando um forte cheiro de mendigo. Ele estava claramente apressado, e a noiva não conseguiu evitar a pergunta:— Que porra está acontecendo com você?— Apenas dirija!"O que houve, Nick? Você está com uma cara de merda, e onde diabos você se meteu? Eu sei, aquele projeto, você diz, mas ele só deveria terminar daqui a dois dias, e credo... que fedor é esse? O que foi? Alguma vadia te embebedou e te fez dormir na varanda dos fundos, e o cachorro dela mijou em você? Talvez até tenha cagado em você, sei lá. Nem consigo identificar os cheiros na sua bunda. O cachorro não só atacou sua bunda, como ela está cheirando a..."Nick interrompeu bruscamente: "Cara...!" Prolongando um pouco a palavra e depois, com um toque de sarcasmo, continuou: "Estamos ricos! Cala a boca e dirige!"Uma expressão de incompreensão surgiu no rosto de Tameka. "O quê! O que você fez?" Olhando para Nick, ela gritou, desconfiada: "Nick!?""O quê? Olha, não quero falar sobre isso. Falo com você depois — só dirige. Me leva para casa em segurança, vai, por favor!? É só isso que estou pedindo. Que tal deixar o interrogatório para depois? Eu só quero chegar em casa, querida; eu nem sabia se ia te ver de novo, querida! Eu só quero chegar em casa."Ele reclinou o banco o máximo que pôde e se ajeitou para descansar. Tameka estava fervendo de vontade de saber o que estava acontecendo, mas não disse uma palavra. O carro era a única coisa que se ouvia: os solavancos, o vento passando e outros sons variados da interação do veículo com os elementos naturais. A viagem de volta para casa acabou sendo tranquila.Richard entrou em casa e encontrou a esposa dormindo no sofá. Ele passou por ela e foi para a cozinha. Viu o jantar, mas não sentiu vontade de comer. A única coisa que queria fazer era sentar e relaxar, e foi exatamente o que fez. Assim que se jogou no sofá da sala de estar, começou a mudar de canal com o controle remoto. Não estava interessado em nada do que via e apertava os botões sem qualquer cuidado. Por fim, ele deixou a TV sintonizada em um canal de notícias esportivas e chegou a olhar uma reportagem sobre futebol, mas o relaxamento de seu olhar fez com que ele fosse perdendo, aos poucos, a firmeza na mão que segurava o controle remoto.Sua mente divagava sobre o que havia dado errado. Joe era a preocupação inicial, mas agora havia mais coisas em que pensar. As imagens do ocorrido em sua memória eram fragmentadas, o que o impedia de determinar com precisão o que exatamente havia acontecido com Joe. Então, lembrou-se do trabalho inacabado de sua equipe de topografia e soube que precisava voltar imediatamente, mas o tempo não estava a seu favor. Esses pensamentos sombrios povoavam sua mente enquanto a televisão se tornava um incômodo, mas ele permanecia imóvel no sofá.Ele sentiu mãos suaves começarem a acariciar seu peito, mas as afastou bruscamente. "Não estou a fim de ser incomodado."O estado de embriaguez de Susan fez com que ela respondesse com a fala arrastada: "Vai se foder!"Ela se afastou, deixando Rich mergulhar novamente em sua angústia reflexiva. Então, ouviu um chamado suave: "Papai, você está vendo isso?"Ele hesitou em responder, e a filha tirou o controle remoto de sua mão frouxa. Ela começou a mudar de canal enquanto o pai perguntava: "O que minha Boo quer assistir?""Ah, papai, cobras!"O canal estava exibindo uma caçada a uma enorme sucuri mítica; a empolgação dos atores na tela — perseguindo e sendo perseguidos pela cobra gigantesca — despertou o fascínio nos olhos da pequena Dainisa. Pai e filha continuaram assistindo ao filme, intrigados. Richard sentiu uma gratidão silenciosa por a filha tê-lo resgatado de seus pensamentos sombrios.O filme caminhava para o desfecho, e os atores sobreviventes navegavam por um rio que serpenteava a selva densa. Diante deles, surgiu um grupo de indígenas da floresta que jamais haviam encontrado ou se comunicado com estranhos. Eles observavam os sobreviventes com espanto.Richard também olhava fascinado; de repente, levantou-se de um salto e correu para o telefone. A ansiedade tomava conta dele enquanto tentava não se atrapalhar com o fone. A pressa era sua inimiga, pois ele precisava refazer a discagem, já que seus dedos trêmulos apertavam as teclas erradas.O telefone tocou! "Alô, Julian! Aqui é o Richard!" — Ah, olá, Richard. Você parece tão agitado.— Ah, não, eu só precisava da sua ajuda. Lembra que você disse para eu ligar se precisasse de você?— Certo, o que houve, Richy?— Bom, deixa eu te perguntar uma coisa antes! Na América do Sul — mais especificamente no centro do Brasil —, você acha que existem indígenas vivendo lá?— Bem, a população indígena é escassa, mas acho que sim; depende de quem você classifica como tal.— Não, não! Não é isso que eu estou dizendo.— Então, o que você está dizendo?— Existem tribos de bárbaros vivendo nas selvas da América do Sul?Julian soltou uma risadinha. — Não, acho que não existem bárbaros, mas sim tribos indígenas. Tenho certeza de que elas estão espalhadas pelas florestas do Brasil.— Ah, é?— É. Algumas delas, a civilização nem sabe que existem — ou, pelo menos, não houve contato com elas.— Você acha que eles são violentos?— Podem ser territoriais, especialmente em relação aos europeus.— Tenho uma proposta para você. Você gostaria de uma viagem com todas as despesas pagas para estudar esses selvagens?Julian ficou em silêncio, ponderando sobre o que Rich...O pedido de Ard. "Também lhe pagarei pelos seus serviços. Precisarei de você caso tenhamos algum confronto com uma tribo. Você será a melhor opção para tentar nos comunicar com eles.""Sim, você tem razão! Também tenho um colega indígena cujos ancestrais são da floresta amazônica do centro do Brasil, e ele fala alguns dialetos semelhantes. Dominei esse idioma em particular por conviver com ele durante tanto tempo.""Ah, ótimo, qual é o nome dele?""Poncho-twinetoe!""Ótimo. Podemos nos encontrar amanhã de manhã?""Espere um pouco. Você está me pressionando. Não posso agir com tão pouca antecedência.""Julian, eu sei! Eu sei, mas você não quer estudar essas pessoas de perto e receber um bom pagamento por isso?""Certo! Nunca consegui dizer não para você, já que sempre me defendeu na faculdade. No entanto, não sei quanto ao meu amigo Poncho... Talvez eu não consiga contatá-lo com tão pouca antecedência. Que tal me dar até a manhã seguinte? Acredito que ele esteja fora da cidade. Vou ligar para você amanhã à noite para confirmar os detalhes finais da partida."Os homens encerraram a ligação e Richard foi imediatamente para a cama. Ele mergulhou num sono profundo, mas agitado, revirando-se enquanto pesadelos passavam por sua mente. Ele se contorcia em agonia, preso num sono pesado, enquanto pensamentos sobre a morte brotavam de seus pesadelos. Acordou de madrugada, banhado em suor e verdadeiramente aliviado por ter tido o sono interrompido.Richard olhou para a esposa e percebeu que não era o único com dificuldade para dormir. A ideia de que o marido poderia não voltar a entristecia, e ela estava sentada no quarto escuro, chorando. Richard a observou até que a exaustão o venceu novamente.A manhã seguinte amanheceu radiante, e a temperatura não demorou a subir. Richard vinha mantendo o hábito de levantar antes da esposa, e desta vez não foi diferente. Na verdade, ele já estava no escritório, traçando seus planos. Usava o telefone constantemente para ligar para vários números, transparecendo pressa. A preocupação de que o projeto pudesse escapar de suas mãos martelava em sua mente. Era preciso um plano, e ele começou a arquitetar todas as estratégias imagináveis. Considerou todas as pessoas que poderiam ser úteis, mas aquela precisava ser uma operação sigilosa.Richard pegou o telefone mais uma vez e começou a discar com ímpeto. Após tocar por um bom tempo, uma voz agradável atendeu: "Federal Bureau of Investigation! Como posso encaminhar sua ligação?"Richard respondeu com firmeza: "Sim! Kyser Finley, por favor.""Quem está ligando?""Diga que o Rich está na linha."A recepcionista colocou Richard em espera enquanto transferia a ligação para o escritório do agente Finley. "Olá, Rich! Como você tem passado?""Tenho estado muito ocupado.""É, mas como *você* está?" Kyser exclamou com uma risada alegre, feliz por ouvir o velho amigo."Ah, estou bem, exceto por um problema.""Qual é o problema?", declarou o agente. "Qual é o problema, Rich? Você sabe que estou aqui se precisar de mim.""Bom, Ky! Tenho um projeto em andamento na América do Sul e suspeito que possa haver uma tribo — ou alguns selvagens da selva — tentando sabotar esse projeto. Paguei uma fortuna para adquirir essas terras e...""Calma lá, Richard! Primeiro, você parece estar alterado; e o que exatamente eles estão tentando sabotar?""Estou construindo um estaleiro na Amazônia. Vou ter que derrubar uma quantidade enorme de árvores para isso.""Richard, o que faz você acreditar que uma tribo de selvagens, como você diz, é o problema?""Tenho um amigo, professor na Universidade de Saint Helen's, e ele indicou que há tribos vivendo na região que podem ser territoriais. Vou levá-lo comigo por causa do conhecimento dele sobre os muitos dialetos das línguas do Brasil central.""Então, imagino que você queira que eu vá para a América do Sul.""Sim, você e alguns dos seus agentes. Só para ficar de olho em tudo. Haverá um pagamento substancial pelos seus serviços. Considere apenas como um trabalho de hora extra.""É mesmo? Esse projeto deve ser muito importante para você. De quanto será essa remuneração, exatamente?""Vou pagar a você e a mais três pessoas cinquenta mil dólares por três dias. Se eu precisar de vocês por mais tempo, haverá mais dinheiro, mas realmente não acho que você queira falar sobre isso por telefone.""Tudo bem. Esta linha é segura.""Tudo o que você precisa fazer é patrulhar a área e investigar quaisquer ocorrências fora do comum.""OK, Rich! Vou montar uma equipe. Quando exatamente você quer partir?""Amanhã de manhã!""Nossa! Quanta pressa!" "Sim, estou. Então, vou mandar alguém buscar você e sua equipe de manhã."O agente Finley lançou um olhar peculiar após desligar o telefone, mas o pagamento era bom, então não deu muita importância à aparente urgência de Rich. Finley continuou a encher seu escritório com a fumaça de um cachimbo grande, deixando que o aroma acalmasse seus pensamentos.Richard, por outro lado, não tinha tempo para ficar sentado fumando tranquilamente. Estava ocupado demais. Ligou freneticamente para todas as pessoas que pôde — apelando, implorando ou oferecendo suborno — para conseguir ajuda. Ligou para o professor para garantir que sua chegada ocorresse sem imprevistos. Conferiu com seu assistente, John, se ele havia ligado para o engenheiro. Havia um esforço enorme para fazer o trabalho render, pois ele detestava atrasos. Os investidores esperariam um relatório sobre o terreno e sua viabilidade de construção; ele não queria decepcioná-los, nem a si mesmo. Tudo precisava estar em ordem — foi por isso que ligou para o FBI: para garantir que nada desse errado. O que quer que estivesse causando o atraso...Este processo precisa ser interrompido.Richard discou freneticamente mais uma vez e, após alguns toques, Julian atendeu. "Sim, Rich! O que é agora?""Como vamos?""Ah, tudo bem. Igual à última ligação.""Só estou confirmando.""Olha, eu estarei lá, na hora certa, e podemos pegar seu avião para a América do Sul. Ainda não entendi o que você quer de mim. Quer que eu fale com eles? Se é que encontrarmos algum membro da tribo.""É exatamente isso que eu quero de você. Caso encontremos essas pessoas, você será o mais qualificado para lidar com qualquer comunicação. Quer dizer, precisamos avisá-los para se retirarem e que planejamos construir lá."Uma risada sarcástica escapou dos lábios do professor. "Tá bom. Tanto faz! Eu não tenho vida mesmo, então provavelmente é para eu embarcar em alguma aventura. Talvez eu encontre uma nova vida ou algo assim.""Bem, Julian, não posso prometer isso, mas vou te dar uma pequena recompensa pelo seu trabalho.""Nossa, eu tenho dinheiro suficiente. Além disso, adoraria te ajudar enquanto aprimoro minhas habilidades.""Nos vemos no aeroporto.""Ótimo, ótimo. Essa vai ser uma experiência esclarecedora."Richard desligou o telefone sentindo uma ponta de satisfação, mas, antes que pudesse aproveitar a sensação, já estava gritando a plenos pulmões: "John, John! Preciso de você na minha sala."Como Richard havia instalado o escritório de John bem ao lado, era impossível não ouvir os gritos. John caminhou até a sala de Richard com sua habitual expressão de desaprovação. "Qual é a novidade sobre o engenheiro civil? Conseguiu que algum aceitasse o trabalho?""Sem problemas. Você estava oferecendo uma quantia considerável, então houve muitas propostas.""Bom, não tenho tempo para fazer uma seleção. Quem você acha que é o melhor para o cargo? Vamos lá, John, foi para isso que te contratei. Você é meu braço direito. É bom que você tenha um engenheiro e uma equipe prontos para partir amanhã de manhã."John já havia escolhido Brutus Salapore. Após pesquisar, ele notou que a empresa de empreitadas privada de Brutus havia realizado diversos trabalhos em áreas de floresta e pântano. Tratava-se de uma grande empresa de engenharia que contava com suas próprias equipes de topografia, o que atendia perfeitamente às necessidades de Richard: era preciso um navegador para conduzir barcos de e para o local, e contar com o maior número possível de pilotos de helicóptero seria muito útil. Essas vagas foram facilmente preenchidas assim que Brutus e sua empresa foram contratados.Todos deveriam se encontrar no aeroporto no mesmo horário que a equipe do FBI, e Julian chegaria logo em seguida. Richard era meticuloso, e seus preparativos eram precisos. Todos viajariam no mesmo jato particular Lear para Macapá. Ele sentiu um alívio que não experimentava há algum tempo; o dia da partida se aproximava rapidamente. Decidiu ir dormir mais cedo para descansar bem antes da manhã seguinte.O trajeto para casa foi agradável, mas seus pensamentos sobre Joe tornaram-se mais compassivos, e ele começou a sentir saudades do amigo. No entanto, ele não era o único a pensar em Joe. Claira também pensava nele; aliás, naquele exato momento, ela decidia que não queria mais ficar apenas pensando no marido e que faria algo a respeito de sua situação. Ela precisava saber o que havia acontecido com ele.Ela pegou o telefone e discou para a 17ª Delegacia. O telefone tocou insistentemente antes que uma telefonista atendesse. "O Rick Powers está disponível?"A telefonista contatou Rick Powers imediatamente e, ao fundo, ela pôde ouvir os colegas dele reagindo à chamada. Um policial chegou a soltar: "É aquela mulher chata cujo marido a abandonou". Risadas se seguiram."Aqui é o Rick Powers. Como posso ajudar?""Estou ligando para saber como anda a investigação.""Investigação!" Um sorriso de escárnio surgiu nos lábios de Rick, mas quilômetros de fibra óptica ocultavam isso. "Sra. Geshy, realmente não há nada que possamos fazer neste momento; não até que alguém ligue com uma pista ou surja alguma evidência de crime. Não há nada...""Não gosto da sua atitude! Quero falar com o seu superior.""Claro", disse ele, sentindo certo prazer. Rick transferiu a ligação para o Tenente Steve Harrington."Aqui é o Harrington!""Sim, aqui é a Claira Geshy. Falei com o senhor antes sobre o desaparecimento do meu marido."Claira queria muito continuar seu relato, mas Steve a interrompeu com habilidade. "Sim, e como eu disse antes, há muitas ligações parecidas com a sua e, na verdade, não há como determinar se o desaparecimento dele foi voluntário ou não. Sabe, às vezes essas coisas acontecem quando menos se espera.""Olhe! Vocês não estão me ouvindo. Eu disse que não era esse o caso, e você tem a mesma atitude daquele sujeito, o Rick. Não acredito nisso. Na verdade, não estou chegando a lugar nenhum com você. Quem é o seu superior?""É o Capitão Gunther, e acredito que ele esteja em outra ligação. Não sei se...""Eu aguardo na linha!" declarou Claira, irredutível. "Não me obrigue a ir aí pessoalmente falar com o Capitão Gunther. Farei questão de exercer meus direitos da Primeira Emenda bem no meio da delegacia.""Calma, Sra. Geshy. Não será necessário. Vou até a sala dele e o informarei sobre a sua ligação; veremos se ele pode atendê-la.""É, vá lá fazer o seu relatório." Ela aguardava pacientemente, sem a menor dúvida de que ele atenderia ao telefone. Harrington contornou a esquina, bateu levemente à porta do capitão e a abriu. Fez um sinal silencioso, com uma expressão de constrangimento. O capitão colocou o telefone no mudo à moda antiga, perguntando-se por que estava sendo interrompido. Recostou-se na cadeira, com a impaciência estampada no olhar."O quê?""Capitão, há uma mulher que insiste em falar com o senhor.""Bom, quem é essa mulher?""O nome dela é Claira Geshy.""E por que ela quer falar comigo?""Ela registrou o desaparecimento do marido, Joe. Seguimos todos os trâmites de rotina e à risca as diretrizes, mas não há qualquer indício de nada. Eu disse a ela que é possível que o marido tenha decidido se ausentar por um tempo. Ela está sendo muito grosseira e continua pedindo para falar com um superior, mas, como eu lhe disse, isso não muda os procedimentos.""Transfira a ligação... Sim, deixe-me retornar a ligação depois."O capitão  Ele atendeu a ligação anterior e aguardou a transferência. "Sim, aqui é o Capitão Gunther! Como posso ajudar?" George exclamou, num tom muito cordial, como se fosse começar um discurso de vendas."Ora, Capitão! Meu marido desapareceu e nada está sendo feito a respeito!""Isso não é verdade. Meu oficial me informou que tudo foi feito — ou, pelo menos, tudo o que é possível fazer.""Segundo seus oficiais, hã? Isso é uma tremenda mentira. O que diabos foi feito?""Sra. Geshy, o que a senhora espera que façamos?""Vocês interrogaram os Dickenson?""Sim, interrogamos! Veja bem, temos feito o nosso trabalho.""Pois com quem vocês falaram? Chegaram a falar com o Richard?""Falamos com a esposa dele, Susan."Claira começou realmente a desabafar, e o tom de sua voz subiu. "Eu não dou a mínima para o que ela tem a dizer — ela não tem nada a ver com esse caso. Na verdade, ela não sabe porra nenhuma. Meu marido deveria ter ido com o Richard, não com a Susan.""Sra. Geshy, por favor, contenha o palavreado. Ele estava fora da cidade naquela época.""Fora da cidade? Ah, ótimo. Quando diabos ele vai voltar?""Olhe! Acalme-se. Seus palavrões não vão acelerar o processo. Ele estava na América do Sul.""América do Sul", grita Claira, profundamente decepcionada. "Que diabos está acontecendo na América do Sul? Meu marido vai para lá e nunca mais volta, mas esse Richard está sempre na América do Sul. Que porra é essa? Eu definitivamente preciso falar com meu advogado. Richard é multimilionário, e é por isso que meu caso está sendo negligenciado. Vou difamar essa sua tal força policial. É bom que vocês interroguem o Sr. Dickenson; eu vou conferir."O telefone foi batido com força no gancho, deixando o capitão perplexo. "Harrington, venha aqui.""Sim, capitão!""Por que não fui informado de que este caso envolvia Richard Dickenson?""Bem, senhor, tratamos como uma ocorrência comum.""Como assim, ocorrência comum? Richard está longe de ser comum, seus imbecis!"O capitão estava ficando irritado, com a voz subindo de tom. "Eu não sei? Em todos os meus anos de corporação, ainda não saberia dizer o que é uma ocorrência comum."O capitão soltou uma risadinha, mas sua expressão denunciava que o assunto era sério. "Harrington, uma pergunta. O que é uma ocorrência acima do normal ou, melhor ainda, uma abaixo do normal? Seu idiota! Quem você poderia escalar para esse caso? Porque, se o Rick difamar o nome do Richard e estiver errado, o Richard não vai parar até destruir a carreira do Rick.""Isso só aconteceria se houvesse suspeita de crime. Não há provas disso.""Eu sei, mas tenho a sensação de que esse caso está cheio de sujeira." "Por que você diz isso?""Esse Dickenson está sempre na América do Sul, segundo a Claira.""Ah! Entendo. Eu não sabia disso.""O marido desaparecido ia se encontrar com o Sr. Dickenson. É isso que acontece quando você se recusa a ouvir; mas percebe como isso pode complicar uma investigação? Será preciso fazer todo tipo de pergunta pessoal."O Capitão George Gunther recostou-se na cadeira e ponderou sobre a situação, enquanto lançava um olhar penetrante a Harrington. De repente, soltou: "Coloque o tal 'astro' Pullins no caso. Ele tem chamado a atenção ultimamente e, já que quer ser o tal, este será o caso que vai definir o sucesso ou o fracasso dele. E chame o velho Edward Bot à minha sala. Sei como é quando ele interroga o Richard pela primeira vez... nossa. Eu adoraria ver essa cena.""Você acha que o Richard ficaria ofendido se você mandasse o Edward interrogá-lo?""Sim, tenho certeza de que ficaria, especialmente se não tivesse nada a ver com o caso. Vá buscar o tal 'astro'."O Capitão Gunther aguardou pacientemente que chamassem Edward."Sim, Capitão, o senhor queria me ver." O homem falou com firmeza, mas apenas porque uma ida à sala do capitão geralmente significava levar uma advertência. "Qual parece ser o problema, Capitão?""Não há problema nenhum com você, mas há um que eu gostaria que você resolvesse.""Ah!" Seguiu-se uma pausa e Edward respondeu novamente com um tom de descrença. "Estou sendo designado para um caso especial... caramba. Sei que algo vai cair do céu.""Certo, Edward, chega de conversa fiada. Quero que você interrogue Richard Dickenson, neste endereço, sobre o desaparecimento de Joe Geshy. Leia este relatório. Ele lhe dirá tudo o que precisa saber; então, passe lá hoje à noite, se quiser, e escolha um parceiro, se desejar."O capitão sabia que ele escolheria Gary Stevens, com quem vinha tendo um caso. O plano funcionou, pois não havia mais ninguém que Edward pudesse encontrar. Os dois saíram para jantar antes de irem até a casa dos Dickenson. Os dois detetives saíram da delegacia ansiosos para desvendar um mistério. "Então, Ed, qual é a situação? Me põe a par de tudo.""Leia o relatório que resume o caso.""Não! Cara, esquece o relatório. O que está acontecendo?""Um sujeito chamado Joe desapareceu, e a esposa dele disse que ele deveria ir para a América do Sul com aquele ricaço, o Dickenson. Temos que interrogá-lo e procurar pistas sobre o motivo do desaparecimento.""Você acha que o marido dela pode simplesmente ter ido embora e deixado ela?""Não sei, Gary. Realmente não dá para dizer." Edward balançou a cabeça.Gary disse: "Logo vamos descobrir." Eles pararam em um restaurante casual para fazer um lanche rápido.CAPÍTULO DOZEComida era a última coisa em que Richard Dickenson pensava. Ele estava em casa, em sono profundo, e as chances de qualquer mudança em seu estado de consciência tão cedo pareciam remotas. A Sra. Dickenson cuidava de algumas tarefas domésticas e tudo estava tranquilo até que Hayword a avisou de que dois senhores queriam ver seu marido. A urgência na voz de Hayword era evidente, o que levou Susan a agir rapidamente. Richard continuou dormindo durante a agitação inicial.Finalmente, Hayword ficou frente a frente com Susan e disse: "Sra. Dickenson, há dois detetives que querem falar com seu marido. O Sr. Dickenson não está em apuros, está?""Não, Hayword, não! Agora vá. Eu cuido disso."Susan viu o Sr. Reynolds sair e então foi encontrar os detetives. "Sim", respondeu Susan, curiosa. "Como posso ajudá-los, senhores?""Sou o detetive Edward Pullins e este é meu parceiro, Gary Stevens. Gostaríamos de falar com seu marido.""Certo... só um momento. Vou avisá-lo da presença de vocês."Susan caminhou rapidamente para chamar o marido, perguntando-se por que a polícia estava de volta à sua casa. O fato de serem detetives diferentes causava ainda mais preocupação."Richard! Richard! Querido, querido, acorde." Susan falou de forma incisiva, e suas palavras foram acompanhadas por alguns sacudões. "Acorde, a polícia quer falar com você."Richard acordou atordoado. "O quê, o quê! O que houve, querida?""Há dois detetives aqui fora que querem falar com você. Outros detetives vieram ontem à noite fazer algumas perguntas. O que está acontecendo, querido?""Que tipo de perguntas... e que bela hora para me contar, não?""Primeiro de tudo, você tem corrido de um lado para o outro o tempo todo, e eu não tive chance. Você levanta de manhã e sai antes que eu perceba. Então, o que diabos eu deveria fazer? Não é como se eu pudesse ter ligado para o escritório rapidinho."Richard dirigiu-se à porta para deixar os detetives entrarem. Eles se apresentaram a Richard e foram convidados a se sentar. "Bem, o que posso fazer pelos senhores?" "Temos apenas algumas perguntas para o senhor. Quando foi a última vez que ouviu falar de Joe Geshy ou o viu?""Bem, ele deveria me encontrar na América do Sul, mas o avião dele estava atrasado. Quando fui buscá-lo na pista de pouso na América do Sul, ele não estava lá.""Não foi isso que eu perguntei.""Hã, como disse?""Eu disse que não foi isso que eu perguntei!""O quê! Do que você está falando?""Eu perguntei: quando foi a última vez que você viu Joe Geshy?""O quê? Ah! Eu... eu não sei. Quer dizer, faz um tempo, eu acho. Foi por isso que convidei meu amigo para ir junto. Eu não o via há algum tempo."Os dois detetives observavam atentamente Richard enquanto ele respondia às perguntas. Edward tinha faro para coisas malcheirosas."O que o senhor estava fazendo lá, se não se importa que eu pergunte?", indagou o detetive Pullins, no tom mais calmo possível."Bem, eram umas miniférias, para celebrar um projeto que estou desenvolvendo."Gary ficou em silêncio por um momento e depois perguntou: "O senhor e Joe eram amigos ou principalmente parceiros de negócios?""Éramos amigos! Olha, não sei aonde isso vai levar."Edward não estava convencido e declarou abruptamente: "O senhor diz que o avião dele estava atrasado. Esse voo estava programado para sair do aeroporto local?"Richard apenas assentiu com a cabeça, como se ainda estivesse ouvindo as perguntas de Edward."Que voo? O ​​senhor sabe em que voo ele deveria estar?""Não tenho certeza de qual era o voo.""Bem, Sr. Dickenson, a esposa de Joe indicou que ele viajaria no seu jato particular.""Ah, sim, mas não sei qual era o número do voo, ou se eles sequer se preocupam com isso em voos particulares.""Existe um registro de cada voo e uma contagem de passageiros", respondeu Gary.A expressão de Richard tornou-se a de alguém em estado de choque, mas ele se esforçou para disfarçar. Edward exige: "Preciso das datas e horários das suas reservas de voo. Tenho certeza de que você não vai me obrigar a buscar um mandado e revirar a sua casa por uma informação simples que eu sei que você tem."Richard olhou para os homens e pareceu preocupado, mas manteve a compostura. "Claro, vou pegar essa informação, sem problemas."Richard fez exatamente isso, e os homens foram embora.Richard ficou furioso após a partida deles e desabafou de uma forma que deixava claro que ele não estava com a mínima vontade de conversar. Sua esposa foi a primeira a perceber isso, ao ser alvo de sua irritação quando tentou oferecer condolências. Suas preocupações transpareciam agora; se os detetives estivessem ali, ele estaria prestes a confessar. Então, Richard pensou: confessar o quê? Eu não matei ninguém. Eles teriam, inclusive, de provar que ele está morto. O raciocínio de Richard recebeu total respaldo de sua mente analítica: Joe está longe, na América do Sul, no meio da selva. Quem vai encontrá-lo? Ele ponderou sobre vários cenários para tentar acalmar os nervos. A estratégia acabou funcionando, e Richard voltou a dormir.A manhã seguinte foi agitada. Richard levantou-se cedo, como de costume, para garantir que sua equipe embarcasse no avião. O detetive Pullins estava ansioso para verificar os registros do aeroporto; essa seria a primeira tarefa que ele cumpriria. Ele foi sozinho, enquanto seu parceiro realizava pesquisas sobre o suspeito. Ironicamente, Rich e Ed estavam no mesmo aeroporto, mas Richard estava um passo à frente, e seu grupo já estava a caminho da América do Sul.Ao chegar ao aeroporto, Edward começou a fazer perguntas imediatamente, procurando especificamente por registros de voos particulares. Depois de falar com várias pessoas, foi finalmente direcionado ao mesmo portão de embarque que Richard havia utilizado."Com licença", disse ele educadamente. A atendente no balcão dedicou-lhe total atenção. "Sou o detetive Edward Pullins." Ele exibiu o distintivo, mantendo a postura cortês. "Preciso de informações sobre jatos particulares e seus horários de voo nas últimas duas semanas. Além disso, gostaria de saber se vocês conhecem alguém chamado Richard Dickenson que organize voos; ele costuma fretar jatos particulares saindo daqui."A atendente levou um momento para consultar os registros e respondeu com cautela: "Sim! Acho que sim. Ele e um grupo grande de pessoas acabaram de partir."Edward estreitou os olhos, ansioso por mais detalhes, e perguntou: "O destino deles seria, por acaso, a América do Sul?""Sim, acredito que sim. Eles não são obrigados a divulgar essa informação, mas ouvi alguns deles mencionarem uma floresta tropical e... a América do Sul!"Uma expressão séria surgiu no rosto de Edward, e ele começou a sentir o faro de um cão de caça que acabara de encontrar uma pista quente. "Na verdade, ele fez mais de uma viagem, e todas foram para a América do Sul.""Hmmm...", respondeu Edward."Que curioso", comentou a atendente, mas logo afastou a ideia, como se não fosse nada importante."O que é curioso?", perguntou Edward."Ah, nada. É só que o último voo dele teve apenas um passageiro.""Certo, obrigado. Você foi de grande ajuda!"Edward saiu do aeroporto às pressas, tomado pela euforia do que acabara de ouvir. Ele correu de volta para a delegacia para avisar seu parceiro. A pressa ao dirigir o fez xingar alguns motoristas pelo caminho. Ainda assim, chegou em segurança, sem nenhum incidente."Ei, Joseph! Viu o Gary?""O Stevens!?""É, onde ele está?""Deve estar lá atrás."Ed foi rapidamente na direção indicada. "Ei, Gary, sabia que aquele tal de Joe realmente embarcou no avião do Richard? Ele chegou à América do Sul, mas... pelo visto, não voltou.""Ainda não sabemos se ele só queria deixar a esposa.""Você tem razão, mas por que ele mentiu? Ele sabia o tempo todo que o Joe estava naquele avião.""É, mas talvez esteja protegendo ele. Sabe, se eu tivesse um milhão de dólares, provavelmente largaria minha esposa também. Isso se ela não ficasse com a metade; aí sai mais barato mantê-la. Você sabe que eles são amigos. O Richard provavelmente o ajudou a ir embora.""Amigos!? Segundo ele, mas... não sei não. Tem algo nisso que parece inacreditável."Edward Pullins ficou pensativo depois daquele último comentário. Ele saiu de seus devaneios e disse: "Vamos comer alguma coisa."Os detetives estavam prestes a sair da delegacia quando um colega chamou: "Pullins! Tem alguém registrando uma ocorrência de desaparecimento. Acho que você vai querer atender essa ligação. O sujeito está muito irritado e falando algo sobre a América do Sul. Devo desligar na cara dele? Pode ser trote." "Ah, não! Não!" Edward pegou o telefone após dar alguns passos rápidos. "Alô, aqui é Edward Pullins."Uma voz do outro lado da linha gritava furiosamente: "Alô? Alô? Escuta, aquele tal de Richard deixou meus amigos para morrer.""Quem está falando? Do que você está falando? Alguém morreu?"Edward fez um sinal para o colega policial começar a gravar a conversa, na tentativa de rastrear a ligação."Ele os abandonou. Meu amigo Milo está morto, e não tive mais notícias dos outros.""Ei, espere um pouco. Que outros?"O interlocutor anônimo encerrou a ligação pouco antes de conseguirem rastreá-la.Edward pegou a gravação e o depoimento do funcionário da bilheteria para solicitar um mandado. "Gary, vamos conseguir um mandado. Esse canalha está escondendo alguma coisa."Os policiais fizeram exatamente isso e seguiram para a casa de Richard e Susan Dickenson. O capitão ficou satisfeito em emitir o mandado, pois ainda acreditava que eles estavam perseguindo a pista errada. A busca em sua casa e a detenção temporária de Richard seriam muito prejudiciais à reputação dele. De fato, o capitão estava convicto de que Edward poderia comprometer sua carreira ao acusar injustamente um homem de posição sólida. George queria Edward fora de seu caminho de qualquer maneira, e essa parecia ser a forma de alcançar esse objetivo.George Gunther recostou-se na cadeira e refletiu sobre a situação, concluindo que tudo acabaria bem.Gary e Edward já estavam a caminho em um Crown Victoria cinza-escuro, com vidros fumê e sem nenhuma identificação policial visível. Gary assumiu a direção, enquanto Edward examinava alguns documentos. Gary olhou para Edward algumas vezes, mas apenas brevemente, devido ao trânsito intenso. Ele estava louco para dizer algo e, finalmente, falou: "Então, Ed! Você acha que pode haver algo suspeito nisso?"Edward olhou para Gary e considerou seus comentários prematuros. "Eu realmente não sei dizer! Sei que ele está escondendo algo, e é exatamente por isso que estamos indo para a casa dele. A desonestidade dele causou isso, e vamos descobrir o motivo.""O que o capitão disse?""Bem, ele parecia ansioso, mas não sei por quê. Fico imaginando por que fui escalado para este caso, especialmente porque outra pessoa já estava cuidando dele.""Talvez estejam armando para você — não sei. Apenas tome cuidado.""Não se esqueça de que você é meu parceiro; então, muito provavelmente, aconteça o que acontecer, você vem comigo." Edward virou-se para olhar pelo retrovisor lateral e continuou: "Bom, seja como for, eu te arrastei para essa merda. Então, se eu cair, você cai junto!""Ah, não, cara, porque eu vou proteger o meu.""É, faça isso mesmo.""Ah, eu vou! Só não faça nenhuma besteira."Um breve silêncio pairou por um momento, mas Edward o quebrou ao instruir Gary: "Vire aqui!"Os detetives estavam se aproximando da propriedade dos Dickenson. "Caramba, toda vez que vejo esta casa, fico impressionado. É linda.""Pois é! É por isso que não sei bem como abordar este caso.""É, estou vendo. Fico imaginando por que ele te escalou para um caso de tamanha repercussão. A mídia vai cair matando em cima disso. É, o capitão está armando para você, ou então te testando.""Bom, talvez, mas vou fazer meu trabalho da melhor maneira possível.""Pois é, é isso que me assusta." Gary fez uma pausa e olhou para cima. "Olha só esses portões."Hayword reconheceu os homens e os deixou entrar. "O que podemos fazer pelos senhores desta vez?"Edward respondeu imediatamente, assim que saiu totalmente do carro. "O Sr. ou a Sra. Dickenson estão disponíveis?"Hayword respondeu com cautela: "Sim, ela está lá dentro. Vou chamá-la para vocês."Ele caminhou em direção à casa, mas estranhou o fato de eles o seguirem tão de perto. Hayword gritou: "Sra. Dickenson... Temos visitas!" Ele repetiu o chamado enquanto a porta se abria de par em par. Ele ficou surpreso ao perceber que os detetives o haviam seguido bem de perto.Susan desceu as escadas com uma expressão de choque ao perceber que Hayword havia permitido que os detetives entrassem sem cerimônia. "Sim, posso ajudar? O que vocês querem desta vez?"Edward respondeu: "Temos um mandado de busca para a propriedade." Ele exibiu o documento com a assinatura do juiz rabiscada de forma ilegível."Com base em quê?""Sinto muito, mas reservo-me o direito de não divulgar essa informação; ela só será revelada ao proprietário desta casa.""O quê! Será que o casamento não significa mais nada?"Susan sentiu a raiva ferver sob a pele, mas não conseguia dizer uma palavra sequer que ajudasse a aplacá-la. Os detetives olhavam em volta, sem saber ao certo o que procuravam, mas aquilo a assustava, pois ela não fazia ideia do que estava acontecendo. Hayword observava tudo, atônito. Susan lançou-lhe um olhar que dizia para ele sumir dali. Ele entendeu o recado, mas sua curiosidade fez com que aquele afastamento durasse pouco. Hayword dirigiu-se ao escritório particular de Richard, ciente de que fora programado para não se aproximar daquele cômodo, especialmente na ausência de Richard. Hayword era um sujeito perspicaz; compreendia que aquela busca dizia respeito a Richard e que tudo o que procuravam estava ali.Susan não suportava ver sua casa sendo revirada e, para piorar, sua filha pequena entrou correndo para ver o que estava acontecendo. "Mamãe, mamãe. Quem é aquele? Por que eles estão aqui? São amigos do papai? Mamãe, manda eles irem embora. Por que estão bagunçando tudo?"Susan pegou a filha no colo e a abraçou com força. Levou-a até o sofá da sala de estar e sentou-se para chorar."O que houve, mamãe? Estou com medo daqueles homens... eles são feios. São monstros.""Ah, querida, não diga isso. Eles não são monstros. Estão apenas fazendo o trabalho deles.""Então por que eles estão fazendo você chorar?""Filha, eles não estão me fazendo chorar. É só que me sinto triste porque sinto falta do seu pai.""Eu também, mamãe."Os homens revistaram cômodo após cômodo antes de revistarem aquele para o qual Hayword havia recuado. Eles abriram a porta e Hayword parecia ter sido pego em flagrante."Precisamos revistar aqui agora", anunciou Edward.Eles começaram a procurar enquanto Hayword se afastava e observava. Edward perguntou a Hayword: "Você sabe onde ele guarda as informações sobre suas viagens de ida e volta à América do Sul?""Bom, se eu soubesse, o que eu ganharia com isso?"Gary respondeu ansiosamente: "Você ganha a chance de continuar vivo!""E daí? Vai me bater aqui mesmo? Não seria nada inteligente da sua parte, especialmente com a Sra. Dickenson no cômodo ao lado."Edward pensou imediatamente nas intenções ocultas do capitão e impediu Gary de agredir o homem, começando a negociar. "Então, qual é mesmo o seu nome?""Hayword!""Ah, Hayword! Olha, meu parceiro não vai te machucar nem nada do tipo."Gary baixou a voz para um rosnado e disse: "Deixa eu pegar esse metido a engraçadinho."Edward continuou: "Olha, Hayword! Estamos apenas tentando conduzir uma investigação. Quer saber? Fale sobre você. Fale sobre seus sonhos e aspirações. Talvez eu possa te ajudar.""Bom, para começar! Estou cansado desse trabalho chato pra caramba, de fazer a segurança da casa dele. Quase nunca acontece nada aqui, então qual é a minha utilidade? Só receber gente como vocês. Tenho muito mais potencial, e tudo o que o Richard faz é me deixar de lado.""E por que ele te deixa irritado?" perguntou Edward, com a voz mais suave possível."Tenho tentado fazer com que ele me escale para um dos prédios de escritórios dele ou algo assim. Qualquer coisa para me livrar dessa agonia. Até pedi para ele me levar em uma das viagens à América do Sul. Eu poderia fazer a segurança lá, mas não, fico aqui. Sempre a mesma coisa!""Você falou em América do Sul. Onde ele guarda informações sobre isso?""Eu estava bisbilhotando um dia e, bem aqui embaixo — está vendo? — tem um compartimento oculto sob esta cadeira." Hayword tirou alguns mapas e documentos contendo os planos detalhados de Richard.Edward leu o nome da cidade circulada em vermelho: "Macapá!" Ele também notou uma pequena área a sudoeste de Macapá que também estava circulada. "Gary! Acho que encontramos o que procurávamos; agora precisamos começar a investigar em outro lugar."Os homens voltaram rapidamente para o carro, ansiosos para retornar à delegacia. O único som que se ouvia era o dos pneus de um Ford bem conservado cantando no asfalto.Gary disse: "Você ainda não me contou o que encontramos e, principalmente, por que fomos embora sem terminar a busca.""Digamos apenas que temos mais informações graças ao agente de viagens dele.""O quê?""Vamos descobrir exatamente por que ele vive indo para a América do Sul e, talvez — só talvez —, possamos descobrir por que diabos a América do Sul é tão importante assim.""Você está sugerindo que a gente vá até a América do Sul? Duvido que o capitão aceite isso. Na verdade, ele pode muito bem mandar esperar até que ele volte.""Não podemos esperar.""Por quê?" perguntou Gary, com um olhar curioso."Porque acho que vamos encontrar o que procuramos justamente lá. Aposto que o Joe foi para lá com o Richard; resta saber se foi por vontade própria ou à força."Gary estava com uma expressão de espanto; ele sabia que estavam no caminho certo, mas não estava claro exatamente para onde esse caminho levava.Edward estacionou o carro rapidamente e saiu. Gary não estava tão ansioso para entrar no prédio, mas apoiava o parceiro cem por cento."Olá, Ed!""Edward.""E aí, Pullins!" Vários outros cumprimentos ficaram sem resposta enquanto ele se concentrava em chegar à sala do Capitão Gunther."O que houve com o Edward?"Gary balançou a cabeça e respondeu: "Bom, ele está... acho que dá para dizer que ele está em uma missão.""Ah, é? E agora? Ele não pretende se meter em mais confusão, pretende?"Gary sabia que isso era uma possibilidade, ao se lembrar do último incidente. Gary sentiu uma pontada de dor de cabeça ao lembrar que Edward tinha certeza de que aqueles gângsteres estavam traficando, mas havia partido para cima deles sem se importar com seus direitos — sem mandado e baseando-se apenas em um palpite para justificar a causa provável. Gary compreendia a situação, já que eles haviam testemunhado atividades ilegais — ou o que parecia ser ilegal —, mas, às vezes, existem procedimentos que precisam ser seguidos. Edward parecia esquecer isso de vez em quando; com esse pensamento em mente, Gary exclamou: "Você tem razão! Vou ficar de olho nele."Gary seguiu o caminho que seu parceiro havia feito pela delegacia. Ao virar a esquina, viu que Edward Pullins havia aberto a porta da sala do capitão. Ouviu um tom severo e ranzinza vindo de dentro da sala."O que você quer, Pullins?""Bem, senhor, tenho algo a relatar!""Sim, estou ouvindo.""Bom, interroguei Richard Dickenson. Ele é culpado de obstrução de justiça.""Ah! Como assim?" Aquilo realmente chamou a atenção de Gunther."Bem, o senhor já sabe que ele disse não ter conhecimento de nenhum voo, quando, na verdade, foi o avião dele que transportou o homem desaparecido. O funcionário do aeroporto relatou esse voo misterioso, pois havia apenas um passageiro. Ele embarcou naquele avião providenciado por Richard e foi para a América do Sul. É por isso que...""Quase nunca conseguimos falar com o Richard — ele está sempre na América do Sul.""Calma aí! Calma, um minuto. Ela identificou o passageiro como Joe... ou será que identificou?""Não, acho que não.""Viu só! Mesmo que fosse o homem desaparecido, você ainda não tem nada. Nada além de uma viagem só de ida, sem provas que indiquem o contrário, pelo menos na minha opinião. Foi uma viagem só de ida inesperada — ou talvez 'esperada' fosse uma maneira melhor de dizer. Detetive Pullins, você não é casado, né? Imaginei que não. O fato de o Richard estar constantemente na América do Sul me faz pensar que esse cara desaparecido, na verdade, não está desaparecido coisa nenhuma. Uma nova vida tropical na América do Sul parece algo esplêndido."Edward não gostou nada da recusa de Gunther em raciocinar e respondeu com perspicácia: "Se é assim, por que ele teve que esconder todas essas informações?""Olha, só porque ele não queria que você fuçasse nos assuntos dele, não significa que ele tenha cometido um crime. Talvez ele não queira que a esposa do cara saiba que foi algo deliberado. Você já pensou na possibilidade de eles estarem tendo um caso?""Ah, fala sério", respondeu Edward, num tom visivelmente perturbado."Estou falando sério, e não vejo motivos para pensar o contrário. Além disso, ir até a América do Sul seria inútil."Edward ficou ali parado, com um olhar furioso, mas aquilo não importava. O capitão levantou a voz: "É só isso, Pullins!"O coração de Edward apertou e ele foi tomado pela decepção. Ele se virou lentamente e saiu, batendo a porta atrás de si."Ei! Espera aí! O que houve?", perguntou Gary.Edward não disse nada enquanto caminhava até sua mesa. Os colegas observaram sua reação irritada, e Gary fez o mesmo. Ed ficou sentado pensando em sua situação, mas por pouco tempo, pois Gary o interrompeu."Acho que o capitão não comprou a ideia."Edward respondeu com sarcasmo: "Pois é, não comprou. Sei lá. Ele estava ansioso para me colocar nesse caso e, assim que encontro uma pista, ele a descarta." Edward continuou balançando a cabeça, incrédulo. "Caramba, vou ter que dizer àquela mulher que não vamos fazer porra nenhuma sobre o caso dela."Gary olhou para ele com empatia. "Quer saber, Ed? Deixa eu desligar meu computador, você faz a ligação e eu pago umas bebidas para você. Talvez no Taj Mahal, no centro; é onde a turma rica e famosa frequenta.""As bebidas lá são caras.""É só um gesto de agradecimento a um parceiro e amigo.""Tá bom", disse ele, pegando o telefone enquanto Gary ia desligar o sistema. Ele deixou o telefone tocar três vezes; finalmente, uma voz frágil atendeu."Alô!""Sra. Geshy, aqui é o detetive Pullins.""Sim!""Sinto muito informar, mas não há mais nada que possamos fazer neste momento."Os palavrões de Claira haviam se esgotado; ela apenas chorava. "Sra. Geshy, Sra. Geshy!", dizia Edward repetidamente, com um tom de voz atencioso. "Eu sei como isso é difícil para a senhora. Encontrei algumas pistas; no entanto, meu capitão está me segurando, então peço paciência. Prometo que vou chegar ao fundo disso, está bem? Essa é a minha promessa."Claira finalmente respondeu, depois de muito esforço para conter o choro. "Está bem, Sr. Pullins! A quais pistas o senhor se refere, afinal?""Bem, acredito que o avião do Richard realmente levava seu marido. Ele também mentiu, então preciso ir à América do Sul para descobrir a verdade. É aí que estou sendo impedido de agir no momento, mas aguarde um pouco que vou dar um jeito."Ele encerrou a ligação e juntou-se a Gary para sair do prédio. Entraram naquele mesmo Crown Vic e saíram em disparada. Gary dirigia rápido pelas ruas enquanto tentava animar Edward."Você vai gostar deste lugar: mulheres lindas e boa música. Também conheço o barman, então podemos beber o quanto quisermos. Eles têm as melhores asinhas de frango da cidade, e eu quero acabar com você no sinuca. Ganhar uns trocados seus no processo... vai ser divertido, pelo menos para mim." Gary deu um empurrãozinho em Ed: "Cara, anima aí."Gary não conseguiu arrancar um sorriso do parceiro, mas obteve uma resposta. "Primeiro de tudo, estou no meu melhor humor possível. Segundo, você não joga porra nenhuma de sinuca. Eu acabo com você — bola 8, bola 9, o que for! Você não é páreo para mim."Gary certamente discordava. "Espero que você banque o que fala, porque chegamos."Logo após estacionarem o Crown Victoria, os homens entraram no prédio. Assim que entraram, perceberam imediatamente o burburinho de adultos conversando. O ar estava pesado devido aos muitos fumantes, mas a temperatura era fresca graças ao potente sistema de climatização do local. Ed continuava de mau humor, mas não conseguia evitar um sorriso quando mulheres lindas sorriam para ele. Gary deu um tapinha nas costas de Ed e gritou: "Você vai adorar este lugar. Sei que percebeu as gatas te olhando. Relaxa, cara, e não se preocupe com o trabalho. É hora de curtir."Gary deu outro tapinha nas costas do colega, mas percebeu o olhar de Ed que dizia "não faça isso de novo". "Vamos lá! Vamos tomar umas", gritou Gary, guiando-os para uma área específica do bar. O bar estava lotado, mas, felizmente, dois bancos ficaram livres. Gary pegou o cardápio enquanto Ed buscava conforto no banco. Observar a multidão ao redor provavelmente era o que o deixava desconfortável, mas, de repente, sua atenção foi desviada.Um sorriso acompanhado por uma voz entusiasmada saudou os detetives de trás do balcão. "Ei!" A troca de olhares entre os três — cada um olhando para o outro, alternadamente — veio acompanhada de uma voz vibrante que continuou: "Gary! Faz tempo que não te vejo. Bom te ver de novo.""É, você também, Tee", respondeu Gary. "O que posso servir para os senhores?""Vou querer um martini com gelo", disse Gary, com a voz quase radiante. "E o seu amigo?""Ah, desculpe, Tee! Este é meu parceiro, Edward Pullins." Ed fez um gesto de cumprimento com a mão."Vou querer um chope Bud.""Vai querer algum aperitivo para acompanhar hoje à noite?"Edward não captou esse último comentário; em vez disso, tentava chamar a atenção de alguém. Ele achou que, talvez, o contato visual fizesse com que ela o notasse, assim como ele a havia notado.A voz de Gary se sobressaiu, e ficou evidente quando ele disse: "Eu aceitaria aquelas asinhas de frango apimentadas. Vinte unidades bastam, e talvez uns palitinhos de pão. Estou ficando com um pouco de fome; não sei quanto a você!" Gary olhou para Ed depois de dar alguns tapinhas em seu ombro. "Ed! Ed! Ah... vejo que você está de olho em alguma coisa."Nesse momento, Ed já havia conseguido a atenção dela, e ambos trocavam olhares. "Ei, cara, você quer comer alguma coisa?"Edward saiu de seu transe. "Sim, vou querer a salada da casa com molho italiano. Molho extra, por favor."Durante aquele breve instante, Gary observou Edward fazer o pedido. "Vejo que você já está curtindo. Você nem começou a socializar... ah, deixa eu corrigir isso: você já começou." Gary lançou um olhar impressionado ao seu parceiro e continuou a falar: "Quando eu der uma surra em você na sinuca, não deixe que isso abale sua autoestima."Edward bebeu metade de seu chope e olhou em volta à procura da mulher misteriosa, mas ela não estava em seu campo de visão imediato. Ele voltou a atenção para a frente e continuou bebendo.Os dois conversavam descontraidamente enquanto bebiam e aguardavam a comida. O bar começou a ficar mais agitado, e as pessoas começaram a se aglomerar. Eles notaram um grupo específico na outra ponta do bar, mas preferiram focar na comida que acabara de chegar. A aglomeração lá longe ficou mais evidente, mas a refeição manteve a atenção deles presa aos pratos. Não parecia haver violência iminente, embora fosse possível ouvir palavrões vindos da multidão. A comida estava excelente; por isso, os homens ignoraram a confusão e atacaram os pratos. Dava para perceber que a comida ali era boa, pois todos no bar pareciam ter um apetite voraz.Os detetives já estavam meio alegres por causa da bebida, e os pratos estavam praticamente vazios. Edward achou que tinha energia para socializar quando, de repente, avistou a mulher que o havia fascinado anteriormente. Ele foi rapidamente em direção à bela moça para convidá-la para dançar.Gary circulava pelo ambiente fazendo comentários obscenos para todas as mulheres que via. "Psiu... psiu... Ei, gata." As mulheres pareciam querer ignorar seus comentários. Percebendo isso, ele desistiu e voltou para seu lugar no balcão. As mulheres ali buscavam, sobretudo, homens ricos e famosos — ou, pelo menos, alguém que aparentasse ser bem-sucedido. Era difícil distinguir, pois todos faziam questão de gastar dinheiro; era por isso que o estabelecimento prosperava, assim como as mulheres que o frequentavam. As mais experientes sabiam diferenciar um homem rico de um comum — o que provavelmente explica por que Gary não conseguiu nenhuma companhia.Edward tinha um jeito envolvente e uma aura magnética; sua honestidade genuína atraía as mulheres facilmente. A mulher com quem ele dançou confirmou seu faro para conquistar, pois demonstrava estar se divertindo muito. O detetive estava solteiro e aceitou de bom grado o entusiasmo dela. Os homens se divertiram, continuando a dançar e a beber.CAPÍTULO TREZE: A EXPEDIÇÃONa pequena pista de pouso, o avião de Richard já havia aterrissado, e seus convidados foram conduzidos às suas acomodações. O local estava preparado como uma sala de reuniões, com cadeiras de bambu em estilo tropical. Eram móveis muito resistentes e confortáveis, permitindo que a equipe se reunisse ao redor da mesa sem problemas.Richard tomou a palavra: "Fico feliz que todos tenham conseguido vir. Temos pela frente uma tarefa difícil, porém gratificante. Todos já foram informados sobre suas atribuições. Como sabem, este não é o local exato onde trabalharemos. Conforme se lembram dos mapas, o destino fica a sudoeste daqui."Richard prosseguiu com seu discurso, dirigindo-se principalmente aos cinco agentes do FBI. Eles estavam sentados em grupo, logo à esquerda de Richard. O líder da equipe era Kyser Finley, um homem experiente e completo, que combatia o crime há anos. Ele comandava um grande número de agentes no escritório de Dallas, mas havia selecionado apenas os quatro que estavam ao seu lado.Wesley Zimmerman era o único que questionava absolutamente tudo o que se movia, era dito ou feito. Criado em uma família que se considerava da mais alta estirpe, ele desenvolveu um estilo agressivo, traço que, no entanto, era equilibrado por uma lealdade compreensiva ao seu comandante. Seu colega mais próximo era o agente Adam Newfield; este raramente falava, mas era extraordinariamente observador. A amizade com Wesley ajudou Adam a aprimorar suas habilidades de confronto físico.Sua relação com Roy Beavers não era das melhores, limitando-se ao estritamente necessário. A atitude amorosa e gentil de Roy não era a forma adequada de lidar com a criminalidade — pelo menos na visão de Wesley. Pamela Slaughter — mulher, com menor vigor físico, mas igualmente eficiente — era a peça-chave que completava aquele grupo resiliente. Ela se dava bem com o restante da equipe, apesar de alguns comentários infelizes feitos por eles. Ainda assim, ela não se deixava abalar, mostrando ser uma mulher durona e bem-educada.Todos eram leais a Kyser, e com razão, pois ele era um homem justo.Brutus Salapore ouvia Richard apenas vagamente, concentrando-se mais em revisar suas anotações. Extremamente meticuloso, o Sr. Salapore estava sempre trabalhando em algo, mesmo quando estava apenas sentado. Não era exagero; se não estava comendo, cagando ou dormindo, ele estava lendo, escrevendo ou revisando. Esses fatos faziam dele a pessoa mais preparada para sair a campo e realizar o trabalho.A equipe do FBI não tinha outra função além de patrulhar a área. Richard entrara em pânico da última vez, por isso sentia-se mais seguro tendo alguns atiradores licenciados em sua equipe."É por isso que preciso de você... ah, hmm...!" Richard grunhiu novamente para interromper a despedida apaixonada de Susie e Andrew. "Como eu ia dizendo, Susie! Precisamos de você; portanto, você e seu cônjuge devem manter seus assuntos íntimos em particular, e dentro de casa. Vocês ficarão responsáveis ​​pelo transporte de ida e volta ao local, além de carregar tudo o que precisarmos."Ele fez uma pausa e falou novamente, em tom incisivo: "Brutus! Você não é o líder aqui? Mantenha os hormônios deles sob controle, ou eles certamente não servirão para nada."A expressão de Brutus demonstrou sua concordância."Ah! Jerry Kratz, certo?" Ele confirmou com um aceno, e Richard prosseguiu: "Em breve, precisaremos transportar equipamentos pesados ​​para cá. Sua primeira tarefa será conduzir um barco até o local e ancorá-lo. A embarcação que providenciei pode servir como unidade médica de emergência. Meu velho e querido amigo aqui, Doutor Julian Akbar, também é especialista em idiomas e medicina — o doutor é um homem de muitos talentos."Julian sorriu e abriu os braços, convidando à sua apresentação."Você disse que ele é especialista em idiomas e medicina. Em que mais ele é especialista?" perguntou o agente Zimmerman.Julian permaneceu em silêncio, mas continuou sorridente enquanto deixava a honra da apresentação para Richard."Ele também estuda antiguidades e povos indígenas do Hemisfério Ocidental."Wesley pareceu confuso e olhou para Adam e Kyser antes de responder: "Espero que isso não seja algum tipo de excursão escolar de ciências, porque eu odiava ciências."Richard rapidamente dissipou a confusão dele. "Ah, pode acreditar! Estamos aqui para preparar a construção de uma instalação de importação e exportação de última geração. Na verdade, um estaleiro e complexo de manutenção magnífico. Todos vocês serão proprietários das primeiras ações. Pensem só em todas as pessoas que deixaram passar a oportunidade da Microsoft e pensem naquelas poucas que detinham as primeiras ações. Elas são bilionárias, para falar sem rodeios. O dinheiro de vocês poderá se equiparar ao meu — bem, não exatamente ao meu, mas talvez chegar perto. No entanto, até lá, vocês precisam me ajudar."Depois daquela falação toda de Richard, ele quase convenceu a todos, mas Wesley sentiu necessidade de questionar o que fora dito. "Entendo a questão do seu dinheiro e de todo o lucro que você pretende obter, mas tenho uma pergunta. Por que você chamou... ou melhor, perdão. O que o levou a sentir que precisava do FBI ou de um professor de antiguidades?""Era isso mesmo que eu havia planejado, mas... essa é outra história. O fato é que preciso de um relatório sobre a viabilidade de construção na área, para ser entregue aos investidores. O professor alertou para a possibilidade de...""Esta área abriga tribos territoriais. É possível que não desistam deste território não oficial sem lutar."Wesley, por algum motivo, permaneceu intrigado. "O que te levou a perguntar se havia tribos na área? Você viu alguma?"Richard pareceu surpreso e respondeu negativamente. "Bem, Wesley, eu fiz minha pesquisa. Sei que tribos são comuns em florestas tropicais por todo o mundo. Sei também que elas têm algumas crenças estranhas, que podem até incluir canibalismo. Só quero ter alguém na minha equipe em quem eu possa confiar caso nos deparemos com algum desses selvagens."Seus comentários haviam saciado a curiosidade de Wesley, mas apenas por um instante, pois seu apetite era enorme.Klinton Westfield era o outro membro da equipe que permaneceu em silêncio. Era um homem forte e um bom amigo de Brutus. Os muitos anos que trabalharam juntos ajudaram a construir esse forte laço.Adam caminhou em direção aos alojamentos, para onde quase toda a tripulação havia ido. Kyser conversava com Richard, mas ninguém conseguia ouvir a conversa, pois estavam a certa distância.Pam e Roy disputavam uma partida de xadrez no tabuleiro decorativo da sala de espera central, feito de pedra e que homenageava a antiga civilização asteca. Os bispos, reis, rainhas e as outras peças eram verdadeiras esculturas. Foi Pamela quem decidiu dar um uso melhor àquela peça, indo além de sua função meramente decorativa.Foi preciso alguma insistência para convencer Roy a jogar. Depois de tentar dissuadi-la, Roy acabou cedendo. Ela jogava muito bem — o que ficou evidente quando quase deu xeque-mate nele —, mas Roy também estava preocupado em mexer naquela peça magnífica e não conseguia se concentrar de verdade. O consumo excessivo de álcool não melhorava seu jogo, mas também não o piorava muito; ele estava acostumado às doses elevadas, já que o álcool quase o havia arruinado.Pam gritou do outro lado da sala: "Ei, Adam! Quer ser o próximo a levar uma surra minha, como o Sr. Beavers aqui?""Não, obrigado!"Adam estava mais interessado em falar com Kyser. No entanto, já estava ficando tarde, e todos se dirigiam aos seus quartos. Brutus passara todo aquele tempo analisando a situação, mas agora estava exausto de tanto olhar para o laptop.Wesley seguiu para os alojamentos completamente embriagado, assim como Roy e alguns outros membros da tripulação.A noite havia dominado o dia por completo, e as estrelas já não estavam ocultas à visão. Os sons da natureza surgiam aos poucos, distinguindo-se uns dos outros ao ecoarem pela floresta. Se alguém percorresse a floresta naquele momento, poderia achar o ambiente fascinante — a menos que fosse um nativo da região.Os povos indígenas tinham um vínculo com a floresta, assim como a flora e a fauna. Esse vínculo era tão forte que a presença de estranhos era imediatamente percebida pelos habitantes da floresta. Isso era um fato para os antigos, pois eles acreditavam que cada planta e animal na Terra fora concebido para fluir em harmonia com as leis da natureza. Acreditavam também que a natureza se manifestava na forma de espíritos — pura energia e consciência, desprovidas de forma física. Todo ser vivo possuía espírito: plantas, animais e até mesmo os humanos, que também são animais.Um espírito de boas intenções conseguia sentir a presença de um espírito de más intenções. A tripulação foi detectada instantaneamente, sobretudo porque suas intenções não eram exatamente marcadas pela santidade. Eles queriam destruir a vida para obter ganhos pessoais, o que constituía uma blasfêmia direta contra a própria vida. Quem fosse capaz de tamanha depredação não poderia compartilhar as crenças dos antigos. Estes sabiam, com certeza absoluta, que a Terra estava viva e representava a mãe da vida.Os membros atuais da tribo já não mantinham contato com o conhecimento de seus ancestrais há muito tempo. A maior parte do que sabiam havia sido transmitida oralmente. Embora algumas cidades de seus antepassados ​​tivessem resistido à passagem dos séculos, eles não tinham acesso a elas. Não que algum membro da tribo fosse capaz de ler registros daquela época, mas a maioria desses documentos havia sido destruída de qualquer maneira. Esse fato, por si só, fez com que suas crenças se tornassem distorcidas e incompletas. No entanto, os fundamentos de suas crenças — como a espiritualidade, a magia e a natureza dotada de atributos divinos — permaneceram intactos.Acredita-se que esse povo tenha feito da floresta seu lar permanente quando os europeus começaram a colonizar o Ocidente. Havia até textos antigos indicando que a chegada daqueles europeus marcaria uma era de maldição para o seu povo. Após gerações, é compreensível que se percam traços de civilização. Contudo, parecia que eles haviam optado pelo modo de vida que seus ancestrais teriam desejado: viver na terra e fluir em harmonia com a natureza.Foi isso que fizeram durante milhares de anos, com suas cidades imaculadas de ouro e pedra trabalhada, robustas como um continente e, por isso, ainda de pé até hoje. As cidades também apresentavam alinhamentos que se harmonizavam de forma triunfante com as estrelas.A maldição nos foi imposta para que lembrássemos de nossas origens. Antigamente, os reinos tornavam-se grandiosos — pois haviam se civilizado e acumulado uma vasta cultura —, mas acabavam esquecendo de onde vieram. Assim, a maldição os reconduziria ao estado original, para que, numa futura oportunidade em que o mundo estivesse sob sua liderança, eles soubessem valorizá-la.A maldição saiu de controle. As terras, das quais se dependia para o desenvolvimento de um povo civilizado, viram-se ameaçadas por uma epidemia mundial. Assim, os espíritos foram invocados e, por acaso, todos aqueles que haviam pisado naquele solo ancestral estavam agora adormecidos. Ouviam-se cânticos de grande louvor. Eram vozes altas, pois o mal estava próximo.Chegara o momento; nas vastidões profundas da floresta prestes a ser explorada, espreitavam olhos de animais de toda espécie — embora fosse impossível determinar quantos eram ou a que tipos pertenciam. Também era impossível saber exatamente quantos daqueles olhos pertenciam aos descendentes daqueles ancestrais, que fugiam......desconhecido. Diz-se que existem muitos grupos que falam línguas desconhecidas para a civilização moderna. No entanto, essas línguas podem estar relacionadas a outras conhecidas por pessoas de fora, ou a dialetos semelhantes; e, embora houvesse um professor especializado em linguística, suas habilidades não garantiam que seus companheiros conseguiriam se comunicar com as pessoas que encontrassem.Nas proximidades do local do projeto, havia algumas daquelas pessoas cuja língua era desconhecida para os estranhos. Elas dançavam ao redor de árvores enormes e pareciam tentar se comunicar com elas, pois acreditavam que a árvore é o ser vivo mais sábio da Terra. Tudo no ciclo de vida de uma árvore pode ser traduzido em experiências da vida humana. Acreditavam também que era possível falar com a árvore telepaticamente. Por meio de certos sons e vibrações produzidos com a boca e instrumentos, a árvore era invocada para oferecer proteção.Era isso o que estava acontecendo, e a vibração tornou-se muito intensa, penetrando no estado de sonho. Todos que pisavam naquele solo tinham um clarão imenso durante a fase REM do sono, e toda a equipe foi afetada, alguns mais gravemente do que outros. A imagem de Joe invadiu os pesadelos de Richard, surgindo também em flashes intensos.A noite prosseguiu com um espírito feroz, enquanto os elementos ganhavam força e semeavam o terror. Acreditava-se que as forças da natureza naquela parte do mundo eram espíritos, e que esses espíritos podiam ser invocados. Isso foi retratado em muitas culturas e transmitido de diversas formas e maneiras singulares. Até mesmo culturas que não suspeitam disso carregam essas ideias, inseridas secretamente para condicionar as crianças. Um exemplo é a super-heroína dos quadrinhos X-Men, "Tempestade" (Storm). Sua capacidade de invocar a fúria da natureza e direcioná-la para sua própria defesa comprova exatamente isso. O corajoso, amado e peculiar Tarzan — que superou as adversidades e sobreviveu após ser criado por animais, chegando a alcançar uma essência e uma unidade espiritual com a natureza desconhecidas pelo homem moderno — é outro exemplo desse tipo.Ainda assim, era preciso ter o coração puro e sincero para pisar naquele território ancestral.O sol rompia o horizonte a leste, e o brilho de seus raios já se deixava ver tenuemente. O ar estava pesado e úmido, parecendo abraçar quem quer que fosse com força. O sol, implacável, começou a castigar a pele, picando e ardendo como uma lâmina afiada fazendo um corte rente.O primeiro a enfrentar aquelas condições extenuantes foi Brutus Salapore. Sem hesitar, ele já estava focado na tarefa planejada para o dia. De qualquer forma, precisavam acordar cedo. Ele iria de barco com Jerry e Klinton. A primeira missão era examinar a margem onde o rio se dividia, seguindo para oeste e para o sul. Desembarcar era o segundo objetivo.Brutus precisava apresentar um relatório aos investidores sobre a viabilidade de construir tal estrutura. Para isso, teria de percorrer a selva e decidir como executar o projeto idealizado. Ele saiu de seus aposentos para chamar Jerry e Klinton.Jerry já estava de pé, fumando um cigarro Salem enquanto tomava café preto às pressas. Ele estava acostumado a acordar cedo na fazenda da família, na Louisiana — foi lá que desenvolveu seu talento para a navegação; percorrer o Rio Mississippi e o Lago Bruin aprimorou suas habilidades."Acordar cedo faz o homem saudável e sábio! Bom dia para você, Brutus."Jerry sorria com entusiasmo o tempo todo, mas Brutus passou por ele, respondendo com cortesia: "É, Jerry. Temos muito trabalho pela frente."Jerry o acompanhou para buscar o último membro da equipe. Salapore explicou os detalhes a Jerry enquanto caminhavam para o quarto de Klinton. Pararam brevemente antes de bater à porta, e Jerry comentou: "Esse ar me lembra a minha terra. A maneira como ele gruda na gente parece um castigo cruel. Até esses malditos mosquitos são tão ferozes quanto os de lá."Ele acabara de esmagar um deles quando admitiu: "Acho que os daqui levam a melhor."Brutus bateu à porta enquanto respondia calmamente: "É, eles parecem atacar com ferocidade, sacrificando a vida como kamikazes só para alimentar a prole, e morrendo sem saber que os filhotes vão crescer... uma pena."Bateram com mais força agora, ambos contribuindo para o barulho. "Klinton!" Logo atrás da divisória de madeira, Klinton estava deitado, aparentemente sem vida, mas a algazarra feita por seus companheiros acabou por despertá-lo aos poucos. Precisava abrir os olhos; limpou a secreção que os cobria, pois ela tornava sua visão temporariamente inútil. No entanto, sua audição funcionava perfeitamente, já que o barulho das batidas na porta era impossível de ignorar. Klinton finalmente saiu da cama para vestir sua roupa de trabalho. Não era exatamente um uniforme, mas peças com as quais se sentia confortável.Abriu a porta sem pressa, com um ar sonolento. Parecia irritado."Hora de trabalhar! Vamos, levanta! Klinton! Klinton!" Jerry continuou, entusiasmado."Já estou de pé, droga! Só porque vocês são viciados em trabalho, não quer dizer que eu tenha que ser também. Merda! Eu só faço o meu serviço e caio fora", disse Klinton com rispidez. "Aposto que não tiveram problema nenhum para acordar o velho Sr. Outback! Acertei, Brut? Claro que não!"Klinton falou de forma calma e direta. Com uma expressão sombria, acrescentou: "Isso porque você está acostumado a ser acordado por um pássaro macho imundo para lembrar das suas tarefas, de alimentar seus porcos e de tirar leite da fêmea do seu touro. Eu não tive o luxo de crescer velejando e construindo motores com meu pai e meus irmãos. O meu pai abandonou a família, Brut! Qual é o plano?""Quer saber, Klinton? Você é louco", respondeu Jerry.Brutus tomou nota enquanto continuava a guiá-los até o destino. "Escutem bem, senhores! Há uma ilha, situada praticamente na linha do Equador, a sudeste daqui. O Capitão Briscoe vai nos levar de helicóptero. É lá que vamos nos encontrar com o navio de pesquisa e, claro, embarcar e zarpar." Ele segurou o ombro de Jerry e reiterou: "É aqui que preciso de você. Veja, você tem que nos levar pelo Amazonas, navegando cerca de cento e cinquenta milhas na direção sudoeste a partir da nossa posição atual. É aí que chegamos à curva onde o rio se bifurca, e também ao ponto onde vamos ancorar. Acho que a mais ou menos meia milha da margem. Talvez seja melhor usar barcos menores para examinar a costa dessa forma. Uma área de cinco milhas quadradas deve bastar, então dividir o grupo pode acelerar os resultados."Os homens observavam Brutus enquanto ele falava sem parar, mal notando a intervenção de Jerry. "Bom, Brutus, tem certeza de que podemos nos dividir? Quer dizer, as duas equipes saberão exatamente o que estamos procurando? Somos só nós três. Ele é o topógrafo", disse, apontando rapidamente e apressando-se para expor seu ponto de vista. "Você é o maldito matemático, ou sei lá o quê. O engenheiro, perdão! Eu sou apenas um capitão de barco."Klinton segurou o ombro de Jerry e respondeu: "E uma muito boa, por sinal!"Brutus parecia concordar; ele acalmou os homens com sua voz suave e grave. "Parece que estamos com falta de gente. Fico imaginando se o Capitão Briscoe tem alguma qualificação para nos ajudar."Klinton respondeu: "Brutus, você e eu podemos ir em barcos separados. Eu sei bem o que você está procurando. Posso não ser engenheiro civil, mas trabalhar com você por oito anos aprimorou minhas habilidades."Brutus respondeu com a mesma calma e tranquilidade: "Acho que você tem razão. Eu te ensinei bem..."Klinton interrompeu com naturalidade: "Com certeza! Tenho apenas um diploma de nível técnico em topografia e cartografia, mas aprendi muito trabalhando com você.""O que você esperava? Tenho o dom de transmitir meus talentos aos meus subordinados. É quase como um doutorado. Talvez, quando eu me aposentar, eu..."Jerry ficou quieto por um momento, mas não conseguiu evitar a interrupção: "Tudo muito bonito, 'Professor e Aluno', mas eu sou o único navegador. O Briscoe sabe pilotar barcos?"Klinton soltou de imediato: "Eu realmente não sei quem é esse tal de Briscoe."Brutus sabia e explicou aos seus homens: "Acho que ele tem experiência suficiente. Tenho quase certeza de que não seria problema para ele pilotar uma lancha pequena. Na verdade, pelo que ouvi dizer, ele é muito habilidoso; talvez até trabalhasse como matador de aluguel para o Richard.""Você acha?""Estou brincando; ele é apenas um bom faz-tudo."O líder do grupo explicou o plano, especialmente para Klinton. Ele precisava ter certeza de que Klinton analisaria as margens exatamente como devia. Tudo isso foi acertado, e Brutus então informou os detalhes da operação."Certo, Klinton! Você e o Jerry ficam com a margem leste, seguindo para o sul. Briscoe e eu ficaremos com a margem norte, seguindo para o oeste. Podemos ter de percorrer até cinco milhas rio abaixo." Brutus usou seu rádio bidirecional para avisar Briscoe de que estavam prontos. Ele também queria explicar que precisavam da ajuda dele. Briscoe concordou; afinal, estava sendo bem pago por Richard.Os três homens aguardavam Briscoe junto ao helicóptero. Naquele momento, Briscoe estava conversando com Richard enquanto Brutus e sua equipe esperavam."Eles precisam da sua ajuda", declarou Richard, falando com entusiasmo. "Na verdade, preciso organizar o restante da equipe. Pode ir na frente. Brutus sabe exatamente o que fazer. Vou buscar Andrew e Susie; apenas ajude-os no que precisarem. Quando sua equipe terminar, nós já deveremos estar lá."Briscoe saiu correndo ao encontro dos homens que o esperavam, enquanto Richard seguia na direção oposta para preparar sua própria equipe. Ele os reuniu rapidamente, instruindo-os a se encontrarem no campo de pouso.Já no local, Jerry comentou: "Acho que aquele ali é o tal Briscoe". Eles tentaram enxergar, da melhor maneira possível contra o sol nascente da América do Sul, o homem que se aproximava. A umidade era algo que se sentia na própria pele, e o disco solar, agora acima do horizonte, deixava claro que um dia de calor abrasador estava por vir. Apesar do horário matutino, a equipe precisava proteger os olhos, pois Briscoe vinha do oeste.Ele se aproximou rapidamente, tendo a torre do velho logo atrás de si — o próprio velho, aliás, observava a cena."Sou o Briscoe", disse ele de forma direta, estendendo a mão.Brutus apertou a mão dele e respondeu: "Brutus! Esta é a minha equipe: Jerry e Klinton".Eles se encararam fixamente até que Jerry interrompeu aquele momento de tensão. "Certo, senhores! Estamos prontos? Espero que você seja um bom piloto."Brutus e Briscoe afastaram-se da postura aparentemente irritadiça de Jerry."Sou, sim. Espero que você seja tão bom quanto no que quer que você faça.""O melhor", disse Jerry, mas antes que pudesse acrescentar algo mais..."Concentrem-se, homens. Temos trabalho a fazer", respondeu Brutus.Klinton não disse nada; só queria que o trabalho terminasse logo. Ele até esqueceu qual era o valor do seu pagamento. Jerry olhou para Klinton e brincou: "Por que você não diz nada, garoto? Está ficando com medo?"Houve um momento de diversão, mas logo em seguida as palavras jorraram dos lábios de Klinton: "Eu avisei. Só quero fazer o meu trabalho. Não preciso de toda essa conversa fiada. Então, se me dão licença, preciso me concentrar no que eu estava pensando.""Uau... O cara é...""Vamos lá, pessoal. Precisamos levar este helicóptero em direção à ilha."Eles obedeceram às ordens e decolaram."Eu disse a vocês, senhores, que precisávamos nos apressar, pois levaríamos várias horas para chegar ao local. Esse tempo não inclui o trabalho que teremos de fazer quando chegarmos lá", exclamou Brutus.Briscoe pilotava o helicóptero sem ser incomodado, mas Klinton respondeu ao lembrete anterior de Brutus: "Beleza, Brut! Estamos a caminho. Não precisa ficar bufando e reclamando."Ao ouvir aquilo, Jerry não pôde deixar de dar sua opinião: "É isso aí, Brutus! Somos os melhores que você tem. Porra, cara, somos tudo o que você tem! Vamos dar conta do recado!" Ele deu um tapinha no ombro de Brutus."Bom, espero que sim, porque paga muito bem.""Ah, é...", disse Jerry, arrastando as palavras com um sotaque caipira grave e sonolento.Klinton comentou: "Não estou nem aí para o dinheiro! Só quero terminar o serviço e voltar para casa. Infelizmente, trabalho com vocês, malucos. Jerry! Não sei por que você está tão animado, já que o Brutus vai te pagar o que ele quiser. Porra, nós trabalhamos para ele."Jerry não gostou dos comentários anteriores de Klinton. Com um ar de decepção, ele respondeu: "Brutus! Ainda não discutimos o pagamento. Sei que temos salário fixo, mas este não é um trabalho comum."Brutus estava visivelmente irritado, mas não olhou para Jerry e respondeu aos comentários dele com naturalidade. "Este realmente não é o momento para discutir salários. Precisamos nos concentrar no trabalho que temos em mãos. Mas, para tranquilizá-los, haverá grandes bônus como incentivo por um trabalho bem feito."Jerry e Klinton olharam para Brutus como se ele tivesse dito algo grosseiro. Klinton não estava nem aí — ele já estava acostumado com Brutus e sua insolência. Por isso, decidiu apenas focar em terminar o serviço.Klinton olhou pela janela do helicóptero e sentiu profundamente que não pertencia àquele lugar; tinha certeza de que, na verdade, nem queria estar ali. "Fui coagido!", pensou.Jerry reagiu de forma semelhante, mas expressou seus pensamentos em voz alta. "É esse o tipo de resposta que você dá? Estou aqui fora... tipo um cruzamento de Crocodile Dundee com Tarzan — uma espécie de híbrido, já que também piloto barcos —, e recebo uma resposta dessas sobre o meu pagamento? Achei que fôssemos melhores do que isso! Nem tivemos chance de falar sobre dinheiro. Sem contar que você nos chamou de madrugada e praticamente exigiu nossa presença, insinuando que nossos empregos estariam em risco se não viéssemos. Ah, vou te dar um 'bom trabalho', sim, mas antes eu e você precisamos conversar."Um silêncio pairou por alguns instantes antes de Jerry continuar seu desabafo. Olhando para Klinton, ele disse: "Você acredita nisso...""Senta a bunda aí", declarou Klinton, perdendo a paciência com a barulheira.O Capitão Briscoe olhou para trás, para Jerry, e sentiu um pouco de compaixão. Sua empatia vinha do fato de que Jerry queria uma remuneração justa — e quem poderia discordar disso? Enquanto descia com o helicóptero, Briscoe decidiu comentar apenas que pretendia pousar.O pouso e o trajeto seguinte transcorreram sem problemas, levando-os a um navio científico bem equipado que deixou Jerry extremamente empolgado. Sem ajudar os outros a conferir os suprimentos necessários, ele rapidamente se familiarizou com o leme. Explorar o navio inteiro era uma emoção constante para ele. Agora, ele entendia para quem estava trabalhando. Financiar uma embarcação daquele porte provava que Richard era, de fato, um homem de posses. Ele refletiu profundamente: "Preciso falar com o Brutus! Uma quantia dessas..." Jerry foi imediatamente procurar Brutus para discutir melhor a questão de seu salário.Brutus não estava longe; encontrava-se na outra extremidade da embarcação, preparando lunetas e equipamentos de medição para observar a paisagem. O barco era grande o suficiente para transportar três embarcações de emergência: duas motorizadas e uma de madeira, movida a remo. Essa última ficava pendurada na popa, enquanto as lanchas a motor estavam suspensas em lados opostos."Com licença... Brutus! Podemos conversar?""Claro! O que está lhe tirando o sono?""Bom, imagino que você saiba quais são as minhas preocupações. Estou longe de casa e não conheço os perigos que este trabalho pode envolver. Veja só, cara! Estamos muito longe de tudo! Você enxerga algo além do simples dever?"Jerry continuou falando sem parar, mal dando chance para o chefe se manifestar. Por fim, Brutus conseguiu tranquilizá-lo ao informar o valor do pagamento. Não era exatamente o que poderia ou deveria ter sido, mas Jerry não estava muito a par das tendências atuais do mercado de trabalho. Ainda assim, era mais do que ele estava acostumado a receber. Ele estava ansioso para zarpar, e foi exatamente isso que a tripulação fez.CAPÍTULO QUATORZE: NOVAS EVIDÊNCIASNa delegacia, Edward e Gary estavam sentados em suas respectivas mesas, acreditando estarem sozinhos. Todos estavam de serviço, almoçando ou em algum outro lugar nas dependências da delegacia — exceto Rick Powers. Ele caminhava pelo corredor em direção aos dois.Gary olhou para Edward e perguntou: "Aonde você vai? Vou com você."Edward lançou-lhe um olhar severo. "Shhh!!!" Ele colocou o dedo indicador bem no centro dos lábios e apontou para o teto. Aproximou-se o máximo possível do Sr. Stevens e disse: "Não quero que isso vaze."Ao dobrar a esquina, aquela frase fez Rick Powers parar. Rick queria saber o que não deveria ser do conhecimento de ninguém. Ele se encostou na parede e tentou aguçar a audição.Edward sussurrou para Gary mais uma vez: "Vou sair antes do meio-dia. Tenho um pressentimento de que, mesmo que Richard não tenha matado ninguém, ele sabe muito sobre o assunto."Edward aproximou-se ainda mais para sussurrar novamente, baixando ainda mais o tom de voz. Rick esforçou-se para ouvir mais, mas os sussurros tornaram-se vagos logo após os primeiros comentários. Rick mudou de ideia sobre entrar na sala onde estavam Edward e Gary, especialmente depois de ouvir parte do plano. Ele deu meia-volta e seguiu pelo caminho por onde viera, ansioso para chegar à sala de George Gunther.Invadir a sala do capitão nunca era uma boa ideia, mas ele estava eufórico com a notícia bombástica. Gunther levantou os olhos, surpreso, e declarou sem rodeios: "Bom, é bom que isso seja importante." Gunther mantinha a mão sobre o fone do telefone. Estava claro que sua paciência com o subordinado estava se esgotando.Rick entrou desajeitadamente na sala do capitão, ofegante. "Capitão, capitão", disse Rick, empolgado. "Ouvi o Edward falando algo sobre o Richard.""Pois bem! O que ele disse?""Ele falou algo sobre o Richard ter matado alguém, e que não queria que ninguém soubesse."Gunther pareceu intrigado com a informação que acabara de receber. "Pode ir, Powers."Gunther ficou imaginando o que Edward não havia relatado. "Assassinato... isso é um absurdo!" Gunther pensou consigo mesmo: e se Edward realmente tivesse algo em mãos?O Capitão Gunther avisou à pessoa com quem falava que retornaria a ligação mais tarde e, em seguida, contatou um superior na delegacia. Os dois elaboraram um plano em conjunto. O primeiro passo foi chamar Edward à sua sala. Ele acionou o interfone da mesa de Edward: "Preciso falar com você, Sr. Pullins."Edward olhou para Gary; ambos estavam intrigados com a convocação repentina. Edward dirigiu-se à sala de Gunther sentindo aquele frio na barriga típico de nervosismo. Caminhou hesitante pelo corredor, imaginando o que Gunther poderia querer com ele. Abriu a porta com cautela, como se o arrependimento lhe desse forças para tal.Assim que entrou totalmente na sala de Gunther, foi confrontado por uma voz pesada e carregada de tensão. "Chamei você para comunicar uma mudança."Edward ficou perplexo, mas respondeu com calma controlada: "Que mudança?""Vou tirar você do caso.""O quê?! Que diabos está acontecendo?" A raiva de Edward mal podia ser contida. "Por que estou sendo... que motivo você tem para me tirar disso?" Edward gaguejou um pouco, mas continuou argumentando freneticamente em sua defesa. "O que eu fiz? Não estou entendendo.""Não cabe a você entender. Simplesmente decidi fazer uma mudança. Acredito que outra pessoa se encaixaria melhor neste caso. Além disso, você não avançou nada nas investigações até agora, não é?"Edward rosnou e disparou: "Não! Não avancei, mas quem diabos seria melhor do que eu?"Gunther ignorou os últimos comentários de Edward e perguntou: "Tem certeza de que não há mais nada a relatar sobre este caso?""Não, não há!""Hmm... Bem, para responder à sua pergunta: farei um comunicado quando achar oportuno. Pode ir."Edward ficou atônito, o que atrasou sua saída da sala do capitão. Ao sair, fez questão de bater a porta com força. A raiva de Edward transbordou. Antes mesmo de conseguir voltar à sua mesa, percebeu outros policiais mexendo em seus arquivos. Gary observava a cena, boquiaberto. "Ei, Edward, cara! Perguntei a eles o que estavam fazendo, mas continuaram como se eu nem estivesse aqui."Edward observava Gary pelo canto do olho enquanto o ouvia, mas a maior parte de sua atenção estava voltada para os policiais que estavam abusando da situação. "Que diabos vocês estão fazendo, Mike! Pete! O que está acontecendo?"Detective Mike Sasson looked up and responded as if he owed his colleague nothing. "We are seizing all records for the Dickenson case, by order of the captain."Gary and Edward stood there shocked, but it didn't stop Edward from declaring rudely, "This is bullshit!" Then he stormed out the door.The humidity was far from letting up, for it had just begun. The crew who shuttled the science vessel experienced this from front row seats. Jerry stood tall in front of the boat where he steered and enjoyed the view. Briscoe and Klinton sat in the quarters and played cards, while Brutus walked alongside the boat railing checking out different views. They were a ways from their destination, so any view now was just recreational.The helicopter crew had already caught up with the departed science vessel in no time. Susie Kemp's aircraft lead the way, with Richard and her husband close behind. Their flights were going smoothly, and besides the choppers' ruckus, you could hear small talk. Richard didn't have much to say, because he dealt primarily with Brutus Salapore. He in turn was the point of this entire trip. It so happened that he needed extra pilots for the extra men Brutus would need. The premonition of the professor's skills coming in handy was the reason he felt the need for this man's services. The FBI crew was considered a buffer for his protection, but uncertainty set in fiercely and was the cause for his dense thoughts.What was about to occur was truly the unknown, and that fact heightened Richard's every sensation. Nevertheless, Richard did not restrict his pilots from proceeding. In his mind, all he needed was for Brutus to write the report, even if it was exaggerated. That was the driving force for his eagerness, and nothing seemed to be able to stop him. At least that is what he believed, especially since he could pay whatever price was necessary to get what he needed."So, Andrew! That is your name, right?""Yes it is," responded the pilot sarcastically."I'm sorry, I'm not good with names. So I see your wife is a pretty good pilot. She's really flying that baby."He noticed her because she led the way to a sharp left turn. They were just about ready to land. It wasn't that short of a ride, and they were all ready to stretch out their stiffness.One of the FBI agents blurted, "Damn, we're not there yet?"Kyser Finley rode in the chopper with Andrew and Richard and heard the comments his fellow mates made clearly. It wasn't a problem until the same agent continued to blabber. "You know what, this is extreme! If we weren't making what you are paying us Mr. Rich guy, there's no way I would be on this trip, not for a penny less."Kyser Finley immediately responded to the last comment. "Now that's not appropriate to say."Richard said, "Oh no, that's OK! I like a man that is concerned about his money. That reminds me of me. You see how I'm able to pay all of you? Sure the hell is not by not worrying about my money. You see, this is why I'm out here. This project will leave me strikingly rich, allow me to reach another level in which you all become peasants. My goal is to be number one in the funds department."Richard sat back indulging in the silence his listeners now bathed him in. Then he continued, "You know I do a little flying myself. Maybe we need to take three choppers so we can race.""Just make sure I'm not a passenger!" Klinton replied meaningfully."It's just about time to land," Andrew indicated to Richard. Susie made that apparent as her helicopter dipped severely, and Andrew followed her same procedure. It was difficult to land because the jungle was very thick and would not cooperate. To find clearance was difficult because they didn't arrive at the already prepared landing field. Susie had drifted off course a little, but even so, the previously prepared area would be difficult to land in due to the thick trees. Andrew followed his wife's trajectory to a tee, until receiving a radio transmission."What is it baby?""This spot ahead is clear of trees, like a little patch, and it seems to be flat ground. I'm going to land here.""Roger that!"They landed the choppers on soft ground, and had to walk about 200 meters to the camp that was built by the late Gary Russy.Drifting along in the beautifully equipped boat, Jerry shouted, "There's land just ahead of us."Brutus approached Jerry to give him instructions. "Jerry! Sail the boat right along there."He pointed exactly where he wanted and Jerry comprehended quite well. The next step was to drop anchor, for this was a good spot. A continuous scrape and rattle sounded loudly from beneath the boat, and before you knew it the boat was idle. The men quickly released the two motorboats."You think we should release the reserve boat?" Klinton asked.Jerry disse que não, mas Klinton já havia começado a desamarrar o barco. Klinton até parou, mas esqueceu de amarrar o barco novamente com firmeza, e o inevitável aconteceu: o barco de segurança começou a se afastar à deriva. Por enquanto, parecia seguro, então os homens não deram importância. Eles estavam mais interessados ​​em carregar as lanchas com o equipamento necessário. Todos os suprimentos foram embarcados, e chegara a hora de examinar o terreno e mapear as margens.Briscoe e Brutus ligaram o motor assim que terminaram de carregar tudo. Eles navegavam afastando-se do sol, pois passava um pouco do meio-dia e seguiam para o oeste. Jerry e Klinton rumaram para o sul. A embarcação científica apontava diretamente para a terra que, por si só, parecia um indicador, pois era ali que o rio se dividia em dois. Esse foi o principal motivo pelo qual uma equipe seguiu para o oeste e a outra para o sul.O barco de Brutus deslizava suavemente, enquanto Jerry e Klinton mal haviam conseguido se organizar. Brutus olhou para trás, para o que conseguia ver da embarcação científica. "Estão saindo agora. Por que são tão malditos de lentos? Parece que soltaram o barco de emergência. Não sei por quê... Eles não precisam daquela droga de barco."Ele parecia irritado, e isso contagiou Briscoe. "Como assim, Brutus? Eles não deviam ter feito isso?""Não sei para quê — eles não precisam dele."Briscoe balançou a cabeça em descrença e continuou seu trabalho de mapeamento rumo ao oeste.Jerry e Klinton finalmente partiram, depois de discutirem por bobagens. Os dois viviam brigando; no entanto, a amizade deles fazia com que o conteúdo das discussões fosse carregado de um sarcasmo bem-humorado."Droga! Klinton, deixa eu pilotar o barco.""Você não é o único que sabe pilotar uma lancha simples. Só porque você se autoproclamou capitão, isso não significa porra nenhuma para mim.""Ah... cala a boca", respondeu Jerry. Ele continuou a se defender na troca de farpas: "Você só mapeia essa porra de terra enquanto eu piloto."Várias horas se passaram; nesse meio-tempo, a viagem de Brutus e Briscoe transcorreu bem. Eles trabalharam em sintonia e realizaram muita coisa. Na verdade, eles estavam prestes a dar meia-volta e retornar para a embarcação científica.As coisas não fluíam tão rapidamente para Jerry e Klinton. Durante as várias horas de conflito, eles conseguiram realizar apenas metade do trabalho que seus colegas haviam feito. Levou pelo menos mais uma hora até que pudessem dar meia-volta e retornar para a nave maior. No ponto de encontro, tudo estava tranquilo, exceto pela embarcação reserva, que se afastava lentamente à deriva. Ela flutuava devagar rio abaixo, em direção ao sul; se Brutus visse aquilo, ficaria furioso, justamente por saber que os dois mal conseguiam realizar qualquer tarefa juntos.O barco continuou descendo o rio rumo ao sul, e nada impedia seu afastamento. Não flutuava velozmente, mas com rapidez suficiente. Não havia motor nem velas para impulsioná-lo; as fortes correntes do rio moviam tudo ao redor, e aquele barco não era exceção.Embora já tivessem se passado horas, Jerry e Klinton continuavam discutindo por qualquer bobagem. Brigaram porque Jerry estava indo rápido demais e também porque estava indo devagar demais. As discussões também levaram Klinton a atingir acidentalmente a cabeça de Jerry com o equipamento que estava usando. Uma pancada forte com o visor foi o limite para Jerry."Dá para prestar atenção por onde, diabos, você está indo com isso?""Eu conseguiria, se você mantivesse essa droga de barco parado!""Não vejo você pilotando, vejo?""Eu tentei, mas você queria se mostrar útil, para variar.""Esse é o problema de gente como você. Aprendem a fazer algo, tornam-se descuidados e acham que sabem tudo."Klinton não gostou nada daqueles comentários; lançou um olhar afiado e irritado, respondendo de forma ofegante: "Que porra... você disse... 'gente como você'?"Então, Klinton manuseou o visor com descuido, acertando a cabeça de Jerry novamente."Droga", gritou Jerry, sentindo um enorme desconforto. Ele avançou para cima de Klinton. Em defesa, Klinton investiu para agarrar Jerry, tentando contê-lo. No entanto, a manobra não saiu como ele queria. Eles acabaram travados em um abraço de urso, ambos tentando fazer algo que não estava claro. A incerteza daquela luta corporal era grande, já que havia pouco espaço no barco que compartilhavam com outras duas pessoas. Normalmente, quando dois homens brigam, o objetivo é um derrubar o outro. Foi o que aconteceu, mas não ficou claro quem derrubou quem, pois ambos caíram na água.Os dois permaneceram agarrados um ao outro, provocando um grande mergulho e um forte impacto na água. Afundar nas profundezas do Amazonas era a última coisa que lhes passava pela cabeça. Vencer a disputa era o pensamento inicial, mas, quando finalmente chegaram à superfície, a sensação havia mudado. Ambos ofegavam em busca de ar ao emergir, e Jerry gritou: "Merda, ah, merda..."Seus gritos não eram por terem caído na água — ele estava acostumado com isso —, mas sim por causa daquilo que Klinton encarava fixamente. Klinton parecia atônito com a visão, e Jerry continuou a gritar desesperado: "Socorro, o que a gente vai fazer?"Klinton não disse nada naquele momento; em vez disso, usou a energia para se manter à tona. Ele ainda não conseguia parar de olhar para o que estava diante dele."Klinton, cara, me salva, merda. Eu não queria que isso acontecesse.""A culpa é sua, porra", gritou Klinton, mas não disse mais nada, pois sabia que precisaria poupar energia.Enquanto isso, Brutus e Briscoe voltavam para a embarcação científica para registrar as informações coletadas. "Espero que aqueles cavalheiros já estejam a caminho de volta", exclamou Brutus.Briscoe ouviu e ofereceu palavras tranquilizadoras: "Bem, tenho certeza de que eles estão cumprindo o horário.""Hmmm...", murmurou Brutus, sem parecer muito convencido. "Conhecendo os dois... Hmmm... você não conhece os dois.""Relaxa, Brutus! Estamos aqui para ganhar um dinheiro, e pelo menos estamos nos trópicos. Encare isso como férias." Brutus olhou para Briscoe com um sorriso de canto desagradável, que transparecia puro desprezo. "Dificilmente chamaria isso de férias", respondeu o engenheiro enquanto esmagava violentamente um inseto sugador de sangue."Bom, você certamente não pode negar que o pagamento é bom.""Você tem razão, não vou negar isso."Houve uma pausa momentânea, de apenas um segundo. "Ah, merda!!!" gritou Briscoe, mal conseguindo se segurar na lateral do barco. Brutus mantinha um aperto firme, com as duas mãos agarradas às bordas opostas da embarcação. O barco sofreu um solavanco violento.Brutus acalmou a situação, declarando: "Levamos uma pancada de uma onda forte, ou talvez tenha sido a correnteza, ou algo assim". O barco, no entanto, manteve-se à tona e seguiu sua rota original.Enquanto avançavam pelas águas turvas, seus sentidos pareciam estar em alerta máximo. Briscoe estava atento e notou um barco à frente. Parecia ter um tamanho semelhante ao da embarcação em que estavam, embora sua percepção pudesse estar alterada pelo esforço sensorial excessivo."Olha, Brutus! Aqueles parecem ser o Jerry e o Klinton, mas eles deveriam estar voltando para a embarcação científica... Eu... eu acho que não tem ninguém naquele barco. O motor está ligado e ele está vindo direto na nossa direção."Os homens gritaram e aceleraram ao máximo na tentativa de sair da rota daquela embarcação à deriva. Foi uma experiência eletrizante; além disso, não havia ninguém por perto para socorrê-los, já que a equipe de resgate era escassa. Como o prazo era apertado, não tentaram interceptar o barco à deriva. Em vez disso, mantiveram o curso em direção à embarcação científica.Intriga e suspense tomavam conta dos dois homens. "Fico imaginando como diabos eles conseguiram fazer isso. Provavelmente estavam brincando com aquele outro barco e acabaram perdendo o controle... daquela merda de barco."Briscoe respondeu em voz baixa: "Espero que eles não tenham caído na água. Estas águas estão cheias de coisas que a América do Norte ainda não viu."Brutus parecia preocupado e forçou o barco à velocidade máxima. Em pouco tempo, chegaram à embarcação científica. "Acho que devíamos verificar o barco.""Não acho que eles estejam no barco. Algo me diz que estão por aí em algum lugar. Eu sabia que tinha algo estranho quando eles soltaram aquele barco de emergência. Que diabos eles estão tramando? Agora perderam o mais valioso. Eu te disse: você não conhece esses idiotas."Eles começaram a se afastar rapidamente em direção ao sul.Não houve mais discussões nem resmungos entre Jerry e Klinton, pois ambos se concentraram em salvar a própria vida. Klinton gritou, baixinho: "Fique quieto e imóvel.""Já estou cansado de ficar batendo perna na água. O que a gente vai fazer?" reclamou Jerry."Não sei, droga. Apenas nade."Klinton fez exatamente isso, e muito rápido. Ele achou que conseguiria chegar à embarcação científica nadando, mas estava enganado; nadar cerca de três quilômetros seria extremamente exaustivo — isso se ele chegasse lá antes de ser devorado. Havia, sem dúvida, criaturas à espreita que adorariam comê-lo. O fato de não estarem sangrando era uma vantagem, mas a agitação que causavam ao tentar nadar não era. Isso se mostrou um grande problema quando o mergulho inicial deles perturbou um crocodilo próximo, extremamente territorial."Estou cansado de nadar, Klinton!""Para de choramingar e nada. Não dá para carregar você nas costas. Droga, eu também estou cansado, mas e aí? Vai desistir e simplesmente afundar?""Não! Vou nadar em direção à margem. Deve estar logo ali na frente. É mais perto chegar à terra firme."Klinton parou por um momento e ficou batendo pernas na água para se manter à tona. Olhou para a margem, percebendo que provavelmente estava mais perto, mas ainda exigiria um bom esforço. Notou também que a costa acidentada lembrava um pântano, e percebeu a dificuldade de manobrar para desembarcar. Sem dizer nada, Klinton continuou nadando para o norte.Jerry começou a nadar em direção à margem tão rápido quanto Klinton, mas seus caminhos eram perpendiculares. Ambos estavam extremamente cansados, quase a ponto de se renderem à força do rio. No entanto, ainda tinham forças para lutar e continuaram.O réptil perturbado ficou cada vez mais agitado. Jerry batia na água com força, e perigosamente perto do território do animal. O lagarto pré-histórico conseguia nadar rápido; Jerry era um intruso e algo precisava ser feito. A fera avançou com suas mandíbulas intimidadoras em direção a Jerry e abocanhou com força.Klinton continuava nadando, deixando Jerry muito para trás. Agora, parecia nadar em um ângulo estranho, indo direto para o que parecia ser um barco. Nadava de forma rápida e agressiva, pois, se não o fizesse, o cansaço acabaria por dominá-lo. Finalmente alcançando o barco, subiu a bordo de forma desajeitada. Estava exausto e nem pensava em Jerry naquele momento; precisava se recuperar do esforço de nadar e manter-se à tona.Um grito agudo ecoou; Klinton saiu de seu estado de recuperação e começou a remar em direção ao pedido de socorro de Jerry. Um quase encontro com o jacaré fez Jerry submergir brevemente, mas ele conseguiu emergir. Ele tentou nadar rapidamente para longe daquele que o via como refeição. A sorte estava a seu favor, pois a fera já havia feito uma refeição farta; o principal motivo para atacar Jerry fora a defesa de seu território.Ainda assim, Jerry nadou adiante, em direção ao norte, para onde seu parceiro havia ido. Foi uma natação desesperada, mas ele conseguiu alcançar o companheiro no meio do caminho."Jerry, Jerry, aguenta firme", gritou Klinton, eufórico. Ele se esticou para puxar Jerry para dentro do barco."Puta merda, meu Deus", disse Jerry, ofegante. Ele estava exausto, mas feliz por estar vivo. Para a sorte de ambos, estavam em segurança a bordo do barco da reserva que havia se soltado. Não era a hora deles partirem desta para melhor, mas fora um grande susto para Jerry. Eles se afastaram remando, completamente encharcados."Valeu, Klint, cara! Achei que você fosse me deixar para trás.""Ah, não; aí eu não teria como te perturbar. Mesmo que você fale umas merdas pesadas, ainda é meu amigo. Além disso, temos um trabalho a fazer, e não consigo realizá-lo sem você.""Ei! Valeu, cara, você tem razão. Temos dinheiro para ganhar."Klinton olhou para Jerry como se quisesse dizer que todos os comentários anteriores estavam simplesmente esquecidos.Logo à frente, os olhos atentos de Briscoe foram postos à prova novamente. Briscoe avisou Brutus que havia detectado um objeto em movimento à frente deles. Brutus levantou-se com cautela, tentando não balançar o barco."Acho que aquilo é um barco", disse o capitão.Brutus acrescentou seu comentário com desenvoltura: "Parece que minha suposição estava correta." O capitão não entendeu bem o que aqueles comentários significavam. Brutus percebeu isso e continuou: "Acredito que encontramos as pessoas em apuros; não está claro por que trocaram a lancha a motor por aquele barco a remo. Eu te disse, esses dois juntos...""Então, como diabos vocês conseguiram isso?", perguntou Brutus, assim que eles chegaram ao alcance da voz. Ele se virou para Briscoe, mas continuou comentando sobre a rapidez com que seus dois funcionários agiam. "Agora, me diga! Como diabos vocês conseguem fazer isso? Veja só... eu não avisei, Briscoe... Esses caras são uns idiotas. Então, vamos lá. Como diabos isso aconteceu? Vocês estão todos encharcados... Ah, estou ansioso para ouvir essa história!"Brutus falava de forma agitada enquanto Briscoe observava. Os dois supostos paspalhos falaram ao mesmo tempo: "Eu... nós...""Posso ouvir um de cada vez? Ou melhor ainda! Não quero ouvir nada. Apenas certifiquem-se de remar o barco todo o caminho de volta. Sigam a gente e é bom não ficarem para trás. Não somos uma equipe de busca, então tentem não se perder. Pode ser que a gente não consiga voltar para procurar vocês."Brutus ligou o motor e seguiu para o oeste. Ele estava indo para o acampamento encontrar Richard.Klinton e Jerry observaram o barco se afastar rapidamente e correram para começar a remar logo atrás. "Vamos lá! Precisamos acompanhar o ritmo.""Estou remando o mais rápido que posso. Sei que você não tem moral nenhuma para falar. Não aja como se fosse um especialista em caiaque..."...remando feito loucos por corredeiras bravias. Você esqueceu: você só serve para dar dor de cabeça e andar de veleiro. Mas, na hora de depender do físico, estamos encrencados."Os dois continuaram remando, mesmo sem ter Brutus e Briscoe mais à vista. À medida que perdiam de vista os colegas de trabalho, a expressão de Jerry foi ficando abatida, o que transparecia até na sua postura ao falar com Klinton."Sabe, Klinton, tem uma coisa muito estranha, sabe? Estou me sentindo esquisito." Houve uma pequena gagueira antes de Jerry terminar de registrar suas queixas. "Quer dizer, a gente devia ganhar uma grana com isso, e acho que o Brutus falou algo sobre uma pequena sociedade no que quer que ele esteja construindo aqui... e por que ele escolheu logo este lugar, afinal? Não é engraçado? Droga, tudo aqui é estranho."Klinton ouvira Jerry com paciência e queria responder com entusiasmo. Ele o fez, adotando um tom motivacional que soava cômico. "Porra! Você quase teve a bunda comida por um jacaré. Eu também me sentiria estranho, mas eu te avisei! Eu não quero estar aqui. Primeiro, já é quase inverno, mas duvido muito que eles saibam o que é isso por aqui. Estava um calor dos diabos quando vocês me acordaram, e que horas eram? Impossível saber em que fuso horário estamos. Porra, você é o marinheiro. Não dá para olhar para as estrelas ou algo assim e me dizer onde estamos?"Klinton olhou para o sol ofuscante — dali ele tinha a melhor vista, pois, sobre a água, as árvores não bloqueavam o horizonte. A luz quase o cegou. "Acho que não. Bom, dá para olhar para o sol e me dizer que horas são? Eu diria que já passou um pouco do meio-dia, já que o sol está bem em cima da gente."Jerry ouvia de forma distraída, fascinado pela densa vegetação que se amontoava em ambas as margens.Klinton perguntou novamente: "O que você acha disso?"Jerry despertou de seu transe visual e deu uma resposta submissa a Klinton: "É, claro."Jerry, ainda meio preso à contemplação da paisagem, continuou observando tudo enquanto ignorava as tentativas de Klinton de fazê-lo ajudar a remar. Mesmo assim, eles seguiram rio abaixo, em ritmo lento.CAPÍTULO QUINZE: NA BACIAA noite havia conquistado o dia por completo e as estrelas já não estavam mais escondidas. Os detetives escoltaram Nick até em casa e logo depois se entregaram. Muitos dos homens de Richard também se recolheram, pois tiveram uma manhã agitada.Todos os sons da natureza se insinuavam, distinguindo-se com vocalizações amplas pela floresta. Se alguém percorresse a floresta naquele horário, poderia achar o ambiente estimulante, mas não se fosse nativo da região. Os povos indígenas tinham uma ligação profunda com a floresta, assim como a flora e a fauna. Essa ligação era tão forte que a presença de estrangeiros era imediatamente reconhecida pelos habitantes da floresta. Isso era um fato para os antigos, pois acreditavam que cada planta e animal na Terra era projetado para fluir de acordo com as leis da natureza. Eles também acreditavam que a natureza se expressava na forma de espírito, que era pura energia e consciência sem forma física. Todo ser vivo tinha espírito: plantas, animais e até mesmo os humanos, que também são animais.Um espírito com boas intenções podia pressentir um espírito com más intenções. A tripulação foi imediatamente pressentida, especialmente porque suas intenções não eram exatamente imbuídas de santidade. Eles queriam destruir a vida para seu próprio benefício pessoal, e isso era uma blasfêmia direta contra a própria vida. Qualquer um que pudesse cometer tal vandalismo não poderia acreditar no que os antigos acreditavam. Eles sabiam com certeza que a Terra estava viva e representava a mãe da vida.Os membros modernos da tribo não tinham contato com o conhecimento ancestral há muito tempo. A maior parte do que sabiam era transmitida oralmente. Embora algumas das cidades de seus ancestrais tivessem sobrevivido ao tempo, eles não tinham acesso a elas. Não que algum membro da tribo fosse capaz de ler algo daquela época, mas a maioria dos registros havia sido destruída de qualquer forma. Esse fato fez com que suas crenças se tornassem distorcidas e incompletas. No entanto, os fundamentos de suas crenças permaneceram intactos, como a espiritualidade, a feitiçaria e a natureza com características divinas.Acredita-se que esses povos fizeram da floresta seu lar permanente quando os europeus colonizaram o Ocidente. Havia até textos antigos que indicavam que a chegada desses europeus marcaria tempos amaldiçoados para seu povo. Após gerações, é compreensível como alguém poderia perder seus traços civilizados. No entanto, parece que eles recorreram ao que seus ancestrais teriam desejado: viver da terra e fluir pacificamente com a natureza.Foi o que fizeram por milhares de anos, com suas cidades imaculadas de ouro e pedra trabalhada, robustas como um continente e, portanto, ainda de pé até hoje. As cidades também se assemelhavam a alinhamentos que complementavam vitoriosamente as estrelas.A maldição nos foi imposta para que nos lembrássemos de nossas origens. Antigamente, os reinos se tornavam grandiosos, pois, agora que eram civilizados e haviam acumulado uma enorme quantidade de cultura, esqueceram-se de suas origens. Assim, a maldição os retornaria ao estado em que chegaram, e eles apreciariam a próxima vez que o mundo estivesse sob seu domínio.A maldição saiu do controle. As terras que outrora serviram de berço para um povo civilizado estavam ameaçadas por uma epidemia mundial. Assim, os espíritos foram invocados e, por acaso, todos os que pisavam em solo ancestral estavam adormecidos. Ouviam-se cânticos de louvor. Eram altos, pois o mal se aproximava.Chegara a hora, e nas profundezas da floresta que em breve seria explorada, espreitavam olhos pertencentes a animais de todos os tipos, mas quantos e de que espécies era impossível saber. Também era desconhecido quantos pertenciam a descendentes fugitivos desses ancestrais. Diz-se que existem muitos grupos que falam línguas desconhecidas para a civilização moderna. Contudo, essas línguas podem estar relacionadas a outras conhecidas por forasteiros, a dialetos semelhantes, e o professor era especialista em línguas, mas suas habilidades não garantiam que seus companheiros conseguiriam se comunicar com os povos que encontrassem.Nas proximidades do local do projeto, viviam alguns desses povos cuja língua era desconhecida para os forasteiros. Eles dançavam ao redor de árvores enormes e pareciam tentar se comunicar com elas, pois acreditavam que a árvore era o ser vivo mais sábio da Terra. Tudo sobre o ciclo de vida de uma árvore podia ser traduzido em experiências da vida humana. Eles também acreditavam que era possível falar telepaticamente com a árvore. Através de certos sons e vibrações produzidos com a boca e instrumentos, a árvore era invocada para proteção.Era isso que estava acontecendo, e a vibração ficou muito alta, penetrando o estado de sonho. Todos que pisavam naquele solo tinham um clarão intenso durante o sono REM, e toda a equipe foi afetada, alguns mais do que outros. A imagem de Joe invadiu os pesadelos de Richard, e ela também brilhou intensamente. Nick sentiu profunda tristeza por seus amigos e acenou em despedida para eles. Ele estava...levado lentamente por uma força misteriosa; no entanto, sua vontade de partir era nula.Edward revirou-se várias vezes enquanto dormia. Foi despertado de forma súbita e brusca pela imagem de Richard surgindo em sua mente. Sentou-se, olhando preocupado para o céu noturno e refletindo profundamente sobre o motivo daquela visão. Estaria ele realmente sonhando com um homem que não conhecia? Atribuiu aquilo à ansiedade e deitou a cabeça novamente. O cansaço tomou conta dele; era mais do que simples sono o que o conduzia de volta ao descanso tão rapidamente.A noite seguia com força impetuosa, e os elementos da natureza ganhavam intensidade e um caráter aterrorizante. Naquela região do mundo, acreditava-se que as forças da natureza eram espíritos — espíritos que podiam ser invocados. Esse conceito aparece retratado em muitas culturas e expresso de diversas formas singulares. Mesmo culturas que não têm consciência disso abrigam tais ideias, incutidas secretamente para moldar as crianças. Um exemplo é a super-heroína "Tempestade", das histórias em quadrinhos dos X-Men. Sua capacidade de invocar a fúria da natureza e direcioná-la para sua própria defesa é a prova disso. Outro exemplo é o corajoso, amado e peculiar Tarzan: ele superou todas as probabilidades ao ser criado por animais e acabou alcançando uma essência e uma unidade espiritual com a natureza desconhecidas pelo homem moderno.No entanto, é preciso ter o coração puro e sincero para pisar nessas terras ancestrais.O sol rompeu o horizonte leste, e o brilho de seus raios já se deixava ver tenuemente. O ar estava pesado e úmido, parecendo abraçar quem passava por ele com força. O sol intensificou-se, castigando a pele como lâminas afiadas fazendo um corte rente. O primeiro a enfrentar aquelas condições extenuantes foi Brutus Salapore. Sem hesitar, ele se voltou imediatamente para as tarefas planejadas para o dia. De qualquer forma, precisavam acordar cedo. Ele iria de barco com Jerry e Klinton. A primeira missão era examinar a margem onde o rio se dividia, seguindo para o oeste e para o sul. O segundo objetivo era desembarcar.Brutus precisava apresentar um relatório aos investidores sobre a viabilidade de construir tal estrutura. Para isso, teria de percorrer a selva e decidir como concretizar o projeto idealizado. Ele saiu de seus aposentos para chamar Jerry e Klinton.Jerry já estava acordado, fumando um cigarro Salem enquanto tomava café preto às pressas. Ele estava acostumado a acordar cedo na fazenda da família, na Louisiana; foi lá que desenvolveu seu talento para a navegação — percorrer o Rio Mississippi e o Lago Bruin aprimorou suas habilidades."Quem cedo madruga, saúde e sabedoria acumula! Bom dia para você, Brutus."Jerry sorria, radiante, o tempo todo, mas Brutus passou direto, respondendo com elegância: "É, Jerry. Temos muito trabalho a fazer."Jerry o acompanhou para buscar o último membro da equipe. Salapore pôs Jerry a par da situação enquanto caminhavam para o quarto de Klinton. Pararam brevemente antes de bater à porta, e Jerry comentou: "Este ar me lembra minha terra. A maneira como ele grudava na gente parecia um castigo cruel. Até esses malditos mosquitos são ferozes igual."Ele estava justamente esmagando um deles quando admitiu: "Acho que tenho que dar o troféu de campeões para os daqui."Brutus bateu à porta enquanto respondia calmamente: "É, eles parecem atacar com ferocidade, sacrificando a vida como kamikazes só para alimentar a prole e morrendo sem saber se os filhotes vão crescer... uma pena."Bateram com mais força agora, ambos contribuindo para a barulheira. "Klinton!"Logo atrás da madeira que os separava, Klinton estava deitado, aparentemente sem vida, mas o alvoroço causado pelos companheiros foi aos poucos trazendo-o de volta à realidade. Abrir os olhos era essencial; por isso, ele limpou a secreção que os cobria, pois ela tornava sua visão temporariamente inútil. No entanto, sua audição funcionava perfeitamente, já que o barulho das batidas na porta era impossível de ignorar. Klinton finalmente saiu da cama para vestir sua roupa de trabalho. Não era exatamente um uniforme, mas peças com as quais ele se sentia confortável.Ele abriu a porta casualmente, com um ar sonolento. Parecia irritado."Hora de trabalhar! Cara, vamos levantar! Klinton! Klinton!" Jerry continuou, entusiasmado."Já estou de pé, droga! Só porque vocês são viciados em trabalho, não quer dizer que eu tenha que ser também. Merda! Eu só faço o meu serviço e caio fora", disse Klinton, com rispidez. "Aposto que você não teve problemas para fazer o velho Outback levantar! Não é, Brut? Claro que não!"Klinton falou de forma calma e direta. Com uma expressão sombria, disse: "É porque você está acostumado a ser acordado por um macho imundo, para lembrar das suas tarefas, alimentar seus porcos e tirar leite da fêmea do seu touro. Eu não tive o luxo de crescer velejando e construindo motores com meu pai e meus irmãos. O meu pai nem estava por perto, Brut! O que temos na agenda?""Sabe de uma coisa, Klinton? Você é louco", respondeu Jerry.Brutus tomou nota mental enquanto continuava a guiá-los até o destino. "Escutem bem, senhores! Há uma ilha, situada praticamente na linha do Equador, a sudeste daqui. O Capitão Briscoe nos levará de helicóptero. É lá que vamos nos encontrar com o navio de pesquisa e, claro, embarcar e zarpar."Ele segurou o ombro de Jerry e reforçou: "É aqui que preciso de você. Veja, você terá de nos conduzir pelo rio Amazonas, descendo cerca de cento e cinquenta milhas na direção sudoeste a partir de nossa posição atual. Chegaremos ao ponto onde o rio se bifurca; é também onde lançaremos âncora — imagino que a cerca de meia milha da costa. Talvez seja melhor usar barcos menores para examinar o litoral. Uma área de cinco milhas quadradas deve bastar, então dividir o grupo pode acelerar os resultados."Os homens observavam Brutus enquanto ele falava, mal notando a interjeição de Jerry. "Bom, Brutus, tem certeza de que podemos nos dividir? Digo, será que ambas as equipes saberão exatamente o que estamos procurando? Somos apenas nós três. Ele é o topógrafo", disse, apontando rapidamente e apressando-se para expor seu ponto de vista. "Você é o maldito matemático, ou seja lá o que for. O engenheiro, perdão! Eu sou apenas um capitão de barco."Klinton segurou o ombro de Jerry e respondeu: "E um muito bom, por sinal!"Brutus parecia concordar; ele acalmou os homens com sua voz suave e grave. "Pelo visto, estamos com a equipe reduzida. Fico imaginando se o Capitão Briscoe tem alguma qualificação para nos ajudar."Klinton respondeu: "Brutus, você e eu podemos ir em barcos separados. Eu sei muito bem o que você está procurando. Posso não ser engenheiro civil, mas trabalhar com você por oito anos aprimorou minhas habilidades."Brutus respondeu com a mesma calma e tranquilidade: "Acho que você tem razão. Eu lhe ensinei bem..."Klinton interrompeu com naturalidade: "Com certeza! Tenho apenas um diploma de nível técnico em topografia e cartografia, mas aprendi muito trabalhando com você." "O que você esperava? Tenho o dom de transmitir meus talentos aos meus subordinados. Isso equivale a um doutorado. Talvez, quando eu me aposentar, eu..."Jerry ficou quieto por um momento, mas não conseguiu evitar a interrupção. "Tudo muito bonito, 'Professor e Aluno', mas eu sou o único navegador. O Briscoe sabe pilotar barcos?"Klinton soltou de imediato: "Eu realmente não sei quem é esse tal de Briscoe."Brutus sabia e explicou aos seus homens: "Acho que ele tem algumas habilidades na bagagem. Tenho quase certeza de que não seria problema para ele pilotar uma lancha pequena. Na verdade, pelo que ouvi dizer, ele é bem habilidoso; possivelmente um matador de aluguel a serviço do Richard.""Você acha!""Estou brincando; ele é apenas um bom faz-tudo."O líder do grupo explicou o plano, especialmente para Klinton. Ele precisava ter certeza de que Klinton analisaria as margens exatamente como devia. Tudo isso foi acertado, e Brutus então informou-os sobre a organização da operação."Certo, Klinton! Você e Jerry fiquem com a margem leste e sigam para o sul. Briscoe e eu ficaremos com a margem norte e seguiremos para o oeste. Talvez precisemos avançar até cinco milhas rio abaixo."Brutus usou seu rádio bidirecional para avisar Briscoe de que estavam prontos. Também queria explicar que precisavam da ajuda dele. Briscoe concordou; afinal, estava sendo bem pago por Richard.Os três homens esperaram por Briscoe junto ao helicóptero. Na verdade, Briscoe estava conversando com Richard enquanto Brutus e sua equipe aguardavam."Eles precisam da sua ajuda", declarou Richard. Ele continuou, empolgado: "Na verdade, preciso preparar o restante da equipe. Pode ir. Brutus sabe exatamente o que fazer. Vou buscar Andrew e Susie; apenas ajude-os no que precisarem. Quando sua equipe terminar, nós já deveremos estar lá."Briscoe saiu correndo ao encontro dos homens que o esperavam, e Richard seguiu na direção oposta para preparar sua própria equipe. Ele os reuniu rapidamente, instruindo-os a se encontrarem no heliponto.Já naqueles campos, Jerry comentava: "Acho que aquele ali deve ser o tal Briscoe". Eles tentavam ao máximo enxergar, contra o sol nascente da América do Sul, o homem que se aproximava. A umidade podia ser sentida na própria pele, e o disco solar, agora acima do horizonte, deixava claro que um dia de calor abrasador estava por vir. Apesar do horário matutino, a equipe precisava proteger os olhos, pois Briscoe vinha do oeste.Ele se aproximou rapidamente, tendo a torre do velho logo atrás de si. O homenzinho, de fato, observava tudo."Sou o Briscoe", disse ele secamente, estendendo a mão.Brutus apertou a mão dele e respondeu: "Brutus! Esta é a minha equipe: Jerry e Klinton".Eles se encararam fixamente antes que Jerry interrompesse aquele momento de tensão. "Certo, senhores! Estamos prontos? Espero que você seja um bom piloto."Brutus e Briscoe deixaram de lado a aparente irritabilidade de Jerry."E sou mesmo. Espero que vocês sejam tão bons no que quer que façam.""Os melhores", disse Jerry, mas antes que pudesse acrescentar algo mais..."Concentrem-se, homens. Temos trabalho a fazer", respondeu Brutus.Klinton não disse nada; só queria que o trabalho terminasse logo. Ele até havia esquecido qual seria o valor do pagamento. Jerry olhou para Klinton e brincou: "Por que você não diz nada, garoto? Está com medo?"Houve um momento de descontração, mas logo em seguida Klinton disparou: "Eu já disse. Só quero fazer o meu trabalho. Não preciso de toda essa conversa fiada. Então, se me dão licença, preciso me concentrar no que eu estava pensando"."Uau... O cara é...""Vamos lá, homens. Precisamos levar este helicóptero em direção à ilha."Eles obedeceram às ordens e decolaram."Eu avisei, senhores: tínhamos que nos apressar, pois levaremos várias horas para chegar ao local. Esse tempo não inclui o trabalho que teremos de realizar quando chegarmos lá", exclamou Brutus. Briscoe pilotava o helicóptero sem ser incomodado, mas Klinton respondeu ao lembrete anterior de Brutus: "Beleza, Brut! Estamos a caminho. Não precisa ficar bufando e reclamando."Enquanto ouvia, Jerry não conseguiu evitar dar o seu pitaco: "É isso aí, Brutus! Somos o melhor que você tem. Porra, cara, somos tudo o que você tem! Vamos dar conta do recado!" Ele deu um tapa amigável no ombro de Brutus."Bom, espero que sim, porque paga muito bem.""Ah, é...", disse Jerry, arrastando as palavras com um sotaque caipira grave e sonolento.Klinton disse: "Eu não ligo para o dinheiro! Só quero terminar o serviço e voltar para casa. Infelizmente, trabalho com vocês, malucos. Jerry! Não sei por que você está tão animado, já que o Brutus vai te pagar o que ele quiser. Porra, a gente trabalha para ele."Jerry não gostou dos comentários anteriores de Klinton. Ele exibiu uma expressão de decepção ao responder: "Brutus! A gente não discutiu o pagamento. Sei que temos salário fixo, mas este não é um trabalho comum."Brutus estava visivelmente irritado, mas não olhou para Jerry e respondeu aos comentários com indiferença: "Realmente não é uma boa hora para discutir salários. Precisamos nos concentrar no trabalho em questão. Mas, para tranquilizar vocês, haverá bônus enormes por um trabalho bem-feito."Jerry e Klinton olharam para Brutus como se ele tivesse dito algo ultrajante. Klinton não estava nem aí — ele já estava acostumado com Brutus e sua insolência. Por isso, decidiu focar apenas em terminar o trabalho.Klinton olhou pela janela do helicóptero e sentiu profundamente que não pertencia àquele lugar; tinha certeza de que, na verdade, nem queria estar ali. "Fui coagido!", pensou.As atitudes de Jerry eram parecidas, mas seus pensamentos se manifestavam em palavras. "É esse o tipo de resposta que você dá? Estou aqui... tipo Crocodile Dundee misturado com Tarzan, uma espécie de híbrido, já que piloto barcos, e recebo uma resposta dessas sobre o meu dinheiro? Achei que fôssemos melhores do que isso! Nem tivemos chance de falar sobre dinheiro. Esqueça o fato de que você nos chamou de madrugada e praticamente exigiu nossa presença, insinuando que nossos empregos estariam em risco. Ah, eu vou te dar um bom trabalho, sim, mas antes, eu e você precisamos conversar."Um silêncio pairou por alguns instantes antes de Jerry continuar seu desabafo. Olhando para Klinton, ele disse: "Você acredita numa coisa dessas...""Senta a bunda aí", declarou Klinton, perdendo a paciência com a gritaria.O Capitão Briscoe olhou para Jerry e sentiu um pouco de compaixão. Sua empatia vinha do fato de que Jerry queria uma remuneração justa — e quem poderia discordar disso? Enquanto descia o helicóptero, Briscoe decidiu comentar apenas que pretendia pousar.O pouso e o trajeto seguinte transcorreram sem problemas, levando-os a uma embarcação científica bem equipada que deixou Jerry extremamente empolgado. Sem se preocupar em ajudar os outros a conferir os suprimentos necessários, ele rapidamente se familiarizou com o leme. Explorar o barco inteiro era uma emoção constante para ele. Agora ele entendia para quem estava trabalhando. Financiar uma embarcação daquelas provava que Richard era, de fato, um homem de posses.Ele pensou consigo mesmo: "Preciso falar com o Brutus! Com uma grana dessas..." Jerry imediatamente foi procurar Brutus para discutir melhor a questão do seu salário.Brutus não estava longe, bem na outra extremidade da embarcação. Ele estava montando lunetas e equipamentos de medição para observar a paisagem. O barco era grande o suficiente para transportar três embarcações de emergência: duas motorizadas e uma de madeira, movida a remo. Essa última ficava pendurada na popa, enquanto as lanchas motorizadas ficavam em lados opostos."Com licença... Brutus! Podemos conversar?""Claro! O que está lhe tirando o sono?""Bom, imagino que você saiba quais são as minhas preocupações. Estou longe de casa e não conheço os perigos que este trabalho pode envolver. Olha, cara! Estamos muito longe daqui! Você enxerga algo além do simples dever?"Jerry continuou falando sem parar, mal dando chance para o chefe se manifestar. Por fim, Brutus conseguiu tranquilizar Jerry ao informá-lo sobre o pagamento. Não era exatamente o que poderia ou deveria ter sido, mas Jerry não estava muito a par das tendências trabalhistas atuais. Ainda assim, era mais do que ele estava acostumado a receber. Ele estava ansioso para zarpar, e foi exatamente isso que a tripulação fez.CAPÍTULO DEZESSEIS: ALÉM DA CONTAO restante da equipe estava sendo reunido por Richard Dickenson, ao lado de Kyser Finley. Os dois conversavam descontraidamente enquanto aguardavam os outros. Andrew e Susie foram os primeiros a se juntar a Richard e Kyser."Olá, senhores", disse Susie com uma voz encantadora. Ela estava assim porque o marido a abraçava, e ela ainda sentia os arrepios de mais cedo naquela manhã. Os recém-casados ​​realmente transbordavam amor, paixão e desejo. Eles eram diferentes de Jerry, pois estavam mais bem informados sobre a remuneração; na verdade, ganharam quase o dobro do que Jerry conseguiu negociar.Wesley e Adam se aproximaram, também conversando entre si. "Adam!", gritou Wes. "Pronto para voar nesta selva e observar um bando de engenheiros metidos a espertos fazendo levantamento de terreno? Acho que você tem razão — esse deve ser o dinheiro mais fácil, e a maior quantia, que já ganhei num trabalho extra.""Acho que vai ser bem chato, se quer saber." Adam olhou para Wesley como se esperasse uma resposta."Acho que você tem razão, mas se o pagamento for bom..."Eles se aproximaram de Kyser Finley e dos outros, trocaram cumprimentos, e Roy e Pam finalmente se arrastaram até lá."Certo, escutem só! Mais uma vez, gostaria de agradecer a todos por fazerem parte desta equipe. Isso não deve demorar; dois dias inteiros, no máximo. Depois, caímos fora. Obviamente precisamos de dois helicópteros, então... se eu puder separar vocês dois, pombinhos."Ele pegou Susie Kemp e a colocou do lado oposto ao de Andrew."Quem é o melhor piloto?", perguntou Richard.Ambos hesitaram antes de Susie exclamar: "Ora, claro que é o Andrew. Afinal, foi ele quem me ensinou."Richard virou-se para Andrew e disse: "Vou com você!" Ele então dividiu a equipe, e todos embarcaram em seus respectivos helicópteros.Na delegacia, Edward e Gary estavam sentados em suas mesas, achando que estavam sozinhos. Todos estavam de serviço, almoçando ou em algum outro lugar nas dependências da delegacia — exceto Rick Powers. Ele caminhava pelo corredor em direção aos dois homens. Gary olhou para Edward e disse: "Aonde você vai? Vou com você."Edward olhou para ele com severidade. "Shhhh!!!" Ele colocou o dedo indicador bem no centro dos lábios e apontou para o céu. Aproximou-se o máximo possível do Sr. Stevens e disse: "Não quero que isso vaze."Logo ali na esquina, aquela frase fez Rick Powers parar. Rick queria saber o que não deveria ser do conhecimento de ninguém. Ele se encostou na parede e tentou aguçar a audição.Edward sussurrou para Gary mais uma vez: "Vou sair antes do meio-dia. Tenho um pressentimento de que, mesmo que Richard não tenha matado ninguém, ele sabe muito sobre o assunto."Edward aproximou-se ainda mais para sussurrar novamente, baixando ainda mais o volume da voz. Rick esforçou-se para ouvir mais, mas os sussurros tornaram-se vagos logo após os primeiros comentários. Richard mudou de ideia sobre entrar na sala com Edward e Gary, especialmente depois de ouvir parte do plano. Ele deu meia-volta e seguiu pelo caminho por onde havia acabado de vir, ansioso para chegar ao escritório de George Gunther.Invadir a sala do capitão nunca era uma boa ideia, mas ele estava eufórico com a notícia bombástica. Gunther levantou os olhos, surpreso, e disse sem rodeios: "Bom, é melhor que isso seja importante." Gunther mantinha a mão sobre o fone do telefone. Estava claro que sua paciência com o subordinado estava se esgotando.Rick entrou desajeitadamente na sala do capitão, ofegante. "Capitão, capitão", disse Rick, empolgado. "Ouvi o Edward falando algo sobre o Richard.""Pois bem! O que ele disse?""Ele disse algo sobre o Richard ter matado alguém e que não queria que ninguém soubesse."Gunther pareceu intrigado com a informação que acabara de receber. "Pode ir, Powers."Gunther ficou imaginando o que Edward não havia relatado. "Assassinato? Isso é um absurdo!", pensou Gunther, mas e se Edward realmente tivesse algo em mãos?O capitão Gunther avisou à pessoa com quem falava que retornaria a ligação mais tarde e, em seguida, contatou uma autoridade da delegacia. Os dois elaboraram um plano em conjunto. O primeiro passo seria chamar Edward à sua sala. Ele acionou o interfone para Edward, que estava em sua mesa: "Quero falar com você, por favor, Sr. Pullins."Edward olhou para Gary; ambos estavam intrigados com a convocação repentina. Edward dirigiu-se à sala de Gunther sentindo aquele frio na barriga. Caminhou hesitante pelo corredor, imaginando o que Gunther poderia querer com ele. Abriu a porta com cautela, como se o arrependimento lhe conferisse o poder de fazê-lo.Assim que entrou totalmente na sala de Gunther, foi confrontado por uma voz pesada e carregada de ansiedade: "Chamei você para comunicar uma mudança."Edward ficou perplexo, mas respondeu com calma: "Que mudança?""Vou tirar você do caso.""O quê?! Que diabos está acontecendo?" A raiva de Edward era quase incontrolável. "Por que estou sendo... que motivo você tem para me tirar do caso?" Edward gaguejava, mas continuava a defender seu lado freneticamente. "O que eu fiz? Não estou entendendo.""Não cabe a você entender. Decidi fazer uma mudança. Acho que outra pessoa se encaixaria melhor neste caso. Além disso, você não avançou nada com o caso até agora, não é?"Edward rosnou e disparou: "Não! Não avancei, mas quem diabos seria melhor do que eu?"Gunther ignorou os últimos comentários de Edward e disse: "Tem certeza de que não há mais nada a relatar sobre este caso?""Não, não tem!""Hmm... Bem, para responder à sua pergunta: farei um anúncio quando achar conveniente. Você está dispensado."Edward ficou atônito, o que atrasou sua saída da sala do capitão. Quando finalmente saiu, fez questão de bater a porta com força atrás de si. A raiva de Edward transbordou. Antes que pudesse voltar à sua mesa, notou colegas revirando seus arquivos. Gary observava tudo, espantado."Ei, Edward, cara! Perguntei o que eles estavam fazendo, mas continuaram como se eu nem estivesse aqui."Edward observou Gary pelo canto do olho para ouvi-lo, mas a maior parte de sua atenção estava voltada para os policiais que mexiam em seus arquivos. "Que diabos vocês estão fazendo, Mike! Pete! O que está acontecendo?"O detetive Mike Sasson levantou o olhar e respondeu como se não devesse satisfação alguma ao colega: "Estamos apreendendo todos os registros do caso Dickenson, por ordem do capitão."Gary e Edward ficaram ali, chocados, mas isso não impediu Edward de declarar rudemente: "Isso é uma merda!" Em seguida, saiu furioso pela porta.A umidade estava longe de diminuir; na verdade, ela mal havia começado. A equipe responsável pelo transporte até a embarcação científica vivenciava isso de camarote. Jerry permanecia ereto na proa, onde pilotava e apreciava a vista. Briscoe e Klinton estavam sentados nos alojamentos jogando cartas, enquanto Brutus caminhava junto à amurada do barco, observando a paisagem. Ainda faltava um bom trecho para chegarem ao destino, então qualquer vista naquele momento servia apenas como distração.A equipe dos helicópteros não demorou a alcançar o navio de pesquisa que havia partido antes. A aeronave de Susie Kemp liderava o caminho, com Richard e o marido dela logo atrás. O voo transcorria tranquilamente e, além do ruído dos helicópteros, era possível ouvir conversas informais. Richard não tinha muito a dizer, pois tratava principalmente com Brutus Salapore — que, por sua vez, era a figura central de toda aquela viagem. Acontece que ele precisava de pilotos adicionais para a equipe extra que Brutus iria requerer. A intuição de que as habilidades do professor seriam úteis foi o que o levou a buscar os serviços daquele homem. A equipe do FBI servia como uma barreira de proteção, mas a incerteza o dominava com força, deixando seus pensamentos pesados.O que estava prestes a acontecer era um verdadeiro mistério, e esse fato intensificava todas as sensações de Richard. Ainda assim, ele não impediu que seus pilotos prosseguissem. Em sua mente, tudo o que importava era que Brutus escrevesse o relatório, mesmo que o conteúdo fosse exagerado. Esse era o grande motivador de sua ansiedade, e nada parecia capaz de detê-lo. Pelo menos era nisso que ele acreditava, especialmente por poder pagar qualquer preço necessário para obter o que precisava."Então, Andrew! Esse é o seu nome, certo?""É sim", respondeu o piloto com sarcasmo."Desculpe, não sou muito bom com nomes. Vejo que sua esposa é uma ótima pilota. Ela está pilotando aquela máquina com maestria."Ele a notou porque ela liderava o caminho, fazendo uma curva fechada à esquerda. Eles estavam prestes a pousar. A viagem não tinha sido tão curta, e todos estavam ansiosos para se espreguiçar e aliviar a rigidez do corpo.Um dos agentes do FBI soltou de repente: "Droga, ainda não chegamos?"Kyser Finley viajava no helicóptero com Andrew e Richard e ouviu claramente os comentários de seus colegas. O problema surgiu quando o mesmo agente continuou a tagarelar: "Quer saber? Isso é demais! Se não estivéssemos ganhando o que o senhor — o ricaço — está nos pagando, eu jamais faria essa viagem; não por um centavo a menos."Kyser Finley reagiu imediatamente ao último comentário: "Isso não é nada apropriado de se dizer."Richard disse: "Ah, não, tudo bem! Gosto de homens que se preocupam com o dinheiro. Isso me lembra a mim mesmo. Sabe como consigo pagar todos vocês? Com ​​certeza não é deixando de me preocupar com o meu dinheiro. É por isso que estou aqui. Este projeto vai me deixar incrivelmente rico e me levar a um patamar onde todos vocês não passarão de meros camponeses. Meu objetivo é ser o número um em termos de fortuna."Richard recostou-se na poltrona, deleitando-se com o silêncio que agora o envolvia. Então, continuou: "Sabe, eu também piloto um pouco. Talvez devêssemos levar três helicópteros para podermos apostar corrida.""Só garanta que eu não seja passageiro!", respondeu Klinton, com um tom significativo."Está quase na hora de pousar", indicou Andrew a Richard. Susie deixou isso claro quando seu helicóptero mergulhou bruscamente, e Andrew seguiu o mesmo procedimento. O pouso era difícil, pois a selva era muito densa e não facilitava as coisas. Encontrar uma clareira era complicado, já que não haviam chegado ao local de pouso previamente preparado. Susie havia se desviado um pouco da rota, mas, mesmo assim, a área preparada anteriormente seria difícil para o pouso devido à densa vegetação. Andrew seguiu a trajetória da esposa à risca, até receber uma transmissão de rádio."O que foi, querida?""Este local à frente está livre de árvores, como uma pequena clareira, e o terreno parece plano. Vou pousar aqui.""Entendido!"Eles pousaram os helicópteros em solo macio e tiveram que caminhar cerca de 200 metros até o acampamento construído pelo falecido Gary Russy.Navegando tranquilamente no barco muito bem equipado, Jerry gritou: "Há terra logo à nossa frente."Brutus aproximou-se de Jerry para lhe dar instruções. "Jerry! Navegue com o barco bem por ali."Ele apontou exatamente para onde queria, e Jerry entendeu perfeitamente. O passo seguinte era lançar a âncora, pois aquele era um bom local. Ouviu-se um som alto e contínuo de raspagem e chocalhar vindo debaixo do barco e, num instante, a embarcação parou. Os homens rapidamente soltaram as duas lanchas."Você acha que devemos soltar o barco de reserva?", perguntou Klinton.Jerry disse que não, mas Klinton já havia começado a desamarrar o barco. Klinton até parou, mas não amarrou o barco de volta com firmeza, tornando inevitável que o barco de segurança se afastasse à deriva. Por enquanto, ele parecia seguro, então os homens não deram atenção. Eles estavam mais interessados ​​em carregar as lanchas com os equipamentos necessários. Todos os suprimentos foram carregados, e chegara a hora de examinar a terra e mapear as margens.Briscoe e Brutus ligaram o motor assim que terminaram de carregar tudo. Eles se afastavam do sol, pois passava um pouco do meio-dia e navegavam para o oeste. Jerry e Klinton seguiram para o sul. O navio de pesquisa apontava diretamente para a terra que, por si só, parecia um indicador, pois era ali que o rio se dividia em dois. Esse foi o principal motivo pelo qual uma equipe seguiu para o oeste e a outra para o sul.Brutus conduzia seu barco suavemente, enquanto Jerry e Klinton mal haviam terminado os preparativos. Brutus olhou para trás, para o que conseguia ver do navio de pesquisa. Eles estão saindo agora mesmo. Por que são tão malditos de lentos? Parece que soltaram o barco de emergência. Não sei por quê. Eles não precisam daquela droga de barco.Ele parecia irritado, e isso acabou afetando Briscoe. "Como assim, Brutus? Não era para eles fazerem isso?""Não sei para quê — eles não precisam disso."Briscoe balançou a cabeça, incrédulo, e prosseguiu com o levantamento topográfico em direção ao oeste.Jerry e Klinton finalmente começaram a trabalhar, depois de discutirem por bobagens. Os dois viviam brigando; no entanto, a amizade deles fazia com que o teor das discussões fosse de um sarcasmo bem-humorado."Droga! Klinton, deixa eu pilotar o barco.""Você não é o único que sabe pilotar uma lancha simples. Só porque você se autoproclamou capitão, isso não significa porcaria nenhuma para mim.""Ah... cala a boca", respondeu Jerry. Ele continuou se defendendo na troca de farpas. "Você só cuida do levantamento dessa terra maldita enquanto eu piloto o barco."Várias horas se passaram; nesse meio-tempo, a expedição de Brutus e Briscoe correu bem. Eles trabalhavam bem juntos e realizaram muita coisa. De fato, já estavam prestes a fazer o caminho de volta para a embarcação científica.As coisas não foram tão rápidas para Jerry e Klinton. Durante as várias horas de conflito, eles conseguiram realizar apenas metade do trabalho que seus colegas haviam feito. Levou pelo menos mais uma hora até que pudessem dar meia-volta e retornar ao navio maior. No ponto de encontro, tudo estava tranquilo, exceto pelo barco reserva, que se afastava lentamente à deriva. Ele flutuava devagar pela correnteza em direção ao sul; se Brutus visse aquilo, ficaria furioso, justamente por saber que os dois mal conseguiam realizar qualquer tarefa juntos.O barco continuou descendo o rio em direção ao sul, e nada impedia seu afastamento. Não se movia rapidamente, mas com uma velocidade constante. Não havia motor nem velas para impulsioná-lo, mas as fortes correntes do rio moviam tudo ao redor, e ele não era exceção.Embora já tivessem se passado horas, Jerry e Klinton continuavam batendo boca por qualquer bobagem. Discutiram porque Jerry estava indo rápido demais e também porque estava indo devagar demais. As brigas também resultaram em Klinton atingindo acidentalmente a cabeça de Jerry com o equipamento que estava usando. Uma pancada forte com um aparelho de medição foi o limite para Jerry."Dá para prestar atenção por onde, diabos, você está indo com isso?" "Eu conseguiria, se você mantivesse essa maldita lancha parada!""Não vejo você pilotando, vejo?""Eu tentei me lembrar, mas você quis ser útil, para variar.""Esse é o problema de gente como você. Aprendem a fazer algo, relaxam e acham que sabem tudo."Klinton não gostou nada daqueles comentários; lançou um olhar afiado e irritado, respondendo de forma ofegante: "Que porra... foi essa que você disse... 'gente como você'?"Em seguida, Klinton manuseou o visor com descuido, batendo-o novamente na cabeça de Jerry."Droga", gritou Jerry, sentindo um enorme desconforto. Ele avançou para cima de Klinton. Em defesa, Klinton investiu para agarrar Jerry, tentando contê-lo. No entanto, a manobra não saiu como ele queria. Eles acabaram travados em um abraço de urso, ambos tentando fazer algo que não estava claro. A incerteza daquela luta corporal era grande, já que havia pouco espaço no barco que compartilhavam com outras duas pessoas. Normalmente, quando dois homens brigam, o objetivo é um derrubar o outro. Foi o que aconteceu, mas não ficou claro quem derrubou quem, pois ambos caíram na água.Os dois permaneceram agarrados um ao outro, provocando um grande mergulho e um forte impacto na água. Afundar nas profundezas do Amazonas era a última coisa que lhes passava pela cabeça. Vencer a disputa era o pensamento inicial, mas, quando finalmente chegaram à superfície, a sensação havia mudado. Ambos ofegavam em busca de ar ao emergir, e Jerry gritou: "Merda, ah, merda..."Seus gritos não eram por terem caído na água — ele estava acostumado com isso —, mas sim por causa daquilo que Klinton encarava fixamente. Klinton parecia atônito com a visão, e Jerry continuou a gritar desesperado: "Socorro, o que a gente vai fazer?"Klinton não disse nada naquele momento; em vez disso, usou a energia para se manter à tona. Ele ainda não conseguia parar de olhar para o que estava diante dele."Klinton, cara, me salva, merda. Eu não queria que isso acontecesse.""A culpa é sua, porra", gritou Klinton, mas não disse mais nada, pois sabia que precisaria poupar energia.Enquanto isso, Brutus e Briscoe voltavam para a embarcação científica para registrar as informações coletadas. "Espero que aqueles cavalheiros já estejam a caminho de volta", exclamou Brutus.Briscoe ouviu e ofereceu palavras tranquilizadoras: "Bem, tenho certeza de que eles estão cumprindo o horário.""Hmmm...", murmurou Brutus, sem parecer muito convencido. "Conhecendo os dois... Hmmm... você não conhece os dois.""Relaxa, Brutus! Estamos aqui para ganhar um dinheiro, e pelo menos estamos nos trópicos. Encare isso como férias." Brutus olhou para Briscoe com um sorriso de canto desagradável, que transparecia puro desprezo. "Dificilmente chamaria isso de férias", respondeu o engenheiro enquanto esmagava violentamente um inseto sugador de sangue."Bom, você certamente não pode negar que o pagamento é bom.""Você tem razão, não vou negar isso."Houve uma pausa momentânea, de apenas um segundo. "Ah, merda!!!" gritou Briscoe, mal conseguindo se segurar na lateral do barco. Brutus mantinha um aperto firme, com as duas mãos agarradas às bordas opostas da embarcação. O barco sofreu um solavanco violento.Brutus acalmou a situação, declarando: "Levamos uma pancada de uma onda forte, ou talvez tenha sido a correnteza, ou algo assim". O barco, no entanto, manteve-se à tona e seguiu sua rota original.Enquanto avançavam pelas águas turvas, seus sentidos pareciam estar em alerta máximo. Briscoe estava atento e notou um barco à frente. Parecia ter um tamanho semelhante ao da embarcação em que estavam, embora sua percepção pudesse estar alterada pelo esforço sensorial excessivo."Olha, Brutus! Aqueles parecem ser o Jerry e o Klinton, mas eles deveriam estar voltando para a embarcação científica... Eu... eu acho que não tem ninguém naquele barco. O motor está ligado e ele está vindo direto na nossa direção."Os homens gritaram e aceleraram ao máximo na tentativa de sair da rota daquela embarcação à deriva. Foi uma experiência eletrizante; além disso, não havia ninguém por perto para socorrê-los, já que a equipe de resgate era escassa. Como o prazo era apertado, não tentaram interceptar o barco à deriva. Em vez disso, mantiveram o curso em direção à embarcação científica.Intriga e suspense tomavam conta dos dois homens. "Fico imaginando como diabos eles conseguiram fazer isso. Provavelmente estavam brincando com aquele outro barco e acabaram perdendo o controle... daquela merda de barco."Briscoe respondeu em voz baixa: "Espero que eles não tenham caído na água. Estas águas estão cheias de coisas que a América do Norte ainda não viu."Brutus parecia preocupado e forçou o barco à velocidade máxima. Em pouco tempo, chegaram à embarcação científica. "Acho que devíamos verificar o barco.""Não acho que eles estejam no barco. Algo me diz que estão por aí em algum lugar. Eu sabia que tinha algo estranho quando eles soltaram aquele barco de emergência. Que diabos eles estão tramando? Agora perderam o mais valioso. Eu te disse: você não conhece esses idiotas."Eles começaram a se afastar rapidamente em direção ao sul.Não houve mais discussões nem resmungos entre Jerry e Klinton, pois ambos se concentraram em salvar a própria vida. Klinton gritou, baixinho: "Fique quieto e imóvel.""Já estou cansado de ficar batendo perna na água. O que a gente vai fazer?" reclamou Jerry."Não sei, droga. Apenas nade."Klinton fez exatamente isso, e muito rápido. Ele achou que conseguiria chegar à embarcação científica nadando, mas estava enganado; nadar cerca de três quilômetros seria extremamente exaustivo — isso se ele chegasse lá antes de ser devorado. Havia, sem dúvida, criaturas à espreita que adorariam comê-lo. O fato de não estarem sangrando era uma vantagem, mas a agitação que causavam ao tentar nadar não era. Isso se mostrou um grande problema quando o mergulho inicial deles perturbou um crocodilo próximo, extremamente territorial."Estou cansado de nadar, Klinton!""Para de choramingar e nada. Não dá para carregar você nas costas. Droga, eu também estou cansado, mas e aí? Vai desistir e simplesmente afundar?""Não! Vou nadar em direção à margem. Deve estar logo ali na frente. É mais perto chegar à terra firme."Klinton parou por um momento e ficou batendo pernas na água para se manter à tona. Olhou para a margem, percebendo que provavelmente estava mais perto, mas ainda exigiria um bom esforço. Notou também que a costa acidentada lembrava um pântano, e percebeu a dificuldade de manobrar para desembarcar. Sem dizer nada, Klinton continuou nadando para o norte.Jerry começou a nadar em direção à margem tão rápido quanto Klinton, mas seus caminhos eram perpendiculares. Ambos estavam extremamente cansados, quase a ponto de se renderem à força do rio. No entanto, ainda tinham forças para lutar e continuaram.O réptil perturbado ficou cada vez mais agitado. Jerry batia na água com força, e perigosamente perto do território do animal. O lagarto pré-histórico conseguia nadar rápido; Jerry era um intruso e algo precisava ser feito. A fera avançou com suas mandíbulas intimidadoras em direção a Jerry e abocanhou com força.Klinton continuava nadando, deixando Jerry muito para trás. Agora, parecia nadar em um ângulo estranho, indo direto para o que parecia ser um barco. Nadava de forma rápida e agressiva, pois, se não o fizesse, o cansaço acabaria por dominá-lo. Finalmente alcançando o barco, subiu a bordo de forma desajeitada. Estava exausto e nem pensava em Jerry naquele momento; precisava se recuperar do esforço de nadar e manter-se à tona.Um grito agudo ecoou; Klinton saiu de seu estado de recuperação e começou a remar em direção ao pedido de socorro de Jerry. Um quase encontro com o jacaré fez Jerry submergir brevemente, mas ele conseguiu emergir. Ele tentou nadar rapidamente para longe daquele que o via como refeição. A sorte estava a seu favor, pois a fera já havia feito uma refeição farta; o principal motivo para atacar Jerry fora a defesa de seu território.Ainda assim, Jerry nadou adiante, em direção ao norte, para onde seu parceiro havia ido. Foi uma natação desesperada, mas ele conseguiu alcançar o companheiro no meio do caminho."Jerry, Jerry, aguenta firme", gritou Klinton, eufórico. Ele se esticou para puxar Jerry para dentro do barco."Puta merda, meu Deus", disse Jerry, ofegante. Ele estava exausto, mas feliz por estar vivo. Para a sorte de ambos, estavam em segurança a bordo do barco da reserva que havia se soltado. Não era a hora deles partirem desta para melhor, mas fora um grande susto para Jerry. Eles se afastaram remando, completamente encharcados."Valeu, Klint, cara! Achei que você fosse me deixar para trás.""Ah, não; aí eu não teria como te perturbar. Mesmo que você fale umas merdas pesadas, ainda é meu amigo. Além disso, temos um trabalho a fazer, e não consigo realizá-lo sem você.""Ei! Valeu, cara, você tem razão. Temos dinheiro para ganhar."Klinton olhou para Jerry como se quisesse dizer que todos os comentários anteriores estavam simplesmente esquecidos.Logo à frente, os olhos atentos de Briscoe foram postos à prova novamente. Briscoe avisou Brutus que havia detectado um objeto em movimento à frente deles. Brutus levantou-se com cautela, tentando não balançar o barco."Acho que aquilo é um barco", disse o capitão.Brutus acrescentou seu comentário com desenvoltura: "Parece que minha suposição estava correta." O capitão não entendeu bem o que aqueles comentários significavam. Brutus percebeu isso e continuou: "Acredito que encontramos as pessoas em apuros; não está claro por que trocaram a lancha a motor por aquele barco a remo. Eu te disse, esses dois juntos...""Então, como diabos vocês conseguiram isso?", perguntou Brutus, assim que eles chegaram ao alcance da voz. Ele se virou para Briscoe, mas continuou comentando sobre a rapidez com que seus dois funcionários agiam. "Agora, me diga! Como diabos você consegue isso? Veja só... eu não avisei você, Briscoe... Esses caras são uns paspalhos. Então, vamos lá. Como diabos isso aconteceu? Você está todo molhado... Ah, estou ansioso para ouvir essa história!"Brutus falava de forma desconexa enquanto Briscoe observava. Os dois supostos paspalhos falaram ao mesmo tempo: "Eu... nós...""Posso ouvir um de cada vez? Ou melhor: não quero ouvir nada. Apenas certifiquem-se de remar o barco todo o caminho de volta. Sigam a gente e é bom não ficarem para trás. Não somos uma equipe de busca, então tentem não se perder. Talvez a gente não consiga voltar para procurar vocês."Brutus ligou o motor e seguiu para o oeste. Ele estava indo para o acampamento encontrar Richard.Klinton e Jerry observaram o barco deles se afastar rapidamente e correram para começar a remar logo atrás. "Vamos lá! Precisamos acompanhar o ritmo.""Estou remando o mais rápido que posso. Sei que não é você, com essa sua fraqueza toda, que vai falar alguma coisa. Não aja como se fosse da equipe de caiaque, descendo corredeiras bravas. Esqueceu? Você só serve para dar dor de cabeça e lidar com veleiros. Mas, na hora de depender do físico, estamos encrencados."Os dois continuaram remando, mesmo depois que Brutus e Briscoe saíram de vista. À medida que perdiam os colegas de trabalho de vista, a expressão de Jerry foi ficando abatida, refletindo-se também em sua postura ao falar com Klinton."Sabe, Klinton... tem uma coisa muito estranha, viu? Estou me sentindo esquisito." Ele gaguejou um pouco antes de terminar de expor suas queixas. "Quer dizer, a gente deveria ganhar uma grana preta, e acho que o Brutus falou algo sobre uma pequena sociedade no que quer que ele esteja construindo aqui... e por que ele escolheu logo este lugar, afinal? Não é engraçado? Droga, tudo aqui é engraçado."Klinton ouviu Jerry com paciência e quis responder com entusiasmo. E foi o que fez, adotando um tom motivacional, porém de uma maneira cômica. "Merda! Você quase teve a bunda comida por um jacaré. Eu também ficaria meio estranho, mas eu te avisei! Eu não quero estar aqui. Para começar, já é quase inverno, mas duvido muito que saibam disso por aqui. Estava um calor dos diabos quando vocês me acordaram — e que horas eram, afinal? Impossível saber em que fuso horário estamos. Porra, você é o marinheiro. Não dá para olhar para as estrelas ou algo assim e me dizer onde estamos?"Klinton olhou para o sol intenso — dali ele tinha a melhor vista, já que, sobre a água, as árvores não bloqueavam a visão. A claridade quase o cegou. "Acho que não. Bom, dá para olhar para o sol e me dizer que horas são? Eu diria que já passou um pouco do meio-dia, já que o sol está bem em cima da gente."Jerry ouvia de forma distraída, fascinado pela aglomeração de árvores em ambos os lados.Klinton perguntou novamente: "O que você acha disso?"Jerry saiu do transe visual e deu uma resposta submissa a Klinton: "É, claro."Jerry, ainda meio preso à contemplação da paisagem, continuou observando tudo, ignorando as tentativas de Klinton de fazê-lo ajudar a remar. Mesmo assim, eles seguiram rio abaixo, em ritmo lento.CAPÍTULO DEZESSETE: O LOCAL DO ACAMPAMENTOOs Kemp e seus passageiros desembarcaram em segurança. Eles pousaram os helicópteros em solo macio, e não no concreto instalado pelo falecido Sr. Russy. Richard esqueceu de avisar que aquele era o local de pouso, mas, como Susie liderava o grupo e ele viajava com Andrew, o detalhe acabou lhe escapando à memória. Ainda assim, o local serviu bem ao propósito por enquanto. Eles realmente se desviaram alguns metros da rota planejada, o que resultou em uma boa caminhada até o acampamento.Eles avançavam em uma fila irregular, com Richard à frente. Ele falava sem parar sobre o quanto apreciava a presença deles, prometendo uma viagem relaxante e repleta de novas experiências. Kyser Finley vinha logo atrás de Richard, percorrendo o caminho que evitava a luz. Por algum motivo, o instinto de orientação de Richard era extraordinário; parecia que sua alma já estivera ali e conhecia bem a direção correta. Seja qual fosse a razão, ele rapidamente guiou o grupo até o acampamento.Enquanto isso, o grupo conversava descontraidamente. Eles formavam pequenos subgrupos que mudavam periodicamente, dependendo do assunto do momento. A exceção era Kyser, que permanecia atrás de Richard e conversava principalmente com ele. Quando não estava falando com Rich, ouvia-se o som de suas mãos batendo nos braços para espantar os insetos que o picavam incessantemente.No final da fila, o agente Adam Newfield era ocasionalmente observado pelo professor. No entanto, o agente Newfield não percebia isso e continuava a mexer e cutucar a vegetação silvestre."Ah... merda!" gritou Adam ao espetar o dedo em uma planta desconhecida, o que provocou um pequeno sangramento.Assim que ele sentiu a leve dor, o professor disparou: "Ei! Qual é mesmo o seu nome?""Adam.""Pois é, Adam... talvez não seja uma boa ideia ficar manuseando plantas que você não conhece. Você pode acabar pegando uma alergia brava, tipo hera venenosa."Era irônico o professor dizer aquilo, pois Adam segurava, naquele momento, um objeto que parecia ser uma pequena baga seca, colhida justamente daquela planta. Ele respondeu com um ar de arrogância: "Agradeço a preocupação, mas acho que vou ficar bem. Fui treinado para identificar certos tipos de plantas. Sei qual é a aparência da hera-venenosa e do carvalho-venenoso."Ele pontuou sua fala atirando a frutinha desconhecida para longe. Ela voou à frente do grupo, passando por cima de Wesley e Pam e acertando a nuca de Roy Beavers. O agente Beavers olhou para cima rapidamente para ver o que havia caído sobre ele. Percebeu que talvez nada tivesse caído quando, como antenas de radar, suas orelhas captaram risadinhas baixas que deveriam ter sido abafadas."Muito bem, quem é o engraçadinho aí atrás?", perguntou Roy, mas isso só serviu para alimentar as risadas.Pam soltou um grito agudo e estridente. Um "Ahhh..." feminino ecoou pela floresta. Isso aconteceu porque ela olhou para baixo e viu uma cobra deslizando a seus pés. Roy também testemunhou a cena e saltou na direção oposta, assim como Pam.O grupo parou por um momento enquanto observava Wesley sacar sua lâmina favorita e pular para decepar a cabeça da cobra. Ele disse com escárnio: "Qual é o problema? Estão com medo de uma cobrinha?" Ele riu incontrolavelmente enquanto os nervos da cobra faziam o corpo se contorcer como uma marionete.Kyser avisou ao grupo que precisavam seguir em frente, pois Richard mantinha um ritmo acelerado. Ele esticou os braços de forma bastante incisiva e anunciou: "Vamos em frente, senhores."O ritmo foi retomado, assim como a conversa casual. "Não gosto muito de cobras. Fico feliz que você tenha acabado com aquela", disse Julian.Wesley respondeu com um tom sombrio: "Eu também as odeio."O professor continuou a conversa com boas intenções: "Parece que você realmente tem algo contra cobras. Teve algum encontro com elas na infância que causou essa aversão?"Wesley respondeu: "Não! Eu as pegava para cortar suas cabeças."O brilhante acadêmico ficou intrigado, mas, como todo estudioso, guiava-se por um princípio simples: se não sabe, pergunte! "Bom, por que você fazia isso?" "Eu adorava ver a cobra se contorcer enquanto a vida se esvaía dela."O professor concluiu imediatamente que Wesley tinha o coração frio. Ele se aproximou de Pam para lhe dizer algo gentil. "Não ligue para ele. Tenho certeza de que ele não falou por mal!"Pam não estava receptiva às palavras de consolo de Julian. Ela exclamou: "Ah, é? Duvido. Você sabe que ele é um insensível e não está nem aí para o que eu sinto em relação a cobras.""Ah! E o que você sente em relação a cobras?"Pamela pareceu surpresa pelo fato de ele realmente querer saber. Mesmo assim, ela contou: "Desde criança, tive alguns encontros com cobras que me aterrorizaram. Meu irmão as criava como animais de estimação; às vezes elas escapavam e..." Ela interrompeu a fala, antes que o choro certamente encerrasse seu relato prematuramente.O professor a abraçou para confortá-la. Na verdade, ele é quem mais precisava daquilo. Era uma oportunidade esplêndida — algo raro na vida de Julian — de estar perto de uma mulher. "Vai ficar tudo bem", disse o professor em voz baixa.Pamela se afastou do carinho indesejado do professor..."Com licença... Acho que estou bem agora." Ela acelerou o passo e o deixou para trás com Adam.Julian olhou para ele com desgosto. Como se tivesse perdido sua grande chance de marcar um gol e essa fosse sua justa recompensa. Nesse momento, o Agente Newfield soltou um espirro horrível. "Oh, desculpe. Minha alergia está me incomodando muito com essa umidade."O professor tentou se afastar de Adam, pois ele parecia nojento depois de ter espirrado catarro pelas narinas.Finalmente chegaram ao acampamento após a curta caminhada pela floresta. Felizmente para eles, era uma trilha tranquila. Obviamente, isso era por enquanto e apenas antes que a natureza interviesse."É isso que vocês chamam de acampamento?", reclamou Akbar.Uma voz surgiu de trás da esquina, dizendo com firmeza: "Bem, vai ter que servir!" De quem era a voz era irrelevante, pois as afirmações eram verdadeiras."Bem, quem construiu este lugar, afinal?", exclamou o Agente Newfield.Ninguém parecia querer responder. Até mesmo o mais qualificado permaneceu em silêncio por um instante. Sentindo um aperto no coração, Richard disse: "Isso não importa. O importante é que esta viagem foi planejada com antecedência e deve correr bem. Podemos montar as barracas ali, e tem até... eu sei que não é luxo.""Pode crer.""Bem, é por isso que vocês são tão bem pagos, então vai ter que servir. Tenho certeza de que vocês não terão dificuldade em se adaptar.""Atchim..." escapou da boca e do nariz de Adam, e o professor respondeu traiçoeiramente: "Seus seios nasais estão ruins." Ele olhou para Adam, assegurando-lhe que mantivesse distância.Adam não disse nada, mas mostrou sinais de um resfriado leve. O professor foi tagarelar sobre sua vida com Pam enquanto Wesley continuava a conversa com Adam."Você está bem?!""Sim, estou bem." Roy Beavers, Kyser Finley e Richard Dickenson estavam sentados em círculo, conversando casualmente. "Então, Rich!" gritou Kyser, mas não muito alto. Depois de coçar os braços, deu um tapinha nas costas de Richard e disse: "Então, qual é o verdadeiro motivo de você nos ter trazido aqui e estar nos pagando tanto dinheiro? Não parece um lugar para o FBI. Quer dizer, alguma coisa deve ter te assustado muito." Sua fala estava um pouco arrastada. Ficou claro o porquê quando ele tomou um gole de um recipiente que guardava no bolso do colete."Ei, cara, o que você está fazendo? Preciso que vocês fiquem alertas, não meio bêbados.""Ah, não se preocupe. Eu bebo e resolvo casos com a mesma naturalidade com que bebês tomam leite. Sou um homem feito e estou na sua folha de pagamento por vontade própria — folha que, aliás, nem é bem uma folha de pagamento —, então não venha me encher o saco. Droga."Kyser começou a gritar, num rompante típico de bêbado. Ele gritou novamente, incomodado, enquanto coçava os braços com força. "Desde que aquelas moscas me morderam, estou com uma coceira insuportável."Pam ouviu aquilo. "Ah, ótimo! As moscas aqui mordem? Cobras e moscas devoradoras de gente já bastam. Quando você vai terminar essa sua pesquisa idiota?""Espere um pouco", exclamou Kyser, interrompendo com a fala arrastada. "Você ainda não me disse o que te assustou. Por que estamos aqui?"Richard pareceu acuado, mas saiu da situação com habilidade ao declarar: "Olha! Paguei vocês para vigiar a área... então, por que esse interrogatório todo? Estou aqui para concluir um trabalho e prestar contas aos meus investidores."Richard se livrou do escrutínio ao notar, à distância, Briscoe e Brutus chegando à margem. Ele caminhou imediatamente em direção aos dois, ansioso para ouvir o relatório inicial de Brutus.Wesley pegou a bebida de Kyser e começou a bebericar. Depois de um gole generoso, declarou: "Acho que aquele babaca está escondendo alguma coisa.""Senta aí", ordenou Kyser, arrancando a bebida da mão dele.Wesley olhou para Richard, que se afastava, e gritou: "Ei! Que diabos vamos fazer agora? Ficar sentados esperando? O que diabos estamos vigiando?""Senta e cala a boca!", declarou Pam, em tom baixo, porém firme.Wesley não costumava aceitar ordens de mulheres, mas acalmou-se ao perceber que todos os outros olhavam para ele.Richard conversou com seus funcionários e, por fim, apresentou todos ao grupo. Eles, é claro, já haviam se conhecido, mas não houve tempo hábil para uma apresentação formal. Aquele ritual servia para estabelecer quem detinha a autoridade na situação. Richard estava, de fato, no comando, cabendo a Kyser intervir apenas se houvesse problemas. No entanto, Brutus Salapore ficou encarregado da direção, e ele garantiu que o trabalho fosse bem feito.Ele instruiu os grupos a percorrerem certas distâncias estrategicamente marcadas em seu mapa. Recomendou que procurassem por riachos, córregos ou pequenos corpos d'água que pudessem indicar uma rota alternativa. Esses locais precisariam ser examinados minuciosamente. Ele queria saber sobre o relevo — áreas altas e baixas — ou melhor, se o solo era macio ou firme. Para cobrir toda a área, precisavam se dividir, e foi isso que fizeram.Pam e Kyser formaram uma dupla, assim como Wes e Adam. Roy e Briscoe acabaram juntos por acaso. O professor seguiu sozinho; tinha outras coisas a fazer. Os recém-casados ​​fizeram questão de ficar juntos e partiram para sua própria tarefa. Ele colocou todos para trabalhar, inclusive o Sr. Dickenson.Só se ouvia o guincho de pneus de uma freada brusca. Em seguida, ouviu-se o barulho de uma porta de carro sendo batida com força. Ouviu-se então o som dos passos apressados ​​do motorista, ansioso para chegar à porta da frente. O detetive Edward Pullins bateu ansiosamente à porta, que foi aberta gentilmente por uma mulher linda, de cabelos e olhos escuros."Posso ajudar?", perguntou a mulher com voz suave."Sim, com licença. Sou o detetive Pullins. O Sr. Fusil está?"A mulher manteve a fresta pela qual espiava bem estreita enquanto avisava o detetive: "Um momento, por favor." Ela fechou a porta educadamente, mas essa postura não se refletiu em suas palavras logo em seguida. "Nick, Nick!", gritou ela. Ela o procurou rapidamente, preocupada com o dinheiro. Pensou: "Meu Deus, espero que o Nick não tenha pegado todo esse dinheiro..." Seus pensamentos foram interrompidos por um encontro inesperado com seu noivo."Nick! O que está acontecendo?""Amor, o quê? Do que você está falando?" Nick a afastou gentilmente."Tem um detetive aqui fora. Tem algo que você queira me contar? De onde você tirou todo esse dinheiro?"Nick fez um gesto com a mão, indicando que não estava prestando atenção ao desabafo dela, enquanto abria a porta para cumprimentar o detetive Pullins."O que traz você aqui?", perguntou Nick, depois de fechar a porta atrás deles. "Ah, esta é minha futura esposa... já que ela faz questão de aparecer."Os homens se sentaram, o que deixou Tameka aliviada. Percebendo que o detetive estava ali a trabalho, ela rapidamente foi buscar bebidas para eles."Então, você encontrou meus amigos?""É por isso que estou aqui. Fui afastado do caso, logo quando estava chegando a algo importante.""Ah! O que você descobriu?""Bem, acredito que seus amigos não foram os únicos que ele abandonou. Quero prendê-lo por obstrução de justiça e detê-lo para interrogatório. Um júri pode até considerá-lo negligente.""Então, para que você precisa de mim?""Bem, preciso que você me mostre exatamente aonde ir.""Ah, não! Não vou voltar lá; de jeito nenhum você vai me levar de volta àquela selva maldita.""Olha! Eu preciso de você! Você não quer que eu pegue aquele canalha e o leve à justiça?""É, mas se depender da minha presença, ele vai continuar livre. Porque eu não vou voltar, de jeito nenhum."Nick deixou claro que falava sério. Edward desistiu, e os dois bebericaram suas bebidas. "Tem certeza, Nick? Eu realmente preciso..."Nick lançou-lhe um olhar firme e decidido. Recusar estava se tornando insuportavelmente difícil para Nick — embora não fosse impossível e, a certa altura, nem mesmo improvável. Apesar de suas constantes recusas, a empatia acabou falando mais alto, e ele respondeu:"Olha! Eu disse que não ia, mas acho que posso ajudar."Edward olhou para Nick como se não tivesse outra escolha a não ser demonstrar gratidão e aceitar o que quer que Nick estivesse oferecendo."Quer saber? Vou providenciar o seu transporte até lá, mas depois você se vira sozinho. Vou organizar um voo direto para o local; se você não vir nenhum helicóptero, então... é provável que eles estejam onde você quer ir. Tenho a sensação de que ele ainda está tentando fazer o que quer que esteja fazendo. Só espero que ele não abandone mais ninguém."Nick coçou a cabeça antes de estalar os dedos, animado. "Quer saber? Se não houver helicópteros no local de pouso, é provável que eles acabem tendo de voltar. Se eu fosse você, esperaria."Os dois homens continuaram a conversa, e a namorada de Nick aproveitou ao máximo aquelas informações. Ela estava totalmente por fora do assunto e fez questão de se incluir na conversa; a curiosidade a acompanhava desde a noite em que o buscou e ele estava com todo aquele dinheiro.Os homens finalizaram os planos iniciais, e Edward saiu rapidamente pela porta, ouvindo apenas as últimas palavras de Nick: "Ei, chegue aqui cedo. Eu levo você até lá. Sei exatamente aonde ir."Edward entrou no carro e arrancou em disparada, fazendo os pneus cantarem mais alto do que quando ele havia chegado.Havia a mesma ansiedade no olhar de Klinton. Ele estava cansado de remar, e o tal acampamento era onde ele queria estar. Não que fosse sua primeira opção, mas certamente era melhor do que remar em um rio desconhecido. Estava quente e úmido, e só isso já tornava difícil respirar.Klinton declarou de repente: "Estou cansado de remar. É a sua vez."Jerry continuou deitado, sem reagir de forma alguma."Não estou brincando." Klinton largou os remos, e o barco seguiu à deriva, levado apenas pela correnteza. A inércia de Jerry parecia imutável.Klinton agarrou Jerry com força e declarou: "Cara, é melhor você levantar essa bunda daí!"Gemidos escaparam da boca de Jerry. Klinton deixou o barco à deriva, pois Jerry continuava enrolando para ajudar. Klinton finalmente perdeu a paciência. Ele agarrou Jerry agressivamente e ordenou que ele se levantasse. "Acorda, porra!" Ele sacudiu Jerry furiosamente até que este se levantasse devagar, com movimentos lentos e uma atitude de preguiçoso.Não era que ele não gostasse de trabalhar, mas a exaustão havia batido forte depois de ter nadado pela própria vida. Ele não tinha muita energia para gastar, pois estava realmente cansado. Ele reclamou disso para Klinton, mas Klinton respondeu de forma grosseira."Porra, Jerry, eu também estou cansado. O que você quer? Que eu salve a sua bunda e te leve remando até um lugar seguro também? Ah, não, acho que não." Klinton fez uma pausa momentânea apenas para gritar: "Levanta essa bunda daí!"Klinton juntou o máximo de água que pôde em concha com as mãos e jogou no rosto de Jerry."Ei, ei! Por que você fez isso?" exclamou Jerry, despertando com um olhar cortante como facas afiadas.Isso não abalou Klinton, que respondeu na lata: "Não dou a mínima para a cara que você está fazendo. Não pretendo ficar nesta água até cair a noite. Aliás, falta muito para chegarmos?"Klinton jogou o outro par de remos com força, exigindo colaboração. Por fim, os dois fizeram o barco ganhar velocidade — não que Jerry estivesse ajudando muito. O calor castigava a dupla, e a água sobre a qual flutuavam não facilitava as coisas."Ei! Eu também estou cansado. Lembre-se: salvei a sua pele. Então, o mínimo que você pode fazer é ajudar.""Cala a boca, estou ajudando agora! Não vem com essa merda para cima de mim."Jerry estava agora mais alerta do que nunca. Eles começaram a remar mais rápido — e ainda bem, pois estavam no território de outro jacaré. Mesmo assim, conseguiram chegar rapidamente ao acampamento. Ao se aproximarem da margem, viram Brutus conversando com Richard e os outros. Eles continuaram remando e finalmente chegaram à terra firme, exaustos, porém aliviados.CAPÍTULO DEZOITO: O RITUALO ritual diário do pôr do sol estava sendo realizado em algum lugar nas profundezas da selva. Era um ritual comum na região, mas, desta vez, um elemento especial precisava ser acrescentado. Os cânticos e louvores começaram. A terra estava em perigo — ela sabia, eles sabiam, e até mesmo os olhos sabiam. Os espíritos, no entanto, foram os primeiros a perceber. Eles estavam furiosos, e era inevitável que a situação se tornasse violenta.As almas perdidas ficariam especialmente perturbadas com a situação em questão. A vida era pura energia, assim como os espíritos, as árvores e os animais. Os intrusos eram a fonte de energia que os espíritos buscavam. Tratava-se de algo ancestral: magia e feitiçaria transmitidas através de gerações por meio de histórias. Os mitos estavam sendo postos à prova agora.Por que os antigos a chamavam de Mãe Terra? Seria porque ela está realmente viva e gera uma vida esplêndida todos os dias? Seria porque ela sustenta a vida e é a única razão pela qual podemos existir? Os antigos responderiam "sim" a todas essas perguntas, mas a verdadeira questão era: seria possível invocar os espíritos? Provavelmente, os antigos também diriam que sim.Então, o sol começou a se pôr, oferecendo seus últimos trinta minutos de luz diurna. Isso era importante, pois a tradição estava intrinsecamente ligada ao pôr do sol. Esse evento era até considerado uma divindade à parte em algumas culturas antigas — povos que, embora nunca tenham tido contato com a civilização moderna, ainda existem hoje. Tamanha é a vastidão das selvas onde os invasores se encontravam. Há até plantas, insetos e animais vivendo aqui que permanecem desconhecidos e são extremamente raros; uma infinidade de árvores, plantas e cipós que podem ou não representar perigo para os humanos.Os cânticos recomeçaram e, de alguma forma, pareciam carregar uma emoção mais profunda. Todos estavam cientes de que havia intrusos à solta. O objetivo dos cânticos era assegurar que as árvores, os espíritos e todos aqueles olhos estivessem incluídos no ritual. Juntos, eles vigiariam atentamente e defenderiam seu lar justamente daqueles intrusos.A situação estava prestes a assumir um caráter espiritual. Todos os espíritos foram invocados, e qualquer um que partisse prematuramente poderia acabar vagando pela selva por um longo tempo. Incomodados com sua prisão espiritual, eles poderiam decidir fazer algo assustador.Uma névoa fina começou a subir do chão, tornando a visibilidade ainda pior.Klinton e Brutus foram os primeiros a enfrentar a piora das condições. Depois de subir a colina e seguir caminhos diferentes, esperavam se reencontrar do outro lado. A primeira tarefa era não cair no meio do caminho, pois logo abaixo poderia haver uma dolina ou um buraco profundo. Poderia até ser algum tipo de armadilha, e eles foram cautelosos o suficiente para não querer descobrir. Estavam a uma curta distância de se reencontrarem, mas não sabiam disso, pois a visibilidade estava péssima.A situação do Capitão Briscoe e do Agente Beavers não era melhor. O fato de estarem um pouco perdidos era a prova disso, e eles começavam a ficar frustrados. Era curioso, pois, pouco antes dos cânticos, parecia que sabiam exatamente onde estavam."Para onde diabos estamos indo? Já faz um tempo que andamos por esta floresta; não há sinal de ninguém, mas há sinais de tudo quanto é coisa. Estamos perdidos? Achei que você fosse aquele guia de selva que o ricaço contratou. Você não conhece o caminho?"Briscoe permaneceu em silêncio e continuou abrindo caminho pela vegetação densa."Imaginei que você conhecesse bem esta selva; afinal, você é o braço direito do Richard, não é? Vocês já exploraram isso aqui, certo? A que distância estamos do acampamento? Escureceu, e talvez o fato de não conseguirmos enxergar longe à frente seja a razão de estarmos perdidos. Então, não estou te culpando nem nada. Só quero que você diga alguma coisa, caramba. Quer dizer, está escuro e uma névoa está começando a subir — olha só para ela. Dá quase para pegar um pouco com a mão, de tão espessa que está. Ei! Isso é típico desse tipo de clima?"Roy continuava falando sem parar, mas Briscoe era menos comunicativo. Ele se concentrava mais em abrir caminho para os dois passarem."Responda-me. Não ouvi ninguém da equipe. Você sabe pelo menos para onde está indo!?" A tranquilidade de Roy foi interrompida.Os donos dos olhos que os observavam emitiam sons que os ouvidos de Roy não conseguiam captar. Aqueles olhos eram a causa de sua inquietação, e o fato de estarem fixos nele não ajudava em nada.Os sons da floresta ecoavam. Em algumas áreas, o ruído era intenso, como Klinton logo descobriu. Ele ergueu o olhar para pássaros estranhos que faziam ninho em uma árvore enorme. Eram magníficos e provavelmente podiam ser encontrados em muitas outras árvores além daquela acima dele. Ele notou aqueles olhos primeiro, mas logo percebeu belas listras de muitas cores diferentes. Um verdadeiro símbolo tropical estava diante de seus olhos, mas, devido à escuridão da noite, sua verdadeira elegância não podia ser plenamente apreciada.Ele tentou avançar, mas o que via do pássaro o deixou fascinado, fazendo com que os olhos que o observavam passassem despercebidos. Ele não deu um passo sequer à frente por causa disso....um transe. Ainda bem, pois o local à sua frente não era seguro, e parecia que os pássaros poderiam ter salvo sua vida. Por outro lado, talvez eles não tivessem nada a ver com aquilo. No entanto, ele continuou a observá-los com espanto.Começou então a notar outros olhos entre as árvores. A penumbra o obrigava a se concentrar um pouco mais, o que acabava por hipnotizá-lo. Até mesmo o barulho de passos parecia passar despercebido, mas a audição de Klinton não estava prejudicada como sua visão. Ele finalmente saiu do seu estado de torpor ao desviar o olhar dos pássaros para baixo, pois, por um breve momento, achou ter visto um homem completamente nu.O espanto de Klinton o fez dar um passo para o lado em vez de seguir em frente, tudo para tentar ver melhor o homem nu. A visibilidade era ruim, então ele começou a descer a encosta, como se um transe o impelisse a isso. Não era tão fácil quanto parecia; dizer que o chão estava escorregadio seria pouco. Klinton começou a deslizar rapidamente ladeira abaixo. Logo, o deslizamento tornou-se incontrolável, e ele gritou: "Merda... droga!"Ele havia até perdido o interesse no que causara todo aquele alvoroço inicialmente. No entanto, preocupou-se um pouco com o homem nu que corria solto por ali. "Ele era negro, e eu sou o único negro da viagem..." Klinton continuou a refletir: "Bom, não tão colorido assim! Estranho, esse homem nu desapareceu de um jeito tão astuto..."A queda de Klinton prejudicou sua percepção, tornando inútil a visão que já era limitada. Além disso, o esforço para tentar deter sua queda livre foi enorme. Ele não conseguiria se recuperar a tempo, pois batera com força a cabeça em um enorme toco de árvore, perdendo a consciência. O sangue escorria do ferimento causado pelo impacto, e aqueles olhos continuavam observando. Exceto, talvez, pelos olhos daqueles pássaros adoráveis ​​que ele havia observado antes.Brutus havia chegado ao ponto de encontro combinado. Procurou pelo funcionário, mas não o encontrou. Brutus seguiu adiante, vasculhando os arredores à procura de Klinton. Ele não se interessava pela beleza da selva como Klinton; estava mais programado apenas para trabalhar, mantendo os olhos atentos a quaisquer outros olhos que notasse. Ele era um sobrevivencialista.Agora, ele estava do lado do círculo onde Klinton havia caído. Seus olhos notaram que o terreno voltava a subir cerca de cem metros à frente; tratava-se de um solo muito irregular. Brutus começou a se aproximar da pequena elevação quando, de repente, ouviu o estalo de um chicote e sentiu o tornozelo preso em algum tipo de armadilha. O mecanismo o arremessou rapidamente para o alto, suspendendo-o pelo tornozelo a um galho de árvore e deixando-o de cabeça para baixo."Ahhh!!!" exclamou Brutus. Ele continuou a gritar e a implorar por socorro. Klinton não conseguia ouvi-lo, pois estava deitado ali, meio adormecido.Ele ficou pendurado ali, perguntando-se como diabos aquilo poderia ter acontecido. Muitos pensamentos lhe passavam pela cabeça, mesmo enquanto gritava incessantemente por socorro. Maldita armadilha de árvore ancestral. Isso é ridículo. Eu achava que coisas assim só aconteciam em filmes. Um homem caminhando pela floresta é içado no ar e deixado pendurado por uma perna — aquele que, de alguma forma, teve o azar de pisar na armadilha. Aquele que agora estava sendo estrangulado pela perna por um dispositivo feito de cipó extremamente resistente e outros acessórios de identificação imediata impossível. Ah, e esse alguém tinha que ser o meu traseiro idiota.Ele refletiu sobre isso por um momento, fazendo uma pausa em seus gritos de socorro. Uma coisa era certa: seu tornozelo doía por causa daquela armadilha primitiva que rasgava sua pele. Ela não o soltava, e o peso de seu corpo, somado à gravidade, fazia com que a pele se esfolasse. Os gritos contribuíam para o esgotamento de sua energia, assim como o fato de que a maior parte de seu sangue corria para o topo da cabeça. Isso o deixou em silêncio por um instante, quase levando-o à inconsciência.Seus olhos permaneciam levemente abertos, mas isso não ajudava, pois o delírio começava a se instalar. Ele certamente não conseguia ver com clareza, e o fato de não se importar em olhar para nada além daquilo que pudesse lhe causar dano também não ajudava. Essa sempre fora a sua lógica. Se algo não aumentasse a eficiência de seu trabalho, ele achava que não havia necessidade daquilo. Por isso, não prestara atenção aos olhos que o observavam da floresta. Claro que não!No entanto, embora sua atenção ao ambiente ao redor fosse mínima, os olhos que o observavam estavam muito mais atentos. Na verdade, eles estavam sempre alertas e observavam rigorosamente qualquer coisa que estivesse à espreita. Ele estava pendurado ali como um alvo fácil, completamente vulnerável e sem meios de se libertar. Os olhos registraram sua situação e perceberam que a ameaça estava imobilizada. Contudo, um par de olhos em particular já sabia sobre Brutus e sua incapacitação. Eles observavam de trás da árvore incomumente grande, logo além do campo de visão dele.Os olhos que observavam Roy e Briscoe também passaram despercebidos, pois os dois estavam ocupados demais tentando encontrar o caminho de volta de sua longa caminhada. Outro fator contribuinte era a tentativa de Briscoe de ignorar as reclamações de Roy, enquanto Roy estava ocupado demais reclamando para notar qualquer coisa. Isso — e talvez o medo também — fez com que Roy não quisesse notar nada, especialmente qualquer coisa que pudesse estar observando-o.De repente, Briscoe parou."O que houve?", exclamou Roy com sua voz habitualmente frágil."Nada. Acho que aquela colina dá acesso ao acampamento. Precisamos passar por ela.""Bom? O que você está esperando? Estou pronto!"Os dois homens seguiram em direção à colina."E agora?", exclamou Roy, perguntando-se por que Briscoe havia parado novamente."Acho que há um corpo caído ali em cima", declarou Briscoe."Espere um pouco, um corpo? Você realmente consegue ver alguma coisa? Está meio escuro com o sol tendo acabado de se pôr.""Eu sei! Tenho boa visão e acho que é um corpo caído ali.""Ah, não, cara, o que um corpo está fazendo caído aqui? Pode ser alguém da equipe."Briscoe correu rapidamente para frente, deixando Roy para trás por um breve momento. Roy logo alcançou Briscoe."Acho que é aquele sujeito, o Klinton. Ele está simplesmente caído aqui. Parece que feriu a cabeça. Precisamos ajudá-lo."Briscoe observava Klinton, Roy observava Briscoe ajudar Klinton, e os olhos observavam a todos eles.Enquanto isso, o professor Julian Akbar afastou um grosso galho e saiu para uma clareira. Seus olhos se encheram de deslumbramento, e ele foi tomado pela adrenalina e pela empolgação. Sua vida havia passado diante de seus olhos, e a ameaça vinha de três direções diferentes.Ele gritou: "Calma, calma, esperem um pouco. Qual é o problema? Guardem essas coisas. O que há com vocês? O que causou essa paranoia?"As armas dos agentes foram guardadas, mas ninguém lhe respondeu. Em vez disso, olharam para Joe, e Akbar entendeu a mensagem na hora."Ah... meu Deus! O que causou isso?""Ninguém sabe. Fomos cautelosos quando você chegou porque não sabemos como isso aconteceu. Você poderia ter sido...""Entendido, senhor. Então, qual é a história?" Kyser coçou os braços e o pescoço enquanto informava o professor: "Bem, há algo muito estranho na morte deste homem.""Como assim?""Parece uma armadilha, e este galho aparentemente faz parte dela, mas simplesmente não faz sentido.""Ei! Não estamos aqui para investigar.""É, concordo. Vamos voltar para o acampamento."O grupo começou a deixar a área e retornar ao acampamento. Pam ficou para trás, tornando-se naturalmente a última da fila. Ela não conseguia tirar os olhos de Joe. Parecia que Joe tentava lhe dizer algo, ou que a estava atrasando por algum motivo. Talvez fosse apenas um certo fascínio que a deixava ali, parada, observando-o.Aquele mesmo tipo de olhar estava voltado para Brutus; aqueles olhos o observavam. Ele estava suspenso ali, prestes a fechar os olhos, pois estava prestes a perder a consciência. Os olhos de um ser não civilizado se aproximaram e pararam bem diante de Brutus, com um olhar indecifrável e uma longa lança na mão esquerda. Pinturas rituais cobriam seu corpo, mas principalmente seu rosto. Circulando Brutus, aquele ser incompreendido começou a dançar de forma primitiva ao redor dele. Ele começou a entoar uma frase indefinida, produzindo sons harmoniosos que ecoavam em sintonia com os cânticos e louvores que ressoavam nas profundezas da floresta.Esses ruídos despertaram Brutus — não de um sono comum, mas do estado de inconsciência. Seus olhos começaram a se abrir lentamente e ele notou aquele homem completamente nu dançando ao seu redor. Isso lhe causou pavor, pois Brutus teve a confirmação de seus receios anteriores. Seus pensamentos começaram a acelerar novamente. *Merda... Fui capturado por alguma tribo de canibais.*Ele também achou que certamente morreria. "Socorro! Merda! Socorro! Socorro!" ele grunhiu e gemeu, lutando para se libertar. O medo afetara suas cordas vocais, causando distorção na voz. Mesmo assim, ele gritou freneticamente: "Ah, não! Sai daqui, porra!" Ele temia que o membro da tribo fosse espetá-lo com aquela lança. Seu grito repentino acabou impulsionando seu corpo para frente. Ele começou a balançar na própria estrutura que o mantinha suspenso. Esse movimento de balanço permitiu que ele esbarrasse levemente no membro da tribo. O homem nu fugiu, embrenhando-se na floresta.A uma curta distância dali, Pam ouviu um eco. O som a tirou de seu transe, levando-a a tentar alcançar o grupo. Brutus continuava a gritar."Ei, Kyser, acho que estou ouvindo alguma coisa."Kyser fez o grupo parar para ouvir o que Pam tinha a dizer. No entanto, Briscoe e Roy ouviram os gritos; eles estavam bem ao lado de Brutus. Aqueles gritos de Brutus, somados às exclamações de Briscoe e Roy, finalmente despertaram Klinton."Meu Deus", exclamou Klinton ao encarar, enfim, a dor que o aguardava. Uma pulsação excruciante, pior do que qualquer enxaqueca, emanava do ferimento. Mesmo assim, ele pensou em seu chefe ao ouvir gritos de socorro.Briscoe ajudou Klinton a se levantar. "Parece que vem dali." Eles dispararam na direção dos gritos."Meu Deus!", exclamou Roy."Que diabos...", disse Briscoe."Droga... Brutus...", gritou Klinton, correndo em direção a ele para ver melhor. "Brutus! Como isso aconteceu?", gritou Klinton, enquanto os outros dois pediam socorro. "Como vamos tirá-lo daí?""Não sei, continue pedindo ajuda."Enquanto isso, Kyser dizia a Pam que achava que ela não tinha ouvido nada de fato. "O que foi, Pam?"Em sinal de desaprovação, Pam não disse nada, mas continuou escutando. Ela não conseguia ouvi-los naquele momento, e as interrupções constantes de Kyser não ajudavam em nada."Veja, não há ninguém gritando. Vamos lá. O resto da equipe provavelmente está nos esperando no acampamento."Os outros concordaram, mas, por algum motivo, Pam permaneceu imóvel."Deixe-a ficar aí ouvindo fantasmas", exclamou Wesley.Pam discordou ao começar a ouvir — ou talvez apenas sentir — aqueles gritos novamente; desta vez, porém, o volume parecia ter dobrado. Pam saiu correndo na direção dos gritos, e a equipe se virou para vê-la disparar.Kyser coçou uma irritação na pele, perguntando-se o que havia dado em Pam. Wesley parou bruscamente e declarou: "Deixe-a correr. Seria bem feito se ela desse de cara com uma cobra grande." Wesley riu."Não! Vamos atrás dela. Sou responsável por todos vocês." "Qual é! Acho que não precisamos dar bola para a paranoia dela.""Cala a boca, Wesley!" declarou o professor com firmeza, acrescentando: "Só porque você é esse superagente do FBI, não significa que ela queira ficar sozinha.""Quem te perguntou alguma coisa, árabe?""Qual é a desse cara?""Muito bem, senhores", declarou Kyser. "Vamos atrás dela."O grupo saiu para alcançar Pam.Os outros examinaram os arredores da árvore onde Brutus estava pendurado, mas sem sucesso. Parecia impossível escalá-la, mas alguém precisava salvá-lo. Era apenas uma questão de tempo até que alguém os ouvisse, pensaram eles; então ficaram ali, gritando e berrando, pois essa parecia ser a única opção.De fato, Pam estava a caminho e, de repente, notou Brutus pendurado ali."Meu Deus", exclamou Pam, caminhando em direção a eles com expressão de choque."Ei, cadê os outros?" gritou Roy."Pam! Pam, acorda!", exclamou Roy com urgência. No entanto, ela permaneceu ali, encarando Brutus, ainda sob a influência de alguma força superior."Você não consegue nos ouvir? Onde...""— Onde estão os outros?""— Essa garota não serve para nada. Droga!" exclamou Klinton.A equipe que eles haviam chamado acabara de surgir no horizonte e percebeu toda a comoção."— Ei! Ajudem a gente.""— Que diabos é isso?""— Ele caiu numa espécie de armadilha."A equipe se reuniu em torno de Brutus. Tudo parecia sob controle, exceto pela questão de como descê-lo. A presença de toda a equipe trazia uma sensação de controle, mas eles estavam em estado de choque. Pam permaneceu imóvel enquanto, naquele exato momento, os sons da floresta silenciavam.Provavelmente era um olhar ameaçador que causava aquele silêncio, mas a equipe produzia estalos na vegetação ao se aproximar; contudo, aquele não era o único som de estalo. O galho acima, que sustentava Brutus, começou a rachar. Com isso, vieram as primeiras palavras compreensíveis de Brutus: "Meu Deus, sinto que estou perdendo a sustentação. Acho melhor vocês pensarem em algo rápido."O estalo soou novamente. Desta vez, foi um pouco mais alto do que todos os outros sons. Parecia o barulho de um lenhador derrubando uma árvore enorme."— Aaaah! Aaaah!" gritou Pam. Ela sentiu uma força estranha e soube — bem diante de seus olhos, uma fração de segundo antes de acontecer — que Brutus cairia para a morte. Ao atingir o chão de cabeça, Brutus morreu instantaneamente. Toda a equipe observava, atônita.Pam soltou um último grito quando Brutus se chocou contra o solo implacável. A equipe correu para socorrê-lo, e Klinton foi o primeiro a constatar sua morte."— Uau... espere um pouco. Já são dois mortos agora", exclamou Julian."— Quem mais morreu?" gritou Roy.Kyser informou a Agente Beavers sobre a descoberta do corpo de Joe.A equipe discutiu a melhor forma de levar o corpo de Brutus de volta ao acampamento. Mas não sem antes examinar o local. Wesley notou a vitalidade da árvore; ela parecia estar no auge de seu vigor."— Não tenho certeza de como esse galho quebrou. Acho que o peso dele não foi a causa.""— Então, o que foi?""— Não tenho certeza.""— Bom, do que você tem certeza?""Uma coisa é certa! Pela manhã, precisamos vasculhar a área em busca de mais armadilhas, para que essa tirania não se repita."Todos concordaram, tratando o ocorrido como um acidente. Pam não disse nada, mas sentia que não fora um acidente. Todos deixaram o local, enquanto aqueles olhos específicos observavam a partida deles. Uma formação de nuvens cumulonimbus começou a cobrir o céu noturno.No caminho de volta, alguns refletiam sobre o caráter estranho de ambas as mortes."Ei, Richard!" exclamou Wesley. "Achei meio estranho você achar que precisava de quatro agentes do FBI, mas agora tudo faz sentido. Tem algo que você não está nos contando sobre o seu projetinho? Porque, se tiver, posso acabar chutando a sua bunda.""Espere um pouco, ninguém fala comigo desse jeito. E Kyser, ponha seu funcionário na linha antes que eu tome o emprego dele. Mesmo que eu tenha que pagar por isso.""Que porra é essa? Esse cara não vai me ameaçar."Kyser acalmou os ânimos e acrescentou: "Realmente, nada disso faz muito sentido. Olha, Rich, a gente se conhece há muito tempo; então, o que está acontecendo?""Eu não sei.""Ah, é? Foi por isso que você trouxe o professor?" exclamou Wes."Ei, não me metam nessa.""Havia a suspeita de que pudesse existir algum tipo de tribo, mas nunca vi ninguém. Talvez uma tribo indígena seja a responsável por tudo isso.""Hmmm, talvez *você* seja o responsável!""Isso é um absurdo. Que diabos eu ganharia com isso e como eu poderia, misteriosamente... Simplesmente não vou dar atenção a esse comentário.""Chega!" declarou Kyser, coçando a cabeça como se sentisse dor. "Professor, o que o senhor diz?""Bem, é provável que existam tribos vivendo por aqui.""Bom... qual é a probabilidade?"O professor exibiu uma expressão pensativa e respondeu calmamente: "Eu diria que é muito provável. Na minha jornada de hoje, vi sinais da passagem de alguém.""Ah, que tipo de sinais?" "Vi algumas fogueiras abandonadas e também o que pareciam ser ferramentas descartadas — a maioria eram pontas de lança defeituosas ou talvez peças que se quebraram dentro de algum animal, o qual foi devorado ali mesmo.""Certo, nós só fizemos uma pergunta simples e isso já bastava", respondeu Klinton.Andrew se aproximou um pouco para sussurrar a Wesley: "Ele pareceu bem suspeito quando aquele tal de Joe apareceu.""Pareceu mesmo, não é? Achei que eu tinha sido o único a notar."Andrew se afastou e Wesley chamou a atenção de Richard. "Richard, acho que todos nós precisamos conversar."Todos olharam."O Andrew me disse que você pareceu suspeito quando aquele tal de Joe apareceu. Acho que você sabe de algo, e o pessoal aqui exige uma explicação."Um silêncio inquietante pairou entre eles. Só se ouviam os sons naturais da floresta."Ah, não tem nada a dizer, é?" disse Wesley.Richard estava perdendo a paciência, e sua resposta deixou isso claro. "Olha, eu já disse! Vocês não sabem com quem acham que estão falando. Vou mostrar a vocês logo cedo amanhã, porque agora vocês estão invadindo minha propriedade e eu quero que saiam daqui.""Espere um pouco, senhor! Acho que não... Tem gente aparecendo morta. Acho que é aí que nossa experiência é necessária. Então, francamente... não acho que vamos a lugar nenhum."Wesley e Richard se encaravam como se estivessem prestes a começar a luta do século. Richard reagiu com os punhos cerrados junto ao corpo. "Ah, acho que você vai embora, sim, porque não tem jurisdição aqui na América do Sul. Isto é propriedade privada e, se eu quiser, ao apertar um botão, posso chamar as autoridades competentes. Sei que vocês não são as autoridades certas. Vou entrar em contato com o governo brasileiro e mandar tirar vocês daqui!"O rosto de Richard começou a ficar vermelho. Seus punhos continuavam cerrados enquanto seus olhos se fixavam nos de Wesley. Wesley não estava nem aí para as ameaças de Richard, ou mesmo para as suas intenções. Ele se importava, no entanto, com o seu dinheiro, e não havia a menor chance de Richard escapar do pagamento. O que ele imaginava ser uma fonte de renda fácil e monótona agora se tornava algo empolgante e intenso. Aquilo era a sua praia, assim como era a de Richard.Os dois teriam continuado naquele impasse, mas Kyser fez o que fazia de melhor: assumiu a liderança. Ele se colocou entre os dois homens que discutiam e perguntou com firmeza: "Tem gente morando aqui atrás?" Ele disse isso olhando diretamente nos olhos de Richard."Olha! Eu não faço a menor ideia!""Ora, droga, Richard. Sei que você é um homem minucioso; por que não teria feito um levantamento do terreno antes? Quer dizer, você traz um engenheiro civil e agora ele está morto... e agora você fica com a equipe dele, que não parece valer droga nenhuma. Bem, talvez com exceção dos dois pilotos. Quer dizer, que diabos...""Ei! Espere um pouco aí!" exclamou Klinton. "Eu também sou topógrafo e trabalhei lado a lado com o Brutus. Não tenho diploma, mas, porra... Porra! Sou praticamente um engenheiro. Então, qualquer que seja o trabalho, ainda dá para fazer. Porra, dane-se o diploma. Só porque não tenho dinheiro para tirar um diploma, não significa que eu não possa aprender essa merda. Como eu disse: qualquer que seja o trabalho, ainda dá para fazer." "É... Bem, Sr. Klinton, ou seja lá qual for o seu sobrenome, você não é o único que sabe fazer algumas coisas por aqui. Eu sou navegador e posso levar vocês a navegar pelo mundo todo."O professor coçou o queixo e disse a Kyser: "Acho que você ofendeu algumas pessoas com seu discurso de negociação. Porque eu certamente me senti ofendido. Se há pessoas vivendo aqui atrás, acho que todos vocês precisariam de mim para negociar.""Ah, sinto muito. Não tive a intenção de ofender ninguém", disse Kyser em tom ameno, com um ar de vergonha no rosto. "É só que esses dois estão passando dos limites.""Parem com isso, parem já!" Pam gritou. Ela sentia algo profundo, que lhe tocava a alma. Seja qual fosse a situação, ela só queria silêncio.Alguns homens começaram a rir enquanto Wesley sussurrava em voz alta: "Ora, ora, será que estamos ficando meio sensíveis?"Pam saiu correndo. O barulho havia se tornado insuportável. "Pam! Pam! Policial Slaughter!" Kyser a chamou e ordenou que os homens fossem atrás dela.Pam correu direto para sua barraca para se deitar e dormir. Queria evitar o que estava sentindo e ouvindo. No entanto, a maior parte da tripulação seguiu caminhos diferentes, pouco se importando com a farsa de Pam. Andrew foi direto ver como estava sua esposa. Klinton decidiu se deitar, assim como Pam, mas o restante da tripulação parecia ter um pouco mais de energia para gastar."Ah... querida! Você está bem?" Andrew beijou a testa da esposa. "Ninguém veio te incomodar?"Ela ficou ali deitada, hesitante, levando-o a perguntar novamente: "O que aconteceu?""Ah, nada... É só que o Adam tentou me agarrar à força. Eu dei um chute nele e — *bum* — ele aprendeu qual é o lugar dele.""Ah, nem pensar! Que porra é essa... seu tarado de merda!" A raiva de Andrew explodiu enquanto ele avançava para estrangular Adam. "Seu doente desgraçado, como você pôde colocar suas mãos nojentas na minha... esposa?"Andrew gritava enquanto sacudia Adam com força, como se tentasse soltar algo preso nele. Adam lutava para se manter de pé, mas a doença o havia deixado muito debilitado. Andrew o tratou com violência, sem qualquer consideração pelo seu estado de saúde; para ele, a doença representava uma falta de respeito com sua esposa.Passos pesados ​​vieram de trás de Andrew, seguidos por um chute forte no traseiro, e então uma pegada firme interrompeu a agressão. "Deixe-o em paz; não está vendo que ele está doente?", disse Wesley."Não me importo! É bom que ele não encoste mais na minha esposa!""Escuta aqui, espertalhão. O que você acharia se eu partisse para cima de você?" Era exatamente isso que Wesley pretendia fazer. No entanto, Roy Beavers ouviu a confusão e rapidamente acabou com a briga."Ei, ei, parem com isso." Ele se colocou entre os dois e os empurrou em direções opostas."Qual é, Roy, ele está implicando com o coitado do Adam. Se ele não estivesse doente, tenho certeza de que essa perseguição não estaria acontecendo.""Eu sei, Wes, mas o cara disse que está protegendo a esposa.""Hmmm... É bom ele se proteger, porque eu estou prestes a...!""Ei, ei! Parem com isso!", gritou Kyser, que estava mais afastado.Finalmente, eles pararam de discutir, graças à intervenção de Roy e Kyser. A expressão de Andrew mostrava que ele ainda estava irritado, e isso transparecia em sua voz. "Vamos, querida!" Ele pegou a esposa pela mão e eles seguiram para a barraca. "Você está bem, meu amor?" As palavras foram ditas com suavidade e sinceridade."Sim, meu amor. Estou bem. Eu teria dado conta de mim mesma." A voz dela lembrava......e a ​​de uma criança participando de uma atividade de "mostrar e contar".O restante do grupo conseguia ouvir Andrew resmungar palavrões pesados ​​sobre o confronto com Wesley. "Aquele filho da puta veio para cima de mim por trás. Eu devia ter metido a mão na cara dele assim que aquele tal de Roy nos separou. Agora vejo que talvez eu tenha mesmo que dar uns tapas nele.""Querido, acalme-se. Está tudo bem." Ela tentava acalmá-lo, pois ele já havia esquecido o motivo original de tanta raiva: Adam tentara passar seus germes nojentos para a pessoa amada dele. Ele vira o estado em que o outro estava antes de encontrarem Joe, e era insuportável ficar perto dele. Exceto, é claro, que a sensibilidade de Pam a tornava imune aos espirros, à tosse e à limpeza de secreções. Ela tinha, de fato, um coração bondoso — e dizem que é ali que a alma repousa.Parecia que a alma inocente e já falecida de Joe havia buscado contato com ela. Mas ela não saberia disso agora, pois estava dormindo.CAPÍTULO DEZENOVE: A VISÃOEm seus sonhos, Pam via um bebê, mas a criança, de alguma forma, conseguia caminhar livremente pela floresta. A cena parecia inocente enquanto o bebê serpenteava entre árvores densas e cipós. Nada ali parecia ameaçador para o bebê e, talvez por isso, Pam sentisse-se atraída por ele. Ela tentou alcançar o pequeno, mas não conseguia ganhar terreno. Seus tropeços em enormes tocos de árvore, cipós grossos e outras formas de vegetação faziam com que suas tentativas de avançar fracassassem. Seus movimentos pareciam flutuantes, sem que ela tivesse controle sobre o próprio corpo. Isso lhe causava uma profunda dor na alma — um sentimento de pesar —, mas não tristeza. Pois o pesar é uma emoção ligada a bênçãos decorrentes de eventos que fogem ao nosso controle e geram desordem, enquanto a tristeza é algo que se pode controlar; portanto, a tristeza é uma doença. São os valores que estabelecemos para nós mesmos que nos deixam tristes. O que ela sentia era pesar, pois Pam não tinha controle sobre a situação atual. Resta saber como essas emoções se traduzem do estado de sono para a vida real.Roy, Wesley e Kyser reuniram-se na vida real e tomaram algumas bebidas alcoólicas enquanto tramavam contra Richard. Não é que o considerassem um criminoso, mas sabiam que aqueles dois incidentes não haviam sido acidentais, e Richard parecia saber de algo. A questão precisava ser investigada, mas os homens estavam exaustos. Kyser planejava fazer as malas na manhã seguinte e voltar para os Estados Unidos.— Ei, aconselho vocês a arrumarem as coisas, porque vamos embora de manhã. É melhor dormirem um pouco, porque... falo sério: logo cedo.Todos acataram o aviso. O silêncio reinou assim que todos adormeceram.Os Kemps, no entanto, permaneceram acordados, entregues àquelas atividades típicas de recém-casados. Eles começaram a fazer barulho, e Susie não queria que ninguém ali fora descobrisse seu lado exótico. Os gemidos e suspiros que ela adorava soltar eram algo realmente sensacional de se ouvir. Decidiram se afastar para que ninguém pudesse escutá-los. Assim, podiam se soltar completamente, como os animais que eram; estavam no lugar ideal para dar vazão aos seus instintos. No entanto, a maioria dos mamíferos interrompe a atividade sexual assim que a concepção ocorre; mas os Kemp não sabiam nada sobre a natureza e sua sintonia fina com a vida.Ainda assim, ela queria vivenciar uma experiência na selva. Parecia uma fantasia de infância — todos aqueles anos de adolescência apaixonada pelo Tarzan, achando-o um galã e até imaginando fugir com ele para as profundezas da selva, onde ele a violentaria... mas ela gostava da ideia. Durante todos os anos em que sua mãe a manteve confinada, ela achava que as coisas funcionavam assim. Os animais na televisão não mostravam nada diferente. Ela chegou a acreditar nas broncas da mãe quando criança — sobre meninos e várias outras noções negativas a respeito do sexo — e, por isso, Susie cresceu como uma menina moleca.Usar boné virado para trás e bater em meninos da sua idade era apenas metade da batalha de sua infância conturbada. Mas a crise de identidade sexual que quase a acompanhou até a vida adulta se dissipou no momento em que perdeu a virgindade. Ironicamente, esse evento despertou nela um certo ódio e um espírito de rebeldia contra a mãe. Tudo aconteceu quando ela tinha dezessete anos. Naquela noite, seus pais tiveram que sair às pressas devido a uma emergência. Susie estava sentada assistindo à televisão e quase pegou no sono, mas o toque alto do telefone a despertou de repente. Ela achou que fossem os pais, mas eram suas amigas, que haviam bebido. Elas riam e brincavam, tentando convencer Susie a sair. Ela recusou, pois não fazia ideia de quando os pais voltariam para casa.Pouco depois de desligar, o telefone tocou novamente. Era sua mãe, avisando que só conseguiriam voltar no dia seguinte. Susie recostou-se no sofá e ficou olhando para a televisão, sem prestar muita atenção. Pensou em como suas amigas pareciam estar se divertindo e em como ela estava entediada. O fato de não esperar aquela ligação da mãe até lhe passou pela cabeça de forma leve. Na verdade, ela havia atendido o telefone com um "não" firme, o que deixou a mãe intrigada. Susie achava que eram as amigas tentando convencê-la mais uma vez. Mas agora ela não precisava mais ser convencida; ligou de volta para as amigas e convidou todas para irem à sua casa.Até hoje, sua mãe não faz ideia de que elas receberam meninos para beber e que todas perderam a virgindade naquela noite. Bem, algumas das amigas já tinham experiência e armaram um plano envolvendo Susie. As bebidas alcoólicas nublaram seu julgamento, pois a sensação era perigosamente prazerosa — especialmente por ser sua primeira vez. A embriaguez impedia que ela sentisse qualquer dor no momento. Ela permaneceu ali, deixando que um rapaz investisse com toda a força dentro dela. Na manhã seguinte, ela se deu conta de quanto aquilo teria doído se não estivesse embriagada. Mal conseguia andar e, quando seus pais chegaram em casa, ela ficou na cama, alegando estar doente.Ao sair de seu devaneio, ela e Andrew escolheram uma árvore enorme, de raízes salientes, para se sentar. Ele a encurralou junto à árvore e começou a beijá-la com rapidez. Ela gemia livremente enquanto retribuía os beijos de...de valor igual ou maior. Os beijos dela vinham acompanhados de carícias sempre suaves e delicadas. Essas preliminares continuaram enquanto eles deslizavam pela árvore. A blusa pouco apropriada de Susie acabou rasgando na casca — que cortava como escamas de peixe —, mas isso passou despercebido, pois eles praticamente arrancavam as roupas um do outro. Eles haviam aperfeiçoado essa arte de agressividade moderada a ponto de as roupas ainda poderem ser usadas depois.Andrew não perdeu tempo para iniciar o ato sexual com a esposa. A situação parecia exigir pressa, e foi isso que ele fez, pois era o que o preenchia. Agora, com os olhos de ambos fechados ou semicerrados, eles já não podiam observar nada ao redor. No entanto, havia sempre olhos observando-os desde o momento em que saíram de suas barracas. Desta vez, como estavam parados em um único local, esses olhos podiam focar em seus alvos.Os cânticos e louvores haviam começado no momento em que o Rei desceu pelo horizonte. Na verdade, nunca pararam, embora tivessem recuado para um plano de fundo durante o dia. Agora, porém, continuavam com força total enquanto os olhos observavam atentamente. O misticismo se intensificava em proporção àqueles mesmos cânticos e louvores, e também com o aprofundar da noite. As danças que os indígenas realizavam ao redor de árvores específicas também contribuíam para isso, mas ocorriam mais adentro da selva, em uma região mais profunda do que qualquer ponto já alcançado pela civilização. O som se propagava em cascata, e um rugido silencioso envolvia toda a floresta tropical.Nada disso impedia que os olhos continuassem observando. A cena apenas se intensificava enquanto eles viam os Kemps entregues àquele ato de exposição indecente. Andrew estava sobre Susie, que mantinha as mãos estendidas; ela se agarrava às raízes da árvore para suportar o impacto das estocadas. Ele precisava se esforçar muito para satisfazer uma mulher com o histórico sexual dela. Suas mãos estavam adornadas com as belas joias que ele lhe dera; seus dedos, longos e esguios, exibiam uma manicure francesa. Absorvendo todo o amor de Andrew — e retribuindo um pouco dele —, ela vivia um momento de êxtase enquanto se segurava aos galhos.Andrew também encontrava apoio naquelas mesmas raízes salientes. Ele firmava os pés sobre elas para ganhar impulso, pois eram raízes fortes e robustas — que certamente não cederiam à força humana — e se estendiam em um padrão irregular. Susie conseguia até apoiar a cabeça em um dos muitos galhos, o mesmo sobre o qual suas mãos estavam estendidas. De fato, as raízes da árvore mostravam-se bastante úteis, permitindo que Andrew imprimisse muito mais amor em suas estocadas. Ele não era do tipo que terminava rápido demais — ou talvez fosse, afinal, após quinze minutos de movimento contínuo, ambos estavam prestes a alcançar um clímax gratificante.Susie estava totalmente entregue àquele momento, pois já havia tido dois orgasmos. O terceiro provavelmente seria o golpe de misericórdia que ela tanto desejava. Diante de tudo isso, ela nem percebia que perdera o controle sobre os braços: estes não estavam mais agarrados sobre as raízes, mas sim presos por baixo delas. O clímax se aproximava, fazendo com que tudo, naquele instante, parecesse um sonho.No entanto, as raízes que repousavam sobre suas belas mãos começaram a apertar com força. Ela começou a se debater um pouco, percebendo que a pressão se tornava cada vez mais intensa. Andrew mantinha a língua tão profundamente na garganta dela que seus pedidos de socorro eram abafados pela carne dele. Havia três opções para ela: empurrá-lo, mas suas mãos estavam imobilizadas; o comando verbal estava obviamente fora de cogitação; e sua última opção era difícil, pois Andrew prendia firmemente as pernas dela com os braços enquanto realizava movimentos rápidos e vigorosos.O chão estremeceu e Andrew começou a diminuir o ritmo dos beijos. Ao parar finalmente, ele conseguia ouvir vagamente a esposa gemendo, mas a língua dele havia esgotado a capacidade dela de gritar. Ele percebeu que ela estava em apuros, mas, quando isso ficou claro, Susie já estava sendo puxada para baixo da terra. As raízes eram as responsáveis; elas começaram a apertar os calcanhares de Andrew, imobilizando-o. De fato, ele gritou alto quando as raízes quebraram ambos os seus calcanhares com uma força avassaladora. Susie já havia sido completamente engolida; as raízes agarraram Andrew com força e começaram a puxá-lo para o subsolo. O destino deles seria a asfixia, causada pela pressão daqueles membros vegetais e pelo fato de serem enterrados vivos.No sonho de Pam, ela ouvira o grito de Andrew; naquele instante, ela se ergueu abruptamente enquanto dormia e percebeu que havia perdido o bebê. O misticismo espiritual a havia sustentado naquele sono profundo. Por fim, Pam caiu novamente e mergulhou em um sono ainda mais profundo.Naquele instante, a noite — e especificamente a área ao redor do acampamento — parecia sombria. Uma maldade sinistra pairava no ar. A natureza é frequentemente descrita como cruel e maligna, mas trata-se apenas de leis preestabelecidas. Seja um roedor sendo devorado por uma fera selvagem ou uma chuva inundando toda a região, a ira da natureza sempre foi considerada de essência espiritual. Se um estranho tentasse expulsá-lo de sua casa, você mataria? Você seria morto? A maioria das pessoas provavelmente mataria, e esse era o dilema que os habitantes da selva precisavam enfrentar. Como eram menos civilizados, essa regra provavelmente lhes era algo instintivo.Pam havia despertado subitamente, mas apenas por um breve momento. Parecia que aquele despertar estava ligado aos sinais vitais dos Kemp. No entanto, após a cessação dos sinais vitais deles, aquele rugido assustador voltou a ecoar com força. Não vinha de nenhum animal selvagem da floresta tropical, mas de um trovão feroz que sucedia clarões intensos de relâmpagos. Uma chuva torrencial começou a cair, e o grupo correu para se abrigar nas barracas. As gotas eram pesadas, e o som de seu impacto contra o solo abafava tudo, exceto a atividade dos cumulonimbus.Dizem que a vida é energia, e o que havia naquelas nuvens também o era. É possível que a energia espiritual de todos os que morreram aqui tenha se fundido e que, por isso, eles sejam forçados a assombrar esta mesma selva indefinidamente. Isso também pode intensificá-los. Pode levá-los a clamar de raiva. A chuva que caía com tanta força sobre as barracas criava ritmos para os sonhos deles, como centenas de mini-Tambores sendo aporrinhados por pequenos tamborileiros que usavam as tendas como tambores e a chuva como baquetas; para os corações deles, aquela música era certamente pavorosa.Os de bom coração foram tomados pela tristeza. Os de coração frio, pelo terror. A aura que invadia a mente dos intrusos agia como uma invasora de sonhos: imobilizava-os, deixando-os incapazes de se mover e extinguindo qualquer desejo de despertar. A intensidade de suas emoções em nada ajudava. A chuva parecia representar algo que os prendia àquele lugar; era como se as nuvens cuspissem pregos, e o impacto os fixasse no chão como um carpinteiro pregando compensado com uma pistola pneumática.No entanto, aquela chuva de pregos prendia a tripulação aos seus sonhos de uma natureza senciente. Parecia que estavam presos dentro de uma garrafa; gritavam a plenos pulmões, mas ninguém os ouvia. Eram pequenos demais para serem vistos — e gritavam, sim, mas apenas nos confins de seus sonhos.Richard se revirava na cama, mas não conseguia acordar, por mais que tentasse. Vozes ecoavam em sua mente adormecida. Era o Sr. Neuheisil pressionando-o. "O que está acontecendo, Richard? Por que ainda não recebemos aquele relatório? Sei que você quer aproveitar esta oportunidade, então fico imaginando se não há algo que você esteja escondendo de nós."Richard encarou o Sr. Neuheisil e sentiu um calafrio, pois os outros investidores o cercavam. Todos concordavam, especialmente o perspicaz Winterlin. Todos também apoiavam a repreensão do Sr. Neuheisil. Para Richard, eles pareciam humanos possuídos por demônios, a um passo de devorá-lo. Richard estava aterrorizado. Então ele tentou fugir correndo, mas, em vez de correr, descobriu que tinha a capacidade de levitar. Ele flutuou em direção à floresta densa e escura, tomado pelo pavor.Por alguma razão, um desejo ardente impulsionava Richard. Esse desejo estava voltado para a conclusão do projeto, pois os investidores lhe causavam pavor. Como não conseguia acordar, o melhor a fazer era voar e terminar o projeto, conforme sugerido pelos investidores demoníacos. Ele voava pela mata, mas não conseguia enxergar nada. O suor escorria por seu rosto, denunciando seu medo. Ele também estava angustiado por flutuar sozinho pela selva.Não surgia nenhuma pista sobre como agradá-los. Sua preocupação crescia à medida que ele avançava mais e mais. O ambiente tornava-se sombrio conforme ele se aprofundava. Parecia que a esperança fora ofuscada pela escuridão; tudo o que se via eram as silhuetas escuras de árvores gigantescas. Elas também pareciam possuídas e poderiam até devorá-lo se ele se aproximasse demais.No sonho, Richard arregalava os olhos na tentativa de enxergar, sem perceber que o próprio medo o impedia de ver. A única parte de seu corpo que funcionava além do normal eram suas emoções. Todas as emoções estavam ligadas àquela força mística, assim como os egípcios estavam ligados à adoração do sol. A única diferença, ali, era que Richard não tinha escolha. Os mesmos olhos que observavam na vida real observavam também no sonho, mas, desta vez, Richard parecia notá-los mais.Ele se deixou levar pelo profundo medo emocional que o atraía para aquele longo e sombrio caminho. Ele ficou ainda mais nervoso ao não encontrar pistas nem ninguém para ajudá-lo. Sabia que os investidores eram demônios, por isso agia com cautela. Por alguma razão estranha, aquela sensação de estar sendo devorado não o abandonava. A paranoia disparava descontrolada, como labaredas que faziam seu sangue ferver.Ao começar a desacelerar, sentiu o pânico gerado pela incerteza de seus sonhos. Por que estava diminuindo o passo? O que havia à sua frente? O motivo da desaceleração era sua principal preocupação, mas ele não conseguia compreender a razão de seu próprio movimento. O que não teve tempo de entender foi que seu medo e sua ansiedade estavam diretamente ligados aos seus movimentos. Quando parou completamente, suas emoções atingiram o auge ao cruzar o olhar com um rosto pintado.Seus olhos, embora fechados, pareciam mais abertos do que nunca. Seu rosto estampava o choque, mas de maneira calma e contida. Ele não conseguia se mover; restava-lhe apenas um olhar fixo e aterrorizado. Ambos os pares de olhos mantinham essa fixidez, mas a frustração corroía Richard, pois ele queria correr e não conseguia. Estava escuro, mas, para Richard, aqueles olhos captavam tudo. Esse fato, somado ao rosto pintado, alimentava seus medos, baseados unicamente no desconhecimento de sua própria desgraça. Richard já havia feito seu julgamento: passou a odiar aqueles olhos desconhecidos e tudo o que representavam.Os sonhos se intensificaram, e Julian Akbar viu-se chorando no meio da floresta escura. Não estava claro se o choro se devia ao fato de estar perdido na mata ou se era apenas parte do sonho. Sua excitação cresceu ao perceber um amor à primeira vista permeando a floresta. Uma mulher indígena nua corria de forma brincalhona. O desejo do professor de segui-la tornou-se insuportável. A perseguição começou, e uma profunda tristeza surgiu em seu íntimo. Ele não conseguia alcançá-la, e a escuridão fazia com que sua presa desaparecesse ao longe.O medo começou a crescer quando percebeu que não a alcançaria. Viu-se embrenhado em meio a árvores e cipós, mas não desistiu da perseguição. O equilíbrio entre tristeza e medo oscilava drasticamente. Por ora, a tristeza permanecia em segundo plano enquanto ele se esforçava ao máximo para alcançar aquela mulher. Não havia mulher alguma esperando por ele em casa; então, por que não? O amor atormentava Julian, pois ele jamais o havia vivenciado. O mais triste é que isso provavelmente incluía sua família e seus alunos. A solidão contribuía para suas mágoas, mas o surgimento do homem de rosto pintado despertava nele o medo.Lá estava ele: com os genitais envoltos em um simples pano e sem qualquer outra vestimenta, exceto pelas diversas cores que adornavam seu rosto como uma tatuagem ritualística. Embora a pintura de fato ocultasse a identidade daquele homem, Julian via claramente a lança que ele empunhava com firmeza. Tudo aconteceu num instante, pois já estavam em seu encalço. Julian correu o mais rápido que pôde pela mata fechada, mas acabou encurralado em um beco sem saída. Sua vida...A imagem que surgiu diante dele enviou uma onda de choque por todo o seu corpo enquanto ele erguia o olhar para o que bloqueava o seu caminho.Era uma versão zumbi de Wesley, com uma cobra grossa enrolada em sua cintura como uma saia. Havia também uma cobra em volta de seu pescoço. Wesley parecia anormalmente grande e exibia o olhar de um animal à caça de sua presa. Julian desviou rapidamente para a esquerda enquanto continuava sua fuga, mas o homem com a lança já estava quase o alcançando.O Sr. Akbar aproximou-se de uma clareira naquela selva onírica. Sentiu um certo alívio ao notar seus companheiros espalhados pelo local. Eles permaneciam imóveis, encarando Akbar. Julian gritou em desespero e uma mão se estendeu para Akbar, mas, no momento em que o ajudante se aproximava para socorrê-lo, a lança foi arremessada em sua direção. Ele caiu bruscamente quando a lança perfurou a garganta do ajudante. O corpo tombou sobre Julian, dificultando-lhe levantar. Quando finalmente conseguiu se erguer, já era tarde demais. Ele havia sido capturado e levado para as profundezas da floresta, talvez para nunca mais ser visto.O captor do professor era forte e de porte robusto. Parecia-lhe simples carregar o professor com rapidez. Pendurado nas costas do indígena, o professor parecia incapaz de escapar. No entanto, ele ficou impressionado com a maneira como seu sequestrador se deslocava pela floresta. Ficou evidente que o nativo sabia exatamente onde estava e para onde ia.Uma grande cerimônia estava em andamento no meio da floresta, diante de uma fogueira colossal. Dançarinos realizavam um ritual. Uma barreira de árvores imensas separava aquela área do restante da floresta. O coração do professor disparou ao pressentir algo. Essa palpitação tornou-se perceptível para Julian, deixando-o preocupado. Ele sabia que culturas sul-americanas realizavam cerimônias nas quais o coração era extraído pelas mãos nuas de um sacerdote. Havia todo tipo de mito em torno do coração. Acreditava-se que era ali que brilhava intensamente aquela pequena centelha de luz presente em todo ser vivo — o ponto incandescente que dava força à alma.Aquela cultura específica acreditava que um sacrifício do coração ao meio-dia seria uma oferenda ao deus-sol. Isso enviaria a alma do sacrificado diretamente aos céus, talvez para se tornar uma estrela que guiaria as gerações futuras. O fato de ser noite intrigava o professor. Ele se lembrou de ter aprendido que, se o ritual fosse realizado à meia-noite de uma lua cheia, uma alma poderia ser banida para o submundo. Isso o aterrorizava de verdade. Embora seus colegas considerassem o assunto apenas um mito, Julian havia levado alguns desses mitos a sério. A ideia de que aquilo poderia ser feito com ele o deixava profundamente inquieto.No entanto, a cerimônia parecia já estar em andamento. De repente, ele foi jogado no chão ao lado de uma mulher de uma tribo. Parecia ser a mesma que ele estava perseguindo. Contudo, antes mesmo de poder celebrar a vitória de ter capturado sua amada, ele sentiu que algo estava prestes a acontecer. Havia guardas ao seu redor. Eles começaram a empurrá-lo, junto com a mulher, enquanto o ritmo dos tambores se intensificava.O olhar do professor tornou-se sombrio quando ele olhou para trás e percebeu que aqueles guardas eram Jerry e Briscoe. O medo aumentou ao ver que uma lança estava atravessada na garganta de Briscoe e que um pedaço enorme do rosto de Jerry parecia ter sido arrancado a mordidas. O professor gritou para acordar, mas não conseguia despertar, por mais que se esforçasse.CAPÍTULO VINTE: O REI DOURADOO raio do rei dourado perfurou o horizonte, banindo toda a escuridão e todos aqueles que nela habitavam espiritualmente. Os espíritos foram os primeiros a se dissipar sob a luz solar gloriosa. Os pequenos roedores e insetos noturnos vieram em seguida. No entanto, havia alguns que não temiam a luz do sol; pelo contrário, apreciavam-na imensamente. Os membros da tripulação eram os principais exemplos disso, pois a luz era a única coisa que os ajudava a despertar do sono.Outro candidato feliz era Edward Pullins. Não que ele tivesse vivenciado o estresse e a agitação da tripulação do suspeito, mas ele parecia genuinamente ansioso para seguir rumo à América do Sul. Ele nunca havia saído do país, e a perspectiva de embarcar em uma caçada a um fugitivo não autorizada o deixava maravilhado. Edward Pullins elogiava a postura firme de Nick ao recusar o pedido para guiá-lo. Ele não fazia ideia de por que Nick relutava tanto em retornar. Como não tinha real interesse no motivo, embarcou no voo preparado sem qualquer hesitação.Embora a rejeição ainda perturbasse suas emoções, ele estava certamente satisfeito por estar a caminho. Pensamentos de proporções heroicas, aliados à coragem e à bravura, percorriam suas veias. Era como água corrente; mas, no caso dele, o fluxo de sangue carregado de emoção, indo do coração para o músculo do pensamento, abastecia sua mente com o combustível necessário para capturar Richard.Edward também sentia um certo desconforto. Não tinha certeza do motivo de tanta empolgação. Um formigamento percorria sua espinha, causando-lhe preocupação, pois era a mesma sensação que tivera naquela manhã, ao acordar abruptamente. Ele encarava aquilo com bom humor, já que nunca se lembrava realmente de seus sonhos, mas aquele ainda permanecia vagamente em sua memória. Apenas lampejos e vislumbres estavam ao seu alcance. Ele tentava afastá-los olhando pela janela e concentrando-se nos objetos que, lá fora, pareciam diminuir de tamanho à medida que se distanciavam.Não se lembrava de tudo, mas o suficiente para sentir arrepios percorrendo seu sistema nervoso. A sensação também parecia estar ligada ao seu desejo de chegar à cidade de Macapá. A cidade lhe parecia misteriosa, pois nada sabia sobre ela; contudo, aquele lugar, do qual nunca ouvira falar antes, assumia uma importância imensa. O anseio por alcançar seu prêmio — a captura de Richard — fervilhava dentro dele. Ele entendia o quê e quem perseguia, mas não conseguia compreender o porquê.Ainda assim, havia agora uma paixão profunda pela captura de Richard, custasse o que custasse. Essa mesma determinação poderia ser a razão do sucesso ou do fracasso de Edward. Esse frenesi mental fazia o tempo parecer voar; de repente, ele percebeu que faltavam apenas trinta minutos para chegar a Macapá. Esses últimos trinta minutos seriam um desafio, pois sua estabilidade mental começava a vacilar. Ele pensava naqueles sonhos — em flashes e pulsações —, o que o fazia balançar a cabeça contra a janela. Parecia que ele estava sofrendo de enxaqueca, mas, na verdade, pensava em Gunther. O que ele diria se soubesse para onde Edward estava indo? Todas essas emoções alimentavam seu desejo e, em pouco tempo, ele veria o que teria de enfrentar.Kyser Finley foi praticamente o primeiro a ser despertado pelo sol inclemente; no entanto, a umidade intensa que se seguiu a uma noite de chuva torrencial dominava aquele dia, que prometia ser abrasador. O único alívio vinha da densa cobertura formada pelas árvores e cipós da selva. Não foi difícil para Kyser ser um dos primeiros a acordar — a coceira intensa não lhe dava trégua. Contudo, os sonhos vívidos, aparentemente provocados pela chuva torrencial, foram a única razão pela qual a irritação física não o impediu de dormir.Um dos poucos sinais do amanhecer era o sol rompendo a cortina de chuva. O astro-rei só podia ser visto parcialmente, através de algumas clareiras na selva, mesmo ao meio-dia. O sol não era a única coisa a subir; o calor também se elevava rapidamente.— Aaaah! — gritou Adam. O grito continuou, carregado de dor. Pam parecia ser a única a ouvi-lo, ou pelo menos a primeira a demonstrar alguma preocupação. Na verdade, Kyser fora o primeiro, mas ignorou os gritos do homem por um momento. Depois, espiou dentro da barraca de Adam.— Caramba, você está bem, Adam? Você está com uma cara péssima.Adam não respondeu de forma compreensível, emitindo apenas gemidos e grunhidos indecifráveis.— Aguenta firme, cara, vou chamar a Pam. — Kyser soltou a aba da barraca, com uma expressão de repulsa. "Ai, ai, ai", Adam se revirava de um lado para o outro e não conseguia dormir de jeito nenhum. A doença havia tomado conta dele e era o principal motivo pelo qual ele agora só se expressava através de gemidos."Pam!", gritou Kyser. "Pam, você poderia dar uma olhada no Adam? Ele está com uma cara de... sei lá, uma cara de merda."Pam respondeu em tom suave: "Você também não parece nada bem. Olha só isso", disse ela, segurando o braço dele e mostrando alguns hematomas graves. Estavam extremamente vermelhos e pareciam prestes a criar bolhas. "Olha esses hematomas. Como isso aconteceu?"Kyser puxou a mão bruscamente e respondeu na defensiva: "Não sei. Talvez seja hera venenosa."Pam olhou para ele com desdém e comentou: "Ah, não, acho que isso não é hera venenosa. Eu realmente não sei o que é.""Bom, isso é porque...""Você não é médica. Você é uma agente do FBI.""Sabe... não precisa ser médica para saber que isso não é hera venenosa. Parece ser algo mais grave." Pam puxou os braços dele para mais perto e notou várias escoriações. "Vem cá, Ky!" Ela levantou a camisa dele para examiná-lo e percebeu arranhões profundos que ele havia feito em si mesmo durante a noite."Ai, meu Deus," Pam exclamou com profunda compaixão."Estou bem!" Kyser exclamou com firmeza. "Enquanto estamos aqui perdendo tempo com alguns arranhões e hematomas, Adam parece estar prestes a pegar fogo.""O quê? Você mediu a temperatura dele?""Você está vendo um maldito termômetro ou eu pareço uma médica para você? Eu imaginei... bem, porque ele está suando muito e parece que quer morrer. Então, você pode ajudá-lo? Droga, você é mulher e é mais adequada para essas coisas de berçário."Pam olhou para Kyser em desespero, pegou seu kit de primeiros socorros e correu para ajudar o pobre Adam.Kyser a seguiu por um breve momento, mas logo desviou o caminho para reunir os outros. Ele enfiou as mãos pela abertura da barraca de Roy e exclamou: "Ei, Roy, levanta!""Já estou de pé! Impossível não acordar com essa sua boca grande. Você ainda está se coçando? Notei isso ontem à noite. Alguma coisa te mordeu?""Você fala igual à Pam.""É mesmo? Bom, então talvez ela tivesse razão.""Sobre o quê? Que eu preciso de tratamento? Pois é, eu sei disso, mas não vejo nenhum médico por aqui, vejo?""Engraçado você falar isso. Tive um sonho estranho ontem à noite. Não conseguia acordar. Parecia que um médico estava tentando matar um homem. O homem... acho que tentava chegar aqui. É, aqui, bem onde estamos. Hmm... acho que ele tentava nos dizer alguma coisa."Kyser riu. "O que ele tentava nos dizer? Estava tentando nos avisar que alguém também queria nos matar? Ha! Mesmo que houvesse alguma premonição no seu sonho, ela não se concretizaria, porque já teremos ido embora há muito tempo. Vamos cair fora daqui. O Adam parece ser o próximo a morrer e, como testemunhamos parte dessa tragédia, é nosso dever levar o corpo para casa. Além disso, agora que a pessoa que deveria fazer o levantamento morreu, quem vai fazer o trabalho? Não há motivo para ficarmos aqui.""É, acho que você tem razão. E não acredito que seu amigo esteja nos contando tudo o que há para saber.""Meu Deus, olha só para você! Você precisa ir para um hospital", disse Pam. "Venha cá!" Ela foi pegar Adam nos braços para consolá-lo, mas, ao mesmo tempo, revirava seu kit de primeiros socorros. Essas atitudes faziam a gente se perguntar por que ela não era enfermeira."Estou com frio, Pam", disse Adam com uma voz fraca e esganiçada, parecendo estar à beira do colapso. O suor escorria pelo seu rosto. "Escute, Adam! Você precisa me dizer com o que pode ter entrado em contato."Adam virou-se nos braços de Pam, encarando-a nos olhos com um ar de derrota. "Eu... eu... não tenho certeza.""Algo te mordeu? Talvez fosse venenoso. Você tocou em algum tipo de planta? Preciso saber, porque o Kyser parece ter sido afetado também, mas vocês dois parecem estar sendo afetados de maneiras diferentes."Pam se esforçou para extrair informações de Adam. A primeira reação dele foi um espirro horrendo, o que levou Pam a mover a cabeça rapidamente para evitar que seu rosto servisse de alvo. O incidente também provocou comentários sarcásticos dos membros da equipe."Espero que isso não seja contagioso", disse Kyser.Pam parecia desesperada, mas não deixou que isso a impedisse de oferecer calor e conforto a Adam."Cuide bem dele!", declarou Wesley. "Coitado do Adam. Precisamos levá-lo para casa.""Acho que você tem razão, Roy!""Então, qual é o plano?" Wesley exigiu uma resposta. Ele havia entrado na equipe recentemente e sentia-se por fora do que estava acontecendo."Acho que precisamos avisar o Richard sobre a nossa partida — não há necessidade de ficarmos aqui. Também precisamos de um pouco de atendimento médico." Kyser olhou fixamente para Pam e continuou: "Acho que somos todos homens; uma gripe e uma coceira não vão fazer mal. Estaremos em casa amanhã."Os três agentes do FBI foram até a barraca de Richard. Eles correram para lá como se estivessem em uma operação de vigilância, agindo como US Marshals em uma caçada a um fugitivo."Ei! Rich! Rich!", chamou o Sr. Finley, com voz incisiva.Algo enorme parecia ter tomado conta de Richard, pois ele estava despertando de um pesadelo. Ele cumprimentou os homens antes mesmo que chegassem à barraca, exibindo a expressão e a postura de alguém que havia recebido informações por telepatia."Sim, senhores?""Rich! Precisamos conversar." Kyser falou baixo e com firmeza, demonstrando o devido respeito pelo amigo. Ele queria deixar uma coisa clara: "Estamos encerrando tudo.""O quê! Como assim?""Quero dizer exatamente o que disse...""É! Acho que ele entendeu perfeitamente.""Wesley... deixa comigo! Você conhece o Richard; ele finge surpresa.""É que eu sei que a situação é difícil, mas ainda não consegui avançar muito.""Avançar muito? Que porra é essa? Esse cara é louco?" disse Wesley.Kyser acalmou Wesley, colocando as mãos sobre ele para contê-lo. Richard manteve a postura firme, sem demonstrar o menor medo. Seu projeto era de extrema importância, então ele continuou sua argumentação."Olha, não preciso de muito mais tempo, talvez mais um dia. Esta noite não foi tão ruim.""Acho que você deveria falar por si mesmo. Tive um pesadelo horrível ontem à noite e não faço questão de passar outra noite aqui." Roy finalmente conseguiu dar sua opinião na discussão. Ele estava de bom humor por sentir que havia sido ouvido."Acho que a decisão é unânime: vamos cair fora daqui", disse Wesley.Kyser manteve contato visual com Richard, mas desviou o olhar lentamente. "Ei, peça para a Pam vir aqui", ordenou Kyser, e alguém prontamente o atendeu.Klinton Westfield não se importava em acordar tarde, mas hoje não conseguiu bater seu recorde pessoal. Imagino que a noite de sono não tenha sido agradável, e a agitação lá fora incomodou seus ouvidos. Ele saiu da barraca com expressão de raiva: "Merda!" Não era o lugar ideal para acordar. O ar abafado lhe causava repulsa. A superfície escorregadia, causada pela chuva, tornava a caminhada um desafio perigoso. O calor e a umidade pareciam forças diretas agindo sobre sua angústia.Ele caminhou apressado em direção aos amigos com quem mais se identificava: Andrew e Susie. Lutando para avançar pelo terreno lamacento, Klinton ficou ainda mais irritado ao perceber que a barraca deles estava vazia. Então, ignorando os problemas causados ​​pela lama, ele correu em direção aos outros. Klinton entrou rapidamente na barraca de Briscoe e o viu deitado, imóvel. No entanto, após um instante, Briscoe ergueu a cabeça apenas para olhar para Klinton por um momento. Em seguida, deixou-se cair para trás, sobre seu colchonete. Klinton certificou-se de que Jerry estava acordado — o que não foi tarefa fácil —, mas ninguém tinha visto Andrew."Ninguém viu Andrew e Susie!""Quem!?""Os pilotos, seu idiota. Eles sumiram."Praticamente todos ouviram e se reuniram em volta de Klinton."Quer dizer que ninguém os viu?""Ei, ei, calma lá. Eles provavelmente acordaram cedo para verificar os helicópteros; mas que tal você e a Pam irem dar uma olhada neles, de qualquer forma? É provável que vocês os encontrem no caminho."Richard não gostou dos últimos comentários de Kyser e aconselhou: "Olha, você insiste em ir embora, mas eu não fazia ideia de que essas pessoas acabariam morrendo. Obviamente, o que aconteceu foram apenas acidentes, e isso não é motivo para parar de trabalhar. Quero dizer, o trabalho continua, assim como a vida. Acho que precisamos enviar os corpos para que tenham um enterro digno e, então, simplesmente terminar nosso serviço.""Espere um pouco, e quanto ao seu amigo Brutus? Ele morreu recentemente, e a causa ainda é um mistério. Acho que estamos lidando com uma questão moral aqui. Quer dizer, em que ponto estamos desrespeitando os mortos?""Bom, não haverá enterro para os Kemps, porque eu vou encontrá-los!" disse Klinton, saindo em disparada."Espere um pouco! Somos uma equipe. Não saia correndo por aí e acabe se perdendo.""Bom, não acho que vamos muito longe sem os pilotos."Isso chamou a atenção da equipe. "Certo, primeiro, por que você e a Pam não vão verificar os helicópteros enquanto nós procuramos por aqui?""Espere um pouco! Eu não trabalho para você nem para nenhum de vocês.""Bom, qual é o seu nome mesmo?" disse Wesley, em tom sarcástico. Ele então apontou para o corpo sem vida de Brutus enquanto falava. "Olha, lá está o seu chefe. Parece que ele não vai ser de muita ajuda para você."Não havia tempo para discussões, então Kyser interrompeu: "Vejam só, senhores. Todos nós precisamos trabalhar em equipe e, se quiserem sair daqui o mais rápido possível, sugiro que colaboremos uns com os outros. Também precisamos ficar atentos àquelas armadilhas que deixaram o Brutus nessa situação.""Você acha que um dos pilotos caiu em uma daquelas armadilhas terríveis?" perguntou Pam.Klinton concordou: "É, acho que preciso encontrar meus amigos.""Se não resolvermos a questão do helicóptero, não vamos a lugar nenhum de qualquer forma; portanto, essa é a prioridade."Richard obviamente não gostou do que estava ouvindo, e não demorou muito para que ele achasse insuportável continuar sem ser ouvido. "Pessoal, parece que já superamos o pânico. Vocês agem como se houvesse algo à espreita para nos pegar. Quer dizer, foram acidentes bizarros. Todos sabemos que coisas assim não acontecem com frequência, então é altamente improvável que algo semelhante aconteça com aqueles de nós que restaram. E quanto aos cidadãos corajosos que decidem fazer o que for preciso para alimentar suas famílias...""Merda, alimentar minha família. Sobre que porra esse cara está falando?""O ponto que quero levantar é que muitas pessoas perderam a vida trabalhando em minas de carvão ou em grandes barragens para que nosso país tivesse energia suficiente; ou pensem nos mineiros que extraem suas preciosas pedras e metais para que vocês possam deixar a luxúria comandar seus pecados. Nós somos esses cidadãos corajosos. Temos um trabalho a fazer, e vocês estão na minha folha de pagamento — um contrato foi assinado."Kyser lançou um olhar atravessado para Richard. "Espere um pouco, Richard. E quanto ao Brutus? Ele está morto. Eu... eu achava que meu amigo tivesse mais compaixão do que isso."Richard olhou para si mesmo e endireitou a postura visivelmente. "Você tem razão! Olha, tenho acesso a uma funerária na terceira ilha a leste. Jerry e Briscoe podem escoltar os corpos, mediante um incentivo extra, é claro. Assim, o corpo do Brutus será preservado até terminarmos.""Richard, mas ele não era o engenheiro e o único qualificado para o trabalho?""Sim, mas Klinton Westfield é um executivo da empresa dele, e tenho certeza de que ele consegue terminar as tarefas restantes. É apenas um relatório simples para meus investidores, informando que este é um local ideal para o meu projeto. Brutus falava muito bem do Klinton."Klinton ficou perplexo. "Ele falava!?""Sim, Klinton; ele me disse que você era o braço-direito dele. Além disso, que você estava assimilando bem os ensinamentos dele e que seu conhecimento agora equivalia a um mestrado em engenharia civil. Sua formação acadêmica não importa, já que o relatório será apresentado em nome da empresa." Klinton não conseguiu esconder um sorriso. "Bem, acho que você tem razão. Sou bom no que faço, mas jamais trabalharia para um sujeito daquela laia."Kyser quebrou o clima com palavras suaves. "Pam! Você e Klinton, tratem da questão dos helicópteros. Tenho quase certeza de que seus amigos foram verificar nosso transporte de volta.""Ahhg... Ahhg" — sons que vinham da única barraca ainda não verificada.A equipe aproximou-se dos gritos com cautela e certa preocupação. Julian Akbar saiu de sua barraca, apenas para se deparar com olhares de incompreensão e hostilidade."O quê! O que estão olhando? Tive um pesadelo e não conseguia acordar.""Bem, todos tiveram uma noite agitada, mas esta será a última.""Ah, é? Achei que ficaríamos aqui por mais um dia, mais ou menos.""Houve uma mudança de planos."O professor perguntou-se qual seria o problema. "Cadê o Richard?" Naquele momento, ele realmente não fazia ideia. "Alguém pode me atualizar?""Bem, mandamos a Pam e o Klinton encontrarem os Kemp.""Encontrar os Kemp? Onde?""Acho que eles podem ter ido verificar os helicópteros.""Você acha?""Bom, na verdade não sabemos onde eles estão agora, mas estamos deduzindo onde mais poderiam estar. É óbvio que eles se levantaram um pouco mais cedo e fizeram o que qualquer bom piloto faria.""E o que seria isso, Kyser?""Cuidar do seu orgulho.""Orgulho, Kyser?""Você sabe que o Kyser às vezes fala em hieróglifos invertidos.""Sim, orgulho da aeronave que pilotam."CAPÍTULO VINTE E UM: A BUSCAO calor do dia aumentou consideravelmente, acompanhado pelo canto dos pássaros e pelos sons dos animais. A umidade era o fator predominante, já que a outra fonte de calor estava praticamente bloqueada pelas árvores gigantescas que margeavam a trilha por onde Pam e Klinton passavam. As árvores erguiam-se imponentes sobre suas cabeças, conferindo um significado real ao conceito de selva.Pam e Klinton percorriam a trilha a passos rápidos; felizmente, ainda havia luz do dia. Os dois não haviam dito muita coisa nos primeiros vinte metros, mais ou menos, mas Klinton seguia logo atrás, atento a tudo. Ele se perguntava por que ela demonstrava tanto interesse na vegetação variada."Então, Agente Slaughter...""Ah, pode me chamar de Pam. Acho que, numa situação como esta, 'Pam' é mais apropriado.""Bom, Pam, o que a levou a combater o crime?""Acho que a graça de Deus.""E onde você se formou? Não é preciso ter diploma para ser agente do FBI?""Eu servi nas Forças Armadas.""Você não fez faculdade?" perguntou Klinton, surpreso."Eu poderia ter feito. Cheguei até a recusar várias bolsas de estudo que me ofereceram, mas...""Mas o quê?! Quem me dera ter tido a chance de fazer faculdade. O quê, você era muito inteligente ou algo assim?""Claro, mas não foi por isso que me ofereceram as bolsas. Eu praticava esportes.""O que, em nome dos céus, faz você querer lutar pelo Tio Sam?""Bem, eu sempre sonhei em servir ao Exército. Você pode até rir, mas acho que... como eu praticava esportes desde muito nova e me lembro daquele comercial: 'Seja tudo o que você pode ser... no Exército'..." Pam cantou o jingle exatamente como se lembrava dele. "Acho que minha natureza competitiva nos esportes era, às vezes, impulsionada por aquela música-tema. Ela realmente influenciou meu desejo de me tornar uma oficial de alta patente nas Forças Armadas. Mulheres em altos cargos eram o que faltava — se é que havia algo de inadequado em nossas forças militares.""Pois é! Isso nos leva de volta à pergunta que fiz antes. Como você se tornou agente do FBI?""Ah, bem... descobri que as Forças Armadas estavam me fazendo viver um sonho." "Como assim? Você não subiu de cargo nem um pouco?""Claro que subi. Mas a maioria das promoções eram apenas aumentos salariais simples, sem valor real. Isso me levou a acreditar que uma mulher só seria considerada para ascensão até certo nível, ficando estagnada depois disso. É claro que eles dão a impressão de que você tem uma chance, mas na verdade não tem. Basicamente, cheguei ao cargo mais alto que consegui — ou melhor, até onde minha paciência permitiu. Sei lá, acho que decidi me candidatar e aqui estou eu.""Ah, então é aqui que você está! Ha! Esse é o seu conceito de trabalho?""Espere um pouco. Pelo que vejo, o seu trabalho também o mantém aqui comigo." Pam mostrou-se surpreendentemente incisiva em seus comentários e gestos, algo bem diferente da sua habitual natureza compassiva.Klinton notou essa atitude diferente. "Nossa, você está mesmo...""Chega de falar de mim — e você? Por que está aqui?" O tom de Pam mudou ao fazer essa pergunta casual. Ela tentou caminhar rápido pela trilha, mas o interesse por várias plantas dificultava o passo acelerado.De repente, Pam parou e se abaixou, exibindo um charme irresistível. Klinton admirou a cena enquanto ela examinava uma planta."Olha, minha cara, não é hora de colher rosas. Caso você não saiba, eu quero ir para casa. Posso te mostrar vários lugares lá onde você pode praticar jardinagem.""Dá para ficar quieto? Estou tentando ver uma coisa.""Importa-se se eu perguntar o quê?""Os caras lá atrás estão passando mal, e estou querendo saber se eles podem ter entrado em contato com algo desagradável."Klinton inclinou o corpo para olhar mais de perto e comentou: "É, acho que isso explicaria a parte desagradável. Olha! Tem esses espinhos ao longo do caule. Parecem pequenas agulhas verdes esperando para perfurar a pele de alguém.""Não tenho certeza se o Adam ou o Kyser entraram em contato com isso. Nem sei se essa planta causaria esses sintomas.""Imagino que você não queira fazer o teste."Pam olhou para Klinton com uma expressão de incredulidade. "Aqui, me dê isso." Ela apontou para o que Klinton segurava na mão."O que você vai fazer? Tirar uma amostra, ou algo assim? É bom tomar cuidado com isso." Ele entregou o item solicitado a contragosto.Ela pegou a planta, esforçando-se ao máximo para não se espetar. "Ei! Cuidado! Que diabos você vai fazer? Aplicar uma vacina ou algo do tipo... Doutora?"Pam olhou para ele e pensou: *Como diabos eu vou fazer isso?* Ela respondeu: "Não, não sou médica, e duvido que qualquer médico conseguisse sintetizar uma vacina a partir de uma planta ali mesmo. Mal temos equipamento adequado para medir a temperatura ou fazer curativos."A planta foi guardada em segurança e eles prosseguiram a jornada. Como de costume, Pam seguia à frente, destemida diante da floresta à luz do dia. Klinton não via problema algum nisso. Ele apreciava mais a vista caminhando atrás da Agente Slaughter — e que bela vista ela proporcionava."Pam", disse Klinton, com segundas intenções. "Você é uma mulher sexy."Pam parou de repente e exclamou: "O quê!?""Ah, ah, estou só brincando. Eu não quis dizer que você é sexy. Quer dizer, quer dizer, eu... você é uma mulher sexy, eu só não qu..."...queria te dizer que... neste momento."Klinton parou e olhou para Pam. Ele ponderou se seria mesmo necessário rever aqueles comentários. Não importava muito, pois Pam olhou para ele rapidamente e continuou andando."Espere um pouco, Pam, vá mais devagar", disse ele, apressando o passo para alcançá-la, enquanto crescia sua ansiedade pela próxima pergunta. "Você é casada, Pam?""Ah, agora você está dando em cima de mim.""Não! Não, isso não é verdade. Não estou dando em cima de você nem de ninguém. Eu nem costumo agir assim; é só conversa fiada. Deve ser você quem quer que alguém dê em cima de você.""Não!"Um sorriso surgiu no rosto de Klinton enquanto os dois engatavam uma conversa descontraída e interessante. Klinton continuava impressionado com a forma física de Pam e, de propósito, deixava que ela andasse mais rápido."Você certamente não está tendo problemas com essa lama", exclamou Klinton, sentindo a frustração crescer à medida que a lama grudava em seus sapatos."Eu fui criada para suportar condições adversas e também para não reclamar de situações desconfortáveis", disse Pam com confiança, sem diminuir o passo."Ah, imagino que isso faça parte do trabalho.""Exatamente!""Ah, então quando aquela cobra saltou em cima de você, você aguentou firme também, não foi?" Klinton riu, mas Pam não respondeu.O fim da trilha estava próximo, e logo eles avistariam os helicópteros. A visão daquelas hélices trouxe alívio aos corações de Pam e Klinton. À medida que se aproximavam, Klinton não conseguiu evitar a exclamação: "Acho que não vejo ninguém. Se os Kemps não estão aqui, onde eles estão? Como vamos voltar para casa?"Pam tinha um olhar atento e, como de costume, estava um pouco à frente. "É, tem algo errado, Klinton.""Como assim?"Pam voltou a ficar em silêncio enquanto se aproximava do transporte que os levaria para casa."Droga!""O quê? O quê?", perguntou Klinton, agitado."Olhe aquilo." Os helicópteros estão quase submersos na água.O alívio logo se dissipou, dando lugar ao desespero e ao medo. A água já chegava à altura das portas. "O helicóptero deve ter pousado em um terreno macio e afundado um pouco, pois está parcialmente coberto de lama. Espero que isso não atrapalhe a decolagem. Sr. Klinton, o senhor entende de helicópteros? É uma pena, porque eu poderia ter feito aulas de pilotagem pelo FBI, mas tinha medo de voar. De qualquer forma, fico imaginando por que eles teriam pousado aqui.""Ei, não critique meus amigos. Eles são bons pilotos; e quem poderia imaginar que choveria tanto ontem à noite? Vejo que 'floresta tropical' é um nome bem apropriado.""Não estou criticando seus amigos. Precisamos encontrá-los. Mas deixe-me verificar uma coisa."Pam examinou a situação de perto, imaginando se sua suspeita estava correta. Ouviu-se o som de água sendo revolvida quando finalmente tocaram os helicópteros. Pam mergulhou a mão na água enquanto apoiava a outra mão na fuselagem da aeronave."O que você está fazendo?"Pam não respondeu de imediato; apenas demonstrou irritação ao sentir a lama espessa e pegajosa que soterrava as esquis de pouso dos helicópteros."Está tentando levantar o helicóptero? Tudo bem, então, Srta. Hércules!""Cale a boca e me dê uma mãozinha."Klinton obedeceu, mas hesitou ao sentir a lama líquida e instável. Não havia como mover aquelas grandes aeronaves, e a preocupação e a frustração logo transpareceram em seus rostos. Após um último esforço, Klinton declarou: "Acho que não vamos conseguir tirá-lo do lugar.""Vamos verificar o outro." Pam correu alguns metros para a esquerda e tentou fazer o mesmo, mas sem sucesso. Percebeu que aquele estava ainda mais afundado."Vamos avisar os outros.""Avisar o quê aos outros? Que não vamos voltar para casa?""Não, Klinton!" "Seus amigos não estão desaparecidos?""É!""Acho que são eles que vão nos tirar daqui voando, então precisamos avisar aos outros que eles não estavam aqui; e, se não os encontrarmos, estaremos presos.""Ah, não, eu não vou ficar presa. Tem um barco de pesquisa ali perto da costa. Vou fazer o Jerry me tirar dessa merda daqui, nem que seja na marra.""É verdade, um grupo de vocês veio de barco. Viu só? No fim das contas, temos como voltar para casa."Eles dispararam pelo mesmo caminho, sem parar para colher flores desta vez. Agora, mantinham um ritmo praticamente igual, pois Klinton não estava mais interessado em apreciar a vista de trás da agente. Havia outras coisas em suas mentes."Você devia ser próximo daqueles pilotos."Klinton olhou para Pam sem diminuir o passo. "Bom, a gente trabalhava junto, então acabamos nos conhecendo bem. Sabe, eu achava que o Andrew tinha ficado meu amigo por algum interesse oculto.""Ah, e que interesse seria esse?""Não tenho certeza, mas a gente mal se falava antes... e acho que a esposa dele deu em cima de mim — eles ainda não eram casados ​​na época —, mas eu não tinha interesse nela. Acho que o Andrew pensava o contrário.""Então, como vocês viraram amigos?""É engraçado, porque a Susie me convidou para um evento que ela e o marido iam, e tive a impressão de que ele não gostou muito da ideia. Acho que ela mandava nele um pouco. Ela meio que dizia o que ele devia fazer sem usar palavras, se é que você me entende."Klinton tinha toda a atenção de Pam, mas a pergunta..."O quê?! Eu não sou ingênua. Sabe, ninguém nunca me disse isso?""Espero que o senhor saiba, Sr. Westfield, que há uma diferença entre ser ingênua e ser mesquinha. Ou ser firme, ou simplesmente cruel, e o senhor já se mostrou assim para mim.""Calma aí, isso é um preconceito. É por isso que eu não tenho uma mulher agora.""É, acho que o senhor tem razão", ela respondeu de forma cômica e com uma expressão sarcástica."Sabe de uma coisa? Você é uma figura.""Você também é uma figura. Pelo menos eu sei por que não tenho um parceiro, mas por que você não tem?""Isso não é da sua conta.""Acho que você está com medo. É, eu vejo que esse seu pequeno coração corajoso às vezes chora de medo. Assim como todo mundo.""Hum, graças a Deus, não importa o que o senhor pense." "A opinião de todos importa, porque Deus fala através das pessoas, então você deve ouvir a todos, ricos ou pobres. Algo que talvez você ainda não consiga compreender neste seu desenvolvimento.""Bem, parabéns, você finalmente está fazendo sentido, mas na maioria das vezes você tem dificuldade em obter clareza.""Clareza? Que diabos é isso: Oratória 101? Caramba! Mini-atleta, mini-Hércules, e agora você é especialista em oratória. Acho que podemos te chamar de mulher renascentista.""Você não tem graça nenhuma.""Ah, eu não estou tentando. É só que temos aqui o sonho americano, que morre de medo de cobras. Se um dia sairmos dessa confusão, você com certeza vai ser notícia: 'Agente renascentista do FBI supera sua fobia de cobras para escapar das trincheiras da selva.'""Ha! Risos. Risos", escapou suavemente dos lábios de Pam. "Você é um tolo.""Não, querida, acho que você está enganada. Não fui enganada. Eu sei o que está acontecendo. Sim, eu sei exatamente o que está acontecendo.""Ah, então o que está acontecendo?" Pam respondeu com um sorriso."Estou sentindo você. É isso que está acontecendo. Você é uma mulher linda, inteligente e forte. Se eu tivesse uma mulher, não seria problema nenhum escolher você.""Hum, eu te disse. Você está dando em cima de mim.""Não, não. Eu só estou falando a verdade. Se isso é dar em cima de você, então, por Deus, eu sou culpado."Pam ficou um pouco lisonjeada, mas o momento foi interrompido porque o acampamento estava logo à frente."Kyser, Kyser!", gritou Pam assim que avistou o resto da tripulação. Eles ouviram seus gritos e responderam imediatamente."Pam! O que está acontecendo?""Os helicópteros parecem inúteis e os Kemps sumiram.""Como assim, inúteis?""Eles devem ter pousado em algum lugar instável, porque a chuva da noite passada os fez afundar na lama e na água.""O quê?! Espere um minuto. Os helicópteros estão submersos.""Não. Não completamente. O interior não está alagado, mas os trenós de pouso estão afundados na lama e na água. Como um carro atolado na lama, só que pior. Não tínhamos certeza se os helicópteros ainda conseguiriam decolar.""Onde estão os pilotos?" exclamou Kyser."Não sei. Eles não estavam por perto.""Bem, quem vai nos levar para casa?" gritou Klinton.Um silêncio se instalou até que Kyser o quebrou. "Briscoe, você não é piloto?"Ele hesitou em responder, mas então disse: "Sim!""Então fale! Esses helicópteros conseguem decolar?" "Isso depende. Eu precisaria ver.""Vamos nessa!"Klinton respondeu: "E quanto ao Andrew e à Susie? Precisamos encontrá-los. Não se esqueçam do meu chefe, que vocês estão deixando apodrecer aqui. O que aconteceu com a moral de todo mundo? Eu sei que quero voltar para casa mais do que qualquer um aqui fora, mas, caramba!"Pam foi a primeira a parar e ouvir as preocupações de Klinton, e o restante do grupo logo fez o mesmo."O Klinton tem razão. Precisamos encontrá-los", disse Pam."Posso sugerir algo? Tem um helicóptero na primeira ilha. Posso pegá-lo se o Jerry me levar de barco", disse Briscoe."Certo, então combinado. Vamos seguir o plano do Rich inicialmente. Leve o corpo até o local que o Rich mencionou e você pode pegar o helicóptero. Richard, eles estão na mesma ilha?"Não houve resposta, mas isso não impediu Kyser de continuar perguntando: "Quanto tempo isso vai levar, Jerry?""Não tenho certeza. A que distância daqui fica o lugar?""Se formos naquele barco grande, pode levar seis ou sete horas. Isso sem contar o tempo que vamos precisar para desembarcar.""Quer dizer que pode levar mais da metade do dia até vocês voltarem? Doze horas, porra, antes que a gente possa sequer começar a comemorar a partida? Pode já estar escuro a essa altura. A que horas o sol se põe por aqui, afinal?""Calma, Klinton. Isso nos dá tempo de sobra para procurar seus amigos. Caso não tenhamos sorte em encontrá-los, ainda quero testar aqueles helicópteros. Então, Briscoe, você e o Jerry voltem para cá o mais rápido possível. Talvez a gente consiga soltá-los com a ajuda do outro helicóptero.""Talvez?""É... talvez a gente precise formar equipes! Jerry e Briscoe, obviamente vocês dois ficam juntos. Pam, você fica com o Adam, e Richard, você vem comigo. Roy e Wesley, vocês dois ficam juntos."Enquanto Kyser indicava as áreas de busca para cada equipe, o professor se perguntava por que não tinha sido incluído. "Ei, e quanto a mim? Vocês esqueceram de mim. Vocês não sabem reconhecer um gênio quando veem um?" "Tá bom, desculpa! Fica por aqui e ajuda a Pam."Julian exibia uma expressão de quem se sentia desvalorizado e abatido. Ele sentia que estavam ignorando sua utilidade para a equipe. De cabeça baixa, ele foi ajudar Pam em suas tarefas.Jerry e Briscoe prepararam a última lancha e colocaram o corpo a bordo. Ouviu-se um baque forte quando jogaram Brutus lá dentro, e Jerry comentou: "Isso é sinistro, cara. Nunca tinha visto um cadáver e já vi dois hoje. É sinistro, né? Quer dizer, meu chefe morto bem aqui... caramba! Eu não gostava quando ele mandava em mim e me fazia trabalhar até cair morto. Ha! Acho que quem ri por último sou eu."Briscoe não tinha o que dizer e sentia-se realmente exausto, pois Jerry não parava de falar pelos cotovelos."Um destino adequado para um homem trabalhador como o velho Brut."Briscoe não disse nada durante as pausas de Jerry para respirar; o som do motor ditava o ritmo para seus ouvidos. Era sua única fuga daquela verborragia de Jerry."Quer saber? Ele até tentou passar a perna na gente com o pagamento. Ah, ele não contou quanto o seu chefe estava pagando por essa viagem. E olha tudo o que eu passei. Esse calor desgraçado — eu sei que estou acostumado ao calor, mas, porra, tem coisas desconhecidas te mordendo. Pelo menos de onde eu venho, a gente sabia o que estava mordendo a gente. Aposto que você não sabe dizer o que está te mordendo agora."Briscoe olhou para baixo e deu um tapa na criatura, enquanto Jerry segurava com firmeza o cadáver de seu antigo chefe, declarando: "Caramba, e se eu deixasse você cair na água? Acho que os jacarés não iam se importar. Um tentou me comer por causa dessa viagem maldita em que você nos meteu."Briscoe disse: "Ah, você quase foi comido por um crocodilo. Hah, que engraçado." Briscoe achou graça mesmo, rindo tanto que quase perdeu a direção do barco. Uma guinada brusca nas águas do Amazonas fez com que ambos se agarrassem ao barco. Jerry largou o bicho morto para garantir que não teria um segundo round com aqueles répteis."Ei, cara, cuidado aí. Já nadei o suficiente por hoje.""Seu idiota, o dia mal começou.""Quero dizer, ontem... você sabe o que eu quis dizer. Droga. Desde que vim para esta selva, minha noção de tempo anda toda bagunçada."O barco agora estava sob bom controle e eles seguiam rio abaixo. O trajeto era bastante tranquilo. O sol castigava, ainda mais porque não havia a proteção da imensa copa das árvores que margeavam o rio.Jerry observava a proa do barco cortando as águas e criando marolas. "Nunca vi peixes assim; eles nadam em perfeita harmonia."Briscoe olhou e respondeu: "São piranhas. E elas não são tão tolerantes quanto um crocodilo.""Imagino. Devia dar um 'banquete Brutus' para elas."Briscoe balançou a cabeça e continuou pilotando a pequena lancha. "Ei, Jerry! É hora de você se preparar para assumir o comando."Jerry levantou-se e observou a embarcação científica à frente. "É um barco lindo, sem dúvida. Eu não me importaria de tê-lo.""Então finja que é seu e talvez você consiga nos levar em segurança até onde precisamos ir.""Ah, você não duvida da minha capacidade, né? Sabe que cresci cercado de barcos desde que eu era desse tamanhinho. Sabe, quando eu tinha oito anos, eu e meu..."Meu pai foi pescar em alto mar e ficou bêbado demais. O desgraçado desmaiou, e, ah sim, ele é um desgraçado, senão eu não estaria aqui. Tive que voltar para casa. Estava morrendo de medo, principalmente quando tentei acordar aquele bêbado. Eu realmente não sabia para onde ir, nem como virar o barco. Quer dizer, eu observei meu pai, mas ele ainda não tinha me ensinado. Imaginei que, se conseguisse virar o barco e mantê-lo reto, poderíamos chegar à margem em algum momento. Por sorte, acabamos voltando exatamente para onde começamos, mas aquela viagem fez com que ele me ensinasse imediatamente. Agradeço a Jesus por isso. Ele realmente se importou comigo naquela época, mas desde que me tornei homem, ele não tem me abençoado muito."Jerry precisou respirar fundo, dando tempo para Briscoe responder sem muito entusiasmo. "História comovente!" "Espero que você tenha terminado, porque é hora de embarcar no seu barco e zarpar.""Claro, estou pronto. Vamos lá."Os dois tinham uma tarefa pela frente que se provaria seu destino e a cessação de sua consciência.CAPÍTULO VINTE E DOIS: A TEMPESTADE QUE SE APROXIMAO ar tornou-se denso com algo além da umidade. Algo ancestral agitava-se sob a copa das árvores, e a própria floresta parecia prender a respiração.Edward Pullins estava em Macapá havia menos de uma hora quando sentiu aquilo — uma pressão atrás dos olhos, um sussurro no limite da audição. Ele havia fretado um barco pequeno para subir o rio, seguindo as instruções vagas de Nick em direção às últimas coordenadas conhecidas da expedição de Richard. O piloto local recusara-se a ir além do primeiro afluente, alegando a presença de "espíritos malignos" e a "loucura da estação das chuvas".Edward não acreditava em espíritos. Ele acreditava em evidências, em algemas, no peso de um dossiê que finalmente levaria um homem rico à justiça.Mas agora, observando a selva se fechar em ambos os lados do rio estreito, ele já não tinha tanta certeza.Os cânticos começaram ao anoitecer.A princípio, Edward achou que fosse coisa de sua imaginação — a batida rítmica de madeira contra madeira, o lamento harmonioso de vozes elevadas em algo entre uma prece e um aviso. Mas o som tornou-se mais alto à medida que seu barco avançava pelo labirinto verde. O piloto fez o sinal da cruz três vezes e recusou-se a prosseguir.— Tudo bem — disse Edward, embora não tivesse certeza disso. — Posso ir a pé daqui.O piloto não discutiu. Ele praticamente jogou a bolsa de Edward na margem lamacenta e manobrou o barco para trás com uma velocidade impressionante.Edward ficou sozinho na selva enquanto a luz diminuía. Os cânticos agora o cercavam — vindos de toda parte e de lugar nenhum ao mesmo tempo. Ele empunhou sua arma de serviço e começou a caminhar em direção ao som.Bem adiante, o acampamento da expedição estava um caos.Os Kemp haviam sido encontrados — ou o que restava deles. Klinton descobrira primeiro o corpo de Andrew, parcialmente engolido pelas raízes de uma árvore gigantesca, o corpo retorcido em ângulos impossíveis. Susie estava sob ele; suas belas mãos ainda agarravam a casca que a puxara para baixo. A árvore os absorvera como alimento, como se não passassem de adubo para sua fome ancestral.— Não, não, não — sussurrou Klinton, caindo de joelhos. — Eles também não. Deus, eles também não. Pam estava atrás dele, com a mão em seu ombro. Ela sentiu a tristeza subir pelo peito, mas a reprimiu. Não havia tempo. A luz estava diminuindo, e os cânticos ficavam cada vez mais altos."Precisamos sair daqui", disse ela em voz baixa. "Precisamos voltar para onde estão os outros."Klinton ergueu o olhar para ela, com os olhos marejados de dor. "Como? Como vamos escapar disso? Os helicópteros são inúteis. O barco sumiu. E agora... agora todo mundo está morrendo."Pam apertou o ombro dele. "Nós sobrevivemos. É assim."Eles fizeram o caminho de volta ao acampamento, mas o local já não era seguro.O chão estava se movendo.Richard foi o primeiro a sentir — um tremor sob seus pés que nada tinha a ver com terremotos. Ele estava discutindo com Wesley novamente, trocando ameaças sobre jurisdição e pagamento, quando as raízes começaram a se contorcer."Cale a boca", disse Richard de repente."Como é?" Wesley deu um passo à frente. "Você não vai me mandar...""Eu disse para calar a boca! Você está sentindo isso?"O solo se deslocou sob eles. Perto dali, uma árvore enorme gemeu como um ser vivo sentindo dor. As raízes que haviam consumido os Kemps agora se estendiam em direção ao acampamento, lentas e deliberadas, como dedos buscando uma presa."Que diabos é isso?" Wesley sacou a arma. "O que está acontecendo?"Os cânticos lhe deram a resposta. Mais altos agora, mais próximos, como se quem cantava tivesse cercado completamente o acampamento.O rosto de Richard empalideceu. "O ritual", sussurrou ele. "O ritual que eles vêm realizando todas as noites. É real. Tudo isso é real.""Que ritual?" exigiu Kyser, cambaleando em direção a eles. Seu corpo estava coberto de feridas purulentas, e seus olhos, vidrados pela febre. "Do que diabos você está falando?"A voz de Richard falhou. "Os nativos. Aqueles que vi da primeira vez, quando o Joe morreu. Eles estão fazendo algo... invocando algo. Eu achava que era apenas... achava que não passava de superstição. Mas as armadilhas, as mortes, a maneira como a selva se move...""Você sabia", disse Wesley, com a voz perigosamente baixa. "Você sabia sobre eles e nos trouxe para cá mesmo assim." "Eu precisava que o levantamento fosse concluído! Os investidores, o cronograma...""Você queria o seu dinheiro." Wesley ergueu a arma. "Você vem mentindo desde o início. O Joe não simplesmente desapareceu, não é? Você fez alguma coisa com ele.""O Joe está morto", disse Richard, com a voz inexpressiva. "Ele caiu numa armadilha, assim como o Brutus. Eu não o matei, mas deixei que morresse. Deixei todos eles morrerem porque precisava que este projeto desse certo."A confissão pairou no ar como fumaça.Então, o chão cedeu.CAPÍTULO VINTE E TRÊS: A TERRA DEVORAO acampamento mergulhou no caos.A chuva veio primeiro — um temporal torrencial que parecia cair do nada, encharcando tudo em segundos. Mas não era apenas chuva. A água trazia algo consigo: um cheiro de podridão e terra antiga, de coisas enterradas há muito tempo que agora emergiam."Vão para um lugar mais alto!" Kyser gritou, mas sua voz foi engolida pelo estrondo.As raízes moviam-se mais rápido agora, serpenteando pela lama. Uma delas agarrou o tornozelo de Roy Beavers e o puxou para baixo antes que alguém pudesse reagir. Seu grito foi breve, interrompido quando a terra se fechou sobre ele."Roy!" Wesley disparou sua arma contra a lama, mas as balas não surtiram efeito. A selva havia reclamado mais uma alma."Precisamos correr!" Pam agarrou o braço de Klinton, puxando-o para longe do caos. "Agora!"Eles fugiram para a escuridão, com os cânticos perseguindo-os como uma segunda batida de coração. Atrás deles, ouviam os outros em meio à confusão — Richard gritando, Kyser tossindo, as orações aterrorizadas do professor.Adam foi o próximo a cair. A doença o havia deixado fraco demais para correr e, quando as raízes se ergueram sob ele, ele nem sequer gritou. Apenas afundou; seus olhos febris fitavam a chuva, como se aceitasse seu destino."Adam!" Wesley tentou alcançá-lo, mas era tarde demais. A lama cobriu o rosto de Adam, e ele desapareceu.Wesley encarou o local onde o amigo estivera, o rosto paralisado pelo horror. Então, algo o atingiu pelas costas — um cipó grosso que se enrolou em seu pescoço e o arrastou para trás."Wes!" Pam virou-se, mas Klinton a puxou para frente."Não há nada que possamos fazer! Temos de continuar!"Eles correram sob a chuva, pela lama, em meio aos cânticos que pareciam vibrar em seus ossos. A selva havia se tornado um pesadelo vivo, e não havia escapatória.Richard viu-se sozinho.Ele havia se separado dos outros quando o chão cedeu, despencando em uma ravina rasa que surgira do nada. Estava com o tornozelo torcido, o rosto cortado e a dignidade despedaçada. Ele rastejou pela lama, ofegante, desesperado para encontrar alguém — até mesmo Wesley, até mesmo o homem que queria prendê-lo.Qualquer coisa era melhor do que ficar sozinho na escuridão com aqueles olhos observando-o.Ele sabia que eles estavam lá. Podia senti-los — dezenas de pares de olhos, todos fixos nele, todos à espera. Os cânticos haviam mudado agora; tornaram-se algo mais sombrio, algo faminto."Por favor", sussurrou ele, com a voz mal audível em meio à chuva. "Eu vou embora. Volto para os Estados Unidos e nunca mais retorno. Apenas me deixem ir."Os olhos não responderam. Mas outra pessoa respondeu."Richard."Ele se virou bruscamente, com o coração disparado. Uma figura surgiu da escuridão — nua, pintada, adornada com penas e ossos. O homem da tribo segurava uma lança em uma mão e algo mais na outra.Algo que parecia um coração humano."Por favor", implorou Richard. "Eu tenho dinheiro. Posso pagar. O que você quiser, eu posso..."O homem da tribo inclinou a cabeça, como se ponderasse a oferta. Então sorriu — um sorriso lento e terrível que revelava dentes afiados em pontas."A terra não aceita suborno", disse ele em um inglês perfeito. "A terra aceita apenas sangue."Richard tentou correr, mas seu tornozelo cedeu. Ele caiu de joelhos na lama, e o homem pintado estava sobre ele num instante.A última coisa que Richard viu foi a chuva — a chuva interminável e terrível — e os olhos da floresta se fechando ao seu redor.CAPÍTULO VINTE E QUATRO: OS SOBREVIVENTESPam e Klinton correram até não aguentarem mais.Eles desabaram em uma pequena clareira, cercados por árvores que pareciam se inclinar em direção a eles como espectadores curiosos. A chuva havia parado, mas os cânticos continuavam — distantes agora, porém não menos ameaçadores."Eles ainda estão nos seguindo?" Klinton perguntou, ofegante.Pam ouviu atentamente, de olhos fechados. "Não sei. Não consigo... não consigo mais senti-los.""Senti-los?""Algo mudou. A energia... está diferente agora."Klinton olhou para ela como se ela tivesse perdido o juízo. "Energia? Pam, tem gente morrendo. Roy, Adam, os Kemps, Brutus — todos estão mortos. E você está falando de energia?""Eu sei", disse ela calmamente. "Sei que parece loucura. Mas, desde que chegamos aqui, tenho sentido coisas. A selva, os espíritos, o jeito como as árvores se movem quando ninguém está olhando...""As árvores não se movem.""Elas se movem." Ela sustentou o olhar dele. "Eu as vi. Quando os Kemps morreram, vi as raízes puxá-los para baixo. Vi as árvores beberem o sangue deles."Klinton ficou olhando para ela por um longo momento. Depois, desviou o olhar, com o rosto pálido."Eu acredito em você", disse ele, por fim. "Depois de tudo o que vi esta noite, eu acredito em você."Eles ficaram sentados em silêncio, ouvindo a selva respirar ao redor deles.Então, ouviram o helicóptero.Edward Pullins havia encontrado o acampamento — ou o que restava dele.A clareira era um cenário de destruição. Barracas destruídas, equipamentos espalhados, o chão revolvido e transformado em lama. Ele encontrara um corpo perto da borda — um homem que não reconhecia, parcialmente devorado por formigas, com o rosto congelado em uma expressão de terror.Edward vira muita coisa em seus anos como detetive. Mas aquilo era diferente. Aquilo era uma carnificina.As pás do helicóptero cortavam o ar acima dele enquanto a aeronave descia. Um homem saltou antes mesmo que os esquis de pouso tocassem o chão."Pullins?"Edward apertou os olhos para enxergar através da chuva. "Briscoe?" O piloto assentiu com expressão sombria. "Recebemos sua mensagem. Achei que você viria com o Nick.""Mudança de planos. Onde está o Richard?"O semblante de Briscoe escureceu. "Não sei. O acampamento foi atacado por... alguma coisa. Consegui tirar os outros de lá, mas o Richard acabou se separando do grupo.""Outros?"Briscoe apontou para o helicóptero, onde duas figuras estavam encolhidas na parte de trás. Pam e Klinton sentavam-se no compartimento de carga, encharcados e tremendo de frio, mas vivos."Leve-os para um lugar seguro", disse Edward. "Vou procurar o Richard.""Você está louco", disse Briscoe. "A selva está infestada daquilo que matou aquelas pessoas. Você não vai durar cinco minutos."Edward sacou a arma. "Então durarei quatro."O professor havia desaparecido.Ele escapulira durante o caos, atraído por algo que não conseguia explicar — uma voz, uma presença, a lembrança do rosto de uma mulher na escuridão. A mulher pintada de seus sonhos, aquela que o levara cada vez mais fundo na floresta.Julian avançava com dificuldade pela lama, a mente acadêmica a mil por hora. Ele sabia o que estava acontecendo consigo. Havia lido a respeito, estudado o assunto, dedicado a vida a compreender os rituais de povos indígenas. Os cânticos, as danças, o sacrifício — tudo estava ligado a um antigo sistema de crenças, uma adoração à própria terra.Mas saber disso não impedia que acontecesse.A mulher surgiu novamente, logo à sua frente. Ela era linda, de pele escura, com o corpo pintado com símbolos que ele reconhecia de suas pesquisas. Ela sorriu para ele e fez um gesto chamando-o com o dedo."Venha", disse ela. "Chegou a hora."Julian a seguiu.Seguiu-a pela selva, passando pelas árvores que pareciam querer agarrá-lo, pelos cânticos que se tornavam mais altos a cada passo. Seguiu-a até a clareira onde o ritual acontecia — um enorme círculo de homens e mulheres pintados, todos dançando ao redor de uma fogueira central.A mulher o conduziu ao centro do círculo. Ela tocou o peito dele, e ele sentiu algo deixar seu corpo — algo quente e vital, algo que carregara a vida inteira."Agora", ela sussurrou. "Agora você pertence à terra."E Julian gritou.CAPÍTULO VINTE E CINCO: O PREÇO DA GANÂNCIAKyser Finley estava morrendo.Ele soube disso no momento em que viu as feridas se espalhando por seus braços e a febre queimando em seu sangue. O veneno vinha percorrendo seu organismo desde o primeiro dia e, agora, cobrava seu preço.Ele estava deitado na lama, incapaz de se mover, incapaz de gritar. A chuva havia parado, mas os cânticos continuavam — um ritmo que parecia acompanhar as batidas cada vez mais fracas de seu coração.Wesley o encontrou ali."Kyser!" Ele caiu de joelhos, com as mãos trêmulas. "Meu Deus, Kyser, o que aconteceu?""Não importa", sussurrou Kyser. "Todos nós... todos nós estamos pagando o preço. A ganância do Richard... a nossa ganância... viemos aqui para pegar algo que não era nosso.""Cale a boca, você vai ficar bem." Wesley tentou levantá-lo, mas Kyser o afastou."Escute-me. Você precisa sair daqui. Vá para o barco, vá para o helicóptero, vá o mais longe que puder. Este lugar... ele está vivo, Wesley. Ele sabe o que fizemos. E não vai parar até que todos nós estejamos mortos.""Kyser...""Vá!"Wesley hesitou. Então, virou-se e correu, deixando o amigo para trás.Kyser observou-o partir. Sentiu o peso da selva pressionando-o, sentiu os olhares que o vigiavam de todas as direções. Os cânticos ficaram mais altos, e ele soube que havia chegado a hora.Com o que lhe restava de força, alcançou sua arma. Um disparo. Um breve momento de dor e, depois, o silêncio.A selva continuava a observar.Wesley correu até sentir os pulmões queimarem.Perdera o contato com os outros, perdera a noção de tudo, exceto da necessidade de escapar. Os cânticos estavam por toda parte agora, invadindo sua mente e tornando impossível pensar.Ele estava sendo caçado. Não sabia por quê, mas sentia algo em seu encalço — algo enorme, antigo e faminto.Ele desabou contra uma árvore imensa; a casca áspera pressionava suas costas, e as raízes se espalhavam pelo solo como veias sob a pele. Os cânticos estavam por toda parte agora — preenchendo sua mente, tornando impossível pensar com clareza. Mas, no breve silêncio entre as batidas do coração, ele ouviu outra coisa: a voz de Adam, ecoando de uma memória da qual não conseguia escapar."Ei, Wes, relaxa, cara. Fico feliz que ele tenha precisado da gente."Wesley pressionou as palmas das mãos contra os olhos, tentando afastar a imagem. Adam, parado diante daquela churrasqueira na noite caribenha, rindo de sua paranoia. Adam, que confiara neste trabalho, confiara no dinheiro, confiara que nada de ruim aconteceria. Adam, que morrera sozinho na lama, com os olhos febris fitando a chuva."Eu deveria ter ouvido", sussurrou Wesley para ninguém em particular. "Eu deveria ter dito para você ficar em casa."Ele pensou então em sua esposa — Jennifer, lá em Dallas, provavelmente andando de um lado para o outro e amaldiçoando seu nome. Ele lhe dissera que aquela viagem seria apenas um ganho rápido, dinheiro fácil por alguns dias de trabalho. Beijara a testa dela e prometera ligar todas as noites.Ligara duas vezes. Depois, as ligações cessaram."Sinto muito", disse ele, as palavras com gosto de cinzas. "Sinto muito mesmo."O arrependimento o invadiu como uma onda — arrependimento por ter confiado em Richard, por ter seguido o dinheiro, por ter arrastado Adam para um pesadelo do qual não havia escapatória. Ele estivera tão seguro de si, tão arrogante, tão certo de que suas habilidades e sua arma seriam suficientes para lidar com qualquer coisa.Mas a selva não se importava com armas. Não se importava com habilidade, coragem ou promessas feitas às esposas que ficaram em casa. Ela só se importava com uma coisa: a sobrevivência. E Wesley já não tinha certeza se merecia sobreviver.Ele pensou em Kyser — as últimas palavras que trocaram, a maneira como o amigo o empurrara para longe, mandando-o correr. Kyser sabia que estava morrendo. Kyser aceitara isso de uma forma que Wesley não conseguia compreender."Ele era mais corajoso do que eu", admitiu Wesley. "Sempre foi."Algo se moveu na escuridão acima dele. Wesley ergueu o olhar e, por um breve instante, viu com clareza: uma serpente, colossal e ancestral, descendo da copa das árvores com a paciência da própria morte.Ele deveria ter sacado a arma. Deveria ter corrido. Mas, de alguma forma, ao encarar aqueles olhos frios e imóveis, Wesley sentiu algo inesperado: aceitação."É isso que eu mereço", pensou. "É isso que todos nós merecemos, por vir aqui, por tomar o que não era nosso."Ele não gritou. Não lutou.Apenas fechou os olhos e sussurrou o nome de Adam.Uma serpente despencou da copa das árvores acima dele.Era colossal — mais grossa que o corpo dele, mais longa do que sua visão alcançava. Ela se enrolou nele antes que pudesse gritar, esmagando suas costelas e expulsando o ar de seus pulmões.Ele tentou lutar, tentou sacar a arma, mas era tarde demais. A serpente o havia capturado, e a selva já havia proferido seu julgamento.O último pensamento de Wesley foi para Adam — seu amigo, seu parceiro, o homem que ele não conseguira salvar. Ele torcia para que, onde quer que Adam estivesse, não estivesse sozinho.Então, a escuridão o engoliu.CAPÍTULO VINTE E SEIS: A ÚLTIMA RESISTÊNCIAPam, Klinton e Edward se encolheram na nave científica, o único lugar seguro que restava em um mundo que havia enlouquecido.O helicóptero os levara até o barco, onde Jerry e Briscoe os aguardavam. Mas Jerry havia desaparecido durante a noite — perdido-se na selva e nunca mais voltado. Briscoe estava em silêncio, o rosto pálido de medo."Não há mais ninguém", disse Pam. "Somos os únicos que restaram."Edward assentiu sombriamente. "Precisamos sair daqui. O piloto disse que o motor está funcionando, mas precisaremos navegar pelo rio. Alguém sabe velejar?""Eu sei", disse Klinton. "Jerry me ensinou.""Ótimo. Então vamos."Eles zarparam assim que o sol começou a nascer. A selva estava silenciosa agora — estranhamente silenciosa, como se a própria floresta estivesse prendendo a respiração."Olha", disse Pam, apontando para a margem.Richard cambaleou para fora das árvores, com as roupas rasgadas e o rosto coberto de lama e sangue. Estava vivo — por um fio —, mas algo estava diferente nele. Algo havia se quebrado dentro dele, e isso transparecia em seus olhos."Me ajudem", ele sussurrou com a voz rouca. "Por favor... me ajudem."Edward o encarou por um longo momento. O homem que ele viera prender, o homem que causara toda aquela morte e destruição."Joguem uma corda para ele", disse Edward finalmente.Puxaram Richard para bordo, e ele desabou no convés, chorando como uma criança."Me desculpe", sussurrou. "Me desculpe tanto. Eu não sabia... eu não sabia que seria assim...""Cale a boca", disse Edward. "Você pode se desculpar na prisão."Richard olhou para ele, com os olhos vazios. "Não importa. A selva sabe. Ela sabe o que eu fiz. E nunca vai me deixar ir."CAPÍTULO VINTE E SETE: O RIO SEM RETORNOO navio científico descia o rio, levando os sobreviventes para longe do pesadelo do qual mal haviam escapado.Pam sentou-se no convés, observando a selva passar. Ela sentia que ela estava se afastando — a presença, a energia, o peso dos espíritos que os assombravam. Mas ela também sentia algo mais. Uma conexão, um laço que jamais se romperia completamente."Você está bem?" Klinton sentou-se ao lado dela."Não sei", admitiu ela. "Fico pensando nos outros. Os Kemps, Brutus, Roy, Adam, Kyser, Wesley... todos eles.""Eles escolheram vir para cá", disse Klinton. "Assim como nós. Todos nós fizemos nossas escolhas.""Será?" Ela olhou para ele. "Nós realmente escolhemos, ou apenas seguimos o dinheiro?"Klinton ficou em silêncio por um momento. Então ele disse: "Eu escolhi sobreviver. É isso que importa agora."Pam sorriu — um sorriso triste e cansado — e apoiou a cabeça no ombro dele."Obrigada", sussurrou ela. "Por me salvar.""Sempre que precisar", disse ele. "Sempre que precisar."Edward Pullins estava sentado na cabana com Richard, observando o homem destruído encarar as próprias mãos."Acabou", disse Edward. "Você vai voltar para os Estados Unidos e enfrentará a justiça pelo que fez."Richard riu — uma risada oca e terrível. "Justiça? Não existe justiça neste mundo. Você não entende? A selva não é apenas um lugar. É uma força. Um julgamento. E já está decidido o que vai acontecer comigo.""Do que você está falando?"Richard ergueu o olhar, com os olhos selvagens. "As raízes, Edward. As raízes já estão no meu peito. Estão lá desde o primeiro dia. Só não as senti até agora."Edward inclinou-se para a frente, com a mão na arma. "Você está delirando.""Estou?" Richard rasgou a camisa, revelando um padrão de linhas escuras sob a pele — raízes, espalhando-se pelo peito como um segundo esqueleto. "Elas estão crescendo dentro de mim. Vão me devorar de dentro para fora."Edward encarou o padrão, com a mente a mil. Ele já tinha visto muita coisa naquela selva — coisas que não conseguia explicar. Mas isto..."Vou te levar para um hospital", disse ele finalmente. "Um de verdade.""Não vai adiantar", sussurrou Richard. "A selva sempre consegue o que quer. Sempre."CAPÍTULO VINTE E OITO: O RETORNOA viagem de volta a Macapá levou três dias.Quando chegaram à civilização, Richard mal estava consciente. As raízes haviam se espalhado pelo seu rosto, pescoço e braços. Ele parecia um homem que fora tomado por algo mais antigo do que a própria humanidade.Edward o entregou às autoridades brasileiras — a pedido do próprio Richard, por incrível que pareça. O empresário, agora um homem destroçado, parecia acolher a perspectiva da prisão, como se ela pudesse protegê-lo do que quer que estivesse por vir.— Ele não vai sobreviver — disse Edward a Pam e Klinton. — Ele sabe disso. Acho que foi por isso que desistiu tão facilmente.Pam assentiu. — Ele entende agora. Todos nós entendemos. A selva não é algo que se possa conquistar. É algo que só se pode respeitar.— E destruir — acrescentou Klinton, sombrio. — Se não tivermos cuidado.Eles embarcaram no avião de volta aos Estados Unidos em silêncio. Cada um carregava o peso do que haviam visto e do que haviam sobrevivido.Pam olhou pela janela enquanto a selva ficava para trás, perdendo-se ao longe. Ela ainda conseguia ouvir os cânticos, se prestasse bastante atenção — um sussurro no limite da audição, uma lembrança de algo antigo e poderoso.— Será que vai parar? — perguntou ela. — A selva, os rituais, os espíritos... será que algum dia vão parar?Edward balançou a cabeça. — Acho que não. Acredito que isso já acontecia muito antes de nós e continuará acontecendo muito depois de partirmos.— Isso é aterrorizante — disse Klinton.— Isso é a natureza — respondeu Pam.O avião ganhou altitude, deixando a floresta tropical para trás. Mas, para os sobreviventes, a jornada estava apenas começando.Os cânticos continuavam ao longe — um aviso, uma promessa, um lembrete de que a terra jamais foi verdadeiramente conquistada.EPÍLOGOUm ano depois, Pam Slaughter estava em seu pequeno apartamento, observando uma fotografia da expedição. Era a única que ela havia guardado — uma foto do grupo, tirada antes de tudo desmoronar.Ela tocou o vidro com o dedo, contornando os rostos de pessoas que nunca mais seriam vistas.— Descansem em paz — sussurrou ela. "Todos vocês."Uma batida na porta interrompeu seus pensamentos. Ela abriu e encontrou Klinton Westfield parado ali, com um sorriso nervoso no rosto."Oi", disse ele. "Eu estava passando por aqui.""Klinton." Ela sorriu, apesar de si mesma. "É bom ver você.""Digo o mesmo." Ele entrou, observando o apartamento. "Como você está?""Levando a vida." Ela fechou a porta. "Cada dia fica um pouco mais fácil."Ficaram em silêncio por um momento. Então, Klinton disse: "Tive um sonho ontem à noite. Sobre a selva."O sorriso de Pam desapareceu. "Eu também tenho esses sonhos.""Eu estava de volta lá, parado no meio da clareira. E todos eles estavam lá — Roy, Adam, Kyser, Wesley, os Kemps, Brutus. Todos que perdemos.""O que eles disseram?"Klinton olhou nos olhos dela. "Disseram que estavam em paz. Disseram que a selva os acolhera, como estava destinado a acontecer. Disseram... disseram para não me sentir culpado."Pam sentiu as lágrimas surgirem. "Não sei se consigo fazer isso.""Eu também não", admitiu Klinton. "Mas talvez não tenha problema. Talvez sentir culpa faça parte de ser humano."Ela estendeu a mão e segurou a dele. "Talvez."Sentaram-se juntos, em silêncio, e ouviram os sons da cidade lá fora. Tão diferentes da selva — tão barulhenta, tão caótica, tão viva.Mas, em algum lugar, ao longe, Pam ainda conseguia ouvir os cânticos. E ela sabia — não importava para onde viajasse, nem quanto tempo passasse — que sempre carregaria a selva consigo.FIM